Receita do Cappelli: Werdum e o perrengue contra Hunt

Fernando Cappelli | 17/11/2014 às 20:41

Um campeão do ADCC vence outro, do K-1, por nocaute. Isso é o MMA moderno, meus camaradas!

Fabrício Werdum e Mark Hunt saíram na mão pelo cinturão interino dos pesados no primeiro UFC México. Abreviado pela via rápida no segundo assalto, o combate terminou com sonoro triunfo do brasileiro e teve características técnicas marcantes.

Rebarbas?

InsignificantLimpingFrigatebirdO sucesso na ‘revolução do striking’ de Werdum carrega a marca de Rafael Cordeiro.

O mentor da Kings MMA mantém o bom senso no trabalho de adaptações no jogo do gaúcho, e não visa transformá-lo em um striker repleto de técnicas mirabolantes.

Grappler por excelência, Werdum mostra padrão sólido em pé com o botãozinho do ‘simples e eficiente’ ligado.

A variedade de ataques de Werdum muda pouco: chutes versáteis, combos de dois ou três socos, seguidos de thai clinch e joelhadas.

Ele desenvolveu a percepção necessária de usar o que faz de melhor nos momentos certos, e confia plenamente em tudo que sabe. Esse tem sido diferencial nos resultados recentes.

Mas ainda há defasagens defensivas e de movimentação.

O tal do ímpeto

PaltryAptBuckCom tempo reduzido de preparo, ficou claro que Mark Hunt estava afim de resolver logo o desafio.

Seu ímpeto inicial foi poderoso, e por pouco não fez a luta tomar outro rumo.

Pela complexão física e o estilo de lutar, o neozelandês mantém a postura com centro de gravidade baixo.

Isso potencializa, e muito, um dos recursos favoritos: cercar adversários e de repente se projetar ao ataque, geralmente com um cruzado de esquerda que abre espaço aos petardos de direita.

No começo do combate, dito e feito. O gordinho se jogou em cima de Werdum, caçou a distância cruzando de canhota e acertou uma bomba de direita.

Aí apareceu a primeira falha do brasileiro, que recuou e tentou se defender com os braços esticados, tirando o rosto. Um erro crasso, sobretudo contra lutadores carga pesada como Hunt, que golpeiam de forma incisiva e projetando todo peso corporal em cada patada.

Werdum foi atingido em cheio. Pareceu não se abalar muito, mas o primeiro knockdown foi decretado.

No segundo sufoco, o gaúcho telegrafou um chute baixo e foi pego imediatamente por um direto de direita. Puro timing. Se Hunt tivesse colocado mais convicção no contragolpe teria sido fatal.

Maliciosamente

GentleNecessaryArthropodsA variedade de ataques baixos – e fintas a partir disso – novamente tiveram papel estratégico providencial.

Werdum acertou alguns chutes nas pernas do adversário no primeiro assalto para condicioná-lo a abaixar a postura e abrir brechas na parte superior.

Hunt confia tanto no queixo duro que muitas vezes se torna um tanto displicente defensivamente. Mesmo sendo grande mérito do brasileiro, o lance que definiu o resultado foi prova disso.

Werdum inicialmente fez um shoot (entrada de queda) e investiu na perna de Hunt para levá-lo ao solo, mas este escapou.

Em seguida, o gaúcho parou na frente do adversário e esboçou uma troca de nível, ou seja, abaixou a postura e o olhar, como se buscasse as pernas novamente.

Mas mudou o curso e soltou a joelhada em cima.

Esse tipo de malícia técnica exige bom timing de reação e tem sido frequente nos atletas da Kings, como Lyoto Machida e Beneil Dariush. São recursos clássicos no striking que jamais perdem a validade, mesmo contra lutadores experientes.

Com a atenção quebrada pela finta do brasileiro e com as mãos baixas, Hunt tentou antecipar o ataque. O reflexo foi se abaixar para tentar brecar a investida baixa falsa. Mas aí levou forte joelhada de encontro na mandíbula e desabou.

Se repararmos bem, o neozelandês realmente esperava um single ou double leg, já que engatilhava contragolpe com upper de direita.

