Receita do Cappelli: acertos de Rockhold e St. Preux

Fernando Cappelli | 10/11/2014 às 22:03

Os dois combates principais dos eventos do UFC no fim de semana tiveram desfechos curtos, mas trouxeram peculiaridades interessantes.

Contra Michael Bisping, na Austrália, vimos um Luke Rockhold cada vez mais ciente no uso da envergadura e com estilo maduro.

Já em Uberlândia, Maurício Shogun azedou a maionese ao ser nocauteado em apenas 35 segundos por Ovince St. Preux. Vamos lá:

Bordoada diagonal

Ovince St. Preux Stuns Mauricio Shogun Rua - UFC Fight Night 56 UberlandiaShogun, que sempre foi uma mistura de golpeador visceral e técnico, atravessa a fase mais nebulosa da carreira.

Desta vez, pagou (bem) caro pelo erro crasso de avançar todo atabalhoado contra Ovince St.Preux.

Após a troca de alguns chutes, Shogun viu o adversário contra as grades e esboçou uma sequência de três socos, que começariam com a mão de trás.

Ao hesitar demais em definir os golpes, perdeu a meada da distância. O castigo foi instantâneo.

OSP aproveitou a deixa para usar uma técnica de boxe conhecida como passo semi-diagonal, ou ‘quarter turn’.

Trata-se de um deslocamento com soco emendado. Na prática, o lutador esquiva de um ataque frontal do adversário mudando a posição de luta lateralmente e disparando um cruzado simultâneo.

Manobras do tipo são puro timing e instinto, complexas de serem executadas com perfeição.

São potencializadas por causa da transferência de peso no movimento semi-circular, que funciona como uma catapulta. No caso, a bordoada ganhou ainda mais contundência por ser executada por um cara com 2,03m de envergadura.

Bisping x Rockhold

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O contragolpe manjado

O resultado do desafio não causou muitas surpresas. Favorito, o norte-americano fez jus ao maior alcance, caçou e castigou o inglês pelo octógono durante quase sete minutos, suficientes para faturar a vitória por finalização e dar outro passo importante no bolo pelo cinturão até 84kg.

Claro que Rockhold e os camaradas da AKA deram uma boa estudada no estilo de Bisping.

Mas não precisa ser nenhum gênio para perceber que a principal marca do europeu são os socos retos – o um/dois basicão -, ora colocados na postura, ora encadeados após rápido avanço.

Como a luta se desenrolaria no canhoto x destro, com as mãos da frente das posturas de luta em contato constante, Rockhold adotou um contragolpe característico que usa desde os tempos do Strikeforce.

Um cruzado de direita (no caso dele, o punho da frente), colocado após angular o corpo para acertar em pleno recuo.

Se afastar contragolpeando corretamente e sem perder a base de luta é cultuado como um refinamento técnico de alto padrão na maioria das modalidades de striking. Ponto para o atleta do Tio Sam.

Olha aqui, chuta ali

HospitableBouncyLambSe você reparar bem em Rockhold desde o começo do combate, verá que ele desviava o olho no olho com Bisping alguma vezes, fintando e deixando a entender que golpearia na altura do tronco ou das pernas.

Assim, acertou pelo menos dois chutes médios no inglês na primeira etapa, golpes que pouco depois ganhariam papel tático importante no momento de definição do combate.

Após acertar bom chute de direita no rosto do inglês (finta de frontal que mudou para circular), o norte-americano desviou o olhar para baixo, ‘ciscou’ e chutou alto de esquerda, atingindo a cabeça.

Bisping caiu, foi embolado no solo e acabou com o pescoço tão preso atrás da axila de Rockhold, que acabou finalizado numa mistura de guilhotina/chave de cervical, ajustada apenas com uma das mãos.

  • Caio Abreu

    Cappeli apesar de não ser especialista e só mero fãn, fiquei com uma pequena impressão que o shogun confundiu-se com a postura de canhoto do st. proux, a impressão que dá é que ele não viu o golpe além de ter começado a combinação com a mão de trás sem medir a distancia corretamente, foi mais vacilo do shogun ou qualidade do st. proux de fazer o movimento na hora certa?
    quanto ao Rockhold pode ser considerado um dos melhores trocadores da categoria?

    • Verdade, o golpe que ele começou com a mão de trás serviu apenas para o OS perceber o time e preparar a angulação. Deveria ter partido com o jab.
      Assim como Caio, não sou nenhum especialista.rs

    • Fernando Cappelli

      Acho que foi um pouco dos dois, Caio, mas o mérito foi do OSP, que percebeu a bobeira do Shogun e liquidou a fatura instantaneamente. Tudo acontece muito rápido. Muitas vezes os próprios caras só vão perceber erros e acertos técnicos que usaram quando assistirem ao combate.

      abraço!

