Receita do Cappelli: as minúcias técnicas do 181

Fernando Cappelli | 08/12/2014 às 20:51

Dois lutadores com abordagens ofensivas diretas e outro combate definido nas ‘delícias’ da margem interpretativa.

Menos espontâneo e mais calculista que o primeiro encontro, a revanche entre Robbie Lawler e Johny Hendricks no UFC 181 ainda vai dar muito pano pra manga e render teorias mirabolantes.

Já que nossa intenção aqui (ufa!) é falar mais sobre características técnicas, vamos lá:

Igual, mas diferente

NearDisgustingAtlanticridleyturtleCanhoto, Lawler tem como marca registrada os contragolpes, que geralmente começam em cruzados com o punho da frente (direito), por cima dos jabs de esquerda dos adversários.

Desta vez, Ruthless adotou muito mais o papel de agressor, e o desafio ganhou pontos diferenciados com relação ao primeiro.

Conhecido pelo senso (quase) comum do ‘wrestler mão pesada’, Hendricks novamente mostrou dinâmica renovada, desenvolveu jogo mais calcado no volume, visualizando brechas e as aproveitando no meio da chuva de socos e chutes, como tem feito há pelo menos três combates.

O barbudo usou diversas vezes o recurso do ‘segurar/puxar e bater’, tão marginalizado em algumas modalidades tradicionais, mas tão peculiar no MMA.

O interessante nos momentos de clinch é que o primeiro passo de Lawler era laçar o braço esquerdo de Hendricks, para anular sua principal fonte de força e ter de engolir socos no dirty boxing.

Muito se falou que o nível de wrestling seria um tipo de fiel da balança neste tira-teima. Hendricks levou o adversário ao solo cinco vezes, mas não conseguiu cravar vantagens significativas em seguida.

Aí podemos abrigar o fato de que há mesmo uma tendência da arbitragem em prezar mais o conceito da transição.

Ou seja, uma boa queda será apenas metade do caminho, que deve ser preenchido com o que acontece posteriormente, seja com golpes traumáticos ou tentativas de submissão.

Níveis

ZestyScratchyCreatureLawler mixou muitos golpes ao tronco do oponente desta vez e não visou apenas a cabeça, como no primeiro combate.

Outro fato marcante foi o trabalho com a perna da frente (da posição de luta), em rápidos chutes frontais e médios circulares para condicionar o adversário a defender o tronco.

Aliás, foi justamente a mudança constante de altura que ajudou a acertar um belo chute frontal no queixo do adversário.

Hendricks descontou com diversos setups de socos finalizados com chutes nas pernas, ao melhor estilo kickboxing holandês.

Lawler engoliu várias lambadas na coxa, e o resultado poderia ser diferente se o adversário fosse um chutador mais incisivo.

Anthony Pettis x Gilbert Melendez

Sinceramente, esperava Melendez menos afoito e um pouco mais cerebral. Com o panorama ao estilo ‘fungando no cangote’ do desafiante, Pettis mostrou refinamento no mais alto nível e novos elementos para a famosa versatilidade.

Melendez colocou pressão desde o começo na tentativa de aproveitar a suposta falta de ritmo do campeão, que não atuava desde agosto do ano passado por lesão no joelho.

Cuspida e escarrada desde o primeiro segundo, a estratégia de ‘agressor extremo’ do desafiante foi tomar a iniciativa com dois ou três socos e abusar dos clinches.

Nesta situação, tentaria fazê-lo se cansar, dispararia combos rápidos de socos, para depois comprimi-lo novamente contra as grades.

A fórmula mais direta para deter um kicker habilidoso é não dar espaços para ele usar as pernas. Simples e óbvio assim. Pettis mostrou frieza ao ser acuado, com recursos sólidos de controle no grappling.

Solto

WastefulMadEggAlém de manter a guarda baixa demais nos momentos de longa distância, Melendez é metódico no boxe. Quando se manda para a ofensiva, quase sempre inicia sequências um/dois, que variam entre jabs e diretos ou jabs e cruzados.

Pettis logo percebeu isso e começou a ficar mais confortável nos contragolpes, tocando algumas vezes o rosto de Melendez sem grande esforço.

Mas neutralização era palavra de ordem para o desafiante. Ele entrou com a cabeça baixa demais nos dois primeiros clinches do segundo assalto.

