O impulsivo White e o dilema da auto-regulação

Renato Rebelo | 28/08/2014 às 22:58

Ao menor indício de contestação, Dana White se escuda numa de suas frases favoritas:

Somos regulados pelo governo”.

Marc Ratner, vice-presidente de assuntos regulatórios do UFC, foi diretor da NSCA por 14 anos

Marc Ratner, vice-presidente de assuntos regulatórios do UFC, foi diretor da NSCA por 14 anos

Assim, o presidente do UFC passa a diante, de forma cômoda, a responsabilidade por dois tópicos que assolaram, assolam e sempre assolarão esportes de combate: doping e jurados.

Descascar esses abacaxis fica a cargo das Comissões Atléticas – órgãos governamentais que sobrevivem da grana do pagador de impostos americano, taxas recolhidas de eventos e filiação de atletas.

Entendendo que na terra do Tio Sam o lobby é prática regulamentada – e, inclusive, movimenta 3,3 bi por ano-, não é difícil entender a influência que uma empresa avaliada em 2 bilhões de dólares pode ter sobre seu próprio vigia.

Afinal, poucos cachorros mordem as mãos que os alimentam…

De qualquer forma, para o grande público, a noção de que o governo dita as regras no boxe e no MMA traz a sensação (artificial) de que pouca sujeira é varrida para debaixo do tapete.

Ou seja, a terceirização de assuntos delicados é um preço (muito) barato a se pagar por credibilidade.

Poder tirar o seu da reta em resultados polêmicos, concessões de licença duvidosas e a ausência de resultados positivos em meio assolado pelo doping chega a ser uma benção para o UFC.

Isso explica a decisão de fundar a CABMMA assim que o Brasil tornou-se um destino frequente, por exemplo.

MMA-Judges

Famigerada mesa dos jurados

Em países como Austrália, Japão, Inglaterra, entre outros, onde a visita só é feita uma, duas vezes ao ano, as regras da Comissão Atlética de Nevada (vista como matriz) são seguidas pela empresa privada ao pé da letra – pra não dar pano pra manga.

Não há espaço nem para uma necessária tentativa de inovação (mudar as regras de pontuação, por exemplo) – pois ter a reputação manchada em caso de zebra (leia-se suspeita de favorecimento) não é uma opção.

Pois bem.

Exatamente neste cenário, onde a transparência é fundamental para que a fé do cliente (fã) não seja abalada, Dana White me comete uma cagada (independente de estar certo ou errado).

Semana passada, no UFC Fight Night 48, em Macau, China, o careca se enfezou com a atuação do jurado Howard Hughes e o expulsou do evento:

Ele estava envolvido na primeira e na segunda luta. Mandei deixarem ele ir buscar uma cerveja ou uma pipoca para se sentar e começar assistir lutas e não julgá-las”.

A manobra só não lhe mordeu forte no traseiro por causa do domo de credibilidade que Dana construiu envolta de si ao longo dos anos.

Vale a reflexão: Bjorn RebneyNobuyuki Sakakibara sairiam ilesos (de espinaframento público) dessa?

Reza a lenda que Don King (promotor de boxe mais famoso da história) apostava em lutadores, selecionava jurados, dava incentivos nos bastidores, etc, etc.

E ninguém nega que boatos de corrupção e favorecimentos escusos contribuíram – e muito- para a derrocada da nobre arte nas últimas décadas.

Para tentar amenizar o deslize, o patrão pediu desculpas publicamente:

Eu dei uma de louco e ultrapassei minhas fronteiras. Não foi a primeira vez e espero que seja a última. Eu estava errada e peço desculpa ao Hughes”.

O UFC, como instituição, também botou a cara em carta aberta:

Após uma revisão interna, a organização do UFC anunciou que ocorreu uma violação do seu protocolo regulador independente na noite do último sábado… Nem White, nem qualquer outro executivo possui essa autoridade… A organização do UFC sempre foi a favor de supervisão e regulação governamental. Além disso, o UFC estabeleceu um protocolo para auto-regular eventos quando não existir uma comissão atlética oficial, federação ou outro órgão regulador. Quando o UFC realiza eventos em locais sem um órgão regulador, o protocolo do UFC diz que reguladores internos da organização exercerão todas as funções da comissão de forma independente e sem interferência de executivos da empresa ou seus empregados”.

Dana não é jurado (“quem se importa com o que eu penso, não sou jurado” é outra tradicional frase sua) e essa demonstração de descontrole ao ser contrariado pode custar caro – em caso de reincidência.

Que fique a lição: se o teto é de vidro com a presença do estado, sem ele é de papel.

Abraços.

  • William Terres

    Mas no meu ponto de vista alguns jurados exageram. Nesse caso, as vitórias do Wee e da Dudieva foram tão controversas que nem eles não acreditaram. Porém não cabe ao Dana ser arbitrário desa maneira

    • Renato Rebelo

      Fala, William! Que há jurados incapacitados não há dúvida, mas concordo ctg que não é papel do Dana tomar essa decisão arbitrária – até pq, nesse caso (sem regulação), ele os escalou. O que torna a decisão dele sem sentido é o fato dele ter dito na coletiva de imprensa pós-luta que achou que a Dudieva venceu!

  • Paulo de Goiás

    Lobby é pouco… Talvez a ponta do iceberg! Poderia ser um grande esquema de lavagem na cara de todo mundo… Prevaricação! Agora o White diz que comandará o antidoping de seus atletas, oras, é o mesmo que mandar a raposa tomar conta do galinheiro… Dana-se Dana!

  • Renan Trigueiro

    O Dana é centralizador. É fundamental dissipar e delegar os poderes para não rolarem essas trapalhadas. Pelo menos gostei da postura de;e após o ocorrido

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