Receita: dois pesos e a mesma medida para Bendo?

Fernando Cappelli | 16/02/2015 às 19:27

Dos duelos antológicos da família Gracie até o monstruosamente competitivo mundo do MMA moderno, medir forças com algum grandalhão sempre será considerado grande ode à inteligência técnica em qualquer reduto marcial.

Com 1,75cm, Ben Henderson estreou entre os meio-médios e teve de ser o ‘sr. estratégia’ dentro das oito paredes do octógono no main event do Fight Night 60.

Brandon Thatch (1,88cm e onze a mais de envergadura sobre o oponente) representou o novato durão e que poderia definir tudo em um piscar de olhos.

Fora da rotina dos leves e com duas derrotas seguidas carimbadas no cartel, Bendo teve peito de assumir um desafio de risco, e mostrou lampejos táticos bem maturados para alcançar a vitória por finalização no quarto assalto. Analisemos.

Parou, dançou

NaturalHappygoluckyEthiopianwolfExistem regras clássicas no striking quando você é o cara menor e tem de lidar com diferença significativa de envergadura/tamanho. A primeira é clichê: ser alvo estático é ‘morte’ certa, então mova-se o tempo todo.

Além disso, treine um ou dois golpes potentes para serem usados constantemente.

Inicialmente, potência vale mais que volume pela capacidade de incendiar o senso de confiança e agir como um tipo de equiparador no quesito ‘intimidação’, fatores sempre cruciais nos primeiros momentos.

Mesmo com tempo restrito de preparo, Henderson mostrou trabalho estratégico excelente. Circulou bastante, pendulou e movimentou cabeça e tronco o tempo com grande medida de segurança.

A grande percepção neste sentido foi esperar as constantes trocas de base de Thatch para girar para o lado correto (oposto ao lado forte).

Como base ofensiva, o cabeludo atirou diversos hooks (ganchos) pesados no plexo com a direita quando fechava o raio de ação, ora aplicados após setups com jabs, ora de forma direta e com grande projeção do corpo todo para potencializar o golpe.

Acuado contra as grades, disparava chutes frontais para bloquear investidas mais severas e escapar do infight.

De forma simples mas bem pensada, frustrava gradativamente o perigoso ímpeto inicial de Thatch.

Chumbo trocado

PolishedCreativeIberianbarbelOs melhores momentos de Brandon Thatch vieram quando este previu as investidas de Bendo e abalou com combos de golpes retos da média para a longa distância.

Ele também foi astuto em dois clinches e arremessou o adversário ao solo com rasteiras (ashi barai) típicas do caratê que deixariam Lyoto Machida orgulhoso.

Mas ao perder o ônus esperado de resolver pela via rápida nos primeiros dez minutos e desambientado a atuações mais extensas, começou a ser engolido.

Bendo, que até então deixava claro que a tônica de seu jogo estaria nas trocas curtas, esquivas e escapes rápidos laterais, habilmente confundiu a cabeça do oponente capitalizando vantagens para colocar a luta horizontal e definir.

Na primeira vez em que foi ao solo, Thatch deteu a vantagem posicional do oponente atado às costas ao segurar os pulsos e evitar o estrangulamento.

Na segunda (quarto round), Bendo forçou caminho até a meia-guarda e mais uma vez pegou as costas. Ambos ainda brigaram pela posição, mas o exaurido Thatch cedeu espaço e foi pego em um mata-leão.

Conclusão

Dois rounds a mais podem fazer muita diferença com o nível cada vez mais exigente de atleticismo exigido no esporte mais extremo do mundo.

Thatch é um cara talentoso e colocou Bendo em perigo em diversos momentos, mas faltou um jogo mais trabalhado e focado na contra-estratégia em longo prazo.

Bobeou, dançou.

O combate foi grande provação técnica e psicológica para o ex-campeão dos leves.

A categoria até 77kg é mais condizente com seu peso natural (por volta dos 82kg) do que a de 70, mas a diferença de estatura deve ser um problema a ser levado em conta com frequência.