Anthony Pettis Submits Gilbert Melendez by Guillotine Chocke - UFC 181Não chega a ser propriamente um erro técnico dependendo da ocasião, mas adversários atentos podem capitalizar vantagens em cima disso. Inicialmente, Pettis manteve a postura ereta contra a grade, em pura ação defensiva.

No momento seguinte de infight, o campeão passou a responder com golpes em alta velocidade na curta distância. Pettis esquivou de um direto e jogou um overhand em contragolpe com a projeção do tronco no golpe.

O soco atingiu em cheio Melendez, que mais uma vez voou para as pernas, já ‘amolecido’ por ter sido atingido (se você pratica alguma modalidade de contato sabe a sensação nada agradável de abaixar repentinamente a cabeça após receber um golpe mais duro).

Aí o campeão deu o bote e liquidou a fatura na guilhotina.

Pepitas

Mesmo dentro de um combate calcado no infight e que o obrigou a ser mais defensivo do que o de costume, Pettis deu três lampejos de ‘Showtime’ quando criou espaço para executar os famosos chutes.

1 – Fintou com o corpo todo para um lado e habilmente soltou um chute alto na direção contrária, que parou na guarda de Melendez
2 – Disparou um rápido giratório 180º, ao melhor estilo ushirogueri (no caratê), ou duit tchagui (no taekwondo) que atingiu o plexo
3 – Mandou um chute frontal que explodiu no queixo de Melendez

  • Luiz Guilherme

    Essa tendencia da arbritagem q vc citou ta vindo forte mesmo.

    Sobre o pettis ele é foda demais mesmo. Acho q hj numa eventual luta com Aldo ele entraria com um pouco de favoritismo, o q um tempo atrás era ao contrário

    • Renan

      Belo texto,Cappelli!
      Eu acho meio menosprezar o aldo…eu entendo que a última apresentação do Pettis foi ótima,mas a última do Aldo tbm foi…eu não vejo o Pettis favorito não..vejo 50 pra cada lado…e o pettis tem vantagem do tamanho….e eu ainda acho o Aldo nos leves meio injusto,os caras são muito maiores que ele…eu não sou muito a favor dele ir pra lá…acredito que logo mais venha um “Weidman dos penas” e dará uma luta mais dura que o Mendes….nao quero dizer que possa vencer o aldo,mas desafiantes sempre aparecem por aí,pra mim é aldo nos penas…caso suba..só pra super luta contra o pettis,ficar nos leves eu acho que ele fica muito desfavorecido com a envergadura é tamanho dos outros lutadores.

  • Wilker Fonseca

    Sempre excelente!

  • Matheus

    Adoro os textos do Cappelli. Mt bem explicado!

  • Diego Lenon

    Capeli acha q o Pettis seria favorito contra o Aldo e o Lawler contra o Mcdonalds?

    • Fernando Cappelli

      Sinucão de bico. Acho que o panorama pra Aldo x Pettis é bem 50/50. Já o MacDonald é um cara extremamente tático e que já provou que sabe lidar com lutadores agressivos tipo o Lawler. Dois lutões, tomara que aconteçam em breve.

      abs!

  • Muito bom, Capelli.

    Por um momento achei que o Lawler entregaria graças ao low kicks do Hendricks, realmente, se ele tivesse um pouco mais de experiência em chutes o careca tava perdido. E por falar em chutes, o giratório do Pettis foi bem bonito, se tivesse um pouco mais de espaço, transferiria melhor o peso do corpo e seria um golpe bem mais contundente.

    • Jonas Angelo

      To me rendendo ao Showtime.

      • Hehehe.. Eu tb, viu, Jonas.

      • Puts, acabou de sair que o Pettis pegou 6 meses de suspensão caso os exames realmente mostrem uma lesão em sua mão.

        Nurmogomedov twitou: Cmon, is this guy mad of glass?

        • Jonas Angelo

          huahuahua. Tá brincando com fogo o rapaz…

  • Juan

    Análise muito interessante. Parabéns!

  • Jonas Angelo

    Demais essa coluna!

  • Ricardo Aguiar

    Ótima análise, novamente.
    Parabéns Fernando Cappelli!

  • Gefferson Nesta

    O que realmente me surpreendeu ai foi Pettis ganhar do Melendez e da forma que foi, de resto nada me surpreendeu.

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