Confiança: o mantra de Jones, Weidman e McGregor

Renato Rebelo | 18/11/2014 às 22:41
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McEnroe nos tempos áureos

John McEnroe, vencedor de sete Grand Slams e melhor tenista do mundo entre 1981 e 1984, costumava dizer que, em seu tempo, a diferença técnica que separava o número um do número 100 era mínima ou nula.

Para o americano, o nivelamento era tamanho que fatores psicológicos diferem o joio do trigo nas quadras.

Em miúdos, a capacidade de atuar sob pressão, a tenacidade no momento de adversidade, o “QI de jogo” – raciocínio para resolver problemas impostos por diferentes rivais-, autoestima e, principalmente, o “drive”  emocional podem pesar mais que forehands e backhands poderosos.

Dificilmente, críticos de basquete apontarão Michael Jordan como o mais técnico shooting guard (ala-armador) de todos os tempos.

O mesmo serve para Muhammad Ali entre os pesos pesados no boxe.

Mas por que a dupla transcendeu tão absurdamente o alcance de seus próprios nichos?

Dennis Rodman – parceiro de Chicago Bulls– costumava classificar Jordan como o homem mais confiante já visto.

O menino negro de Louisville, Kentucky, então, dispensa comentários.

O bicho era tão bocudo que a carga promocional/midiática dispensada sobre o lombo dos rivais era tão desproporcional que muitos, favoritos nas bolsas de apostas e superiores no papel, desmoronavam feito castelo de areia antes mesmo do gongo inicial.

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Coletiva

Atravessando a ponte para o MMA – e, claro, citando exemplos bem menos agudos do que dois dos maiores da história do esporte mundial-, noto que três expoentes do UFC, mesmo a um passo das lutas mais duras de suas carreiras, emanam fé inabalável.

É claro que podemos debater, caso a caso, se toda essa crença no próprio taco é orgânica ou manufaturada – mas não dá pra negar que Chris Weidman, Jon Jones e Conor McGregor transmitem veracidade.

Primeiro, o campeão do peso médio, que pega Vitor Belfort no UFC 184 de 28 de fevereiro:

Eu espero um Vitor Belfort ainda melhor. Estou preparado para um Vitor que ninguém viu, um cara que não tem medo que começar forte e que não se preocupe em ficar cansado. E é esse Vitor que vou dominar complemente. Se eu não pulverizá-lo, dominá-lo completamente, será uma derrota aos meus olhos. Ele é um trapaceiro e quero destruí-lo”, mandou na coletiva de imprensa com 14 estrelas do UFC que rolou ontem em Las Vegas.

Depois, foi a vez de Jon Jones ignorar o perigo que lhe cerca (leia-se pelotão de fuzilamento formado por Daniel Cormier, Alexander Gustafsson e Anthony Johnson):

Depois dessas duas lutas (Cormier e o vencedor de Gustafsson x Johnson), vou considerar a divisão como limpa e começarei a pensar em superlutas. Tenho treinado com pesos pesados por anos e sei como é a coisa. Acho que iria muito bem contra eles, por isso, esse seria o próximo capítulo… Definitivamente, tem muitos pesos pesados que eu bateria… Um cara como Werdum eu lutaria todo dia. O dia todo se fosse necessário”, sugeriu Bones.

Pra fechar, Conor McGregor, sem medo das palavras voltarem para lhe assombrar no futuro, fez pouco caso do desafio em mãos (Dennis Siver, em janeiro) e já projetou a queda do atual campeão da categoria:

É uma luta mal casada (a com o kickboxer alemão). Já estou olhando através dele sim, porque vou atravessá-lo, pegar o cheque e partir para a próxima imediatamente. 2015 é meu ano. Sei que muitos pesos penas estão reclamando, chorando e chiando. Eles não precisam gostar – podem até odiar. Mas serão todos forçados a aceitar. Estou muito confiante que vou desligar o José Aldo de forma espetacular e tomar conta da categoria”, disse o Notório.

Todos os rivais (Cormier, Siver e Belfort) preferiram responder de forma diplomática, sem causar grande rebuliço.

Só o brasileiro, frasista de carteirinha, devolveu um cutucão:

Acredito que arrogância precisa de propaganda. Confiança fala por si só. Estou preparado”.

Eu, humildemente, só tenho uma certeza: 2015 será do caralho!

