Goldberg, Bellator e a guerra
ideológica com o UFC

Lucas Carrano | 19/06/2017 às 13:30

É claro que todo mundo nos últimos dias só fala de  Conor McGregor Floyd Mayweather, com razão, mas eu já estourei minha cota de textos sobre McGregor e, mais um a essa altura, vai me custar um balão do site, com risco de terminar em ban.

Além do mais, nosso “YouTuber Tio” Renato Rebelo tem um vídeo no ar sobre o assunto e, com certeza,  aborda o assunto com muito mais propriedade que este pobre escriba.

Por isso, nesta semana, resolvi focar em um outro evento que mexeu com o cenário do MMA: a ida de Mike Goldberg, ex-narrador oficial do UFC, para o rival Bellator – ao lado de outro veterano dos microfones no esporte, o ex-PRIDEStrikeforce Mauro Ranallo.

Ranallo foi um dos personagens do PRIDE

Você pode até estar se perguntando: mas que diabos a ida de um comentarista muda no panorama geral? E, principalmnete, qual malabarismo discursivo você vai empregar para justificar essa tal “guerra ideológica” do título?

Ok, tudo bem, eu explico.

É o seguinte: durante muitos anos, o UFC foi uma organização pautada e fundada sobre pilares humanos.

Figuras como Joe Rogan, Mike Goldberg, Bruce BufferJoe SilvaBurt Watson e os irmãos Fertitta sempre fizeram parte, não só do noticiário, mas, principalmente, do imaginário popular do fã de MMA.

Pois bem. Como todos sabem, no ano passado, o Ultimate foi vendido para a WME-IMG, um dos mais poderosos conglomerados do segmento de entretenimento no planeta, e as coisas aparentemente estão mudando por lá.

O processo, é bom que se diga, começou mesmo antes da saída de cena da Zuffa, como no caso de Burt Watson e do cutman Stitch, mas é inegável que tudo se acentuou, e acelerou, de forma notável desde a aquisição da marca pelos novos donos.

O primeiro sinal da mudança do perfil baseado em indivíduos para outro mais focado no desenvolvimento da marca em si veio com a saída imediata do histórico matchmaker Joe Silva.

Joe Silva e Fertitta no UFC: não mais

Logo em seguida foi a vez de Goldberg deixar o Ultimate pela porta dos fundos. Note como em ambos os casos não houve sequer muito alarde sobre os substitutos – nem mesmo a especulação de que Jim Rome poderia assumir a narração foi muito adiante.

Assim, gradualmente, um novo modelo, um novo jeito de se pensar e promover o UFC vai se estabelecendo.

Por exemplo, são cada vez mais e mais eventos com Joe Martinez, que não me recordo de ter sido tão ativo desde que chegou vindo do finado WEC.

E, acredite, nem mesmo o presidente Dana White, hoje somente um empregado do evento, é bom que diga, não tem ficado de fora da “passagem de bastão”.

Claro que no caso do careca, o processo é diferente, ele é um dos promotores de lutas mais importantes da história e, sem sombra de dúvidas, é mais famoso que boa parte do plantel de lutadores pelo qual responde.

Ainda assim, vemos mais e mais coletivas sem Dana, outras figuras em meio a encaradas e uma minguada fenomenal nos scrums de imprensa.

E o que o Bellator tem a ver com isso tudo?

Bellator NYC marcará a estreia de Goldberg

Bom, de um lado temos o UFC, querendo cada vez mais se tornar uma marca, ou instituição, que depende menos de pessoas (traçando um paralelo com o futebol, mais como um Real Madrid ou Barcelona, que, mesmo com o prejuízo técnico, continuarão a ser quem são depois das saídas de Cristiano Ronaldo Messi).

Do lado oposto, o evento comandado pelo grupo Viacom, outro gigante do entretenimento, diga-se de passagem, tem apostado justamente na estratégia que fez o UFC chegar onde está hoje. E isso inclui, entre outras coisas, a contratação de Mike Goldberg.

Ex-astros do UFC e eventos concorrentes ou figuras de bastidores importantes e históricas do MMA estão entre as estratégias adotadas pelo Bellator. O que quase torna a batalha como um “Antigo UFC” vs “Novo UFC”.

Durante os próximos meses, ou anos, o que veremos é um embate entre estes dois modelos, ou abordagens, entre as duas principais organizações do planeta. Uma que investe em um paradigma que já se provou bem sucedido, enquanto outra aposta em uma migração para um padrão universal, e mais sustentável a longo prazo, que dialoga melhor com as demais ligas esportivas mundialmente relevantes.

