Será o envelhecido peso pesado renovado a tempo?

Renato Rebelo | 17/09/2014 às 23:22
ARLOVSKI

Nocaute de Arlovski chacoalhou a divisão

Ah, a concorrência…

Se essa abençoada palavra ainda não foi canonizada pela igreja, está na hora do Papa Francisco se coçar.

Hoje, mais precisamente, focarei na concorrência de ideias.

O controverso texto escrito pelo colunista Lucas Rezende na última segunda-feira promoveu todo sorte de reação.

Em debate com vocês na seção de comentários, parei para pensar num ponto que ainda não havia me passado pela cabeça.

Contextualizando: expus meu pessimismo quanto à renovação da categoria até 120kg no MMA por dois motivos:

1- Dada à media física da população mundial, não é simples surgir fornadas de homens com mais de 105kg física e tecnicamente capazes de impressionar dentro de uma jaula de aço.
2- Historicamente (mesmo entendendo que nosso esporte é praticamente recém-nascido), nunca tivemos grande amostragem de talento entre pesos-pesados. Tudo sempre se resumiu a um punhado de foras de série. No passado, Fedor Emelianenko, Mirko Filipovic e Antônio Rodrigo Nogueira. Hoje, Cain Velásquez, Júnior dos Santos e Fabrício Werdum. Adicione um ou dois nomes à qualquer uma dessas listas e pronto: atingimos um teto.

Até que o camarada Gabriel Castelani levantou um ponto interessante.

A popularidade do esporte pode (e deve) atrair homenzarrões que tradicionalmente migrariam para vôlei, basquete, futebol (goleiros, principalmente) ou até se manteriam em artes marciais tradicionais.

É claro que o risco e o trabalho de entubar duas, três artes marciais manterá afastada uma parcela desse público-alvo, mas, ainda assim, as rechonchudas bolsas (que só tendem a crescer) e a visibilidade internacional são atrativos e tanto.

Imaginem, dentro de uma década, cidadãos do porte de Lebron James, Saquille O’Neil, entre outros, calçando luvinhas de quatro onças…

A minha dúvida é: quão demorada será essa renovação?

Da série “quem tem fome, tem pressa”, o cenário é deveras preocupante num nicho onde golpes são verdadeiramente traumáticos, carreiras não costumam perdurar e o espaço entre lutas é grande (Mark Hunt, Júnior Cigano e Cain Velásquez ainda não lutaram em 2014, por exemplo).

Se liguem na fita:

1- Cain Velásquez – 32 anos
2- Fabrício Werdum – 37 anos
3- Júnior Cigano – 30 anos
4- Travis Browne – 32 anos
5- Stipe Miocic – 31 anos
6- Josh Barnett – 36 anos
7- Mark Hunt – 40 anos
8- Andrei Arlovski – 35 anos
9- Roy Nelson – 38 anos
10- Antônio Pezão – 34 anos
11- Ben Rothwell – 32 anos
12- Alistair Overeem – 34 anos
13- Gabriel Napão – 35 anos
14- Frank Mir – 35 anos
15- Rodrigo Minotauro – 38 anos
Média: 34,6 anos.

Enquanto, felizmente, os mais talentosos ainda terão sobrevida, as não menos importantes linhas auxiliares parecem estar com seus dias contados.

Ou nos chocaríamos se, em 2015, de três a cinco nomes supracitados pedissem as contas?

Olhando pra parte debaixo da tabela, a situação não melhora muito.

Há apenas seis pesos-pesados trabalhando para a Zuffa com menos de 30 (Stefan Struve, Todd Duffee – ambos com notórios problemas de saúde-, Shawn Jordan, Derrick Lewis, Jared Rosholt e Viktor Pesta).

Isso explica por que a demissão de Alistair Overeem, péssimo custo-benefício para a empresa (caro e não entrega), sequer fora cogitada:

Ele ainda está entre os melhores. Vamos dar outra luta pra ele”, disse Dana White.

Gerônio Mondragon, inclusive, vinha sendo mantido no quadro de empregados (ele que pediu para ser desligado) mesmo impedido de atuar pela hepatite B.

Se por um lado as recentes emersões de Andrei Arlovski e Ben Rothwell trazem novos e interessantes casamentos à mesa, os veteraníssimos não resolvem o problema nem a curto-médio prazo.

E o que deve ser feito – além de esperar sentado a nova colheita?