De forma resumida, Bendo ajustou o jogo durante a ação e soube usar o que precisava para vencer.

Bagagem não lhe falta para isso. Ele sempre foi um cara tático e criticado diversas vezes nos leves por ‘cozinhar’ demais alguns combates.

Será que as coisas podem mudar de figura para o cabeludo se ele optar em permanecer entre os meio-médios? Será que um ambiente novo era o que ele precisava para revigorar a carreira?

Por enquanto boto fé, e vocês?

  • Felipe Queiroz

    Acho que não aguenta Lawler, Hendricks, Rory, Condit e cia

  • Denilson Bezerra

    Eu disse que não ia duvidar mais do Bendo, mas se ele relamente lutar com “Ares” vai se atropelado… Igual ao BJ Penn! No mais, excelente análise da luta (a sua) e otima luta do menino-lobo!

  • Felipe

    O maior problema será colocar seu wrestling em prática contra os trogloditas oriundos do esporte. Como derrubaria um J. Hendricks (que tem a mesma altura do Benson, mas 20kg a mais)? Seria uma especialidade praticamente anulada nos meio-médios.

  • bedotRJ

    Bendo mandou muito bem, mas o caminho dele não é migrar pros meio-médios. Ele precisaria ter ao menos uma arma que lhe falta: “one punch KO power.” Todos os caras da altura dele que lutam no meio-médio têm poder de nocaute. Não é sempre que velocidade e movimentação serão suficientes prá cansar o oponente e anular a desvantagem física. Não podemos nos esquecer que o Bendo teria sido derrotado se a luta fosse de 3 rounds. E mesmo sendo muito promissor, o Thatch ainda não é um lutador rankeado. Imaginei uma luta do Bendo com o Condit, que tem a mesma altura do Thatch, mas é ainda mais agressivo e técnico. Sem condições pro Smooth. Ele tem que ficar nos leves mesmo, é a categoria correta pro seu biotipo.

    • Marcelo

      Não sei não. O GSP tem 1,78, não tem grande poder de nocaute, não cortava muito peso… Não sei se a parte física do Bendo coloca ele em tanta desvantagem, Gastelum e o Story também tem mais ou menos a mesma altura que o Bendo e também não tem grande aquele poder de nocaute comparável ao Hendricks, Ellenberger, Lawler, Woodley, mas não os vejo sendo sobrepujados fisicamente…. O Bendo se subir, também pode dar uma reforçada na carcaça, principalmente na parte superior do corpo.
      Eu também acredito que pro Bendo é bem mais difícil disputar a cinta nos meio-médios, mas se ele acha que o corte está desgastante e que ele perdeu lutas por causa disso, ou melhora o processo de corte, ou então é melhor subir.

      • bedotRJ

        Story e Gastelum têm mais massa que o Bendo. Também batem mais duro que ele. Acho que o Bendo iria sofrer muito com a força física dessa categoria. Acho também que o GSP começou a sentir os efeitos disso quando resolveu se aposentar. Defendo, inclusive, que o GSP, caso retorne, corte prá 70kg. Lutador sem punch, quando vai chegando ali perto dos 35 anos, só mesmo acertando no peso prá conseguir se manter competitivo.

        • Fernando Cappelli

          Também acho que isso pode ter influenciado – mesmo que de forma indireta – na decisão do GSP em parar, mesmo sendo um fora de série. Há alguns anos, a divisão 77kg estava bem previsível, mas de uma hora pra outra começou a ser invadida por lutadores cada vez maiores que se submetem a cortes de peso colossais. Coisas da evolução do esporte (ou não).
          abs!

          • Bart Simpsons

            A gente olha para o corpo de Lawler, Woodley e Lombard e pensa “esses caras batem mesmo 77 kg?”. Os caras são muito monstros.