Quem vai ganhar essa batalha?

Infelizmente, esta é a pergunta de um milhão de dólares (ou quatro bilhões, como queiram), e para a qual, obviamente, não tenho a resposta – e, honestamente, se tivesse, tentaria ganhar uma grana com ela antes de compartilhar com vocês aqui.

Entretanto, os resultados do Bellator NYC, que marca a estreia de Goldberg e Ranallo na nova companhia, em um card recheado de nomes que fizeram seu nome em eventos rivais, já será um grande indicativo.

Abraços.

Ps: Despeço-me temporariamente dos amigos aqui e nos podcasts pelas próximas duas semanas, por motivos de: férias. Estarei de volta em julho.

  • Hyuriel Constantino

    UFC tá parecendo um navio fantasma cuja entidade que assumiu o leme se chama “O Irlandês Voador”.

    • Diogo Barbosa

      Poético e resume bem a atual situação do UFC.

  • Carlos Lima

    Legal o paralelo. Vejo o copo meio cheio pro Bellator e meio vazio pro UFC (talvez, pq torça por isso). Não entendo patavinas de business, mas vejo o UFC fzdo umas cagadas, e isso a curto prazo já tem causado reações negativas, por parte de atletas, fãs e mídia especializada.

    Vejo que, se o Bellator parar com os freakshows, tais como, Royce e Dada’s no cage, tem tudo para a médio-longo prazo começar a incomodar de fato o UFC, mesmo promovendo aposentados recentes pra lutar, vide Vand X Sonnen

    • Hyuriel Constantino

      Apesar de algumas controvérsias, eu acho que o Bellator tá adotando de uma estratégia bastante curiosa e vantajosa quando lida com o lado freak do MMA. Diferente do UFC, eles sabem separar bem a coisa do esporte com o entretenimento. Nunca que caras como Kimbo, Ken, Royce ou Dada 5000 irão disputar um cinturão. Implicitamente, na organização existe uma espécie de categoria “Freakweight”, e isso satisfaz a ambos os polos (esportistas e entretedores).

      • Carlos Lima

        Sim, mas o risco é imponderável e pode ser alto demais. Dada quase morreu ao vivo pro mundo, Kimbo passou um tempo e bateu as botas. Imagina o veneno q num tava o Ken?
        Esse fator vejo como bem importante, e olha que não sou alarmista

        • Hyuriel Constantino

          Mas aí vc tá falando já de condições físicas dos tais freaks. Creio que isso é um assunto a parte. Falo na forma como o Bellator tem buscado conciliar esportividade com entretenimento, e creio que o caminho é esse.
          Além disso, o motivo que vc ressaltou só encorpa a minha tese de que esses caras não devem ser levados a sério esportivamente. Portanto, que nem sonhem com ranking ou TS.

          • Shotokan Karate

            Hyuriel respeitosamente discordo de ti ao colocar Ken e Royce como “freak”. Vejo com bons olhos a criação de uma categoria master e vai ser bom tanto pro público como tb pros próprios lutadores. Dada 5000 e Kimbo realmente é top 10 dos freaks da história. Dois porradeiros saindo na mão sendo que um deles foi nocauteado pelo próprio cansado mto mais do que por seu adversário.

          • Hyuriel Constantino

            Cara, eu vejo essa parada de “categoria master” uma “freakagem” pra lá de dissimulada. Royce e Ken podem estar no Hall da Fama do UFC, mas o tempo deles obviamente já passou e estão fazendo hora extra há Eras.
            Pra mim, soldado velho tem que ir pra reserva.

          • Carlos Lima

            Não ficou mt clara sua posição, já que no primeiro comentário vc dá um tom aparentemente favorável a que se promova freakshows: “na organização existe uma espécie de categoria “Freakweight”, e isso satisfaz a ambos os polos (esportistas e entretedores)”.

            Na minha opinião, há uma linha, não tão tênue, entre semi aposentados que ainda podem dar um bom caldo, como: Vand, Sonnen, Belfort (aposentado, não oficialmente) e, aposentadíssimos, tipo Royce X Ken, aí soy contra.
            Agora, a criação de uma Categoria pra semi aposentados com caldo a dar, creio ser interessante pro Bellator, pois haveria uma corrida por um cinturão Master e tem muito público pra comprar essa.

