Cung Le e o alto risco da autorregulamentação

Alexandre Matos | 05/12/2014 às 14:48
Além da surra, a confusão

Além da surra, a confusão

Um assunto bastante debatido neste segundo semestre, inclusive aqui no Sexto Round, foi a polêmica da forma física de Cung Le, peso médio quarentão do UFC que apareceu numa hoje famosa foto com o físico “rasgado” durante a preparação para seu combate contra Michael Bisping.

Como o duelo estava marcado para Macau, na China, onde não há comissão atlética regulando o MMA, cresceu a suspeita que Le estaria fazendo uso de esteroides anabolizantes.

O vietnamita negou, alegou que foi efeito de luz na foto.

Porém, o que se viu quando ele desembarcou em Macau foi a confirmação que realmente o lutador estava mais vascularizado e com maior densidade e definição muscular do que nos combates anteriores que fez pelo UFC.

Durante a luta, o gás de Le durou pouco (quanto maior o músculo, maior o gasto energético) e Bisping o nocauteou no quarto round depois de deformar o rosto do representante da AKA.

Após a luta, para surpresa de ninguém, Le foi flagrado no antidoping que a própria área de regulação do UFC realiza onde não há um órgão oficial responsável.

O diagnóstico: excesso de hormônio do crescimento, que causa exatamente o efeito que Le apresentava nas fotos antes do evento.

Famigerado shape pré-luta

Famigerado shape pré-luta

Rapidamente o UFC anunciou a suspensão do lutador por um ano e uma enxurrada de comentários jorrou nas redes sociais, entre jornalistas, atletas e fãs, comemorando o fato de mais um trapaceiro ter sido pego de calça arriada (no sentido figurado, por favor).

Foi aí que meio mundo (ou mais) se surpreendeu de verdade. Cerca de um mês depois de suspender Cung Le, o UFC voltou atrás.

O motivo? De acordo com a organização, um “conselho médico disse que o GH encontrado acima do limite no teste de Le não seria suficiente por si só para provar que ele tomou drogas para melhorar o desempenho”.

O comunicado do UFC foi além: “Le requisitou uma apelação da suspensão, mas, baseado na falta de resultados conclusivos do laboratório, o UFC resolveu revogar imediatamente a suspensão”.

O UFC não se desculpou com o lutador.

Pouco mais de um mês depois, Cung Le diz que vai pedir liberação de seu contrato com o UFC. A justificativa:

Eu simplesmente prefiro não fazer mais parte do UFC. Prefiro não me esforçar em algo que eu não acredito mais – disse o ator de Tekken para o podcast de Josh Gross.”

O Hong Kong Functional Medical Testing Center e o Quest Diagnostics do Kansas, laboratórios usados para testar Cung Le, não são credenciados pela WADA, a Agência Mundial Antidoping.

Testes para detectar GH exógeno e EPO são sofisticados e requerem qualificação do laboratório em questão, o que não parece ter sido o caso dos utilizados pelo UFC.

O pior nem foi utilizar laboratórios inadequados. A confusão deixou claro que o UFC precisa de mais gente qualificada em seus quadros para lidar com autorregulamentação em exames sofisticados assim.

Alguém que ao menos saiba interpretar corretamente os dados e, mais importante do que isso, alguém que saiba selecionar melhor os laboratórios.

Vários indícios apontaram para o doping de Cung Le, mas o UFC não foi capaz de lidar com o assunto.

É bem capaz de o vietnamita ter se dopado mesmo, mas agora ele pode sair como vítima da história. E ainda ameaçou se bandear para a concorrência:

Se eu lutasse por alguém, seria por Scott Coker. Eu não gostaria mais de lutar no UFC depois do que aconteceu.”

A campanha contra o doping, por mais que seja uma guerra invencível, não pode ser abandonada. A autorregulamentação em locais onde não existam comissões atléticas ou órgãos semelhantes é importante.

Mas, se for feita de qualquer jeito, pode denegrir a imagem da organização, dos atletas e, por tabela, de todo o esporte.

  • Luiz Guilherme

    ele ta aproveitando essa história para cavar a vaga no bellator.

    papelão do UFC, da esse mole q deu nos teste dele (com relação ao laboratório e o forma de teste)

    • Victor Augusto

      Já vejo um Cung Le x Tito Ortiz HAHAHAHH

      • hahahaha mas o Le ficaria um balãozinho de 93 quilos, ele é tampinha.

    • Também acho que ele aproveitou a situação pra cavar uma vaga no Bellator. Acho bizarro uma organização do porte do UFC dar um mole amador desse.

      • Rafa FriAll

        Ou One FC…lá ele seria deus.

  • Eduardo Anselmo

    falei exatamente o que está na matéria… gh e epo exigem exames muito diferenciados, coisa que o ufc não usa, o ufc está tendencioso, e acho justo o cara não querer fazer parte… a realidade é que todos os lutadores usam, mas ao contrário de antigamente, quando ufc fingia não ver, fazendo um exame de urina bem mais ou menos, agora o ufc escolhe que pode ou não usar… lamentável

    • A Comissão de Nevada já consegue fazer este tipo de exame porque se associaram com um laboratório que faz. O UFC tinha que fazer o mesmo.

  • Matheus

    Uma coisa, se os exames são inconclusivos pra provar que ele tomou, tb são pra provar que ele estava limpo. E na boa, é difícil acreditar

    • Então, eu também penso que nem você. Duvido que o Le estivesse limpo, mas o UFC deu um mole tremendo.

    • Thiago Marques

      Todo indivíduo deve gozar de presunção de inocência, se o UFC falhou [hipótese!] em levantar provas contra o mesmo, então mesmo contra as “evidências” o Lee estava “limpo”.

  • Diego Cavera

    Alexander Shlemenko x Cung Le, seria interessante pro Bellator.

    • Chinela cantaria doída.

    • Rafa FriAll

      Manhoef e o Schling (algo assim) também.

  • Yuri

    Autorregulamentação é uma das coisas mais bizarras que existem no UFC e o motivo está explícito no próprio nome. Como alguém que tem interesses claros $$$ no evento seria capaz de ser um regulador imparcial? É ridículo isso.

    O UFC tinha é que deixar de palhaçada logo e fechar com a WADA, ou qualquer que seja, pra regular seus eventos. Isso sim poderia ser chamado regulamentação.

    • Isso você tem razão, a autorregulamentação deixa um campo bem amplo pra atuação de interesses escusos. Nós temos que torcer pra correr tudo certo e pra nenhum medalhão nunca lutar num lugar sem órgão regulador.

    • Thiago Marques

      A autorregulação funciona bem, desde que seja feita em conjunto pelos agentes que concorrem num determinado setor. Aderir à WADA, que é uma instituição privada que precisa zelar pela sua reputação, diferente do que ocorre com o Estado, faria mesmo muito bem aos eventos de MMA. A questão é que o custo pode inviabilizar a realização dos eventos de menor porte.

  • Eduardo Sanguinetti

    Na minha opinião, a unica maneira de realmente se banir o doping do MMA é com a implementação de testes surpresas nos lutadores, ou então cobrar exames mensais.. ou algo assim.
    Inclusive porque no MMA os anabolizangtes são mais efetivos nos períodos de treino e preparação para a luta ( evitando lesões e otimizando os treinamentos), do que no próprio combate em si.

    • Sem dúvida o uso é forte fora de competição. Algumas comissões estão evoluindo. O MMA ainda tá muito longe de chegar num nível aceitável nessa guerra, mas algumas coisas estão andando.

  • Fernando

    Seria tão caro assim testar seus lutadores uma vez por mês?? Exames regulares!

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