      • Felipe

        Todos esses atletas têm grande explosão fisica no wrestling. GSP é praticamente um míssil quando mina nas pernas dos adversários, nao por acaso tem o melhor aproveitamento de quedas de todo UFC. Não é o caso do Benson…

  • Marcio Rodrigues

    Se a diferença de tamanho era a grande dúvida para a mudança de categoria, acho q ela não existe mais. O cara lutou ainda como peso leve e venceu um quase peso médio. O problema é se resolver se manter com esse peso sempre. Afinal, ele disse que queria subir pra não ter que cortar tanto. Acho que ele já provou que pode, no minimo, dar trabalho pra qualquer um da 77. Só acho que deveria ganhar um pouco mais de massa pra poder segurar os grandalhões no chão, ja que em pé vai ser mais dificil.
    Ele tá longe do cinturão da LW, então porque não fazer mais uma ou duas lutas na WW pra ver no que dá?

  • Vitor Avila

    As quedas do Tatch eu descrveria como Osoto-Gari, ao invés de Ashi Barai, ele usou uma varredura externa com a perna “de dentro” num movimento “de tras pra frente”…Eu quero olhar de novo com calma, mas foi oque pareceu…inclusive lembrou muito uma queda que o Akiyama usou contra o Jake Shields….com suas diferenças foi algo bem proximo…. https://www.youtube.com/watch?v=QY5Gsl7Dg6g

    • Fernando Cappelli

      Grande lembrança essa do Akiyama, Vitor. Acho que as quedas do Thatch podem ser consideradas osoto-garis também, mesmo que no judô clássico seja preciso fazer uma alavanca diferente com os dois braços (e a ajuda do judogi) para executar o golpe. Mas falamos de MMA, onde tudo é adaptado e, por isso, muito mais aberto a interpretações, certo? É que no caratê muitas vezes o nome ashi-barai funciona como um termo genérico para qualquer varredura de pernas. De qualquer forma, as quedas foram excelentes.
      abs!

      • Vitor Avila

        Obrigado por responder Capelli, gosto muito das suas analises!

        De fato no Judo o Osoto-Gari tem mesmo uma pegada(Kumi-Kata) e um desequilíbrio(Kuzushi) diferentes. O nome em japonês significa “Grande Varida por Fora” -(O – Grande; Soto – Por Fora/Externo; Gari – Varida).

        É verdade que no Karate muitas tecnicas de varredura são chamadas genericamente de Ashi-Barai,ou Harai(Ashi – Perna; Barai – Varrer), no entanto, do pouco que eu estudei, o Osoto-Gari, com esse nome, também é usado no Karate. É que pra nós parecem nomes próprios, mas em japones são a descrição da tecnica.

        Fora da discussão do que é Judo, o que é Karate, se é Ashi-Barai ou Osoto-Gari, eu insisto num ponto que já comentei em outro topico, que seria a possibilidade de utilizar o Judo, desde que devidamente adaptado, como modalidade de transição, somando ou até substituindo o wrestling…Creio que no Brasil isso daria muito resultado, primeiro porque somos uma potencia mundial no Judo, mas estamos longe disso no wrestling, segundo porque, devido a proximidade e parentesco entre as artes, os atletas provenientes do Jiu Jitsu teriam bastante facilidade em compreender seus princípios e aplicar suas tecnicas, terceiro porque o Judo ja se mostrou muito eficiente para contra-atacar o wrestling, vide Ronda, por exemplo, na luta contra Tate, e outros exemplos….

        P.S.: Não to conseguindo logar no Facebook aqui nos comentarios….kkkkk

        • Fernando Cappelli

          Valeu você pela leitura e pelo ponto de vista, Vitor. Também acho que ainda falta o judo ser melhor aproveitado no MMA. Ainda é considerado algo exótico na mistura de artes marciais, mas a evolução do esporte está cada vez mais urgencial e aberta para novidades que podem ser usadas como diferencial.
          abs!

    • Bart Simpsons

      Tb tinha pensado nessa do Osoto-gari, mas como conheço muito pouco de judô e na parte de de karatê meu conhecimento é quase zero (conheço mais a parte muay thai e jiu jitsu, artes que eu treino), resolvi não palpitar…rsrsrsrs

  • Filipe C.

