Estaria Joe Rogan certo sobre o racismo no MMA?

Renato Rebelo | 10/09/2014 às 15:24
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Luther King: Nobel da paz e ícone da luta por direitos civis nos EUA

Dos 10 aos 13, em fase pré-adolescente, meu gosto musical pendia pesadamente para o lado do rap.

Foi nesse período que adquiri o CD “The Eminem Show”, do cultuado Marshall Mathers.

Pela conjunto rimas + batida – até porque meu inglês se limitava a hello, yes, thank you e please– abracei, instantaneamente, White America como minha música favorita.

A curiosidade, que logo me levou a um desses sites de tradução online, me deixou, por anos, ainda mais encucado: estaria Eminem sendo irônico ou franco ao declamar as inúmeras vantagens de ser um rapper branco nos Estados Unidos?

Afinal, o meio do hip-hop sempre foi dominado por negros e o cara mais me parecia um estranho no ninho (exceção) que só fora aceito pela comunidade por portar talento raro.

A ficha só caiu com o passar dos anos: falava sério o artista de Detroit.

O tema preconceito na Terra do Tio Sam é, inclusive, mais espinhoso (por “n” motivos) do que no Brasil.

Primeiro, eles tem uma indústria cultural (cinema, séries, programas de televisão, etc) muito mais potente – que reconta até hoje histórias escabrosas.

Depois, a Proclamação de Emancipação (abolição da escravatura) só foi assinada – por Abrahan Lincoln em 1863- após uma traumática guerra civil.

Soma-se isso aos fatos de que a população deles não é tão miscigenada quanto a nossa (negros são cerca de 12% lá e 49% aqui) e que a segregação racial era apoiada pelo estado até 1965 (por lei, negros não podiam votar, ter acesso a certos espaços públicos, etc) e chegamos à raiz do problema.

UFC 140: Jones v Machida

Por que Jon Jones não é tão popular?

Ações afirmativas (sim, as cotas vieram de lá) e até a eleição de um presidente negro (Barack Obama) representam uma clara tentativa de amenizar passado inconveniente.

Mas casos recentes, como a brutalidade policial contra minorias em Ferguson (Missouri), por exemplo, mostram que as chagas não serão cicatrizadas tão cedo.

Após longa introdução, finalmente aporto no MMA.

Nosso esporte, visto como bárbaro por diversos setores da sociedade, jamais proporcionou cenas vexatórias como a da menina gremista berrando “macaco” para desestabilizar o goleiro Aranha, do Santos.

Que eu me lembre, um ou outro bobalhão irrelevante com tatuagens nazistas foi o mais próximo que chegamos da involução social.

Teve também aquele caso do meio-médio alemão Benjamin Brinsa, demitido antes mesmo de estrear no UFC por ter tido laços com grupos neo-nazistas na adolescência.

Se você, de qualquer forma ou jeito, está envolvido com grupos racistas, neo-nazista ou qualquer coisa negativa desse jeito, você será cortado”, declarou Dana White na época.

Esse panorama me leva à declaração do comentarista Joe Rogan na última edição do seu podcast:

Eu não sei por que o Jon (Jones) não é mais amado ou popular do que ele é. Não entendo. Eu jamais perderia um pay-per-view dele. Eu escuto pessoas dizerem “Ah, mas ele é metido. Ele é isso ou aquilo”. Eu me pergunto o que está acontecendo e o quanto disso é racismo. Sabe por que? Acho que o veem como o cara negro metido e muita gente tem problemas com isso. Acho que, se ele fosse branco e estivesse fazendo a mesma coisa, à la Chael Sonnen, ele seria mais popular”, disparou.

Assim que a li, “Vamos fazer a matemática, se eu fosse negro, não venderia a metade”, frase contida em White America, me veio à cabeça.

Mas parei para pensar.

Os afro-americanos Muhammad Ali (esse, inclusive, foi expulso de um restaurante logo após conquistar a medalha de ouro olímpica por ser “não-branco”) e Mike Tyson não são, em termos de popularidade, as duas maiores estrelas da história dos esportes de combate?

E o “super arrogante” Floyd Mayweather? Também não é o atleta mais bem pago do mundo atualmente?

Prefiro acreditar que a teoria de Rogan é furada (a personalidade de Jones aliada à ausência de nocautes fulminantes e pisões no joelho, de repente, explicam a questão), até porque, aos olhos de uma maioria decente (que, felizmente, infesta nosso esporte), a raça é uma só: a humana.

Abraços.

  • mazzaropi

    Estou estudando agora.

