Vale assistir? A leitura
dinâmica do UFC FN 111

Thiago Sampaio | 15/06/2017 às 12:52

No quarto fim de semana seguido de UFC, a luta agora vai um pouco mais longe: Singapura. A ilha, no sudoeste asiático, recebe a maior organização de MMA do mundo pela segunda vez, após o “UFC Fight Night 34: Saffiedine vs. Lim”, em janeiro de 2014.

O “UFC Fight Night 111: Holm vs. Correia” acontece às 5h30 da manhã (sim, isso mesmo!) deste sábado (17), no Singapore Indoor Stadium, em Kallang.

Na luta principal, a ex-campeã do peso galo feminino Holly Holm enfrenta a brasileira Bethe Correia, ex-desafiante ao título da categoria. Ambas vêm em fase complicada e precisam da vitória.

No co-main event, o ex-campeão dos pesos pesados Andrei Arlovski enfrenta Marcin Tybura, correndo sério risco de demissão em caso de mais um revés.

Outra atração é a estreia do brasileiro Rafael Dos Anjos na categoria dos meio médios contra Tarec Saffiedine.

Mas vamos lá aos destaques!

À procura da felicidade

Desde que enfrentaram Ronda Rousey, Holly Holm (10-3, 3-3 UFC) e Bethe Correia (10-2-1, 4-2-1 UFC) acumulam, juntas, quatro derrotas, um empate e apenas uma vitória. Mas mesmo assim, com Rowdy fora de cena, o UFC segue em busca de uma estrela feminina no peso galo e as fichas continuam depositadas na Filha do Pastor.

Desde que Holly Holm chocou o mundo ao nocautear Ronda, então campeã dominante, no UFC 193, em novembro de 2015, a bela dos cabelos de Rapunzel não sabe o que é vencer. Foram três derrotas, para Miesha Tate, Valentina Shevchenko e Germaine de Randamie.

Nesta última, valendo o cinturão inaugural da categoria peso pena, no UFC 208, em fevereiro deste ano, numa clara tentativa de promovê-la. Um duelo equilibrado, de pouca emoção e resultado questionável (que contou com dois golpes de Randamie após o fim do round). E lá vai ela tentar de novo a sorte na categoria de baixo.

Bethe sempre está na mídia, mas longe de ser querida, até pelos brasileiros. Conseguiu a disputa de cinturão na base do trash talking e viu a própria torcida contra ela no UFC 190, em agosto de 2015, quando foi nocauteada para Ronda em apenas 59 segundos, no Rio de Janeiro.

Depois, perdeu para Raquel Pennington por decisão dividida, venceu Jessica Eye pelo mesmo modo e, na última aparição, o resultado foi um empate com Marion Reneau, em Fortaleza, em março deste ano. E mesmo tendo levado uma surra e tanto no terceiro round, num 10-8 claro para a adversária, teve dancinha no final!

A Holly é superestimada por muitos. Porém, suas expectativas ainda não corresponderam às expectativas de todos. Ela perde uma luta e demora para se recuperar. Ela pode se aposentar cedo. Mesmo que ela diga que está bem, eu sei que ela não está, pois são três derrotas consecutivas”, provocou Bethe, como de costume.

Apesar da má fase das duas, tecnicamente Holly Holm é superior e é favorita pelo estilo de luta de Bethe ser favorável a ela. A brasileira tem o boxe como carro chefe, uma trocação até eficiente na base do volume, porém, previsível e sem contundência. Das 10 vitórias da carreira, oito foram por decisão.

A americana, multicampeã de boxe em várias divisões, tende a frustrar Bethe com o eficiente bate e sai, além de bons chutes. Apesar da luta agarrada ser uma deficiência da Pitbull (o último round com Marion prova isso), Holly não deve repetir o erro de agarrar na grade e buscar queda, que a prejudicou no último revés.

De toda forma, podemos esperar um bom duelo em pé e, se Bethe sair vitoriosa, será mais um tiro no pé da organização. Como disse o amigo João Vitor Xavier, pode até encerrar a carreira de Holly.