  • Renan Trigueiro

    Analise precisa como sempre. Sou fã do Capelli!

  • Dan Mendes

    Tenho que parabenizar primeiro pelo excelente texto, com um toque técnico que a gente não encontra em qualquer lugar.

    Mas tenho que lhe parabenizar também por falar do OSP, ninguém fala dele só do Shogum. Me parece que houve uma evolução no jogo dele em pé.

  • Matheus

    Cappelli, acha q o Shogun se sairia bem tecnicamente na 84k?

    • Fernando Cappelli

      Cara, acho que toda e qualquer mudança seria bem-vinda pra carreira dele nesse momento. Acho que tecnicamente, a 84k está até mais cascuda que a 93. Mas realmente não sei se o Shogun tem metabolismo (e disposição) pra bater o peso limite dos médios.

      Abraço!

    • mazzaropi

      Você acompanha a quanto tempo MMA?

      Você acha que Shogun lutaria na 84 realmente amigo… kkk?

  • Cauã Albuquerque

    Cappelli e o Thomas Almeida? Uq achou?

    • Fernando Cappelli

      Muito bom, estreou com gana e muita técnica. Acompanhei um treino dele aqui na Chuteboxe em São Paulo faz um tempinho. É bacana ver como ele controla o ritmo da luta e trabalha os combos de boxe na curta distância, explorando a guarda e cobertura dos adversários. Vamos ver como ele rende em médio prazo na categoria.

      Abraço!

  • Jonas Angelo

    Capelli, excelente análise, muito boa. Você tem uma didática muito boa, mesmo para os “não especialistas” como eu. hehe.

    • Fernando Cappelli

      Valeu, Jonas. Mas acho também sou mais fã que especialista, meu camarada… rs!

      Abraço!

  • A luta do Shogun foi tão rápida que quase coube inteira no Giff. (desculpe, mas não pude deixar passar a piada)..rs..

    Adoro esses Giffs.

  • mazzaropi

    A esquiva Ovince me lembrou bastante a movimentação do Lyoto muito comum. Agora, encaixar um cruzadinho no queixo potente escapando de uma bomba do Shogun foi algo extraterreno… kkk! Méritos totais aos Ovince que veio praparado para seu oponente com características já conhecidas por todos!

    • Malk Suruhito

      Eu lembrei na hora daquele Jab do AS no Griffin…

    • Jonas Angelo

      Detalhe: o cruzadinho não foi no queixo, e sim na têmpora. Ele mais desequilibra do que atordoa.

  • Nathan Oliveira

    Caraca, excelente. Sempre analisando todas as minúcias que um combate pode ter de forma perfeita. Parabéns Carpelli, genial!

  • Natan Machado Fauzi

    Gênial Capelli, Shogun pecou em iniciar a sua sequência com um direto que acabou facilitando o contragolpe do OSP que ao meu ver o desequilibrou mais do que atordoou, já reparei que o devido a potência dos socos de Shogun ele joga muito peso no giro do ombro, para provar isso assita ao nocaute sobre Te Huna logo após o cruzado de canhota ele quase se desequlibra ao socar o vento com a direita.

    • Fernando Cappelli

      Boa, Natan!

    • Jonas Angelo

      Reparando no GIF, o que você disse faz todo sentido Natan, e acrescento ainda mais uma coisa: outro mérito do St. Preux foi grudar a mão assim que Shogun senta a bunda no piso, não deu nem tempo para nada e foi preciso e violento nessa pressão, com uma velocidade de raciocínio e reação impressionante. Acho que juntando esses e mais os elementos pós-luta (comemoração efusiva e frenética, como se tivesse ganho o cinturão), acredito que Ovince pensava algo do tipo: “quando eu tiver a chance tenho que matar esse cara e acabar com a luta, se não ele pode me complicar”, e foi o que ele fez, na primeira chance em que viu Shogun estatelado no chão voou em cima dele e foi grudando mão precisa atrás de mão precisa.
      Mas enfim, muito bem colocado Natan.

  • Pedro Duarte

    Queimei minha língua quanto ao Rockhold. Sempre o achei supervalorizado e uma vitória contra o Bisping normalmente não significa muita coisa, mas o domínio que ele aplicou no octagon é pra poucos. É inegável a evolução do cara na parte em pé e também na luta agarrada. Muita frieza na trocação e finalizações de alto nível nas últimas duas lutas. Acho que ainda não dá pé contra o Weidman, Lyoto e Jacaré, mas tenho que admitir, temos um contender.

  • Excelente análise, parabéns!

  • Danilo Lopes

    Gosto muito do
    Receita do Cappelli

  • Isabella Kida

    Ótimo texto! Gostei muito da análise mais detalhada. Parabéns!

    • Loja Maçônica do Sétimo Céu

      Vc é uma muié muito bonita, sabia… kkk?

      • Isabella Kida

        Hahhaha valeu!

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