Buscar talentos em novos mercados? Apostar em TUFs (a décima temporada trouxe Brendan Schaub, Nelson e Matt Mitrione)? Fazer parcerias com circuitos regionais? Forçar a subida de meio-pesados (alô, Jon Jones!)?

Eis as questões.

O UFC precisa pensar fora da caixa rápido ou o oásis no meio do deserto pode acabar secando antes mesmo da aguardada transposição do Rio São Francisco.

Abraços.

  • Luis Felipe Fabricio

    A coisa tá realmente feia em termos de reposição, parando pra pensar as grandes contratações supostamente negociadas foram o retorno do brock lesnar (trinta e tantos já) e ainda o Fedor(dificil), com trinta e tantos tb.
    .
    Pra piorar me parece que não é um problema exclusivo do UFC, os pesados da concorrência tb estão em baixa.

  • Dan Mendes

    Só por curiosidade eu fiz a média de idade do TOP 15 do UFC na categoria dos médios. A média é de 33,75 anos de idade, ou seja, quase a mesma coisa.

    • O ponto é que os médios está um pouquiiiiinho mais competitivo, pois ainda temos: Champ. Jacaré, Belfort, Machida, Rockhold, Yoel Romero e Tales Leite vindo ai para apimentar. Já os pesados, temos Champ, Cigano e Werdum.

      Falando em médios, no top 15 está o Francis Carmont, que aliás passou no R.H. hoje, neh?

      Voltando ao assunto, estamos aqui para falar de brutamontes..rs.

      • Renato Rebelo

        … Sem contar que existem quase o dobro de médios (64 x 33).

        • Nelson Junior Ticaum

          Quem diria… Pouco tempo atrás, era a categoria menos competitiva do UFC, com Spider reinando intocável, pegando uns frangos (Disputou cinta com Cote… que ainda tirou onda porque chegou no terceiro round… pelamor…). Tudo tem solução. Daqui a pouco aparecem dois ou três mutantes e renovam a categoria…. Acredito (torço) eu.

        • Dan Mendes

          Pois é, idade não tem nada a ver com competitividade.

          • Renato Rebelo

            Discordo parcialmente de você. Com talento, não, mas com competitividade, sim.

      • Dan Mendes

        A questão não é esta. Demonstrei que não é a idade média dos pesados que é alta mas sim do atletas de MMA, pois geralmente eles vem de outros esportes.
        Quis dizer também que idade não tem relação com competitividade e talento.

  • Boa!
    Todos nós percebemos também a escassez dos gigantes, olha o exemplo do TUF Sonnen Vs Wanderlei. Tínhamos uma categoria dos pesados e se não me falha a memória, somente o montanha pratica na categoria. Até Rachad Evans já foi pesado em TUF..rs

    Mas acredito que um fator que influencia na disparidade de qualidade é estarmos em uma fase onde temos dois muito além dos demais, que é o caso do Cigano e Velásquez, pois se eliminarmos ambos, a categoria fica completamente competitiva. Imagine também se tivéssemos uma máquina do tempo, pudéssemos jogar um dos dois em qualquer fase dos pesos pesados, não acham que eles dariam conta do negócio, ou não acreditam que Cigano ou Velasquez arrepiariam Fedor, Minota, e cia ltda?

    Jon Jones subindo? Acho difícil, mas seria interessante, antes queria vê-lo encarar algum enrosco como Roy Nelson ou até Mark Hunt, mas sei não se o João Jonas segura o B.O.

  • Rodrigo Loureiro

    Olhando por um outro prisma, vejo isso muito ligado a maturidade também, por ser um esporte agressivo, e uma categoria onde temos em grande maioria monstros de 1,90+ com 110kg+, penso que se torna muitas vezes pouco atrativa a atletas jovens, digo isso porque se ponha no lugar de um atleta jovem com seus 24-25 anos, psicologicamente deve ser muito difícil bater de frente contra um cara quase 10 anos mais velho que você em que estar em desvantagem significa que você pode muito bem receber uma surra ou um grande soco e acabar de cara na lona. Todas categorias tem esse risco? Com certeza, mas penso eu que o peso deve ser muito maior quando você pensa em enfrentar gigantes onde um soco muitas vezes será mais “doloroso” que ser atropelado por um caminhão.

  • Yuri David

    Como você disse, não existem muitas pessoas com tamanho de peso-pesado, pois o tamanho médio de homens passa longe disso. Isso explica porque a divisão dos leves é tao abarrotada de gente e talentos. É só uma questão de estatística.