E lá vamos nós ouvir mais falácia da brasileira em busca de uma nova disputa de título…

Pitbull cambaleante

Se alguém dissesse lá em 2005, quando Andrei Arlovski (25-14-0-1, 14-8 UFC) faturou o cinturão dos pesos pesados do UFC, que o bielorusso faria um co-evento principal em pleno 2017, talvez fosse chamado de louco.

Mas se perder para o nem tão conhecido Marcin Tybura (15-2, 2-1 UFC), é provável que nunca mais vejamos o The Pitbull no octógono outra vez.

Quando retornou ao UFC, ainda mostrou que podia ser uma ameaça e até ser colocado como possível desafiante ao título, batendo Brendan Schaub (tá, a luta foi tão ruim que ninguém ganhou), Antonio Pezão, Travis Browne e Frank Mir. Essas, com propriedade, sendo apenas a última por decisão.

Mas depois que foi nocauteado em menos de um minuto para o atual campeão Stipe Miocic, foi uma tragédia atrás da outra. Sofreu outro nocaute, para Alistair Overeem, foi finalizado por Josh Barnett e, na última aparição, sentiu a mão pesada da promessa Francis NGannou, em janeiro deste ano.

O polonês Tybura ainda busca seu lugar ao sol na organização, mas já está na 13ª posição do ranking e, vencendo um nome conhecido como Arlovski, entra no bolo dos intermediários. Apesar da derrota na estreia por decisão para Timothy Johnson, se recuperou com duas vitórias por nocaute em seguida, sobre Viktor Pesta e Luís Henrique “KLB”, no UFC 209, em março.

O The Pitbull ainda é um nome relevante numa categoria tão escassa. Mas aos 38 anos, o prazo de validade está acabando e o queixo, que nunca foi o seu forte, está cada vez menos confiável. Se amargar o quinto revés consecutivo, não terá outra solução para o UFC senão a porta de saída – e aposentadoria seria uma possibilidade bem real.

Tybur, ex-campeão do M-1 Global, é mais jovem (tem 31 anos) e cheio de vontade de alçar desafios maiores. Tem mãos pesadas, contando com sete vitórias por nocaute e, faixa marrom de jiu-jítsu, conta com seis triunfos por finalização. Nas casas de apostas, é favorito.

Vai que a tal Liga das Lendas do Vitor Belfort sai do papel e resolvem casar Andrei Arlovski x Tim Sylvia V! Ou rola um convite para o The Pitbull atuar em “Soldado Universal 27”, direto no torrent mais perto de você. Melhor não, né?!

Promessa x experiência

O prospecto Colby Covington (11-1, 6-1 UFC) tanto pediu um adversário ranqueado que conseguiu. Vai enfrentar o sempre perigoso coreano Dong Hyun-Kim (21-3-1, 13-3-1 UFC), num duelo que pode colocá-lo no ranking dos meios médios em caso de vitória.

O californiano de 29 anos vem embalado por três vitórias consecutivas. A única derrota na carreira foi para o brasileiro Warlley Alves, quando foi guilhotinado no UFC 194, em dezembro de 2015. Depois, bateu Jonathan Meunier, Max Griffin e Bryan Barberena.

Mas no curto currículo do atleta da American Top Team, um semi-aposentado Mike Pyle e Barberena são os adversários mais duros que já venceu. Contra o experiente Kim, tem o maior desafio da carreira e o risco de levar um choque de realidade.

O coreano é aquele cara que sempre oferece risco, mas nunca é citado entre os potenciais desafiantes ao título (até pelo estilo pouco empolgante e por ter o carisma de uma porta). No UFC, foram 13 vitórias e apenas três derrotas, para os duríssimos Carlos Condit, Demian Maia e o atual campeão Tyron Woodley.

Desde então, venceu Josh Burkman, Dominic Waters e Tarec Saffiedine, na última aparição, no UFC 207, em dezembro do ano passado, numa decisão dividida sonolenta em que grappler virou striker e striker virou grappler.

Kim é judoca faixa preta quarto grau, tem um clinche perigoso, amarra muito bem no solo! Mas também tem um kickboxing de qualidade. Com altura (1,85m) e envergadura (1,93m) favoráveis, gosta de golpes plásticos, como a cotovelada giratória que nocauteou John Hathaway.

