Zumbi Coreano e a resposta ao chamado do dever

Lucas Rezende | 15/10/2014 às 21:56
Suas camisas são sucesso mundial

Suas camisas são sucesso mundial

Então o dever chamou Chan Sung Jung. E quando ele o chama, é melhor que você atenda.

Para esclarecer, o Zumbi Coreano foi recentemente convocado a servir o exército sul-coreano, tecnicamente ainda em guerra contra seus imprevisíveis vizinhos ao norte.

Graças a isso, o peso-pena passará seus próximos dois anos enfurnado dentro de um escritório tratando problemas que não envolvem – em nenhum momento – sua carreira de lutador.

E o tempo já não é um grande amigo de Jung, infelizmente.

No UFC desde 2011, o asiático se apresentou em apenas quatro combates. Algo além da linha de compreensão de alguém como Donald Cerrone, por exemplo.

Em seu favor, cada um deles foi memorável à sua própria maneira, tornando-o um dos membros mais empolgantes e carismáticos da categoria.

Seja por ser o único combatente a ter finalizado alguém com um twister (Leonard Garcia) na história do UFC, por seu nocaute de sete segundos sobre Mark Hominick ou pelo açoite de Dustin Poirier – que lhe rendeu o prêmio de “Luta do Ano”.

Infelizmente, as inúmeras contusões afanaram meses imprescindíveis dos melhores anos de sua profissão, limitando-o a um combate por ano em 2012 e 2013.

Sua mais recente exibição, um árduo duelo pelo cinturão de José Aldo, foi encerrada por causa de um ombro deslocado de Jung.

Isso aconteceu em outubro do ano passado. E terá sido a última vez que vimos Jung até 2016.

Ironicamente, essa mesma propensão a contusões foi o que o dispensou do serviço em campo e o pôs numa confortável cadeira executiva.

Ele se sente mal pelos fãs, mas grato ao UFC e aos Fertittas por lhe permitirem ser um lutador profissional. Ele passará por uma reabilitação, treinará e retornará ainda mais forte depois desses dois anos”, anunciou o agente de Jung, Brian Ree, cheio de esperança.

Não é como se o Zumbi tivesse muitas opções, também. Fazer desfeita ao exército em tempos de guerra é pedir para ser jogado no fundo da cadeia e sofrer consequências piores do que atender ao apelo.

E nem precisamos ignorar o universo dos combates para compreender a situação.

Muhammad Ali foi escalado a lutar pelos Estados Unidos na guerra do Vietnã em 1966, mas prontamente repudiou a ideia.

Não tenho problemas com os vietcongues. Nenhum deles jamais me chamou de crioulo”. Eternizou-se, Ali.

O doloroso "Twister" em Garcia

O doloroso “Twister” em Garcia

Devoto da religião islâmica, Muhammad ainda alegou que aquela se tratava de uma guerra cristã, não declarada por seu deus, Alá, e por isso não pertencia a ela.

Compreensivo como todos o conhecemos, o governo americano prendeu o campeão mundial no ato.

Retirando-lhe todos os seus títulos, além de sua licença de lutador. Passar-se-iam três anos até que Ali subisse aos ringues novamente.

E ele já não era mais o mesmo.

Quase 50 anos depois, a Coreia do Sul ainda vive um cenário semelhante. Mais de 600 testemunhas de Jeová já foram encarceradas por declinarem a obrigação. Que escolha restaria a Jung?

Claro que se o colocarmos em perspectiva contra o israelense Noad Lahat – voluntario a lutar por Israel na Faixa de Gaza logo após sua primeira vitória no UFC – o caso do Zumbi Coreano parece refresco.

No fim das contas, tudo se resume em oportunidades perdidas.

Arte de fã

Arte de fã

Chan Sung é jovem – ainda tem 27 anos e pode regressar ao octógono antes dos 30 – o que não o impede de dedicar-se a Coreia do Sul por dois anos e voltar ainda como um dos membros da vanguarda do peso-pena.

Certo, seu histórico de lesões é preocupante – e será um total de três anos sem pisar em um octógono quando voltar,  isso se regressar imediatamente.

Mas, para nos confortar, casos como o de Dominick Cruz mostram que nada é impossível.

