Elogio de Royce e a trégua entre o clã Gracie e o MMA

Lucas Carrano | 03/11/2014 às 14:49
Royce-Gracie-UFC-1

Checão no UFC1

Há mais de duas décadas, Royce Gracie foi expoente do mais recente, e possivelmente mais impactante, capítulo do projeto de expansão do jiu-jítsu brasileiro iniciado por seus antepassados.

Escolhido para provar que a arte era superior ao atleta, Royce venceu o três dos quatro torneios projetados por seu irmão e desenvolvidos em parceria com a empresa norte-americana SEG.

Naquela época, colocando representantes de cada estilo frente a frente, o Ultimate Fighting Championship era esforço de resposta para a latente questão: qual arte marcial é a mais eficiente do planeta?

De lá pra cá, muitos anos se passaram e muita água se foi por debaixo desta ponte. O torneio que definiria qual a melhor arte marcial seria dominante, acabou se tornando a matriz, e principal palco, de uma nova modalidade que aceita todos os estilos.

Mesmo sendo bastante reconhecido e, com justiça, respeitado por seus feitos, Royce Gracie nunca foi um ídolo muito ligado à contemporaneidade do esporte que ajudou, mesmo que de maneira involuntária, a estabelecer.

Muito pelo contrário, ao invés de opiniões recorrentes e comentários propositivos, geralmente sempre coube ao lendário herdeiro de Hélio Gracie o discurso saudosista do “style against style” (o “estilo contra estilo”, repetido à exaustão em suas não tão constantes entrevistas).

Por isso mesmo, confesso ter sido pego de surpresa por suas recentes declarações elogiosas do agora embaixador do Bellator sobre os irmãos Diaz.

“Gosto da atitude e do estilo deles. Se eles estão em pé, trocam socos com você. Se vão para o chão, eles são muito perigosos. Eles respeitam o jiu-jítsu. Sabem como lutar por baixo e por cima, são finalizadores. Vão para finalizar, não para marcar pontos. As lutas deles são o que o esporte deve ser”, disse Royce.

Pode parecer pouco, e de fato há na fala um protagonismo ao jiu-jítsu (compreensível e justificável, sendo ele quem é), mas trata-se talvez de sua mais aberta manifestação de reconhecimento e respeito a outros estilos, no caso o boxe de Richard Perez.

Em perspectiva, a declaração ganha ainda mais em relevância se posta lado a lado com a reação de outro membro do clã, seu irmão Relson Gracie.

“Eu acho que ele (Royce) e o Renzo esqueceram um pouco do jiu-jítsu. Hoje em dia, você vai à academia e vê que eles estão lutando muay thai, pontapé, chute, soqueira etc. Eu nunca usei isso na minha vida para lutar contra alguém. Hélio Gracie não ia gostar disso, mas o Royce treina essas coisas. E o Royce perdeu para o Matt Hughes porque ele mudou seu estilo. Se ele tivesse lutado jiu-jítsu…”, disse o faixa vermelha ao PVT.

Mas a saraivada não parou por aí. Em seguida, Relson, que já havia dito que seu pai não aprovaria a escapada do irmão à “monocultura do jiu-jítsu”, foi além e declarou que a postura era uma afronta a Hélio.

Eu acho que o Royce desrespeitou meu pai. Eu não tenho mais qualquer comunicação com o Royce desde então. Eu não falo mais com ele. Isso me afetou demais. Acabou com a hierarquia, acabou com o nome, virou uma bagunça incrível… Ele tomou um pau porque estava lutando muay thai. Se ele tivesse andado para trás e dado o pisão, ele pega o Matt Hughes. Se tivesse levado para o chão e feito o que fez no UFC. Mas ele trocou de treinador, me botou pra fora. O Royce nunca perdeu comigo”, completou.

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Irmãos Diaz

Embora na certidão de nascimento do MMA esteja gravado “Gracie” de maneira incontestável, a relação de paternidade do clã com o esporte desde sua massificação tem sido conturbada. Mesmo que discreto, o sinal de Royce Gracie pode ser sintomático.

A consolidação do MMA como prática legítima é inegável e irrevogável, bem como o papel de destaque do jiu-jítsu na mistura de artes marciais que o compõem.

Além disso, a trajetória de desenvolvimento esportiva sugere um caminho totalmente divergente a um esquema antiquado.

Como aconteceu e acontece em qualquer modalidade, a popularização e disseminação da prática aumentam a concorrência, que por sua vez impulsiona o progresso.