    Porque o Brasil tem tanta gente boa no futebol? Porque muita gente joga. No MMA funciona do mesmo jeito.

    Ainda tem o fator de os lutadores cortarem muito peso. Tem caras na meio-pesado que são gigantes, mas não lutam ate 120 kg.

  • Ruan

    Se não houver novos talentos, só consigo ver em 8~10 anos a categoria dos Pesados “Inativa” na organização. Seria uma tragédia, ver que os que realmente atraem a multidão não irão se renovar e acabar nesse grupo que a idade está estourando.

    Obs: Como eu queria ver o Todd Duffee lutando novamente.

    • Vitor MR

      Creio que acabar, não acabe; tendo em vista a média remuneratória das jamantas: onde tem dinheiro sempre terá “investidor”.

    • Dan Mendes

      Todd esta com luta marcada para o UFC 181

      • Ruan

        Eu vi isso depois que comentei, coincidência. Vamos ver se ele consegue engatar sem os problemas de saúde.

  • Antonio Pedro

    Há um equívoco entre falta de ídolos (ou a perda dos existentes) com potencial dos atletas… Em suma, se não há regularidade de vitórias dos lutadores simplesmente eles entram numa classificação ala Rickson “nivelamento por baixo” e paradoxalmente ele pode ser o máximo nível simplesmente porque é o que se tem para o momento… “não tem tu vai tu mesmo”.

  • Caio Abreu

    cara o cenário é complicado principalmente no ufc onde cavalos de 1,90 de altura teiman em lutar atá nos meio médios alô luke barnatt mas ainda vejo saída o tuf brasil mostrou bons valores como o cara de sapato , o pezão… enfim mas infelizmente ambos pretendem baixar de peso. acho que deveriam incentivar esses cara dar boas lutas a eles. além de que a pancada nos pesados é sinistra galera aquela luta do Mitrione contra o Lewis mostrou e levar pancada não é bom de nenuhm jeito imagine de um cara com mais de 105 kg.

    • Renato Rebelo

      O TUF sem dúvida seria uma alternativa. Acontece que o Cara de Sapato e o Vitor Miranda, finalistas do nosso último, vão lutar de médios! O Pezão que não tenho certeza se vai de médio ou meio-pesado. Rick Monstro vai de médio tb!

  • Bruno P.

    Acho que tem um ponto a ser levado em conta: um lutador de 24/25 anos, com 1,90m de altura, tem mais facilidade de cortar peso do que um de 30. Haja visto Jon Jones e Gustavão. E na categoria de baixo, eles tornam-se mais competitivos. Acho que esses lutadores, com o passar do tempo, tem mais propensão a subir de categoria devido à dificuldade em cortar peso, o que eleva a media de idade dos pesos pesados.

  • Jonas Angelo

    Entendo os pesados como sendo isso mesmo, uma categoria em que a técnica não seja o que mais vemos (e que também não podemos exigir), principalmente se levarmos em consideração potência e força. Tendo isso em vista, Cain é um extraterrestre de mão cheia, pois reúne muitas qualidades raríssimas à um peso-pesado. Tirando ele, acredito que cigano seria o campeão, mas as coisas seriam bem mais parelhas. Penso que temos que analisar essa categoria com relação à ela própria, e não comparando com as demais, pois é uma categoria com um caminhão de peculiaridades. Acho que precisamos ir com calma nessa análise dos pesados, e lembrar que a emoção que muitas vezes falta em outras, sobra nessa. (vide a porradaria que vai comer solta entre nelson e hunt, bombas, petardos e pedradas voando dentro da jaula). Na minha opinião, essa é a categoria que mais nos remete ao passado e aos primórdios do MMA, e querer exigir um grande preparo físico desses monstros é esquecer das lembranças que eles nos trazem de outrora.

  • Jonatas Maciel da Silva

    Renato Rebelo imagine que todos os meio pesados fizessem um crossover com a categoria de pesos pesados com seus respectivos pesos naturais, teriamos mais meio pesados como top 5? Será que os meio pesados msm sendo mais leves tem mais chances pelo talento de vencer os pesos pesados na sua opinião? É uma boa pergunta pra se levar ao podcast vou relembrar essa para o proximo até mais….

