Lutadores versus UFC: o que se aprende com o processo

Felipe Paranhos | 24/12/2014 às 17:28

De repente, passado o último evento do ano, as manchetes nos sites foram tomadas por matérias sobre um ação judicial de alguns lutadores contra o UFC, como Cung Le, Nate Quarry, Javier Vasquez, Dennis Hallman e Jon Fitch.

Não vamos entrar em detalhes jurídicos, mas, em suma, o que os atletas questionam é o seguinte:

A) O Ultimate exerce um monopólio que é mantido de maneira a barrar a livre concorrência e aumentar o próprio poder;

B) O Ultimate impede que outros promotores e eventos “tenham acesso a recursos fundamentais para outras organizações de MMA“, que, no caso, são os lutadores.

Ex-campeão diz que o "UFC monopolizou a indústria"

Ex-campeão diz que o “UFC monopolizou a indústria”

Qual o ponto principal? Os acusadores argumentam que, ao firmar acordos longos de exclusividade com os atletas, o UFC impede que outras organizações consigam abordar seus lutadores e, assim, limita o poder de concorrência.

Alegam, também, que os contratos incluem inúmeras cláusulas de encerramento e renovação que podem ser acionadas apenas pelo UFC – e que, eventualmente, a depender do primeiro acerto firmado, o Ultimate pode ampliar indefinidamente um acordo com um lutador. Mesmo contra a sua vontade.

Assim, de maneira indireta, o Ultimate elevaria os custos dos seus rivais, já que, sem acesso aos atletas comprometidos com a Zuffa — mantenedora do UFC —, as empresas teriam de fazer esforços outros para serem atrativas.

É claro que, como em todo caso de ex-empregado contra patrão, algumas declarações ou ações supostamente infelizes dos executivos do UFC estão no processo.

Somos como o futebol americano e a NFL. O esporte MMA é conhecido por um nome: UFC”, disse Lorenzo Fertitta.

O mesmo exemplo também pode ter prejudicado Dana White, que, como bom promotor, adora alfinetar a concorrência.

Não há competição. Nós somos a NFL. Você não vê pessoas vendo a NFL e dizendo: “Ah, mas ele não é o melhor jogador do mundo, porque tem um cara jogando na Liga Canadense”. Nós somos a NFL. Não existe outro”, falou o presidente do UFC.

Outras declarações dos Fertitta e de Dana são usadas contra eles no processo. Uma delas diz que “lá por 2001, as organizações de MMA estavam competindo vigorosamente”.

Houve um tempo em que estava tudo cabeça a cabeça. Esse tempo acabou. Houve tempos em que estávamos em verdadeiras brigas de galo, mas todo mundo precisa perceber que nós somos a porra da NFL. Ponto. Fim da história”, falou Dana certa vez.

Há uma série de acusações facilmente desmontáveis, porém. Uma delas diz respeito a estas últimas palavras.

ex29mnr7ybhb8wlswswi

Carlos Newton no painel acusador

Afinal, se houve um tempo em que tudo estava equilibrado entre as organizações de MMA e hoje o Ultimate sobressai, isso pode ser interpretado de outra maneira: num determinado momento, todos puderam competir em pé de igualdade e, neste período de competição sadia, o UFC conquistou a liderança.

Outra alegação que pode ser desconstruída é a de que os lutadores são obrigados a firmarem contratos de longo prazo, o que os obrigaria a manter laços com o Ultimate e “quebraria a guia” dos rivais.

Os acordos costumam ser de no máximo 8 lutas, o que, em média, dá cerca de 3 anos e meio. Legalmente, não se trata de longo prazo. Em termos práticos, também, levando-se em conta que a carreira de um lutador de MMA passa dos dez anos.

Segundo escreveu Paul Gift, professor de economia especializado em casos antimonopólio, é muito improvável que esse processo chegue a julgamento ou que se torne um transformador da relação trabalhista entre organização e lutadores — como já aconteceu com outras ligas esportivas, como a NHL e a NBA.

Por um lado, este tipo de ação judicial mostra o tamanho que o UFC começa a ter em meio às outras principais ligas dos Estados Unidos.

Por outro, deixa claro que, à medida que o esporte cresce em número de fãs, os lutadores percebem que eles são, também, um recurso que pode se valorizar.

A longo prazo, todo mundo ganha.

  • Davi Sean Ribeiro

    Puro mimimi de lutadores mediano, tentando de alguma forma tirar dinheiro da organização, é obvio que existe algum monopólio, estratégia com que faça lutadores ficarem de uma certa forma mais preso a organização mas nada fora do normal…. O que ta cansando é em toda entrevista Aldo reclamar do quanto ganha por luta lkkkkkk um outro tópico

  • Matheus

    Pq o Wand ñ entrou nessa?

    • Malk Suruhito

      Por que ele levou mais de 10 milhões do UFC, mesmo nunca estando entre os atletas do topo do ranking e ainda escolhendo os adversários?

      • will

        Verdade! Só bombou no Pride por razões óbvias!

  • mazzaropi

    Existem leis Antitrust severas para o combate de monopólios e existem 2 medidas efetivas que os lutadores podem fazer… Segue-se:

    1. Tornar público os contratos e pedir ajuda aos advogados especialistas para identifiquem situações de monopólios no contrato, por exemplo, quando se tem uma cláusula que evidencia somente os benefícios da empresa, mas negligenciam oportunidades para os atletas, sim, já temos uma situação comprometedora… Então, a dicotômica situação do lutador em decidir se assina com o evento porque precisa trabalhar ou a decisão de ficar um longo período sem lutar e passar necessidades como a grande maioria passa… (Só tornar público um contrato se não houver cláusulas de sigilo ou pagarás caro, porque o jurídico segue leis… )

    2. Reunir lutadores, preparadores físicos, técnicos, ou seja, todos os envolvidos no MMA moderno e formarem uma associação, sindicato, o que seja… Só assim existirá força na única coisa que os eventos temem… Perder os atletas para outros eventos!