Assim, a tendência é vermos cada vez mais atletas com múltiplas valências, o aprimoramento das habilidades e até o surgimento de outras novas, o que conduz a um equilíbrio ainda maior e uma disputa, como no dito popular, “nivelada por cima”.

A era da novidade, quando um surpreendido Art Jimmerson batia em desistência simplesmente por não saber como se comportar lutando no solo, foi marcante e rendeu histórias que devem ser perpetuadas, mas passou.

Por isso, mesmo que Nick e Nate Diaz não representem de maneira fidedigna o atual estágio evolutivo as artes marciais mistas e seja possível perceber ainda uma pequena resistência no discurso, a fala de Royce Gracie pode ser tomada como um importante sinal.

Um sinal de que o clã pode buscar a reconciliação com o combate que possui o gene Gracie em sua essência e que, agora na concorrência, Royce pode deixar o passado de glórias e voltar a vivenciar e fomentar o esporte da qual foi a primeira lenda.

  • Pedro Duarte

    O egocentrismo escancarado na declaração do Relson é reflexo do principal motivo pelo qual os Gracies nunca conseguiram lugar de destaque no MMA moderno. Dizer que o Royce perdeu porque ele tentou desenvolver suas habilidades em pé chega a ser piada de mal gosto. Nem no BJJ a família é unanimidade mais.

    • mazzaropi

      Será realmente difícil lutar com uma arma num combate onde pode-se usar 3 ou 4… kkk! Rickson exalta sempre que o problema é o tempo, oras, use os 5 minutos para finalizar ou num combate de 5 minutos não se consegue finalizar? Viu a problematização? Relson na verdade quer bem seu irmão, isso que ele fala no video é coisa de família… Não tem nada a ver com o combate. O jiu- jitsu está mais vivo que nunca, mas agora sob à luz da atualidade e “nivelada por cima”, claro que os oponentes estão se defendendo melhor, é no mínimo normal a evolução… Veja o Roger Gracie, um grande finalizador que tinha tudo para ser um dos melhores no MMA, mas demorou para visualizar a importância das outras artes e usar como escada para mostrar seu jiu-jistu fantástico! (Para complementar a cagada ele simplesmente errou ao descer 2 categorias, influenciada sabe lá por quem esta merda… Uma cagada gigante!)

  • mazzaropi

    Lucas Carrano gênio! (Eu seria extremamente redundante elogiar seus textos!)

    Royce pra mim é exatamente o divisor de águas entre o jiu-jitsu desconhecido e o jiu-jitsu conhecidos hoje pelas massas.

    Irmãos Dias e os poucos fãs cegos que ainda tem (risos), graças é claro, ao seu jogo marrento, xingamentos e palavreados durante a luta, postura antidespostivas e dedo do meio em riste para os oponentes… A antítese do herói! Realmente me surpreendo quando alguém ainda gosta desses babacas! (Juntos no mesmo saco coloco Aoki)

    O único Gracie que realmente aposto minhas fichas é no Kron. Espero que ele venha bem preparado para todas as situações, mas use seu jiu-jitsu para realmente finalizar. Pra min sem sombra de dúvidas Demian Maia, Ronaldo Jacaré, Joe Louzon e Jim Miller são os maiores finalizadores que já vi.

    • Lucas Pereira Carrano

      Obrigado pela hipérbole, Mazza.

      Existe alguma justificativa para sua expectativa com o Kron ser diferente dos demais Gracies que se arriscaram recentemente no MMA, ou é só um lance de feeling mesmo?

      • mazzaropi

        Os elogios são verdadeiros mestre, pode confiar… kkk!

        Sobre o Kron é apenas feeling… Se eu estiver certo ele vai declarar a todos que vai levar pro chão (e vai), mas seus oponentes nunca vão achar que ele apenas poderá trocar, a imprevisibilidade no MMA é uma arma que não pode ser menosprezada! Aí fica o perigo, todos sabem que o cara é muito bom no chão, mas não saberão quanto ele irá pra lá… Outra coisa também é que o gasto calórico imposto pelo ritmo nas lutas de MMA é diferente de qualquer outra. O atleta que sabe dosar o famoso “gás” em sua estratégia previamente definida em função do adversário, sim, poderá vencer…

        Demian depois da derrota para o Spider evoluiu muito no boxe com Dória, apenas deveria fazer a transição para o chão um pouco mais rápido… Não dá pra falar do Demian, pois o acho extremamente completo e como qualquer atleta precisa apenas de ajustes.

