Deterioração mental: que se faça algo enquanto há tempo

Felipe Paranhos | 19/08/2014 às 00:30
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“Big Daddy” com doença degenerativa

Fevereiro de 2012: Gary Goodridge é diagnosticado com dementia pugilistica.

Ok, ele fez um milhão de lutas de kickboxing e ele mesmo culpou o tempo de K-1 pela doença.

Mas os nocautes no MMA e outras pancadas recebidas não devem ser ignorados.

Novembro de 2012: Eddie Yagin sofre um edema cerebral depois de um treino normal e é internado.

Seus médicos pedem seis meses para reavaliar se ele deve ou não voltar a lutar.

Novembro de 2012: Nick Denis, também bioquímico, anuncia o fim da carreira no MMA depois de sentir o efeito de traumas subconcussivos ao longo de sua vida.

Julho de 2013: TJ Grant tem uma concussão durante um treino de grappling e é obrigado a abandonar a disputa do título dos leves.

Um ano depois, ainda não voltou a lutar.

Março de 2014: Mac Danzig diz que é afetado cada vez mais pelos golpes que leva e que sofreu repetidas concussões nos treinos.

Com medo de lesões definitivas, pendura as luvas.

Março de 2014: estudo publicado no American Journal of Sports Medicine aponta, ainda preliminarmente, que numericamente o MMA tem uma incidência maior de traumas cerebrais do que outras artes marciais.

Soszynski: "Hoje, provavelmente, perguntarei as mesmas coisas que perguntei à minha esposa ontem, pois não me lembro das respostas"

Soszynski: “Hoje, provavelmente, perguntarei as mesmas coisas que perguntei ontem à minha esposa, pois não me lembro as respostas”

Agosto de 2014: Krzysztof Soszynski anuncia aposentadoria alegando perda de memória e citando que não consegue mais fazer uma contagem de 20 a zero.

Está claro: a discussão sobre lesões cerebrais a longo prazo no MMA precisa evoluir do mero achismo e da comparação tola com outros esportes e chegar ao ponto mais importante, que é a saúde dos lutadores e o que os envolvidos com as artes marciais mistas querem para o futuro.

Além de casos mais concretos, como esses citados, vemos dia após dia uma série de atletas ser questionada sobre a necessidade de continuar sofrendo nocautes.

Vez por outra Dana White manifesta preocupação com o futuro de alguns lutadores, mas a maioria dos fãs resume isso a “ele quer aposentar fulano”.

É claro que Dana quer aposentar fulano, sicrano e beltrano.

Fulano com uma lesão cerebral grave é um problema gravíssimo para o negócio e para o esporte.

Uma matéria mostrando que sicrano não consegue mais se comunicar direito é algo desesperador para as finanças.

Beltrano falando publicamente que se arrepende de ter levado tanta porrada é um golpe duríssimo no crescimento do MMA.

Ele veio aqui. Lutou. Foi liberado clinicamente pra lutar. [Mas] É provavelmente uma conversa que podemos ter. Não quero tirar Gray do esporte ou algo do tipo. Esses caras passam por exames médicos extensos. Sabemos que ser nocauteado não é bom. Ele é um cara jovem, é talentoso. Vamos ver o que ele quer fazer”, Dana sobre Gray Maynard.

Neste fim de semana, eclodiu mais claramente a situação de Gray Maynard, que sofreu o quarto nocaute em cinco lutas — o terceiro em pouco mais de um ano.

Fale a verdade: você, fã hardcore, pode dizer ao seu pai ou a algum espectador menos aficcionado que este esporte não é perigoso e que o Bully não corre risco de definhar ao longo da vida?

Por respeito a ele, eu não quis dizer nada antes de ele falar algo publicamente. Aí ele disse que quer enfrentar Frank Mir. Não quero ver Nogueira lutar novamente. Ele deveria se aposentar”, Dana sobre Minota.

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Nelson apagando Minota no 1º round

É possível dizer com certeza que Rodrigo Minotauro, um monstro que passou pelas mais duras privações fora e dentro do esporte, vai continuar 100% se sofrer outros nocautes no fim de uma carreira absurdamente vitoriosa?

Não se sabe a resposta para essas e muitas outras perguntas.

O histórico dos casos públicos de lesões degenerativas nos esportes de combate mostra que, por se tratar de uma questão delicada, só há discussão e questionamento quando o lutador já apresenta claros sinais de que não é a mesma pessoa.

