Para sorte de Werdum, MMA não é receita de bolo

Lucas Carrano | 17/11/2014 às 18:16
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Triângulo gaúcho no russo chocou o mundo

É difícil manter o equilíbrio – e por equilíbrio entende-se não o ato de permanecer parado, estático, sobre um ponto, mas pender, oscilar e no fim das contas não cair.

Por isso mesmo compreendo que pela razão ou emoção – convicções ou o calor do momento – alguns fatores acabem se sobressaindo a outros no julgamento pessoal.

Pondo fim às abstrações e trazendo a coisa para o plano prático, observemos o exemplo de Fabrício Werdum.

Passada a maior conquista de sua carreira (aquela que finalmente vai lhe fazer ter como maior título um cinturão do UFC e não “ser o cabra que bateu o Fedor Emelianenko depois de uma década”), o brasileiro é visto sob certo olhar de desconfiança. É justificável?

Sim, é. Depois de uma apresentação praticamente impecável contra Travis Browne em abril, a atuação contra Mark Hunt na luta que lhe garantiu o cinturão interino realmente não impressionou, agravada pela falta de preparação do rival.

E o próprio Werdum reconheceu isso.

No primeiro round, demorei um pouco para entrar na luta, porque tinha muita ansiedade. (…) Dei um pouco mais de espaço porque não entrei na luta. Deveria me mover mais ainda, tinha a preparação física para me movimentar mais, só que não sei o que me aconteceu que eu não entrei na luta. Quando ele me pegou, me despertou”, disse Vai Cavalo, que também lamentou não ter usado seu jiu-jitsu, na coletiva.

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Knockdown de Hunt

Junte à informação acima ao fato de que o adversário do brasileiro na unificação dos títulos interino e linear é uma máquina de lutar com um estilo potencialmente nocivo ao seu próprio, deixe em fogo brando por dez minutos e voilà: o bolo da descrença está pronto.

Porém, a receita descrita, ou qualquer outra, não traduz o MMA. São tantos fatores envolvidos em uma disputa, e eles são tão dinâmicos e voláteis, que o produto final se altera drasticamente ao menor sinal de mudança.

Veja como uma ligeira mudança de perspectiva na observação do mesmo fenômeno altera de maneira sintomática o resultado da equação aqui descrita.

Um colega de profissão nos tempos de futebol gostava de dizer: “Vencer jogando bem é fácil. As chances de ganhar quando se atua bem são altas, especialmente quando já se tem qualidade. O que faz mesmo a diferença é o quanto você consegue bons resultados jogando mal”.

Joelhada que derrubou o gordinho

Joelhada que desmontou o gordinho

Faz sentido, não? Ok, pra não dizer que não há aplicabilidade no MMA, lembro aqui da declaração da campeã Ronda Rousey a este que vos escreve, na qual a musa disse ter aprendido com sua mãe, AnnMaria de Mars, que ela deveria treinar o suficiente para ser capaz de vencer seus adversários no seu pior dia, e não no melhor.

Basicamente a mesma ideia. E desta forma, apesar dos percalços, o triunfo sobre Hunt já não parece assim tão negativo.

Afinal de contas, como disse o amigo Alexandre Matos no Twitter do MMA Brasil, “não é todo dia que um campeão do ADCC nocauteia um campeão do K-1”.

E Cain Velasquez? Indiscutivelmente o maior talento dos pesos pesados, o produto da AKA terá também suas preocupações paralelas, já que está sob ameaça de ser destituído do posto de campeão caso sofra uma nova lesão grave.

Ademais, todos se lembram da forma na qual se apresentou o campeão na única vez que teve um ano completo de inatividade desde que estreou no UFC.

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Próxima parada…

Agora, será no mínimo um ano e meio afastado do octógono. O que esperar?

Além disso, virá na esteira uma série de fatores psicológicos e ocasionais – como no caso do UFC 180, a mudança visceral de concepção do duelo a três semanas de sua realização, com Werdum deixando a condição de azarão e passando a ter o que realmente perder contra um franco atirador.

O quê exatamente vai sair desta mistura? Eu não sei. Em uma virtual unificação de cinturão, Velasquez segue como favorito – e, sinceramente, não vejo nada ao alcance do brasileiro para ter revertido esse quadro, ou fazê-lo de hoje até o embate.

Por sua vez, o novo campeão interino tem suas chances e pode potencializá-las ou minimizá-las, até mesmo devido a elementos externos.

Felizmente para Werdum, a maior parte dos ingredientes desta receita, que ainda não foi escrita e será executada somente no octógono, é ele próprio quem vai colocar.

E quem está se esbaldando com esse cenário e colocando uma pitada bem generosa do tempero (fermentado) da promoção na parada é o presidente Dana White.

Por razões óbvias, o careca quer é que este bolo cresça mais e mais.

O Werdum parecia indiferente e realmente relaxado, mas no segundo round ele vem e acerta aquela belíssima joelhada voadora. Você não vê pesos pesados fazendo isso. Você não vê pesos pesados acertando joelhadas voadoras deste tipo. Ele terminou parecendo incrível”, disse o empolgado dirigente.