No mais, torço para que os anos lhe sejam generosos e que o Zumbi volte com mais fome de cérebros do que antes, pois fará uma falta irreparável.

Especialmente agora que a categoria vive uma era de renovação com a possível queda de José Aldo e o surgimento de Conor McGregor.

Em meio a tantos outros problemas que já atravancam o nosso esporte diariamente, só desejo que questões geopolíticas não sejam mais um deles.

  • Torcer primeiramente para ele voltar pra casa…

    • Lucas Rezende

      Mas ele vai trabalhar em escritório, tá tranquilo.

  • Tom Santana Barros

    esse zumbi é mt foda, vai ser uma perda enorme …tirando aldo os que mais se destacam agora é mcgregor,mendes e frankie edgar… tenho certeza que quando ele
    voltar vai disputar o titulo denovo…

    • Lucas Rezende

      É, mas dois anos é bastante tempo. Vamos ver como a divisão vai estar quando o cara voltar.

  • Paulinho_MT

    Meu lutador favorito

    • Lucas Rezende

      Um dos meus, também. O único que eu tenho camisa.

  • Renan Trigueiro

    Porra q cara azarado. Não era pra ele ter lutado recentemente?

    • Lucas Rezende

      Ele enfrentaria o Akira Corassani no card de Estocolmo no início desse mês. Mas, adivinhe, se machucou de novo.

  • Lero

    Escutei que coreano participante das olimpíadas ou do time nacional de futebol da Coreia está dispensado de prestar o serviço militar. Se o MMA tivesse mais reconhecimento ele provavelmente não estaria passando por essa situação.
    Mas eu acho que ele volta mais forte com certeza. Dois anos de descanso é o que o corpo putrefato dele precisa.

    • Renato Rebelo

      Interessante. Logo num país onde a luta (taekwondo) faz parte do currículo escolar não se faz essa concessão

      • will

        No caso da Coréia do Sul é diferente. Eles estão em guerra com um vizinho hostil e que os ameaçam constantemente. Eles não podem dispor de homens, até porque sua população é pequena. Se fosse em tempos de paz, acho que ele seria dispensado do serviço. O mesmo ocorre em Israel, ninguém é dispensado.

        • Matheus Araujo

          Há um grande apelo por lá para que o serviço militar seja pelo menos reduzido, é digno de se considerar porque o que as coréias vivem atualmente é quase uma guerra fria.

    • Malk Suruhito

      Pois Lero. Com sorte ele usa os dois anos e a estrutura das Forças Armadas para se curar definitivamente das lesões, pois é um representante do país mundo a fora e é interessante sim recuperar o mesmo. Houve uma situação parecida com o Arnold, que na época prestava serviço militar na Austria e fugiu do quartel para ir em uma competição de Fisiculturismo. Dois dias depois quando voltou, e foi se apresentar aos superiores eles só perguntaram:
      – Você venceu?
      – Sim, eu venci. Aqui está a medalha.
      Então eles o “puniram” colocando ele para trabalhar durante o resto do tempo na cozinha, onde ele poderia comer além da ração habitual dos outros soldados (e a dieta deficiente era um dos problemas dele na época) e ganhou autorização para sair e competir quando fosse preciso.

    • Matheus Araujo

      Lá você sendo esportista para conseguir a dispensa você que conquistar um titulo de renome mundial: ganhar medalha em olimpiadas, ganhar os jogos asiáticos, conquistar um copa do mundo, ou conquistar um feito de renome mundial que eleve o nome do país, a seleção sul-coreana que chegou as semis na copa de 2002 foi dispensada por exemplo. Se o zumbi tivesse conquistado o cinturão ele se livraria do serviço, embora eu ache que ser um desafiante já é elevar o país, e ai entra o que você falou.

  • Rodrigo Tannuri

    Essa é uma grande perda! O Zumbi Coreano sempre protagoniza momentos épicos e é um dos queridinhos não só dos fãs, como também de Dana White, que tem uma camisa do mesmo. Seu estilo agressivo é crucial pra chamar atenção. Infelizmente, como você falou, as lesões o atrapalham muito. Elas já estavam fazendo ele perder um pouco de espaço na categoria e o crescimento de outros lutadores também. Com esse afastamento, um dos melhores lutadores asiáticos tende a ficar ainda mais pra trás. Acredito que o TKZ fique na memória do esporte não por ser campeão e sim por ser um atleta empolgante, com vários momentos brilhantes. E isso não é pouco.