Depois de mim, ele deveria ter se aposentado, porque ele levou alguns golpes meus que, cara… É inacreditável. Não me importa quem você é; não dá pra você levar estes socos desse jeito por um puncher como eu ou como outro peso pesado e não ser afetado por um longo período”, Earnie Shavers, que enfrentou Muhammad Ali em 1977.

Dito isso, pergunto: quantas pancadas na cabeça Wanderlei Silva levou na vida? E Chuck Liddell? E Kazushi Sakuraba? E Frank Mir?

Me mostrem um cara que já disse que tomar soco na cara é bom para a saúde. Não é bom. Não usamos capacetes. Esse é um esporte de combate. É duro”, continuou Dana White.

E Maurício Shogun, que luta desde os 20 anos e só tem 32?

Daqui a uma década, estaremos lamentando a deterioração mental de algum ídolo?

Não sei, mas é bom que se faça algo enquanto é tempo.

  • Pedro Mendes

    Putz…. É muito complicado falar para um atleta parar de atuar. O maior problema é quando ele não se vê fazendo outra coisa da vida. O lance, ao meu ver, é que atletas da antiga os aconselhem e mostrem novos horizontes para que os atuais enxerguem uma vida rentável após parar de lutar.

  • Rodrigo Carvalho

    O Ninja manda lembranças.. quer dizer, se ele conseguir dizer algo que alguém entenda né.

    • mazzaropi

      Vc não comprou o dicionário ruanês?

  • Leonardo Neves

    Complicado. Maynard tem que parar, Wand tb, minota tb e Diego Sanchez, nem se fala.

  • “American Journal of Sports Medicine aponta, ainda preliminarmente, que numericamente o MMA tem uma incidência maior de traumas cerebrais do que outras artes marciais.”

    Acho isso complicado hoje em dia. Foi um estudo que pegou apenas lutadores de MMA sem background em outras modalidades? Ainda não existe uma geração de lutadores de MMA puros, aqueles que não vieram de nenhuma modalidade anterior. Somente quando a geração do Michael McDonald, Rory MacDonald e John Lineker se consolidar, parar e der lugar à próxima que poderemos enfim começar a analisar os reais perigos do MMA.

    O que se tem ideia hoje é que um impacto com uma luva de 4oz é bem maior do que com uma de 16 ou 18. Em compensação, se um lutador de MMA lançar a quantidade de socos que um boxeador lança numa luta, vai quebrar a(s) mão(s) rapidamente. Além disso, uma luta de MMA não necessariamente é disputada em 15 ou 25 minutos de lançamento de socos. O boxe o é (em lutas de 30 e 36 minutos).

    Enfim, o boxe e o MMA são perigosos, assim como o futebol americano (que, aliás, o K-Soz disputou antes do MMA). E eu acho que esperar mudanças de regras pra diminuir o perigo não vai resolver. Implementar luvas maiores e/ou capacetes vai afetar diretamente o esporte (imagine aí escapar de uma guilhotina usando capacete ou pegar mão com mão pelas costas usando uma luva grande). Os atletas precisam entender que eles não são super heróis, que não são infalíveis ou inquebráveis, que os cérebros e caixas cranianas deles são iguais aos de qualquer outra pessoa. Deve-se ser mais criterioso nas suspensões médicas, nas avaliações de danos, nas avaliações de seguir ou não a carreira. E o foda disso tudo é interferir diretamente no livre arbítrio de cada um.

    Enfim, é foda…

    • Felipe Paranhos

      Foi aquele estudo que eu citei aqui naquele texto sobre a morte no MMA, no início do ano. Analisaram (por VT, o que é uma limitação, e por isso citei o resultado ainda sem tanta profundidade) o número e a intensidade dos traumas em 844 lutas do UFC entre 2006 e 2012.

      Eu concordo que é cedo pra tirar conclusões, porque o esporte é jovem e é preciso avaliar os dados atuais em detalhes, mas acho que a gente não pode esperar pra discutir o assunto, sob pena de ser tarde demais depois.

      Talvez a solução esteja em admitir que o esporte pode causar danos cerebrais mesmo, e quem quiser que entre pra lutar. Talvez não. Mas tem que colocar o assunto na mesa.

      • Não pode esperar pra discutir, sem dúvida, como também estudos não podem usar dados com baixa confiabilidade, já que o assunto é muito delicado.