Covington é basicamente um wrestler que procura deixar o adversário desnorteado para tentar uma finalização. Das 11 vitórias do cartel, seis foram por esse meio e quatro foram por decisão. Se vencer, vai ser um passo e tanto.

Se o coreano vencer, vai ser como se não tivesse feito mais do que a obrigação e vai seguir pegando nomes intermediários até a próxima queda.

O recomeço de um ex-campeão

Olha, é estranho ver um ex-campeão como Rafael Dos Anjos (25-9, 14-7 UFC) abrindo um card no Fight Pass. Se a organização não dá a ele o devido reconhecimento, pelo menos ele tem mostrado motivação extra para repetir o sucesso na categoria dos meio médios.

Após faturar o cinturão dos leves com vitória dominante sobre Anthony Pettis e defendendo-o com sucesso com um atropelo sobre Donald Cerrone, perdeu o título após sofrer nocaute para Eddie Alavarez. Na última aparição, perdeu por pontos para Tony Ferguson, em novembro de 2016, num duelo bem disputado, mas que apresentava um visível cansaço.

Alegando constantes problemas para bater o peso (fora do período de lutas ele chega a pesar cerca de 90kg) que prejudicaram as últimas atuações, resolveu subir de categoria. E o escolhido para recepcioná-lo nos 77kg é Tarec Saffiedine (16-6, 2-3 UFC), o único belga do UFC e que chegou com a moral de ter sido o último campeão do extinto Strikeforce.

Mas ainda não convenceu. Foram duas vitórias por decisão, sobre Hyun Gyu Lim (na estreia do UFC em Singapura, palco do evento deste sábado) e Jake Ellenberger, e três derrotas, para Rory McDonald, Rick Story e, por último, para Dong Hyun Kim, no UFC 207.

Apesar da faixa preta de jiu-jítsu, Saffiedine tem como especialidade a luta em pé, com um muay thay de qualidade (os chutes nas pernas dele tiram a base de qualquer um), porém, não é nocauteador. Pragmático ao extremo, tem 10 das 16 vitórias por decisão. Como o próprio Rafael falou, ele “luta para não perder”.

É um ótimo desafio para testar RDA na nova categoria. O brasileiro, apesar de baixo para os meio-médios (tem 1,75m), é apenas um centímetro mais baixo que o adversário, além de agora estar mais forte fisicamente e à vontade com a perda de peso menos desgastante.

Nos leves eu já tinha feito o que tinha que fazer e estava difícil bater o peso. Acho que perdi minhas últimas duas lutas por algum motivo. Se eu tivesse vencido eu poderia até estar tentando ainda e até chegar ao óbito. Eu tive medo da morte. Vi que meu corpo estava diferente, com coração acelerado… Com certeza isso estava afetando meu desempenho e não dava mais. Mas acho que posso chegar ao topo dessa categoria e é esse o meu objetivo”, afirmou Rafael.

Apesar de ser oriundo do jiu-jítsu, Rafael evoluiu bastante na luta em pé sob o comando de Rafael Cordeiro na Kings MMA, mostrando um estilo agressivo que o levou ao título. Tendo feito parte do camping na Califórnia e parte na Evolve MMA, em Singapura (onde ele já morou e se sente em casa), deve voltar com a gana para vencer sem deixar o resultado para as papeletas.

É uma boa “linha de corte” para saber se o brasileiro terá condições de encarar atletas maiores e mais fortes, como Tyron Woodley, Stephen Thompson, Robbie Lawler e cia. Vale lembrar que ele já venceu duas vezes Cerrone, que apesar de vir de revés, está 4-1 entre os meio médios.

Card completo

Holly Holm x Bethe Correia
Andrei Arlovski x Marcin Tybura
Dong Hyun Kim x Colby Covington
Tarec Saffiedine x Rafael dos Anjos
Takanori Gomi x Jon Tuck
Cyril Asker x Walt Harris
Alex Caceres x Rolando Gabriel Dy
Justin Scoggins x Ulka Sasaki
Li Jingliang x Frank Camacho
Kwan Ho Kwak x Russell Doane
Naoki Inoue x Carls John de Tomas
Ji Yeon Kim x Lucie Pudilova

Vale assistir?

