Por que o UFC tirou o cinturão de
Randamie e não de Bisping? Simples

Felipe Paranhos | 22/06/2017 às 15:53

O UFC informou Germaine de Randamie e seus agentes de que não seria mais a campeã dos pesos-penas devido a falta de vontade de enfrentar a lutadora número 1 no ranking, Cris ‘Cyborg’ Justino. Consequentemente, Justino vai enfrentar a nova campeã dos penas no Invicta, Megan Anderson, pelo título da categoria, no coevento principal do UFC 214. O UFC acredita que é esperado de qualquer campeão que aceite lutas contra os lutadores melhores ranqueados nas suas respectivas categorias, visando manter a integridade do esporte”

Quem leu isso imediatamente pensou o óbvio: e isso vale para Michael Bisping?

Desde o início, as pessoas associam Germaine de Randamie a mim. Logo que ela venceu Holly Holm e conquistou o cinturão, ela disse, ainda no octógono, quando tentou encaminhar a luta dela contra Cris Cyborg: ‘Não poderei lutar. Preciso operar a minha mão’. Ela fugiu da desafiante número um assim que conquistou o cinturão, ainda no octógono. Depois, na coletiva, ela disse que deveria fazer uma revanche contra Holly Holm, porque a luta foi bastante equilibrada. Você tem que operar a mão ou não? Eu sei que as pessoas me atacarão por todos os lados. Para quem está do lado de fora, parece que eu estou fugindo de Yoel Romero, mas isso não é verdade de forma alguma. Eu passei por duas cirurgias. Voltei a treinar agora, mas ainda não consigo fazer um camp completo. Eu entendo os paralelos que as pessoas traçam entre a minha realidade e a de Germaine. Entendo que eles me chamem de hipócrita”, falou Bisping, no podcast Believe You Me.

Bisping x GSP: acima de tudo, vontade do UFC

Não, claro que não vale. O que vale pra um campeão normalmente não vale para o outro — e isso não é novidade para quem acompanha MMA há algum tempo. Mas este episódio tem uma peculiaridade interessante, que pode indicar um rumo novo para o UFC pós-Zuffa.

Quando diz que “acredita que é esperado de qualquer campeão que aceite lutas contra os lutadores melhores ranqueados nas suas respectivas categorias”, o Ultimate está querendo dizer “acredita que é esperado de campeões sem força de negociação que aceitem lutas contra os lutadores que achamos que eles devem lutar”.

E é justamente isso que separa Bisping de Germaine. Bisping não enfrentou Yoel Romero ou Ronaldo Jacaré, mas aceitou enfrentar Georges St-Pierre, na luta que mais atrairia público, audiência e mídia — e, portanto, a luta mais interessante para o Ultimate.

GDR abdicou do cinturão para não enfrentar Cyborg

Com De Randamie, é o contrário: do combate que o UFC queria fazer ela não quis participar. E, neste caso, o fato de o duelo com Cris Cyborg ser também o mais óbvio esportivamente foi só coincidência.

A diferença entre os dois casos aponta para uma direção específica. Depois de pagar US$ 4 bilhões pela franquia, a WME-IMG não pode se dar ao luxo de manter parados importantes ativos do UFC — como é o caso de Cyborg. Se vende luta, vai lutar. Mesmo que pra isso seja necessário tomar atitudes extremas, como tirar do cinturão uma campeã que o conquistou há meros quatro meses.

Ah, mas e Conor McGregor, que não luta desde novembro do ano passado? Este, além de ser diferente de todos os outros campeões no quesito negociação, já vai pagar a “dívida” do ano parado na luta contra Floyd Mayweather. Muito bem pago, aliás.

Quanto aos outros, fica o recado. Os tempos mudaram, e o mérito esportivo vai ser ainda mais colocado de lado outras vezes, em detrimento de lutas que atraiam o público.

Eu não acho lá um grande problema, inclusive.

  • Carlos Montalvão

    O próprio Bisping disse que enfrentaria SIM o Romero ou o Whittaker após a luta contra GSP, ou seja, abertamente disse que queria primeiro fazer dinheiro e depois lutar contra os adversários certos. Conor também falou algo nesse tom, que depois voltaria a defender a cinta. Já a holandesa, covardemente, admitiu que não queria a única luta que tinha pra fazer e que pra evitar isso, estava ridiculamente disposta a descer mão de categoria e abrir mão do cinturão de forma vergonhosa só pra não ter que encarar o bicho-papão. Na minha opinião deveriam era também ter multado a Randamie e mandado ela embora.

    • Laerte Viana Venâncio Alves
      • Carlos Montalvão

        Se é verdade ou não, ele simplesmente se livrou de tomar um tapetão do UFC só fazendo uma suposta promessa. Ao contrário da outra que mandou um “corri mesmo e que se foda o cinturão” implícito.

    • Laerte Viana Venâncio Alves

      Em tempo, também acho que são casos diferentes, conforme o Paranhos muito bem explicou.

