Queda de Renan Barão: a culpa é de quem?

Felipe Paranhos | 01/09/2014 às 15:51

PESO“Já tá perdendo peso, não?”, pergunta o preparador físico da Nova União. “Vou começar”, responde Renan Barão.

Segundo o programa UFC Embedded, essa conversa aconteceu no dia 24 de agosto.

É, seis dias antes da luta que o ex-campeão dos galos faria contra TJ Dillashaw.

Este fato já seria assustador por si só, não fosse o notório problema da Nova União com o processo de corte de peso – algo que definitivamente não condiz com a qualidade dos lutadores da academia.

Vocês todos já sabem o que aconteceu.

No dia da pesagem, a NU alegou que Renan desmaiou quando saía da banheira e, poxa, que pena, não poderia mais lutar pelo título.

Não tem desculpa para o que ele fez. Não tem desculpa para não bater o peso. Ele nos prejudicou… Esta era sua chance. Ele estava recebendo sua revanche. Agora, Dillashaw segue para o próximo cara, e Barão vai enfrentar outra pessoa quando estiver pronto para voltar”, disse Dana White, ainda irritado.

Ronny Markes, atleta jovem e com grande potencial, teve seu destino e sua carreira mudados por conta das dificuldades para bater o peso.

Acabou demitido quando subiu à balança 2,2 kg acima do limite dos médios, nitidamente fraco, e acabou perdendo surpreendentemente a luta contra Thiago Marreta.

(A propósito: em sua luta seguinte, pelo WSOF, não bateu o peso de novo na primeira tentativa. E isso porque ele competiria com 93kg – e não com os 84 dos tempos de UFC)

Bater peso não é coisa de uma semana. É um estilo de vida. Você é um profissional. Aja como um” Charlie Brenneman, lutador do UFC.

Outro dia, Claudia Gadelha desistiu de participar do TUF 20, do qual surgirá a primeira campeã peso-palha do UFC, porque sabia que não ia conseguir bater peso repetidas vezes em pouco espaço de tempo.

A mesma lutadora que, em dezembro passado, ficou fora da disputa do título do Invicta porque passou mal após a pesagem – leia-se teve uma infecção intestinal diagnosticada após um processo que debilita o corpo e reduz a imunidade.

Some-se a isso Hacran Dias, que disse ter chegado fraco à luta contra Nik Lentz, ano passado, por não ter conseguido recuperar o peso como gostaria depois de descer de 82 para 66 kg.

E a Ronys Torres, que corta de 90 kg para 70 kg. A lista é longa.

Pelo menos estamos vendo o perigo real de um grande (ou ruim) corte de peso”, opinou o peso leve Isaac Vallie-Flag.

Volto a Renan: ouvi hoje de um fisiologista e um preparador físico que a tática adotada para a segunda luta contra Dillashaw foi “uma temeridade”.

Que não faz nenhum sentido que um cara perca cerca de 10 kg em quatro dias, sobretudo várias vezes ao longo da carreira – informação dada por Jair Lourenço ao Combate na quinta-feira, véspera da pesagem.

O caso de Renan mostra que falta, sobretudo, informação na preparação de muitos lutadores.

Não deveria ser sequer admissível que um empregado de um evento do tamanho do UFC adotasse uma estratégia de corte que o permitisse estar debilitado a ponto de desmaiar numa banheira, bater a cabeça e acordar no hospital na véspera da luta.

Infelizmente, como a redução de peso é um problema endêmico, tratamos muitos desses casos como normais.

E não são. São quase sempre resultado de negligência.

Um atleta não comer inteligentemente fora dos camps e viver, em off, muito mais pesado do que o desejável para, em poucos dias/semanas, levar seu corpo ao limite não configura irresponsabilidade individual (ou conjunta)?

O mesmo é querer atingir peso fisiologicamente não recomendado para obter vantagem competitiva.

Em primeiro lugar, você tem dinheiro suficiente para contratar um nutricionista de verdade para acompanhar o que você anda comendo. Ou o cara vai lá e faz a coisa certa ou não corta peso, sobe pra 66 kg”, Dana White.