          • Hyuriel Constantino

            Eu disse que deve haver isso de forma implícita. Noutras palavras: pode-se casar freak-matches, dream-matches, mas não fazer uma categoria oficialmente falando. Da forma como tá no momento, implicitamente falando, ainda existem as regras tradicionais, como a faixa de peso. Se fizer uma “Freakweight” no sentido literal da palavra, veremos coisas similares a um BJ Penn contra um Akebono, e isso é um desastre.

          • Carlos Lima

            Pois é… pro business pode ser bom, afora as freakisses (isso é péssimo de qqer jeito), até msm essas lutas de veteranos, tenho mts ressalvas, por causa da questão médica.

          • Shotokan Karate

            Hyuriel em qq torneio de arte marcial tu encontra categoria master pq no MMA tem que ser diferente ? Obvio que pro caso deles tem que ser regras diferenciadas como menor numero de rounds e tempo de duração mais curto de um round por exemplo mas acho uma idéia valida. Se o aposentado tem um bom ritmo de treino e está em boas condições fisicas pq não fazer ? Mesmos soldados velhos em guerras mtas vezes são convocados pra lutar…

          • Carlos Lima

            Concordo que o Bellator tem mostrado que os masters não estão na corrida, talvez isso devesse ficar mais patente, criando tipo liga das lendas, cf. Belfort deu a letra.
            Pq na questão da esportividade — muito embora Dana seja total business (não tá nem aí pra ranking e sim pra qm vende) ele há anos defende: Se algum lutador sequer pensa em aposentar, ele não devia estar no UFC… se alguém precisa de TRT, esse alguém não devia estar no UFC, msm qdo TRT era legal — já que o Bellator faz freaks e UFC não, eu acho que a balança da esportividade pode pender mais pro segundo.

            *sobre a questão da saúde física é a parte, mas nem tanto, pois há um risco iminente de condenar o próprio evento à morte.

  • Daniel Cazan

    Um paralelo curioso: é uma estratégia semelhante a feita pela TV Record há alguns anos contratando artistas globais e copiando alguns modelos da então líder fazendo com que o público se familiariza-se rapidamente com os programas. Não acompanho esse meio porém a Record cresceu absurdo mas não é lider. Vejo um cenário parecido com o Bellator..

    • Malk Suruhito

      O cenário parecido é também na injeção de dinheiro de outra empresa (Viacom e IURD). O diferente é que a primeira (VIACOM) não esta usando o Bellator para lavar dinheiro (eu acho ao menos).
      P.s.: antes que alguém fale, já foi mostrado mais de uma vez que o valor que a IURD paga em seu programas na Record chega a ser até 8x o valor que ela paga em outros canais. Se acham isso normal, ok…

  • Thiago Arruda

    Mamma Mia, Mauro Ranallo voltou! Só falta a volta do Ricardo Arona pra 2017 fechar com chave de ouro. Lembrando que 2017 é o ano do tigre, hein.

    • Hyuriel Constantino

      (“Mamma Mia” + “It’s all over”) x “Arona Returns” = “vou deixar de ver UFC para acompanhar Bellator”.

  • Daniel R Carletti

    Quem vai ganhar sou eu, que vou poder ouvir o Goldberg narrando Sonnen vs Wanderlei Silva e depois voltar pro UFC. Tem espaço pros dois.

  • Malk Suruhito

    Carrano, este perfil “família” que era do UFC e agora o Bellator quer ser também é o mesmo do WWE?
    Pq neste lance de continuidade de imagem, recordo que quando era moleque personagens como o Undertaker “lutavam” e até outro dia continuava, além de outras figuras fora do ringue. E gostem ou não, no que se propõe o WWE é uma companhia de sucesso (eu pessoalmente só assisti no tempo de Rede Manchete).

    • Lorenzo Fertitta

      Boa pergunta Malk, também tenho curiosidade em saber a resposta.
      Nostalgia bateu forte agora quando você lembrou da extinta Rede Manchete.
      Ora, ora, ora… eu, do alto dos meus 6, 7 anos de idade assistindo Supercatch com Carlos Valadares na narração e Bob Léo nos comentários, achando aquilo super empolgante e em dúvida se aquelas lutas eram reais ou não… depois de algum tempo comecei a notar que nunca saía sangue dos lutadores kkkkkkkkkkkkk

      https://uploads.disquscdn.com/images/651a90b418ea5c7f3828459352503ac06a252308fa8cf2b4b2e1494132e9b644.jpg ons tempos…

      • Malk Suruhito

        Nem me ligava no sangue, só achava estrando eles socarem ao mesmo tempo que batiam o pé no chão :v

        • Lorenzo Fertitta

          kkkkkkkkkkk boa observação

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