De La Hoya + Mayweather = Conor McGregor

Alexandre Matos | 02/10/2014 às 16:09
Sonnen sendo vítima do próprio discurso

Sonnen sendo vítima do próprio discurso

O UFC sofreu um baque financeiro quando Brock Lesnar e Georges St. Pierre anunciaram suas aposentadorias.

A saída de cena das duas galinhas dos ovos de ouro da organização, que jogavam os números de pay-per-view sempre para lá de 750 mil pacotes vendidos, fez com que o UFC passasse a comemorar 500 mil como sucesso retumbante.

Chael Sonnen tentou ocupar o posto de vendedor número um com sua língua afiada, mas as seguidas derrotas para Anderson Silva e Jon Jones em disputas de cinturão nem sempre merecidas mostraram uma distância entre discurso e resultado.

Para piorar, Sonnen se aposentou como um beta tester de laboratório químico, pego com cinco substâncias ilegais em um antidoping.

Olhando para o boxe, que está estabelecido no mercado de pay-per-view há mais de duas décadas e movimenta montanhas de dinheiro, vemos uma chance de recuperação para o UFC.

Conor McGregor pode desempenhar papel semelhante ao que Oscar De La Hoya teve na nobre arte. E o melhor, usando traços da personalidade de Floyd Mayweather.

Oscar e seus muitos títulos

Oscar e seus muitos títulos

Assim como o MMA, o boxe viveu momentos de incerteza quando suas estrelas do peso pesado decaíram e a categoria entrou no mesmo cenário de quase terra arrasada que o UFC vive nos dias de hoje.

Os europeus Lennox Lewis e os irmãos Vitali e Wladimir Klitschko, mesmo muito talentosos, não conseguiram manter o padrão estabelecido pelos tempos dos americanos Mike Tyson e Evander Holyfield, assim como Cain Velasquez, Junior Cigano e Fabricio Werdum, igualmente atletas de elite, nem de longe ecoam o barulho de Lesnar – e até Frank Mir.

Para se recuperar, o boxe apontou para o meio da lista das divisões de peso e encontrou um Garoto Dourado, que ganhou o apelido depois de se tornar, aos 19 anos, o único americano medalhista de ouro nas Olimpíadas de 1992 no boxe.

Bonito, sempre bem vestido, de estilo tranquilo, eloquente e bilíngue (capaz de se comunicar com as comunidades latina e americana), Oscar De La Hoya era o extremo oposto dos animais enjaulados representados por sociopatas como Iron Mike.

The Ring pergunta: quem precisa de pesados?

The Ring pergunta: quem precisa de pesados?

As características fora do ringue, somadas ao talento dentro dele, transformaram o Golden Boy numa personalidade maior do que o boxe.

De La Hoya gravou CD, foi indicado ao Grammy, virou super-herói de livro infantil, estampou capas de revistas do mainstream, inclusive da Playgirl (de linha editorial como você está pensando, mas não em ensaio como você está pensando).

No fim da carreira, ganhou uma estátua de bronze na porta do Staples Center, no melhor estilo Rocky Balboa, ao lado dos mitos Magic Johnson e Wayne Gretzky, mas com o detalhe de só ter feito uma luta no ginásio – e ter saído derrotado dela.

O menino pobre de East Los Angeles se tornou um ícone da cidade mais pop do planeta.

McGregor tem as mesmas características hipnotizantes de De La Hoya. Onde quer que ele vá, as atenções são monopolizadas.

Depois de sua estreia no UFC, apareceu num vídeo passeando de Ferrari em Las Vegas com Dana White.

Num card cheio de estrelas como o UFC 178, ninguém ligou para o campeão Demetrious Johnson ou para os desafiantes recém-empossados Dominick Cruz e Cat Zingano. Só deu o irlandês na coletiva pós-evento.

“Quando Conor luta, a Irlanda inteira para. Nós tivemos coisa de 60 pontos de share na TV de lá. Mais de 11% dos ingressos vendidos em Las Vegas vieram da Irlanda. Ele movimenta o pay-per-view. Ele liderou seu primeiro evento na Irlanda e produziu renda de US$1,4 milhão.”

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Floyd ostentando

A declaração acima foi dada por Lorenzo Fertitta, um dos donos do UFC, para justificar a bolsa declarada de US$150 mil recebida por McGregor em sua quarta luta na organização.