Abraços.

  • Natan Machado Fauzi

    A confiança do Belfort tá aguçando meus 10% de confiança nele, imagina que loco ele ganhando do weidman, já que é MMA vamos poder esperar de tudo.

    • William Amaral

      Imagina Belfort vencendo e enfrentando Anderson Silva, na Final do TUF, pelo cinturão em um estádio de futebol. Seria a “2ª Grande Guerra” do MMA no Brasil. A 1ª já foi protagonizada pelos dois.

      • Renato Rebelo

        Aí sim, hein!

  • Dênnys Dias

    Bom,a confiança eh o essencial de qualquer esporte,e principalmente,para os esportes individuais.Mas tem que tomar cuidado com o excesso dela…como o Spider na primeira luta dele com o Weidman.
    Falando desse programa/anuncio do UFC,o mais engraçado foi um video de bastidor que rolou com os caras esperando pra entrar nessa festa e o McGregor “ensinando” uns golpes pro Anderson,Lyoto,Jones,Gustafsson e os caras olhando tipo:quem eh esse menino fazendo graça?rsrs…

    • Lucas Natan

      Lembra o nome desse vídeo? Quero ver…

  • Rodrigo Tannuri

    Os três realmente são bem confiantes. Eu citaria a Ronda também. Mas é aquilo, Jones e McGregor atuam mais como personagens, despertam mais a atenção do público. Weidman está mostrando do que é capaz no ringue, verbalmente também, porém, no quesito carisma, ainda está atrás. Essa picuinha envolvendo o TRT meio que o fez ter um papel de chato. Acredito que todos vençam. Em um nível como esse, tal postura é fundamental e, dependendo do adversário, intimida sim. Você não precisa ser provocador ao extremo, mas também não é legal ser tão modesto, simplista.

  • Bart Simpsons

    Sinceramente, não gosto de nenhum desses lutadores citados acima como “auto confiantes” e de seus adversários, sou fã apenas do gordinho da LHW, Daniel Cormier. Bom, quanto as frases, preferi muito mais a de Belfort. Eu também concordo com ele, confiança fala por si só. José Aldo, Demetrious Johnson, Cain Velasquez, para mim, os melhores peso por peso da atualidade, tecnicamente falando, transpiram auto confiança desde seus comentários, sem precisar atacar o oponente de forma gratuita até o momento da encarada final, já em cima do octógono, enquanto o juiz manda seus últimos comandos (com exceção de José Aldo, que prefere não fixar os olhos no adversário e participar dessa “guerra de olhares”.
    Enfim, não vejo esses comentários como extrema confiança, vejo mais como uma forma que eles tem de elevar sua propria confiança que não está tão alta assim. Sabe quando você grita pra você mesmo na frente do espelho “Eu posso, eu sou capaz”? É mais ou menos assim que funciona esse bla bla bla que, uma boa forma de auto motivação, de tentar mostrar para o adversário uma coisa que você mesmo não está sentido naquele momento. Posso estar enganado é claro, mas é assim que eu costumo olhar.

    • Nelson Junior Ticaum

      Falando em guerra de olhares… Sempre lembro do Fedor… O bicho entrava no ringue como alguem na fila do banco… mas era só soar o gongo que a coisa mudava… O mesmo acontece com o Aldo… o gongo soa e o bicho entra em modo de batalha… hehhe

      • Renato Rebelo

        Esse, talvez, seja o maior indício de confiança: a calma durante a tempestade.

      • Bart Simpsons

        O Ronaldo Jacaré quando entra no cage me lembra muito do Fedor também, aquele olhar compenetrado, sereno, que não demonstra nenhuma expressão, mesmo quando tá frente a frente encarando o adversário já dentro do ringue.
        O Aldo é foda. Ele fica olhando pra baixo, de olho nas pernas do cara, já pensando “vou descer o low kick nessa perna até esse ‘caboco’ chiar”… heueheuheuhuehueheuehu

    • will

      Confiança se conquista com muito trabalho e talento. Todo o resto é “auto-ajuda”. O McGregor vai escrever o livro “O Segredo do Karatê”! O Renato saí correndo pra comprar.