  • Deivis Chiodini

    A forma como Hunt corta a distância sorrateiramente e angula seus socos é incrível. Ele tem muito timing na luta de pé. Pior foi ouvir na faculdade hoje que “também, como esse gordo vai nocautear alguém?”…hahahahhaa
    Pra mim, em qualidade de striking, ele é o melhor da categoria, e o Werdum, mesmo travadaço na luta fez um baita trabalho. E ta na hora de sair um prêmio de melhor do mundo pro Rafael Cordeiro. O que ele fez com o Werdum e o Dos Anjos é obra prima. Dois grapplers que eram péssimos de pé, hoje trocam com qualquer um, usando bem suas características e como bem citado no texto, sem inventar. Combinações rápidas, movimentação e clinche afiado.

    • rodrigo eric

      O RC ja ganhou o premio de melhor do mundo…

      • Deivis Chiodini

        Verdade, 2012. My bad

    • Lero

      vi no Instagram nego falando que o Cain soca mais forte que o Hunto…

  • Matheus

    As analises do Cappelli sao as melhores no mercado!

  • rodrigo eric

    Parabens Capelli a analise da joelhada foi perfeita…

  • Edson Mariano

    Tô a cada minuto q passa…..mais e mais querendo ver esta luta entre werdum e Velásquez…..tô levando muita fé no .FW… Curioso pra saber qual seria a estratégia do campeão pra.com o brasileiro… Já q o ponto forte do Velásquez é a curta distância é luta a garrada…… É a luta agarrada sendo mais fácil pra derrubar e sendo assim melhor para o brasileiro!!!! #vaicavalo

    • Igor

      E botar o Velasquez pra baixo é mole ne amigao?

  • Natan Machado Fauzi

    Capelli mandou bem bicho, como eu disse após a luta, esse resultado soa quase tão estranho quanto se Hunt tivesse finalizado Werdum, imagina que bizarro.

    • Renato Rebelo

      Praticamente inimaginável essa possibilidade. Não sem o Werdum estar semi-nocauteado hehe

  • Neil Magny

    Se alguém saiu maior do que entrou nesta luta do sábado, foi o Hunt.
    Impressionante como ele com passos curtos e sem pressa, toma o centro do cage, o que falta de tamanho e velocidade, sobra de timing e onipresença no ringue.

  • Jonas Angelo

    Capelli, o que você achou da absorção de golpes do brasileiro? Ele realmente tem uma boa absorção ou Hunt que não tinha encontrado um golpe forte? Acha que Werdum tombaria com um golpe só, ou aguentaria como Cigano e Pezão?

    Parabéns pelo texto, muito bom como sempre, abçs.

    • Fernando Cappelli

      Valeu, Jonas, Esse lance de absorção é relativo. No caso, acho que se o Werdum tivesse sido atingido de forma mais limpa e potente ali nas duas vezes em que esteve em perigo – ainda mais por um cara com a pegada monstro do Hunt – teria sido fatal.

      abs

      • Cappelli, você acha que o Werdum usa de artifício esse jeito de cair de costas quando recebe diretos, já vi em outras lutas ele fazendo isso e até mesmo chamando para a guarda.

        • Danyel P Lorenzo

          Essa maneira q o Werdum encontrou de minimizar os danos e ter um tempo p se recuperar é bem útil, já que todos os lutadores da divisão respeitam seu Jiu Jitsu e raramente, mesmo q atordoado, iriam querer se arriscar no solo com ele. Frank Mir faz isso muito bem tb.

          • Fernando Cappelli

            É. Mas o problema é que esse recurso configura antijogo também, aí complica.

            abs

      • Malk Suruhito

        No GIF ficou lindamente clara a olhadinha do Hunt para a perna do Werdum no segundo knockdown. Precisão cirúrgica do gordinho!!

  • Maldonado Pepey

    Renato tem que fazer um podcast com cappelli o cara é fera demais.

    • Renato Rebelo

      Com certeza! Mas meu velho amigo é um homem polivalente e segunda à noite (quando gravamos o podcast) é o único espacinho que ele tem para ensaiar com sua banda (além de jornalista, ele é professor de caratê e baterista!).

      • Tem que falar para ele que esse negócio de música ai não dá futuro não..rsrs

      • will

        Baterista? Deve ser doido!

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