Para efeito de comparação, Donald Cerrone, com 15 apresentações e vários bônus no octógono, embolsou US$126 mil na luta coprincipal do último sábado.

Ronda Rousey, tida pelos donos da empresa como a maior estrela do UFC, recebeu US$120 mil de bolsa declarada para triturar Alexis Davis no UFC 175.

É exatamente isso que você leu: tirando o “por fora”, McGregor ganhou mais do que Rousey.

Como o Renato já cansou de falar aqui e no podcast, o UFC não é uma instituição filantrópica.

Para largar esta grana na mão de um cara que está começando sua trajetória, Fertitta certamente ganhou muito mais às custas do irlandês.

E, conforme aumenta a verba nos cofres de McGregor (que ganhara US$32 mil para nocautear Diego Brandão em julho), mais ele se aproxima de outro mito do boxe, o superastro Floyd Mayweather.

“Conor McGregor é o cara, ele é legítimo. É uma força que eu nunca tinha visto antes. Maior que Brock Lesnar quando ele esteve aqui. Maior que qualquer lutador que nós já tivemos. Sim, maior que Georges St. Pierre. Eu nunca tinha visto nada como isso antes – exagerou Dana White após o UFC 178”

McGregor e seus ternos

McGregor e seus ternos

O número um do boxe atual desbancou De La Hoya do posto de atleta que mais ganhou dinheiro na história da nobre arte exatamente quando mudou o apelido de “Pretty Boy” para “Money” e passou a viver como lutador-ostentação, frequentemente publicando fotos ao lado de pilhas de dinheiro, de carrões e apostas milionárias em jogos de basquete e futebol americano universitários.

À sua maneira, até porque ainda não ganha a quantidade pornográfica de dinheiro que Mayweather embolsa, McGregor também curte as coisas boas da vida.

Aparece sempre vestido em ternos caros e gastou seu primeiro bônus no UFC em um carrão, quando semanas antes precisava dos 188 euros do seguro social irlandês para viver.

O Notório tem o carisma de De La Hoya, traços do lado controverso de Mayweather e junta discurso com resultado (“Eu não só nocauteio os caras como escolho o round”), diferentemente de Sonnen.

Aos 25 anos, tem bastante estrada pela frente – precisa, por exemplo, lidar com o fato de ser um irlandês nos EUA, assim como Oscar lidou com o fato de ser descendente de mexicanos.

Explorando bem esta explosiva combinação, o irlandês tem tudo para fazer a comunidade do MMA finalmente olhar para as categorias mais leves.

E os cofres do UFC agradecem.

  • Mark Sgarbi

    Ótimo texto, o McGregor pode ser sim um game changer em uma hora muito oportuna.
    PS. Muito bom poder ler luta coprincipal e nao co-luta principal 😀

    • “Co-luta” faz nem sentido, né? Já vi outros usando “co-principal”. Só falta agora aprenderem que “co” só tem hífen quando se junta com uma palavra que começa por H. O resto é justaposição.

  • Lucas

    Caraca velho, posso estar errado, mas é meu chato o estilo dos lutadores brasucas, não de lutar, mais sim de se promoverem, sempre querendo ser o “mocinho” com discursos elegantes cheios de patriotismo, não se encontra aqui um lutador marrento, que faz mesmo o papel de vilão, alá Chael Sonnen e o McGregor o que mais tinha personalidade e tem, é o Spider, mas esta na cara que mesmo sendo encenação vende luta e chama a atenção pra si, e os caras continuam naquelas, vou trazer esse cinturão para o Brasil ¬¬’

    • Renato Rebelo

      Vc tem muita razão, Lucas. Não que precisemos forçar uma barra, mas apenas assumir quem somos. A cartilha do politicamente correto e o bom-mocismo impera por aqui e isso robotiza atletas e corte pela raiz fator promocional tão importante – que banca o MMA.

      • Acho que isso faz parte do coitadismo que impera no Brasil.

        • Leonardo Paz

          mas isso nao é apenas no MMA e sim no nosso esporte em geral!!! o proprio Neymar que é esse fenomeno mercadologico no Brasil, nao faz essa imagem de bad boy e sim de bom moço!!
          Tenho a impressão que brasileiro faz esporte para brasileiro e nao para o mundo!!!!!!