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Dillashaw nocauteou Soto no R5

Em qualquer um dos casos, vitimizar-se ou apontar o dedo pra outrém não resolve o problema.

O soldado Renan provavelmente não é o maior culpado pelo que aconteceu, mas o Ultimate está corretíssimo em não pagar sua bolsa.

Espero que isso vire recorrente, inclusive.

É como aquele cara que frequentemente desrespeita as leis de trânsito: enquanto não dá nada, ignora a lei.

Quando sente no bolso, aprende a fazer direito.

Barão outro dia reclamou do que recebia como campeão do UFC.

Agora, fizeram o UFC perder muito, muito dinheiro (o evento, inclusive, poderia ter caído caso Dillashaw não aceitasse Joe Soto, como Jon Jones não aceitou Chael Sonnen, o substituto de Dan Henderson no UFC 151).

Em 35 lutas na carreira eu sempre perdi peso dessa forma. Eu estava quase batendo o peso, mas comecei a passar mal. A sensação foi a pior possível. Acho que me levantei muito rápido e apaguei. Fiquei decepcionado com o que aconteceu. Treinei a minha vida toda para essa luta. Espero enfrentar novamente o Dillashaw e ele vai engolir tudo o que está dizendo. Vou arrancar a cabeça dele”, se justificou Barão em entrevista ao Combate.com.

  • Rodrigo Loureiro

    Eu acho que tem certas males que vem para o bem, primeiramente eu acho que foi criado um alvoroço muito grande para algo que todos sabiam que pode acontecer, sendo o corte grande ou não, todo atleta está sujeito a passar mal e acabar ficando fora de uma luta, mas isso não faz com que eu concorde com o fato ocorrido, foi uma fatalidade, com certeza, como o próprio Barão comentou é algo que ele faz a uma década, mas mesmo assim dessa vez (ou de outras) ele ultrapassou os limites, porque qualquer um sabe que ao tentar cortar 10 quilos em 4 dias não é algo nenhum um pouco saudável muito menos seguro. Porém como disse, tem males que vem para o bem, apesar de que depois desta luta (Dillashaw vs Soto) eu achar que TJ pode ter feito a melhor luta da sua vida naquele 24 de maio, eu acho que não era o momento certo para o Barão, principalmente pela questão do psicológico, agora com a queda dessa luta, e o anuncio de Dana White que ele (Barão) perdeu seu TS, acho que é um bom momento para junto da sua equipe, ele reveja seu corte de peso e faça 1 ou 2 lutas para recuperar a sua confiança de campeão e chegar em uma revanche futura 100%, porque se ele fosse derrotado ele ficaria em uma situação ruim na categoria, como estava seu antigo adversário Uriah Faber. Então eu realmente acho que foi um erro que pode ter sim um bom resultado a médio longo prazo na carreira dele.

    • kg

      A respeito do TJ, acredito que a diferença da performace tenha sido mais em função do adversário em cima da hora, pois acredito que não teve nem tempo de adaptar seu plano de luta e sim construir um durante a luta.

      • Rodrigo Loureiro

        Eu realmente entendo, mas eu vi um TJ com uma volume absurdo de golpes mas com muito pouca efetividade, eu acho que como o corner do Soto mesmo disse, faltou mais combinações, porque me deu a impressão que se o Soto estivesse melhor preparado para aquela luta, com um plano para lutar contra um cara como o TJ e melhor condicionado para aguentar bem os 5 rounds ele teria total condição de ter ganho aquela luta. Até porque ele estava se preparando para um luta de 3 rounds, contra um oponente que nem chegava perto do nível do TJ, mas o TJ não, ele estava se preparando para lutar contra o Barão, e na minha opinião, é claro, se ele tivesse feito aquela mesma luta contra o Barão acho que dificilmente ele teria se mantido o campeão.

    • Desculpa, fera, mas não foi fatalidade. Foi erro de procedimento acumulado há anos.