        Lucas continue com seu excelente trabalho por favor!

  • Renan Trigueiro

    Com todo o respeito à família, me espanta como ainda se tem essa visão retrógrada de que se ganha hj em dia no MMA com pisãozinho e jiu-jítsu.

    • Renato Rebelo

      Complicado msm…

    • Que nada, cara! Ainda dá para contar com os golpes com a palma da mão..rs

    • Dan Mendes

      Não se ganha com BJJ, mas sem BJJ também não se ganha. A arte suave é ainda a principal do MMA.

      • Yuri Yamaura

        Acho que hoje em dia um cara cego de Jiu Jitsu se vira melhor que um cego de Wrestling.

        • Dan Mendes

          Acredito que não. na verdade tenho certeza. Royce provou isso vencendo Wrestler até maiores que ele.

          • Yuri Yamaura

            Jon Jones é o oposto disso. Depois da luta contra o Belfort, resolveu colocar a faixa branca e aprender JJ. Mas já era campeão na época.

          • Dan Mendes

            Ele já treinava BJJ antes de lutar com o Vitor. Só que ele não treinava com pano por isso é faixa branca quando foi treinar com o Roberto Tussa (ou tusa, não lembro).

      • Malk Suruhito

        Igual o Cigano né? :v

        • Dan Mendes

          ??

    • mazzaropi

      Realmente não ganha, mas o jiu-jitsu vive a cada luta de MMA, porque se o cara não treinar minimamente ele não sobreviverá no MMA da atualidade…

  • Muito bom, Lucas!
    Quando vi, na semana passada, esta entrevista com o Relson, fiquei aguardando algo por aqui e você fez uma ótima ligação à declaração do Royce.

    Realmente, quando os Gracies criaram esta ideia de Style vs Style não esperavam (eu acredito que não esperavam) a evolução ao ponto de criar uma nova arte.
    No discurso inicial da família, onde sua arte era superior à outras não esperaríamos nada diferente do que aconteceu, a de defender apenas o JJ e nada mais.
    Agora, todas as “brigas”, desentendimentos e “rolos” só criaram um mocinho e um bandido, em uma luta – até então- sem trégua, chamada: Gracies vs Gracies.

    • Lucas Pereira Carrano

      Boa observação, David. Eu cheguei a incluir no parágrafo final do texto, mas acabei retirando na edição final essa questão do “conflito interno” dos Gracies (que é mais complexo do que a situação no Oriente Médio, diga-se de passagem – hahahaha).

  • Bruno Alves

    Bela coluna Lucas parabéns. Eu tinha lido essa matéria no PVT e fiquei me perguntando. O que leva o jornalista a ir entrevistar um cara q não vai agregar nada q acha q o esporte ainda é uma briga de rua, que o bom é defender facadas como se estivesse nos tempos das cavernas simplesmente porque ele tem o sobrenome “GRACIE”. Por isso prefiro o sexto round, essa história de jornalistas amiguinhos de lutadores só faz mal a evolução do MMA no Brasil.

    • mazzaropi

      Por incrível que pareça achei a entrevista com Relson extremamente importante para aqueles que querem entender a importância do jiu-jitsu e sua evolução na história… Eu jamais poderia considerar algo do Hélio sem escutar se sua própria boca, mas se tentarmos entender o que no fundo Relson gostaria de dizer, talvez fosse apenas uma lamentação ou rusga com seu irmão mais novo… De fato todos eles amam o jiu-jitsu!

  • Lucas Pereira Carrano

    Pegando um gancho no comentário do Renan, gostaria de deixar uma pergunta pros amigos:

    Notório exagero à parte (quem dera todas as lutas do mundo fossem resolvidas só com pisões, golpes de mão aberta e calcanhar nos rins), acham que teria alguma coisa que o Royce poderia ter feito contra o Hughes ou realmente, naquela altura, o bastão do esporte já estava passado há muito tempo?

    • Renato Rebelo

      Acho que ali não tinha gameplan que desse jeito. A diferença física (velocidade, força, juventude, etc) era grosseira.

      • Concordo com o Renato, eram duas gerações.
        Na época da luta todos nós consideramos a experiência do Royce para uma possível reviravolta, mas não aconteceu.