    Bendo é raçudo por demais.. Mas acho a luta em pé dele meio fraca. Dificilmente em suas ultimas lutas o vi fazer combinações de 3-4 golpes seguidos. chutes sempre no seco, sem dar um golpe como “camuflagem”. Ele deveria passar uma temporada na Nova União para melhorar sua trocação e afiar mais ainda seu JJ que será uma grande arma secreta se decidir realmente se manter na WW.
    Torço muito para ele manter sua carreira como um top, independente de sua categoria.

    • Fernando Cappelli

      Bendo frequentemente paga o preço por ser um cara estratégico, Filipe. Muitas vezes a linha entre tática e antijogo são muito parelhas e complexas.
      abs!

  • Matheus

    Outro excelente texto. Valeu pela nova perspectiva Cappelli!

  • RicardoVivas

    Não sei se o Thatch é um dos mais altos dos meio-médios, porque ele pareceu mesmo muito grande pro Bendo. Se os topos dos meio-médios forem todos assim eu não acho válido ele subir não!

    • Renato Rebelo

      O Hendricks é um cotoquinho tb – tem 1,76m de envergadura-, mas caras como o Lawler e o Rory são bem maiores msm

      • RicardoVivas

        Condit e Diaz também são altos!

      • Fernando Cappelli

        Aliás, Bendo x Hendricks seria bem interessante, hein.

        • RicardoVivas

          Seria sim, mas sei lá, eu acho que o lugar dele é nos leves mesmo…

        • Felipe

          Principalmente se o Hendricks lutar na versão croquetes e quitutes, se o Benson durasse mais de 2 rounds teria grandes chances de levar a peleja.

  • Felipe

    Pessoal, desculpe o offtopic, mas por onde anda o TJ Grant? Pq ele saiu do posto de contender pra fora do topic 15 dos leves?

    • Fernando Cappelli

      Putz, bem lembrado. Se não me engano, a última coisa que li sobre o TJ Grant é que ele ainda não tinha prazo para retornar porque teve um sério problema neurológico e teria de ficar no estaleiro mais um tempo para realizar mais exames e tudo mais. Complicado.
      abs!

  • Bart Simpsons

    Benson fez o dever direitinho contra Brandon Thatch, agora, querer ficar definitivamente na WW vai ser problema. Brandon Thatch é um cara bem mediano, o boxe é fraco, o cara não dá sequencia aos golpes, quando chutava tb era sempre de forma isolada, sem trabalhar sequencia tb, o jogo de solo tb ele já mostrou que é bem fraco. Apesar de ser menor e tal, sempre considerei Benson como favorito, por ser mais técnico, ter mais gás, ser acostumado a lutas de 5 rouds, então poderia trabalhar bem cansando o oponente. De certa forma, Thatch tb colaborou para a vitória de Benson, uma vez que no primeiro round, quando era sua maior chance de vitória, ele não partiu pra cima, parecia receoso pelo fato de estar diante de um ex campeão da LW e não soltava golpes, muito pior, não soltava o jogo. A medida que o tempo passou, Thatch cansou e Benson não perdoou.
    Bom, vencer Thatch é uma coisa, querer bater de frente com os tops da categoria é outra completamente diferente. Pedir luta com Rory chega a beirar o absurdo, seria um massacre canadense, assim como seria massacrado ao enfrentar caras como Lawler, Hendricks, Lombard, Woodley, Condit,e até o próprio Matt Brown.
    Benson mostrou raça, coração e a velha e boa técnica que já lhe fizeram ser campeão do WEC e do UFC, pode com certeza voltar a figurar entre os tops dos tops, mas lá na LW.

  • will

    O Bendo pode até vencer 90% da categoria, mas quando chegar no Top 5 não rola. Ele não agüenta um Rory, um Woodley, um Lawler, etc.

  • Paulo Josué Lemos Alves

    Cappelli é o nosso “Jack Slack” muito bom.

  • Paulo Josué Lemos Alves

    Penso que ele deve seguir nos leves. Os meio-médios são muito grandes.

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