      • Rodrigo Loureiro

        sim concordo Alexandre, quando eu disse como fatalidade, me refiro que qualquer lutador que esteja em um processo de corte de peso como o Barão, que desidrata muito, ou passa longo períodos sem alimentar da forma correta, esta apto a acontecer sofrer disto, eu só acho que isso pode acontecer com qualquer lutador que corte muito peso, sendo ele em 4 dias ou 4 semanas, mas claro que quem corta em 4 dias esta mais sujeito a tais problemas.

        • Sim, verdade. Por isso mesmo que a solução é subir de categoria, diluir o corte de peso ou baixar o peso de origem. Do jeito que a NU faz, é pedir pra andar na corda bamba o tempo todo. Uma hora cai.

          • Marcelo Silveira

            Mas subir de categoria é complicado, não achas Alexandre? Pelo tamanho dos caras que tem lutado o lugar do Aldo é na 66 e do Barão na 61, só tem que ver o processo.

          • Não. Barão é maior que o Frankie Edgar, que o Chad Mendes, é do tamanho do Cub Swanson e pouca coisa menor que o próprio José Aldo.

          • alex

            O Barão é maior que o Aldo em off.

    • Renato Rebelo

      Da série “nunca deu errado até o dia que deu”. Ele tá envelhecendo, o metabolismo tb…

  • A parada mais bizarra disso tudo é dizer que o Barão deu azar porque sempre deu certo e sexta não deu. Na verdade ele deu foi sorte das outras vezes. O processo severo de corte que ele sofre certamente um dia ia cobrar a conta. É tipo se você resolve cruzar uma pista de um autódromo com uma corrida rolando. Você pode ter a sorte de fazer isso por 10 anos, mas não reclame de azar no dia que for pego por um carro.

  • Nada como o Overeem que pesa de calça jeans..rsrsrs

    • Lucas Rezende

      Verdade.

    • Lucas Rezende

      Verdade

  • Nilo Júnior

    Mike Dolce FTW

  • Levison Lima

    Creio que pesagem no dia da luta diminuiria bastante esses casos, processos de perca de peso como esse comprometem tanto a performance do atleta no dia seguinte como a saude a longo prazo.

  • Marcelo Silveira

    Concordo que a perda de peso brusca é horrível mas não é exclusividade do Barão nem da N.U. O Weidman não sai carregado e direto pro soro depois da pesagem contra o Machida? É complicado para todos e os brasileiros que ainda tem que, em 99% das vzs, viajar pros EUA para cortar peso/lutar pior ainda.
    É uma pena pois quem perde com isso são os espectadores que acabam vendo lutas aquém do que os lutadores podem proporcionar.

    • Claudio

      Ver qualquer lutadores lutando à 30 ou 40 % do potencial é ser muito amador!

  • rodrigo oliveira

    Barao nao recebeu a bolsa porque passou mal. Struve passou mal e recebeu a bolsa. Chael sonnen foi pego pela milesima vez no doping e suspenso por 2 anos. Dana liga pra ele e pergunta se ele precisa de dinheiro para se manter. Jon jones cancela por capricho um card inteiro do ufc e nada acontece. Dana White é muito coerente, nao é Felipe Paranhos?

    • Dan Mendes

      Struve passou mal por que estava doente, Chael rendeu muito dinheiro para UFC e para seus arque-rivais (anderson e JJ), JJ não cancelou evento nenhum quem cancelou foi o UFC, depois que ele se recusou a enfrentar um lutador sem tempo para fazer Camp. Todas as situações bem diferentes.

    • Felipe Paranhos

      Struve passou mal por motivos de saúde, não por irresponsabilidade. Jones tinha a prerrogativa de decidir ou não o que fazer, e escolheu o que era melhor pra ele. Eu acho que ele deveria ter aceito a luta (e iria massacrar), mas cabia a Jones decidir. E o Sonnen é uma personalidade especial que não era mais só um lutador do Ultimate — tinha atuação em programas da franquia na Fox e era especulado para trabalhar com a direção no futuro. Casos totalmente diferentes.

  • Dan Mendes

    Gostei muito do texto, Felipe. Muita informação e muito bem escrito.