      • Bart Simpsons

        kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

  • Thiago Kuhl

    Pra mim Jordan tá mais para GSP, mas você tem razão, confiança que não cega é quase imbatível

  • Emelianenko

    “ 2015 será do caralho ” , Deus lhe ouça e tomare que a dona bruxa não dê as caras em 2015 .

  • Jonas Angelo

    Acho que Spider era o cara mais autoconfiante do MMA, mas como a autoconfiança é uma faca de dois gumes, ele encontrou pelo caminho o Psicólogo Weidman “fortaleza de confiança”, e sucumbiu. Sim, hoje Weidman é uma fortaleza, e esse é um dos seus maiores trunfos, mas não acho que tal confiança vá levá-lo tão longe, seu wrestling talvez sim.

    Já Jones tem um potencial de luta muito maior que Weidman, e talvez seja daí que sua confiança brota: de sua capacidade. No caso de Weidman, a confiança vem fundamentalmente do seu preparo mental, de Jones ela vem de sua segurança em seu absolutismo comprovado dentro do cage.

    Já o Mcgregor acho que é mais “autoarrogância” hehe. Lógico que ele tem uma capacidade técnica boa, mas a confiança dele vem mais da sua personalidade arrogante e prepotente, do que de um preparo mental ou monstruosidade de batalha.

    Cada um joga com as armas que tem, mas como disse o Bart, Aldo e Cain são monstros da autoconfiança, e eu incluo nessa o menino prodígio Rory “Ares” Mcdonald, que tem uma concentração, jogo de olhares e fixação, e autoconfiança absurdas.

    • Isaac Carvalho

      Sinceramente acho que o Weidman não tem tanta confiança assim, tanto que se observar na primeira luta com o Spider ele já estava com ar de perdedor no segundo round sem o Anderson acertar ele, naquela luta o Anderson poderia ter ganhado se não tivesse brincado tanto.

      • Jonas Angelo

        Acho que ele tem um jogo mental bom, um bom preparo emocional, e isso o fortalece, o traz confiança. Mas a partir do momento em que alguém quebrar seu jogo, acredito que essa confiança vai se esvair.

    • Bart Simpsons

      Bem lembrado, Jonas. O Rory McDonald tb é uma fortaleza de auto confiança, mas assim, eu me limitei mais a falar dos campeões. Se formos citar lutadores que não são os campeões, teria uma infinidade de fortalezas de auto confiança, alguns exemplos seria o Jacaré, o Mark Hunt, o Khabib Nurmagomedov, e por aí vai.
      Aaaaah, em relação aos campeões, esqueci de citar o lutador que talvez tenha a maior auto confiança de todo o ultimate, na verdade é uma lutadora, a campeã dos galos, Ronda Rousey. Essa é um poço de auto confiança, e assim como você falou de Jon Jones, auto confiança essa conquistada através de seus combates, de resultados desde o judô (sendo a primeira mulher a conseguir uma medalha para os EUA no judô) até agora ainda com seu cartel perfeito no MMA.

  • Muito bom, Renato!
    Minha esposa ganhou um cãozinho de aniversário, o demônio de quatro patas, sobe no sofá, rosna para todos, não permite nem que faça carinho nele e se cair uma folha da árvore ele passa o dia todo a latir.
    Depois de ler o livro de Cesar Milan (o encantador de cães), aprendi que no caso dele eu teria que ser seu general 24 horas por dia, e um general não grita, não bate, ele simplesmente dá ordens com o olhar e tem que ter certeza que sua ordem será cumprida. Hoje a fera está domada, mostro a ele a hora de comer, brincar e de ficar dentro da casinha enquanto limpo o quintal. Aprendi também que não posso hesitar ou pensar em dar uma passo para trás que ele vem para cima querendo me voltar a cabo.

    Vejo isso com Anderson, Jones e Weidman, mas sinceramente, Diaz foi com o rabo entre as pernas diante o Spider, Mcgregor late, late e late. Belfort usa o discurso como desafiante o tempo todo, como se já soubesse, lá dentro, que ele tem que provar algo para alguém superior (notou o superior?).

    O único que estou mesmo na dúvida é do DC, mas não é a luta que mais quero ver, quero é acompanhar todo o próximo ano que realmente será phoda!

    Agora vou lá ouvir o Podcast..rs

    • Renato Rebelo

      Hahaha força com o cão, irmão!

  • Adivinhe quem precisa mostrar que é lutador…rs..