    Depois eu volto…

    • Esse comentário foi à altura daqueles “first” no youtube..kk

      • Nilo Júnior

        Prova que o Sexto Round virou mainstream.

        • mazzaropi

          Gênio!

      • mazzaropi

        O seu foi o “second”… kkk!

  • João Motta

    Jones faz parecer que tudo é “muito facil” as pessoas gostam de superação e Jones (com exeção de Gustavão) não foi testado de maneira “Hard”.
    Ser negro influencia tanto quanto ele falar Espanhol pra sua popularidade… O nosso esporte brutal é cercado de pessoas “cerebrais”, doutores e afins (herdados do Jiu Jitsu hehe), não é comum em um lugar onde as pessoas pensão de forma brilhante uns segregarem os ourtos por cor…

  • Vitor MR

    Baita texto.
    A tese do Rogan é furada pra quem tem um cérebro normal, ou seja, pra maioria.

  • Thiago Gomes

    Muito bom o texto. O engraçado é que a introdução e o desenvolvimento do texto levam a crer que você vai concordar com a teoria do Rogan, mas no final vai por um caminho diferente, já estava lendo pronto para discordar da opinião rs…valeu

  • Danyel P Lorenzo

    A prova disso é o Urijah Faber. A quanto tempo perdeu seu cinturão e continua entre os lutadores mais populares ? Tirando que a maioria dos ídolos de mma americanos são todos brancos. Couture, Faber, Franklin, Lesnar.
    Uma matéria antiga do Sensei, no quadro Sensei Noção o Marinho luta com Jon Jones e depois faz uma entrevista. Lutador humilde, diferenciado, na minha opinião ele se mostrou um verdadeiro campeão sendo um exemplo dentro e fora do Octagon. Eu tenho o Jon Jones com um dos ídolos do esportes, que reinventou a categoria com armas pouco exploradas na época. Concordo com o Joe Rogan.

    • Dan Mendes

      O Urijah Faber disputa o cinturão enumeras vezes por que ele nunca perdeu uma luta que não tenha sido por disputa de cinta.

  • Luiz Guilherme

    excelente texto renato! a tese é furada, e mto bom o desenvolvimento da sua opinião sobre isso.
    acho que a questão de quem não gosta do jon jones, passa mais pela pessoa achar as atitudes dele arrogante (não acho isso) do que qualquer cunho racial

    • Jones é arrogante sem saber ser. O povo odeia o Mayweather exatamente por ser arrogante, ostentador, mas o Mayweather sabe ser arrogante, sabe ser babaca, sabe fazer nego odiá-lo (e pagar pra vê-lo perder). Aí ele vende 1,5 milhão de PPV por luta, enquanto o Jones fica com um terço disso (isso porque o PPV do UFC é mais barato que o do boxe).

  • Neil Magny

    Nada a ver o que o Joe falou, as pessoas não gostam do jon, pelo fato de ele ser um idiota de elevada estirpe.

    • João Gabriel

      Exatamente, o cara pode ser um atleta fantástico, um dos mais geneticamente presenteados do MMA, mas o cara é um babaca. Eu gostava dele antigamente, mas depois de algumas entrevistas arrogantes passei a torcer contra.

  • Vitor Henrique

    Disse tudo Renato !!! Soma aquele preconceito também…

    • Se ele fosse branco e continuasse tendo as atitudes que tem, continuaria igual é hoje, com uns odiando e outros idolatrando.

  • Maykon Douglas

    Não acho a teoria do Joe Rogan um absurdo, porém não sei dizer se ele está com a verdade. Agora, na minha opinião, a personalidade do Jones aliada ao seu estilo de vencer seus oponentes não são argumentos que explicam está complexa e espinhosa questão. Infelizmente continuo não tendo uma resposta para este caso. De qualquer forma, parabéns pelo excelente texto…

  • Dan Mendes

    JJ não tem carisma, carisma ou você tem ou você não tem. Não tem jeito.

    Além do mais o João é um falso humilde (pior que um “metido”) e tem atitude escrotas, como derrubar o Quinton após o fim do Round.

  • Fabricio Alves

    A Patricia Moreira vai ser contratada pelo Malhaçao da Globo. Depois daquele choro sem lagrimas ela quebrou o coraçao dos diretores da globo.

  • Marcel Ramon

    Não conheço a fundo a realidade norte-americana sobre o racismo, mas na minha opinião não se pode descartar essa hipótese levantada pelo Rogan.