      • Marcelo Silveira

        Renato e isso vale MUITO para o futebol e os outros esportes. Uma vírgula fora do lugar, uma frase mal interpretada e está criada a polêmica e a imagem do cara é arranhada, não dá pra brincar mais, levar o esporte mais no entretenimento como este deveria ser. No próprio MMA muita gente passou a odiar o AS devido a algumas falas deles distorcidas e potencializadas em redes sociais e portais. O Nelson Piquet citado pelo Lucas Resende não teria o mesmo comportamento hoje. E “forçar” a promoção o público nota e não dá atenção. Abraço!!!!!

    • Lucas Rezende

      Por isso que eu gosto do Nelson Piquet!

      No MMA, me lembro assim, sem pensar muito, só do Thiago Silva, mesmo.

    • will

      Os lutadores brasileiros são, via de regra, pessoas humildes e com pouca escolaridade. Atletas estrangeiros têm, além de maior escolaridade, uma melhor acessoria de imprensa e falam inglês fluentemente. Eu não dou a mínima pra o que esses babacas falam em coletivas de imprensa. O que importa é quando a jaula fecha e a bicuda canta!!! Nessa hora, o brasileiros sempre deram show.

      • E tem 8 americanos campeões no UFC e um brasileiro.

        • will

          Os americanos têm melhores condições de treinamento, melhores técnicos (muitos brasileiros) e melhor alimentação que resultam em mais campeões. E mesmo assim, há pouco tempo atrás, o Brasil tinha 3 campeões. Nós temos muitos talentos aqui, apesar do seu descrédito.

  • Felipe

    McGregor parece estar querendo jogar tudo fora, forçando uma
    subida aos pesos leves. Primeiro reclamou em público sobre o corte de peso, e
    agora tentou forçar uma batalha contra Diego Sanchez já em novembro. Alguém
    precisa tirar isso da cabeça do rapaz, pq na categoria de cima ele seria apenas
    mais um. Um bom orador com cartel medíocre acaba se tornando uma estrela
    apagada.

    • Renato Rebelo

      Concordo com vc. Fiquei chocado quando vi o Tweet dele sobre o Sanchez. Que bom que não passou de pegadinha do Malandro. À la Mark Hunt, ele devia estar com fome e sem nada pra fazer hehe

    • Eu ACHO que era uma zoação, mais uma autopromoção pra dizer que não só pega geral nos penas como pega nos leves. Não foi a primeira vez que ele pediu pra lutar com o Diego Sanchez.

      • Malk Suruhito

        E tu apostaria em quem, caso ocorre-se?

        • Conor McGregor.

          • Italo Soares

            Galera temos que lembrar que o Conor McGregor antes de ir para o UFC ele foi Campeão dos pesos Pena e Leves do Cage Warriors Fighting Championship!

          • Eu sei.

  • Junior

    Concordo com tudo que o Alexandre escreveu, apenas discordo sumariamente do Dana falar que ele já é maior do que era Lesnar e principalmente GSP, pra chegar perto do nível do canadense, ele precisa vencer muita luta , vender muito PPV e chegar a ser campeão, ele é um ótimo projeto de fenômeno, não um fenômeno consagrado como GSP.

    • Renato Rebelo

      Dana é um promotor de vendas, né, quem tá debaixo das asas dele no momento é o Conor, então, já viu hehehe

    • Isso aí é o Dana fazendo Danices, tipo quando ele disse que o Barão era o número 1 p4p pra vender o UFC 177 e várias outras.

  • Maldonado pepey

    Não foi a quinta luta dele,foi a quarta,o que torna mais impressionante ainda um rapaz com quatro lutas recém completadas ganhar bolsa de 150k.

  • Ricardo Nunes

    Esse fanfarrão tem que comer mt feijao com arroz pra ser Mayweather e De la roya

  • joao neto

    Cara!! esse blog e demais,conheço a pouco tempo mas ja virou um vicio….muito bons os textos…toda hora entro para ver se algum colunista escreveu algo novo!!! Parabens a todos vcs!!!!