    • Renato Rebelo

      Boa pergunta mesmo, fera. Mt difícil imaginar que um cara do naipe do Jon Jones não seria top 5 fácil da categoria de cima (obs: ser campeão já são outros 500)

      • Jonatas Maciel da Silva

        Mas imagine que o top dos meio pesados não ganhasse massa que lutasse com peso de meio pesado. Gusta vs miocic ou werdum vs bones quem vence com seus respectivos pesos?

        • Renato Rebelo

          Aí, não. Há classes de pesos diferentes por um motivo. O Miocic provou isso claramente contra o Maldonado (que é pugilista e aguenta castigo). Se fosse como está hoje, a diferença de potência, força isonométrica, etc, seria mt grande. No nível atual do MMA MMA, um cara que pesa 105 em off tá longe de outro que pesa 112 em forma.

  • Pedro Duarte

    Secar é uma possibilidade muito remota. Obviamente, existe a dificuldade devido ao tamanho peculiar dos atletas da categoria (e o fato de que muitos dos lutadores até 93gk hoje em dia estariam competindo nos pesados tempos atrás), mas enquanto o esporte for popular, teremos a categoria, ainda que esvaziada. O preocupante pra mim é a disparidade técnica entre Velasquez e os demais oponentes. Há 10 anos atrás, a categoria era igualmente vazia, mas aceitava-se confrontos como Fedor x Zuluzinho ou Minota x Sapp e isso acabava enchendo a linguiça do povo.
    Hoje o esporte se profissionalizou de tal modo que não aceitamos lutas de circo, portanto não existem atletas teoricamente capazes de destronar o campeão no sistema de rankings, e isso torna o cenário um pouco entediante.
    Imaginemos uma categoria sem Cigano e Velasquez. Aí sim teríamos 5, 6 lutadores emparelhados pelo título e de repente o cenário fosse um pouco mais animador, ainda que técnicamente falando fosse tão pobre.
    De acordo, Renato?

    • Renato Rebelo

      Sim! Secar foi força de expressão. Concordo com vc que o grande problema é o gap entre o punhado que lidera e a rapa. Gostaria que esse punhado crescesse e não sumisse para que todo mundo fosse nivelado (por baixo). Esse é o prob. O atual cenário dos meio-médios, pra mim, é diferente. Saiu um campeão dominante, mas a categoria ficou mais excitante pq, atrás dele, tem 10, 12 caras muito bons. E esse não é o caso dos pesados.

  • Rafael Cunha Caroline Reis

    Quantos pesados temos hoje perdendo peso pra bater os 120kg? O Hunt hoje tava 8kg acima do peso, vai ter que balangar (muito) a teta na esteira. Além dele Pezão, Mitrione? palelei?Rothwell? A Maioria ta praticamente no peso dos meio pesados em OFF.

  • will

    Acho que o que incomoda vocês é o fato de a força bruta subjulgar a técnica! O orgulho fica ferido quando uma pedrada no queixo desmorona meses de treinamento e técnica. Ou quando um mané da luta livre ganha o cinturão usando apenas força bruta. Quem gosta de superação é o Karate Kid, o povo gosta é de porrada e ignorância.

  • Vitor MR

    É necessário fazer o que se faz em todos os esportes: influenciar crianças e esperar a colheita – inclusive para biotipos menos frequentes.

  • Gabriel Castelani

    Obrigado pela moral Renato! A pagina é um exito absoluto!

    • Renato Rebelo

      Obrigado você pela inspiração, amigo!

  • Loriquero

    http://i.imgur.com/kifuXL5.jpg

    Romero tem 1.77m… http://i.imgur.com/kifuXL5.jpg nessa foto ele parece o Demetrious Johnson…

    O dia que um cidadão do tamanho do Shaq entrar na UFC vou te contar…

    • Renato Rebelo

      Vai ser o dia da criação da categoria “superheavyweight” ou da exstinção do limite de 120kg. Ou alguém acha que o UFC deixaria um Shaq passar por falta de atletas para formar uma categoria inteira?

      • Loriquero

        Ai eles vão ter que chamar esses mocinhos…. http://www.titocouture.com/wp-content/uploads/2013/04/Jones-Brothers-500×375.jpg
        Mas não vai acontecer, negão americano desse tamanho pode fazer muita mais grana jogando football do que levando soco na cara.
        A solução é fazer recrutamento na Russia, Ucrânia, ex-Iugoslávia…
        Imagina um exercito de cavalhos tipo o Vitali Klichkó lutando no UFC…

Tags: ,