    • Lucas Rezende

      É exatamente por ele ser esse personagem com tantas qualidades que dói ver o cara se afastar.

      Mas mesmo que ele não volte mais, o cara já garantiu lugar na história.

  • will

    É uma pena perder um talento desses, mas a obrigação com o seu país vem em primeiro lugar. Com relação ao Muhammad Ali, ele só não foi preso por traição porque era famoso. Todos os outros desertores foram duramente punidos, brancos ou negros. E essa história de que era contra a religião dele não cola, todos têm que fazer sua parte. Muitos morreram lá, enquanto ele ficou em casa desfrutando da liberdade conquistada com sangue por outros. O pior tipo de covarde é aquele que justifica seu medo atacando os outros. Muhammad Ali era um misto de tudo que não prestava naquela época: comunista(apesar de adorar dinheiro), militante islãmico e um racista político. Como esportista Muhammad era uma gênio, mas como ser humano era só mais um covarde!

    • Malk Suruhito

      Não querer morrer ou matar outro ser humano por conta de um conflito que não foi você que iniciou é ser covarde?

      Por mim colocava o Eisenhover, Lyndon Jhonson, Ho Chi Minh, Ngo
      Dinh diem, Khrushchev e Brezhnev num Cage para fazer um GPzinho e
      o vencedor era a nação declarada campeã. As vidas poupadas agradeceriam.

      • will

        Pense no esforço de milhões de jovens americanos, franceses e russos que morreram para evitar que a Alemanha escravizasse todo o mundo. Imagine se eles não tivessem lutado. Vidas poupadas, talvez. Mas milhões seriam escravos e outros milhões de judeus mortos. Eu lutaria, você não?

        • Malk Suruhito

          Entenda uma coisa “A História é contada por quem vence”.

    • Jonas Angelo

      Cara, entramos no complexo campo do sociológico, aí é preciso tomar mais cuidado nas curvas. Obrigação com seu país vem em primeiro lugar justamente por ser uma…OBRIGAÇÃO. Ufanismo é uma coisa que realmente não me apetece, e a liberdade de escolha de um ser humano fica relegada à outros planos. É o mesmo ufanismo que por vezes domina os brasileiros no MMA, uma coisa que não faz o menor sentido pra mim defender um bandeira como se fosse melhor que as outras, ou um território ou povo, como se fosse melhor do que os outros. A função (ideal) de uma porção territorial é delimitar melhor espaços para o melhor desenvolvimento deste espaço e da sociedade que habita o mesmo, e não o aspecto deturpado que tomou no qual defendem-se ideologias como se fossem absolutas verdades. Ser covarde é querer impor algo à outro, ferindo seu direito à escolha e à liberdade, essa é covardia das piores.

      • Malk Suruhito

        Ufanismo, Bairrismo, Nacionalismo, Religiosismo junto ao racismo é o que mais matou seres humanos em toda história da humanidade. E tem quem ainda acredite que é algo válido de se defender e argumentar a favor.

      • will

        Toda vez que um “humanista” se recusa a lutar, outro garoto é mandado em seu lugar. Respeito a sua opinião, mas eu nunca deixaria outra pessoa morrer no meu lugar. Quem não cumpre sua obrigação não pode cobrar direitos. Direitos e deveres andam juntos numa democracia.

        • Jonas Angelo

          Will, na boa cara. Discutir geo-política até podemos (apesar de não ser o lugar). Mas dizer que um “humanista” se recusa a lutar é uma ideia bem superficial, mas bem superficial mesmo. Não me oponho à sua vontade de lutar, apenas me oponho à obrigatoriedade dessa luta. Cada um faz o que bem entender (ou pelo menos assim deveria ser), desde que respeite o direito, a liberdade e a integridade alheia. Estou questionando o conceito de “obrigação” e a quem ele serve, e não versando sobre essa falácia que são os direitos e deveres. À quem eles servem? Como diria Bob Dylan, ” a resposta, meu amigo, está soprando com o vento”.