Vamos ser sinceros: são poucos que vão madrugar às 5h30 da manhã de um sábado para ver um card preliminar não muito atrativo, apesar de alguns bons combates, como Kwan Ho Kwak x Russell Doane; Justin Scoggins x Ulka Sasaki; e as presenças do bom Li Jingliang e do divertido Alex “Bruce Leeroy” Caceres.

Mas como o card principal está marcado para às 9h, até que vale colocar o despertador, pois o evento está encorpado: são três ex-campeões do UFC, um do Strikeforce e um do Pride em ação.

Fechando o card preliminar, o ídolo japonês Takanori Gomi, ex-campeão do Pride, tenta um último suspiro na carreira. Nas últimas cinco lutas, perdeu quatro, e pega o também irregular Jon Tuck, que está 3-4 no UFC.

A estreia de Rafael dos Anjos nos meio médios contra um trocador de bom nível como Tarec Saffiedine é um teste na medida para prever o futuro do ex-campeão na divisão. Também podemos ver Arlovski, outro detentor do cinturão, se despedindo do esporte ou iniciando uma reação.

Na luta principal, Holm e Bethe devem sair na mão, numa disputa entre técnica e volume, que vai possibilitar à vencedora uma nova corrida pelo título e, para a perdedora, a situação vai ficar bem complicada!

Então, aproveita a noite de sexta numa boa, pode ir para a farra, mas não precisa voltar para a casa quando o dia já estiver claro. Coloca o despertador para perto da lutas principais e assiste na cama mesmo. Separa aquelas frutinhas e um cappuccino, ou então aqueles sucos mirabolantes que curam ressaca!

Dessa vez, não precisa perder a cabeça pensando em desculpa porque vai furar algum programa, já que a viagem para Singapura é cedo. E nem tentar convencer aos fãs menos ávidos de MMA para ver um card nem tão impactante. Aproveite a chance e seja antissocial, pelo menos numa sábado de manhã!

  • Anderson Tomaz

    O bom do card ser no FP é que provavelmente não vai ter enrolação. Vai ser luta atrás de luta, eu penso.

  • Idonaldo Gomes Assis Filho

    Tem que casar Gomi x Bj Penn pra ver quem tá na pior, socorro dos dois…

    • Hyuriel Constantino

      Clássico match-up estilo “Porta dos Desesperados”.

  • Luis Coppola

    Perfeita análise, esse card principal está mto bom. Já o preliminar dá pra assistir a reprise..
    Qualquer evento em que a Bethe tenha possibilidade de ser surrada, e levar outro faceplant com ctz vale a pena assistir!
    Tbm vale a expectativa de como o RDA ser portará com 77kg, e caso o Colby vença, se continuará desafiando o brasileiro.

  • Hyuriel Constantino

    Na verdade rolaria Arlovski x Sylvia V. Já lutaram quatro vezes. haha

  • Eduardo Kovasc

    Falam tão mal da Bethe mas que lutadora com a ruindade dela conseguiria ser main event de card com ex-campeão dos leves, dos pesados e todo mais?

    O mundo-cão só fez bem a Bethe!!!

  • William Oliveira

    Pra mim um dos piores cards do ano, só vou ver o card principal novamente, espero que o RDA volte com tudo, tem muito futuro ainda.

  • LucasHawk

    Se não tô enganado a Bethe durou só 34s com a Ronda.

    • magnuseverest

      Contra a Holm ela dura um pouco mais,a Holm tem um estilo mais conservador.

  • Daniel R Carletti

    Tem que mencionar esse Ulka Sasaki que tem 1.78 e bate 57kg, que troço bizarro!

    Empolgado pra estreia do RDA, acho que é a única luta que eu quero mesmo ver. Estou curioso para Dong Hyun Kim x Colby Covington, o resto é só pra rir mesmo.

  • José Luiz Cavalcante

    O card preliminar dos desconhecidos foi muito melhor que o card principal, quem não viu ao vivo veja e depois me diga.

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