      • Bart Simpsons

        exatamente o que eu disse no meu comentário lá em cima. Royce perdeu devido ao esporte que evoluiu e ele não. Hughes já era de um tempo onde o esporte já era bem profissional, não se decidia mais as lutas apenas no talento. Força, velocidade, tudo treinamentos de quem já levava o esporte bem mais de modo profissional do que como eu disse, do que quem acreditava que apenas com talento iria vencer. E sem contar que além de todas essas vantagens que o hughes tinha, era um cara talentosíssimo tecnicamente falando

    • mazzaropi

      Tudo à favor do Hughes… Não tinha como!

  • Rodrigo Tannuri

    Sinceramente, a família Gracie teve e ainda tem a sua importância na história do esporte, mas, numa boa, muitas declarações de seus membros são um tanto quanto sem sentido. Até fiquei surpreso com essa fala do Royce. Não concordo 100% com ela, mas deu pra sacar o que ele quis dizer. Jurava que ele estava ficando meio apae.Defender a ideia de que um profissional pode se dar bem no MMA somente com o Jiu-Jitsu puro é loucura. Em tempo, o que ele tem a dizer sobre o famoso Gipsy Jiu-Jitu? kkkkk

  • Gabriel Viana

    Acho que não se deve levar a sério o que Gracies e Anderson Silva falam. Sempre têm respostas diferentes para a mesma pergunta dependendo do estado de humor.

    • Renato Rebelo

      Grande Gabriel. Não dá pra generalizar também. A família é mt grande e tem muita gente com visão clara da coisa. Como toda família, existem divergências…

      • mazzaropi

        Exato.

        O próprio Hélio disse que Rickson tinha que se testar…

      • Gabriel Viana

        É que minha amostragem de Gracies é bem menor do que a sua e, dentro da minha amostragem, seria 100% viu!! kkk

        Brincadeiras a parte, você tem razão Renato. Não posso generalizar, e retifico meu comentário! Não se pode levar a sério o que alguns Gracies e o Anderson Silva falam.

        Abraço!

  • Bart Simpsons

    Entendo que a mente de Relson ainda não evoluiu. Ele ainda acha que hoje em dia é possível alguém se tornar campeão, como royce fez, apenas com a “arte suave”. Assim como boa parte do pessoal do passado, ele não acredita que o antigo “vale tudo” evoluiu, hoje não é mais uma arte contra a outra, mas sim de MMA. Há algum tempo, eu li um livro que onde tinha uma declaração do ex delegado e ex lutador de jiu jitsu Hélio Vígio, onde ele diz que não gosta de assistir MMA, além de achar absurdo que um lutador possa colocar o outro dentro da guarda e ainda assim apanhar. Como todos sabemos, hoje em dia, lutador que mantém o outro na guarda, só com jiu jitsu muito afiado para poder finalizar estando por baixo, e tem que fazer a movimentação rápida, caso contrário vai apanhar mesmo. Praticidade hoje em dia é colocar os pés no quadril do oponente e empurrá-lo, dando assim tempo para se levantar. Enfim, esse é só mais um caso de cara que não entende que o esporte evoluiu, no caso de Hélio Vigio, não entendeu que hoje em dia os lutadores treinam esse tipo de situação, ficar por cima no ground and pound sem dar chance de quem estar por baixo finalizá-los. No caso de Relson, não é mais como ele pensa, cara que luta apenas jiu jitsu não vai conseguir obter sucesso nas competições de MMA, pode até ganhar algumas lutas, mas p ser campeão, p estar pelo menos num top 10, já é quase imporssível.
    Só p encerrar, Royce perdeu para Matt Hughes não foi por não ter lutado jiu jitsu, mas simplesmente por causa do que estou falando desde o inicio, o esporte evoluiu e Royce não. Hughes não deu nem oportunidade para o brasileiro tentar fazer algo parecido como o que fazia naquelas primeiras edições do UFC, edições em que foi campeão. Aquela velha tentativa de chute, quando o oponente ia p tras p se defender, royce pulava direto nas pernas dele e já ia quedando-o, jamais ia dar certo com um cara do nível de matt hughes.
    Sobre os irmãos Diaz, nem de longe representam o que o jiu jitsu tem de melhor no ufc. Entre os brasileiros, concordo quando ele fala de Werdum, Jacaré e Demian Maia, mas eu ainda colocaria o wilson reis, josé aldo (apesar de nao lutar no chao, sabemos o quanto aldo é talentosissimo no chao) e agora os recem chegados ao ufc, gilbert durinho e robert drysdale. Já quanto aos estrangeiros, Joe Lauzon é o melhor que eu acho em todo o UFC.

  • FLAVIO BUENO

    Lindo texto! Parabéns

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