    • Luis Coppola

      Exato, além de terem criado a categoria pelo potencial da Cyborg e por ela ser a maior atleta do peso, ela era até então a única lutadora contratada da categoria. Ou seja, em uma categoria de duas lutadoras ela não tinha quem escolher, como o Bisping escolheu para a primeira defesa dele o Hendo!
      Tbm de acordo que ela deveria ter sido demitida..

  • Hyuriel Constantino

    Ou seja, mais vale um cagão que renda grana do que um cabra macho que não seja midiático.

    Só falta a GracieMag virar a revista Caras do MMA e o Podcast do Joe Rogan ser a versão UFC do programa da Sonia Abrão.

    • Tairon de Oliveira

      Até por que, como eu já disse algumas vezes: O UFC é uma empresa e mérito esportivo/legado não é o que põe o feijão com arroz (no caso dos donos do UFC, caviar e outras iguarias culinárias) na mesa.

      • Hyuriel Constantino

        Com isso tb é curioso que os cabeças do UFC já cogitaram o reconhecimento do MMA como um esporte olímpico.
        Cada dia que se passa mais penso pq comecei a acompanhar esse “esporte”…

        • Tairon de Oliveira

          Com a saída dos Fertittas e mais pra frente o Grana Branco, a tendência é ficar cada vez menos meritocrático.

        • Flávio Sampaio

          De fato, isso afasta totalmente o lado esportivo e reforça o lado comercial, é uma questão polêmica, é o efeito McGregor. Por um lado antes de McGregor mostrar como se ganha dinheiro, grandes atletas se aposentaram sem grandes rendimentos. Deveria haver um equilíbrio entre o lado comercial e o lado esportivo, mas em tempos de WME-IMG isso é meio difícil.

          • Felipe Paranhos

            Mas tudo sempre se equilibra. Em qualquer esporte há aqueles que sabem se vender melhor, conquistam mais patrocínios, geram mais expectativa, mesmo que não sejam tão espetaculares assim.

          • Flávio Sampaio

            Primeiramente, me sinto honrado em dialogar com um colunista =]
            O que me incomoda Paranhos é esse privilégio que alguns lutadores possuem, como bem citado em seu artigo.
            Para mim, por mais que eles rendam para o UFC, acho injusto fazerem vista grossa pra essa “lesão” do Bisping, assim como não faz muito sentido esportivamente o tempo que McGregor pode permanecer campeão sem defender o cinturão, acho injusto com os demais lutadores da organização.

  • abner albuquerque

    show de bola man. curto e grosso.

    • Felipe Paranhos

      Valeu, Abner!

  • Wanderson Oliveira

    Você dedica anos da sua vida ao esporte, lutando contra todas as dificuldades para chegar ao ápice da carreira, finalmente vence uma disputa de cinturão, vence, se torna a lutadora número 1 do mundo em sua categoria, pra jogar tudo isso na lama por medo de lutar contra uma pessoa.

    A vergonha e a mancha no nome dessa arregona entrará para a história. Na minha mente, é impossível conseguir um feito pior do que esse. Parabéns ein GDR

    • Felipe Paranhos

      Assino embaixo. GDR é do tamanho de suas atitudes.

      • Wanderson Oliveira

        Aliás, textos assim são muito agradáveis de ler: bem rápido e certeiro no ponto, poderiam ter mais textos nesse estilo no site. Sinto falta das análises do Capelli, aconteceu algo com ele?

        • Cleo Lima

          Também sinto falta dos textos do Capelli. Conheço o 6R por conta dele, inclusive, já que o acompanhava desde a época do blog casca grossa no Yahoo, ainda.

          Paranhos, Laerte, Renatão… Ele não faz mais parte da equipe?

  • Leandrinho

    Eu acho que é uma ótima oportunidade para o UFC fazer disso uma regra de verdade. Chega desse monte de gente que fica se achando uns Deuses escolhendo lutas, ou pior, passando vergonha pensando que são as tais das ‘money fights’.

    Vimos nos últimos meses recém campeões dizendo que queriam super lutas, sendo que os mesmos não têm quase relevância. Constrangedor! Tá na hora do UFC colocar essa galera no devido lugar.

  • fabiojbm

    Só não entendi o final. Separou o parágrafo para dizer que não acha lá um grande problema. Não acha lá grande problema o que? Ser deixado de lado o mérito esportivo?

    Se deixar de lado o mérito esportivo não é um problema para o caro redator, me pergunto o que seria então? Lutar para transformar MMA em um esporte para depois deixar de lado o esporte e transformá-lo em “lutas que o público pagaria para ver”. Que coisq.

  • William Oliveira

    Situações diferentes. Bisping falou que vai lutar contra o vencedor de Romero-Whittaker, se assim o UFC quiser. Agora a GDR afirmou publicamente que não lutaria com a Cyborg. Ponto.

  • Mauricio
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