    • Renato Rebelo

      Po, muito obrigado msm, João! Uma honra pra nós = )

  • Rodrigo Tannuri

    Particularmente, eu sou um grande fã desse atleta diferenciado. Mesmo sendo um novato no UFC, podemos sim dizer que ele é diferenciado. Pra falar a verdade, acho até que ele merece todo esse status. Pode perder e cair do salto? Sim, ninguém está livre das derrotas, mas só de fazer o que vem fazendo, ele tem muito crédito. Superar os astros GSP e Lesnar é claro que ele ainda não é capaz, mas, num futuro próximo, com certeza poderá batê-los.

    O que me irrita é ver muitas pessoas chamando de inimigo um lutador que enfrenta ou que possa enfrentar algum brasileiro. Foi assim com Sonnen, Jones, Velasquez e, agora, vemos isso com o McGregor. Muitos ainda pensam que a promoção é a opinião pessoal dos lutadores. O esporte não precisa desse tipo de coisa, que considero algo bem bobo até.

  • will

    Eu só acho que você esqueceu um detalhe importante na sua comparação. McGregor não tem, nem de longe, o talento para lutar que os outros dois citados têm. Eu tenho até pena dele num octógono com o Aldo. A diferença técnica é absurda.

    • Como eu não estava falando de talento técnico, mas sim de capacidade de atrair atenção e se tornar uma galinha dos ovos de ouro, não tinha motivo pra fazer essa comparação que você pediu. Até porque nem tem muito sentido comparar atletas de esportes diferentes.

      • will

        Se não faz sentido comparar atletas de esportes diferentes, então por que você os comparou no seu texto? E se o talento técnico não era o objeto de seu texto, então por que você citou a passagem seguinte? “As características fora do ringue, somadas ao talento dentro dele,
        transformaram o Golden Boy numa personalidade maior do que o boxe.” Foi exatamente o que eu disse, sem talento ninguém alcança sucesso nesse ramo. McGregor não se compara à Oscar De La Hoya porque não tem o mesmo talento.

        • Vamos lá, devagar pra ver se você entende.

          – Eu não comparei os talentos técnicos. Em momento algum eu disse que o McGregor é tão bom lutador quanto o De La Hoya. Isso simplesmente não tem nexo.

          – A passagem que você citou não compara o De La Hoya com ninguém, não sei se você percebeu.

          – Você deve ter esquecido, por exemplo, que o Sonnen fez muito sucesso sem ser um primor de talento dentro do esporte dele. Não precisa ser um Oscar De La Hoya pra fazer sucesso. E isso porque eu nem vou entrar no mérito se o McGregor tem ou não o mesmo talento do De La Hoya.

          • will

            Eu entendi muito bem. Sob nenhum aspecto existe semelhanças entre os ídolos do boxe que citou e McGregor. Nem mesmo sob o ponto de vista mercadológico. Auto-promoção só funciona se for embasado em talento, no caso dele não vai funcionar.

  • Leonardo Neves

    Antes desse moleque entrar no ufc eu já apostava alto nele. Passaram-se as lutas e o cara foi aos poucos deixando o boxe (que eu considerava um dos melhores do MMA) de lado pra se dedicar ao caratê. O garoto bom de esquivas e aproveitamento de 90% de socos dados, conectados, foi aos poucos sumindo e mais rápido ainda foi levando muitos golpes de encontro mostrando na sua expressão facial o desconforto ao ser atingido.
    Mcgregor já flw que não faz sparring duro e que treina inteligente. Essa é uma faça de dois gumes. O lado bom é que vc luta sem lesão ou dares chatas. O lado ruim é que quando vc começa a levar um atraso na luta seu corpo por não estará acostumado a absorver os golpes e a resistência não consegui acompanhar o ego.
    Se José enfrentar Mcgregor o irlandês pode até fazer um bom primeiro round mas, logo que começar a sentir seu rosto queimar e suas pernas endureceram a tendência é desistir. Não por querer mas por seu corpo não ser capaz de reagir ao que sua mente manda.

  • Mateus Caraúna

    Ótimo texto!

  • Isaac

    O MMA Brasil se foi?

  • Danilo Lopes

    Incrível como todo mundo comprou mesmo esse exagero todo do UFC com o Conor. Próxima luta ele perde e ai todo mundo cai na real. Entre ele, Gunnar Nelson e Pendre, sou mais o Pendre. Logo Logo Gunnar e Conor caem. Tão querendo subir rápido demais.

  • Leandro Coimbra

    Li o título e imaginei os comentários do globoesporte.com massacrando o Alexandre, hahahah. Muito bom o texto, abraços!

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