    Ao ler as comparações com Tyson, Ali e Mayweather, lembrei de uma frase de um amigo durante uma discussão sobre racismo: “Ah, mas o Joaquim Barbosa é a prova de que estudando e se dedicando qualquer negro pode chegar em um alto patamar”, a conclusão que tive é que ele mascarou nossas injustiças com um caso isolado.

    Acho que a popularidade(venda de pay-per-view, grande massa) de JJ NÃO ser, mesmo que minimamente, influenciada por todo esse problema é uma teoria questionável.

    Abs!

    • Renato Rebelo

      Interessante seu ponto, Marcel. Tb acho que não podemos descartar qq hipótese, mas Ali, Tyson e Mayweather não são exceções no boxe (Sugar Ray Leonard, Roy Jones Jr. Evander Holyfield, George Foreman, Joe Louis, etc, etc) e muito menos no esporte americano (Michael Jordan, Tiger Woods, Barry Bonds – apesar do doping-, irmãs Williams, Carl Lewis, etc, etc). E, repito, eles são apenas 12% da população americana.

    • mazzaropi

      Amigo Marcel, Joaquim Barbosa é o ícone da Justiça Brasileira! Joaquim Barbosa sentenciou corruptos com provas sólidas de peculato, prevaricação e possível formação de quadrilha que tornaria a sentença inafiançável, mas se você seguir a linha de acontecimentos durante o processo tentaram atrapalhar a vida do magistrado em todos os sentidos…

      Sobre a Educação, nós precisamos de igualdade de condições para que o estudante potencialize suas potencialidades.

      Depois te falo mais, tenho que estudar agora…

  • João Gabriel

    Eu posso estar generalizando, mas eu tenho a impressão que o racismo é muito mais presente no Estados Unidos do que aqui, basta ir nos comentários de um vídeo no youtube, sempre tem um pelego que faz um comentário super racista, já vi até gente discutindo se o Cain Velasquez poderia ser considerado branco ou não, como se essa questão tivesse alguma importância nos seus resultados.

    • Renato Rebelo

      Sem dúvida. Tento passar um pouco essa idéia no textos com as infos extra-MMA

  • Lucas Andrade

    Texto bem desenvolvido, parabéns!

  • Lucas Andrade

    Creio que exista racismo sim. Só é ver a fama e adoração repentina pelo gigante Brock Lesnar, mesmo ele não sendo um lutador impecável e refinado. E cá entre nós, era um fanfarrão, porém conquistou grande público e inclusive à mim.

  • Leonardo

    Também acho que o Rogan viajou. Pra mim a falta de popularidade é devido a ele não ser nem um marrento declarado nem um humilde. Ainda por cima tem o estereótipo de ser aluno do Greg Jackson e do seu famoso “go check Lyoto, get some fans”.

  • mazzaropi

    Realmente quem mora nos EUA pode comprovar o quão segregado é seu povo. Lá ainda fervorosamente tem as guerras de gangues e normalmente negros ficam com negros, brancos com brancos, japas com japas, e assim por diante… Acho que Rogan simplesmente queria dizer que Jon Jones mesmo campeão não tinha a popularidade do gangster Soneca! Exploda o Soneca, eu quero ver Jones lutar e se tornar o segundo maior lutador da história do MMA…

  • Leo Ferreira

    Mais uma vez eu digo, o UFC não está sabendo popularizar seus atletas. Falta muita ação de marketing, Q&A, Pool Party, treino aberto e posters autografados, não resolve isso. Falta mais, muito mais…

    • Ban

      Diga o que falta companheiro!

  • Loriquero

    Não é tao popular porque ele intentava ser sempre o mocinho do conto. Mas ele não encaixa nesse papel… ficava sempre com aquele ar de fanfarrão.. Gosto mais dele agora que virou mais mayweatherizado.

  • Malk Suruhito

    Existe sim racismo lá como em todos os esportes, mas para defender este ponto de vista, Rogan tem que explicar o motivo do Rampage sempre ter sido tão popular e o GSP (que é branco) sempre ter sido o campeão de vendas do PPV pelo mesmo motivo do Mayweather (ou seja, queriam ver ele perder).

  • Sobre o Mayweather, ele vale milhões pela quantidade imensa que quer vê-lo perder depois que ele assumiu o lado babaca quando trocou o apelido “Pretty Boy” pelo “Money” e passou a viver de ostentação.

    Sobre o resto, você foi perfeito. Jon Jones não é estrela porque é um cara sem graça que não sabe nem ser “escroto” como o Mayweather, apesar do talento gigante que também tem. Apenas o talento deveria definir, o que o Jones tem de sobra, mas o povo quer um algo mais que ele não tem.

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