    • heitor

      Liberdade conquistada? Nossa, não sabia que o Vietnã estavam escravizando os EUA na época =s

      • will

        O país livre que Ali herdou foi esforço de muitos anônimos que lutaram antes dele. Foi conquistada sim e com muito sangue.

        • heitor

          em outra guerra, cívil, não tem nada a ver com a guerra do vietnã, a qual ele se negou a lutar…

  • Eu acho que já vi o Chan Sung Jung e o Joe Lauzon em algum episódio do Walking Dead!!..rs

  • Leonardo Neves

    Eu me mataria mas não iria pra uma guerra pra defender meu país. Eu só iria a guerra se Lula, Sarney, Geraldo A. e tantos outros político fossem comigo pra linha de frente. Caso contrário, eu mataria alguns indivíduos ruins e depois me suicidava.

    • Bart Simpsons

      Caralho! O cara mostra a cara no perfil, ainda mostra o rosto que eu acredito ser o de sua mulher e de sua filha, e tem coragem de fazer um comentário de um nível tão imbecil quanto esse.
      No caso da guerra em que a Coréia do Sul pode acabar estando envolvida, não é por opção dela, mas é apenas a defesa contra a Coréia do Norte. No caso do zumbi coreano, ele vai para guerra literalmente para defender o país, onde por sinal, não é apenas a defesa de um país, mas ele vai defender um povo, incluindo seus familiares, amigos e outros mais. Se ajudar a defender essas pessoas não é motivo suficiente, então eu não sei mais o que seria.

      • Leonardo Neves

        Continuo com a mesma idéia. É como dizia Ali: eu não tenho nada contra vieticongos.

        • Bart Simpsons

          Bom que pelo menos você tirou a foto dos seus familiares (mulher e filha), assim evita que eles também acabem sendo constrangidos virtualmente e podendo até ser pessoalmente por conta de comentário fútil como aquele anterior.
          Parabéns pelo menos por essa atitude. Quanto a esse segundo comentário seu, deixemos pra lá. Vlw, flws!

      • will

        Essas pessoas, Bart, não entendem o que é cidadania. Uma pessoa tem deveres e direitos. Deveres não são opcionais ou facultativos. No Brasil, as pessoas só querem ter direitos. O dever fica sempre subjugado a uma “opinião” ou sentimento. É por isso que vivemos num oceano de impunidade e corrupção. É um problema de princípios.

        • Bart Simpsons

          Concordo totalmente, principalmente na parte que você diz que “No Brasil, as pessoas só querem ter direitos…”. Na hora que dizem que as pessoas tem um dever a cumprir, logo muitos aparecem e questionam o pq disso, pq que tem que ser assim, que isso não deveria acontecer, que só deveria ir quem quisesse, e bla bla bla. E ainda digo mais, no Brasil, as pessoas querem que seus direitos sejam infinitos, sempre acham que seus direitos devem ser maiores que os do outros, mas não sabem respeitar o direito alheio, muito menos sabe reconhecer aonde acaba o seu direito e aonde começa o direito do próximo.
          Eeeeeeeeta, Brasil !

  • Leonardo Neves

    Se ele morrer com um tiro no peito ele ainda lutará no UFC?

    • Leonardo Neves

      Desculpa a brincadeira sem graça mas eu não podia perder essa.

      • Lucas Rezende

        Zumbis só morrem com um tiro na cabeça.

        • Leonardo Neves

          é que o Rhodes Lima e o Luciano Andrade disseram que o Aldo só o venceria com porrada na cabeça e o zumbi perdeu por conta do ombro. Achei que os zumbis da Coréia eram diferentes.

  • Bart Simpsons

    Lá embaixo o clima tá quente. A galera começou a falar de servir a pátria, de não deixar ninguém morrer no seu lugar, de ufanismo, bairrismo, religiosismo, nacionalismo e tudo mais. Galera dessa parte do post já começou a guerra antes mesmo da Coréia do Norte atacar a Coréia do Sul.
    Ahhh, ainda teve uma parte que começaram a citar a guerra do Vietnam. hehehe… o “bagulho” tá louco pra lá.

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