    Pensamento Subversivo.

    Vários atletas de nome se unem por uma grande causa, pagam suas rescisões contratuais e dão um pé na bunda do maior evento do mundo para fazer história no Bellator.

    Mantenha Rampage, Cung Lee, Wanderlei Silva, Randy Couture, Tim Sýlvia, Tank Abbot (risos) no Bellator e veja se os holofotes não irão brilhar… Claro que vão! O evento vive por causa dos atletas e só os atletas não enxergaram isso ainda.

    • mazzaropi

      Todo mundo quer ver Kron Gracie lutar… Porque ele não está no UFC?

      Pague o que o garoto quer… Vai ter muita gente pra vê-lo lutar.

      Efetiva 1, 2 e 3 divisão do MMA, siga o sistema de rankeamento coerentemente, dê visibilidade pros atletas crescerem, oportunize o sucesso, veja que tudo pode mudar… Tem que acreditar!

      Cadê o Wand porra?

      Wand é o cara pra falar, todos criticam, mas ele tem coragem de dizer muita coisa que nunca ninguém disse… O UFC adoraria trazê-lo de volta, claro! Ele é polêmico, polêmico trás dinheiro…

      • Malk Suruhito

        Wand tá banido de lutar “eternamente” nos EUA por conta de ter fugido do dopping. Ainda está sob contrato do UFC, mas vai fazer o que? Lutar só na Asia e arrumar um conflito com as Comissões Atléticas Americanas, incluso as que ainda não autorizam MMA no estado natal (como Nova York)?

        • mazzaropi

          Não quis dizer lutando mestre Malk. Ter a presença do Wand nos eventos, seja Bellator ou UFC só acrescenta no show…

          • Malk Suruhito

            Qual a lógica de se usar um lutador banido para promover um evento? Que tal trazer o Lance Armstrong para promover provas de ciclismo?

  • DIEGO_TT

    Acho que esse levante só vai ter resultado msm quando lutadores de renome que estão dentro do UFC derem a cara a tapa. Enquanto uns caras que foram demitidos ou ñ tiveram mt sucesso forem os únicos, o UFC fica confortável pra se defender

  • Danilo Lopes

    Eu acho válido que os atletas se mexam. UFC de fato paga pouco e explora muito. Os aumentos de salário não foram proporcionais ao aumento do lucro da empresa e isso, pra qualquer classe de trabalhadores, vale uma bela luta.

    • Malk Suruhito

      Só que o “pouco” que ele paga é mais do que qualquer uma outra. E depende da qualidade do atleta também, independente se ele é campeão ou mesmo rankeado. Perguntem ao Joe Lauzon, detentor de 11 premiações em lutas no UFC (recordista) se ele tem algo a reclamar dos seus ganhos com a empresa. MMA é um esporte PROFISSIONAL e capitalista, onde o mérito comanda (seja dentro do Oito mesmo sem muito carisma, como é o José Aldo, seja vendendo muito com o que se fala mais do que com o que se faz, como Sonnen).
      Quando a empresa honrava todos os seus pagamentos e estava a beira da concordata com mais de U$ 60 milhões no vermelho bancado pelos irmãos Ferttita, será que algum atleta se ofereceu para lutar de graça para ajudar a empresa? Duvido.

      • will

        Nós vivemos numa geração de pessoas que não assumem a responsabilidade pelos seus atos. O lutador assina um contrato e depois se faz de vítima como se tivesse sido enganado. Total falta de ética.

        • Malk Suruhito

          Por isso mesmo os jogadores de Futebol brasileiros são pouco valorizados em relação aos dos nossos vizinhos latinos. Assinam a transferência e com menos de um ano ficam arrumando motivos para voltar ao país (por melhor que seja o clube) e o clube que o vendeu ainda tenta pegar ele emprestado a custo zero.

  • Danilo Lopes

    Lembrando que hoje o Aldo deu uma declaração reclamando do UFC também.

    • Malk Suruhito

      Aldo reclamou que recebe menos que lutadores que nem mesmo são campeões (como HW)… mas ele também consegue vender mais que os lutadores de meio de tabela (infelizmente) e quanto tentou turbinar isso foi aquela coisa forçada contra o Chad Mendez no Maraca. Aldo é um cara que conquistou tudo que tem até hoje pelos seus resultados dentro do ringue, porque se fosse por marketing pessoal, infelizmente ele tava lascado.

  • Fabricio Alves

    Os detalhes do processo estão no link:

    http://www.cohenmilstein.com/media/pnc/5/media.1675.pdf

    Da pra ver claramente que o objetivo final dos Fertitta é o monopólio.

  • Marcelo Silveira

    É processo de ex funcionários. Normal e pelo q acompanho os contatos do bellator sao rigorosos tb

  • Renan

    Não tinha pescado esse assunto ainda. Ótimo texto, parabens!

  • will

    O cidadão assina um contrato e depois quer processar seu empregador por monopólio? É isso mesmo? Ele não lê o contrato? Não está escrito lá o valor e o tempo de serviço? Por exemplo, admiro muito o Aldo e realmente acho que ele merece ganhar mais, mas ele assinou um contrato e tem que honrar com combinado sem reclamar! Ninguém obriga um lutador a assinar com o UFC. Eles assinam por livre e espontânea vontade e têm que arcar com as consequências dos seus atos. O erro é do próprio lutador em aceitar a oferta do UFC.

Tags: , ,