    Obrigado.

    • Felipe Paranhos

      Pô! Obrigado a você, claro! Mas fico feliz. A gente aqui no Sexto Round rala junto pra fazer o melhor trabalho possível. Meio sem querer, acabamos formando uma equipe do caralho.

  • A lenda

    6 dias para começar a perder peso… Amadorismo total!

  • Leo Corrêa

    Gostei muito do texto, pelo seu teor crítico e pela quantidade de informação passada de maneira objetiva. No entanto, não concordo com a parte em que afirma que o Renan provavelmente não é o maior responsável pelo ocorrido. Ele que escolheu se inscrever em uma categoria de peso da qual visivelmente não pertence. O absurdo corte de peso que muitos lutadores realizam chega a ser imoral, tamanha a diferença entre o peso em “off” e o computado no dia da balança.

    Devemos lembrar, também, que há mais ou menos um ano aquele garoto que lutaria no Shooto morreu tentando cortar peso. Imagina se a tragédia se repete com um dos melhores da modalidade (Barão)?

    É evidente que são casos diferentes: o cara humilde que foi chamado de última hora pra lutar no shooto e o ex-campeão do UFC que tem toda uma equipe à sua disposição para auxiliá-lo no procedimento de corte de peso. Sobre isso, não é necessário discutir. O que aponto é a conseqüência do drástico corte de peso, em pouco tempo, à qualquer ser-humano. Afinal, como diz o ditado: para morrer, basta estar vivo. o

    • Felipe Paranhos

      Sem dúvida. Acho que depende do ponto de vista: quando eu escrevi que ele provavelmente não era o maior culpado, pensei no fato de que ele tem um treinador e empresário que define os principais rumos de sua carreira. Mas, se observarmos como você, levando em conta o fato de que o lutador é ele e é ele que tem que tomar conta do seu corpo e da sua vida, você tem total razão.

  • Leo Ferreira

    Qualquer um que vê Renan no cage, logo percebe que ele é muito maior que os demais lutadores da sua categoria. Barão tem 34 lutas, quantas vezes já passou pelo processo? Não é atoa que ele já cogitava subir, pois sabia que seu corpo, hora mais hora menos, não iria aguentar e a prova disso é a luta contra Dillashaw – mesmo antes da pancada – Renan estava lento, apático; certeza de uma recuperação de peso mal sucedida, desgaste muito grande no corte. Eu acho que tem que subir logo, reconstruir seu legado nos penas e ponto final.

  • Lucas

    Por que não fazer uma medida antropométrica por corrente elétrica pra aferir um mínimo de desidratação em conjunto com a balança? O maior perigo do corte é a desidratação excessiva e temos como aferir matemáticamente o quão desidratado o atleta se encontra.

    • Antonio

      Porque tentar verificar o quão desidratado o atleta está se já é sabido a infinidade de mazelas e malefícios dos métodos de perda de peso drástica antes das lutas?

      Isso é um absurdo!

  • Gus Hansen

    Parabéns pelo trabalho desenvolvido no site, podcasts e textos.
    Muito bom o material produzido pelo 6º Round, justamente por ser produzido por vocês, com muitos textos analíticos, opinião e matérias bem pensadas. No timing também estão em cima dos assuntos que mais chama a atenção no cenário do MMA.
    Realmente, vocês se destacam na imprensa especializada em lutas.

    Dito isto, deixo uma sugestão relacionada ao caso do Barão:
    Uma reportagem sobre os métodos de corte de peso, o quanto se corta normalmente, os casos extremos, o que diz a medicina sobre o corte, as implicações para o futuro do lutador e também no seu rendimento para a luta em questão. Se possível, um comparativo entre as técnicas nacionais e o que fazem caras como Mike Dolce. Acompanhar um corte de peso brutal como o do Gelison Tibau também renderia um ótimo material jornalístico.
    Sei que é um material difícil e demorado, mas acho que pode render uma belíssima matéria, que agradaria muito aos seus leitores e seria útil para atletas e profissionais.

    Grande abraço!!

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