    Vamos jogar, Silvio… Rodando, rodando…kk

    • Jonas Angelo

      hahahahahhahahahaha, incrível! pensei a mesma coisa quando vi essa foto. Parece aquela criança da turma querendo chamar a atenção: “olha como eu sou bom!”.

    • Renato Rebelo

      Hhahaha

  • Eduardo Sanguinetti

    Excelente comparação e analogia da frase do McEnroe com o MMA. E esta confiança se estende para todos os esportes, principalmente para os individuais. Ainda utilizando-se do tenis, vale a pena reparar como o Nadal se prepara (leia-se tiques norvosos e TOC) antes de sacar. Ele faz este ritual, pois isso deixa ele mais confiante para o ponto seguinte. Acho que o mesmo serve para os lutadores que entram sempre com a mesma música, pois este processo acaba deixando os lutadores mais confiantes para a luta.
    O Fato é que a confiança é um dos pilares mais importantes para o alcance dos resultados. É ela que vai manter o lutador dentro da estratégia quando a luta esta complicada, e também vai fazer com que ele nunca “desista” da luta enquanto o gongo final ainda não tocou.
    Porém umas ressalvas, excesso de confiança as vezes atrapalha e sozinha não vence luta. Então não é porque o Irlandes é um poço de certeza e convicção que ele vai bater o Aldo. Já os outros dois estão com muita moral e podem falar o que quiserem hehehe. Mas o Vitor também esta com muita moral e confiança. O problema é que esta sem os durateston, mas ainda assim acredito tenha algumas boas chances de levar essa cinta pra casa.

    • Renato Rebelo

      Belo complemente, meu amigo!

  • will

    O Lamas falou tudo. O UFC protege o McGregor. Lamas venceria fácil e no 1 round. O queridinho da imprensa só impressiona fora do octógono. Lá dentro ele mia baixinho.

  • Raphael Seiji

    Texto fodido, analogia excelente, parabéns Renato. Assim como acredito que existe uma linha tênue entre confiança e soberba (vide AS x CW I), também acredito que a confiança pode ser muitas vezes apenas um discurso e não ser exercida em termos práticos. Um exemplo: McGregor. Em que pese o irlandês ter ganho todos combates no UFC, é notório que está aquém dos cabeças da categoria. O discurso, porém não se altera (talvez motivado pelo atual hype sobre ele).

    Portanto, entendo que a confiança só deixa de ser um mero discurso e passa ser um aspecto intrínseco a determinado lutador, quando existe um quadro de superioridade (e talvez de grande equivalência) frente aos demais lutadores da categoria.

    • Renato Rebelo

      Brigadão, irmão!

  • Gefferson Nesta

    Ótimo texto, faz refletir sobre o quanto esse cara é engraçado,
    acredito que ele possa sim fazer barulho na categoria, não pelas qualidades como lutador e sim pela facilidade em se comunicar e se auto promover, vejo ele fazendo barulho só dessa maneira, assim como Sonnen fez, mas vai morrer na praia da mesma maneira apesar de ser um bom lutador…

  • gero

    A “confiança” dura até que acontece um nocaute. Lembro do Anderson Silva, mais confiante que ele não havia. Ele era tão confiante que quando perguntavam pra ele quem poderia ser seu adversário ideal, ele dizia que teria de ser o seu sósia. Quando veio a luta contra o Weidman, eu consegui ver que ele estava com medo, no primeiro para o segundo rounda, dava para ver que ele estava agitado, nervoso, com medo. Veio o nocaute e aquele Anderson confiante foi embora. Hoje existe um Anderson Silva mais humilde, mais consciente que existem lutadores muito melhores do que ele. Hoje ele é um mais um na multidão. Por isso eu digo que a confiança dura, enquanto não vier o primeiro nocaute.

    • Renato Rebelo

      Essa é uma boa teoria. Como funciona o psicológico de alguém que era imbatível e caiu do cavalo? Vale estudo

    • Jonas Angelo

      Há controvérsias meu caro, muitas por sinal.

  • Cristiano

    Todos do sexto round escrevem muito bem, mas os textos do Renato têm um diferencial que eu não sei identificar muito bem qual é. São muito bons. Parabéns.

    • Renato Rebelo

      Os erros de português? hahahaha Brincadeira à parte, brigadão pela gentiliza, meu bom. ABração.

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