Abraços.

  • Bart Simpsons

    Já havia comentado aqui pelo sexto round que todo mundo diz que se no sábado fosse Cain e não Hunt, Werdum não teria saído com a vitória. Mas lembrei exatamente que se Cain tivesse retornado ontem, será que ele estaria em forma? Será que voltaria como o monstro de quando está em condições normais? E se ontem Werdum tivesse uma atuação como a que teve perante Travis Browne, de forma perfeita, dada é claro às devidas proporções? Ou mesmo, e se Werdum tivesse uma atuação nunca vista antes, de forma esplêndida e conseguisse parar o atual campeão, mesmo que este tivesse voltando na sua melhor forma?
    É lógico que em condições normais, Cain tem tudo para passar o carro no brasileiro, afinal estamos falando daquele que em condições normais, senão fosse o motivo de tantas lesões, poderia se tornar o maior HW de todos os tempos, mas lembremos, ninguém, nunca, jamais, em ocasião alguma deve-se subestimar o cara que já chocou o mundo ao derrotar alguém que se tornara imbatível por longos 10 anos.
    Contra a lógica, contra o óbvio, Fabrício Werdum vai chocar o mundo novamente., anotem aí.
    PS: Antes de alguém comentar que é impossivel, lembremos que era impossível o proprio Werdum ganhar de Fedor, lembremos que era imposível Dillashaw ganhar de Barão. Como já diz aquela frase célebre, o impossível só era impossível até quando alguém chegou lá e o fez.

  • Matheus

    Excelente texto. O pessoal aqui parece q tá escrevendo cada vez melhor!

  • Deivis Chiodini

    Foi exatamente o que falei numa discussão ontem. Mesmo lutando mau, ele nocauteou com uma joelhada um campeão do K-1. Fabrício é o único cara a ter ganho o mundial de BJJ na faixa preta, ADCC e ter um cinturão do UFC. O único a finalizar Fedor e Minotauro. Werdum é o típico lutador que adoramos subestimar, independente dos seus feitos. Chicano é favorito? Sem dúvidas. Mas eu acho que ele tem sim condições de chocar o mundo de novo.

    • Renato Rebelo

      Eu não poderia resumir melhor. Parabéns, Deivis!

      • Deivis Chiodini

        Valeu Renato! Sempre leio o Sexto Round procurando aprender e melhorar um pouco pra usar na minha coluna no blog que escrevo. Receber um elogio do Sexto Round é um grande incentivo!

    • Natan Machado Fauzi

      Que isso, se expressou por mim!

    • Marcelo Silveira

      Concordo Deivis, e a colocação do Lucas Carrano fazendo analogia ao futebol é perfeita. As pessoas tendem a avaliar só a última luta dos caras. E ver o Werdum evoluindo aos 37 anos é de aplaudir e valorizar

  • Rei Jaffe Joffer

    Parabéns pelo texto. Como sempre muito bom.

    Acredito que Cain vai vir diferente pra essa luta, justamente pelo fato de já ter estado nessa situação de inatividade por lesão. Sinceramente não sei o que ele pode fazer pra tentar amenizar os efeitos dessa inatividade, mas acho que ele vai correr atrás de resolver isso.

    Já a Werdum, cabe se preparar para essa luta o melhor possível, pois o confronto já está garantido.

    Abraços a todos!

    • Renato Rebelo

      Grande monarca. Smp boa sua presença por aqui!

  • Eduardo Sanguinetti

    Perfeita análise e analogia. Mas resumindo é exatamente aquilo que todo verdadeiro conhecedor de MMA sabe.. Não existem certezas no MMA. Tudo pode acontecer quando a luta começa. O Chael Sonnem não roubou o cinturão do Jon Jones por menos de um minuto. É como nosso grande narrador costuma dizer ” isso é o MMA” “Pois isso que o MMA é o esporte que mais cresce no mundo” (kkk)

    Enfim, o Cain sempre vai ser o favorito contra qualquer um da categoria, mas dois pontos importantes são precisos ser lembrados. 1º É luta de pesos pesados. 2º O Werdum é o adversário, cujo jogo pior casa pro Cain. Vamo Vai Cavalo representando o Brasil o RS e o Grêmio!

  • Andre Nishimura

    muito bom o texto !!!

  • Lucas Andrade

    “Treinar o suficiente para ser capaz de vencer seus adversários no seu pior dia, e não no melhor. ” Gostei da frase.

  • Lucas Andrade

    O nível das matérias está melhorando juntamente com os comentários dos leitores. Excelente trabalho!!

  • São tantos “se” que Se meu pai fosse mulher eu teria duas mães..rs..

    Werdum deixou o “se” de lado, foi lá e fez.

    Já vi até gente falando: “Se o Hunt acerta um soco bem dado no Cain ele apaga”.

    Vendo por este ponto, até eu, se acerta o Cain de jeito faço o Chicanão beijar a lona.

    https://www.youtube.com/watch?v=IfA3cIGRXkM

    • Jonas Angelo

      hahahaha. Muito bom David.

  • zagolee

    Werdum foi simplesmente fodástico!

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