        Sobre admitir que o esporte pode causar danos cerebrais: tem alguém que pense diferentemente? Pra mim isso nem precisava estar em discussão, já que qualquer esporte que envolva pancada na cabeça (MMA, boxe, kickboxing, futebol americano, rúgbi, etc.) pode causar danos cerebrais. Achar que o MMA não causa danos cerebrais é estar totalmente deslocado da realidade.

        Não há dúvida alguma que o assunto deve ser trazido à mesa.

        • mazzaropi

          Perfeito.

        • Felipe Paranhos

          Eu acho que tem muita gente que minimiza a questão, e isso basta pra que a gente esteja aqui falando sobre isso. Além do mais, o nível da discussão de quem acompanha o MMA com frequência é outro. Acho que, fora do círculo hardcore, a questão não é sequer percebida. Até o dia em que acontecer algo.

          • Ah sim, tem muita gente que minimiza, mas acho que qualquer um com um mínimo de discernimento sabe que há o risco. E eu não estou dizendo que o debate não deve acontecer. Pelo contrário.

          • Wilker Fonseca

            E eu achando que o fato do MMA não ter a contagem do arbitro central apos um knockdown já diminuia essa possibilidade de doenças cerebrais.

    • Gedean Nevitton

      O fato é: nas lutas de boxe ou outras modalidades (Sanda, Kickboxing, Muay thai) é aberto uma contagem onde o lutador voltar para a luta após receber alguns “nocautes” (aspas porque em alguns desses nocautes o lutador não fica totalmente inconsciente), podendo assim ter um trauma ainda maior! Já no MMA o nocaute acontece uma única vez, já que a regra permiti ao lutador continuar a bater no oponente com ele no chão! enfim, acredito que a ciência ainda não executou nenhuma observação de fato, agora aquele NOCAUTE que o Dan Henderson aplicou no Bisping, caral.. aquele foi sequelador!!

      • Crystian

        no kickboxing se o cara levar um nocaute e o juiz ve q nao da ele encerra ate sem derrubar

  • Malk Suruhito

    Já estou até imaginando o advogado do War Machine alegando demência pugilística para tentar justificar as cagadas que aquele merda fez…

    • Antony

      Esse é um belo de um covarde… Isso é o que ele é!

    • Alegando demência pugilística de nascença. Deve ter sacodido muito na barriga da mãe.

  • Luiz Guilherme

    isso é um assunto delicadíssimo, e o UFC devia investir em estudos e testar regularmente os seus lutadores como exemplo aos demais eventos

  • Marcel Araujo

    Muito boa matéria. Parabéns.

  • Leo Ferreira

    Esse é um problema deveras polêmico, pois qual seria a solução?
    – Os lutadores usarem capacetes e protetores de canela?
    – Luvas melhores (já se sabe que a luva só protege a mão)?
    – Ou limitação de uma luta a cada 12 meses?

    É difícil controlar, pois só uma cacetada de exames não adianta muita coisa, pq o cara pode entrar no cage lisinho e sair de lá já com uma concussão ou mesmo se machucar treinando, muito difícil de controlar..

    • mazzaropi

      Os treinos são mais lesivos que qualquer luta realizada…

      Pergunte isso pra um atleta profissional.

    • É mais difícil defender um estrangulamento (mata-leão, guilhotina, katagatame) usando capacete.

      • Leo Ferreira

        Sim, o raciocínio é válido, bem válido, mas inaplicável ao esporte que temos hoje em dia. A discussão sobre o uso de equipamentos no MMA ou em qualquer outra atividade que possa por em risco a integridade física, vai de encontro com a natureza do esporte. Tem muitas outras profissões que põem em risco a saúde, talvez nem tanto quanto o combate corporal; um executivo muito pressionado pode ter problemas neurológicos seríssimos a um grau de estresse tamanho que o pode levar a um AVC por exemplo. O nosso colega mazzaropi é bem radical, mas ele levantou um ponto muito acertadamente: “Somos responsáveis por nossas próprias escolhas”.

      • crystian

        mais no estilo k1 daria pra ser aplicado como nos eventos amadores q eles ja usam capacete

  • mazzaropi

    Há tantas pessoas com Alzheimer que nunca se quer fizeram uma guerra de travesseiros!

    Somos responsáveis por nossas próprias escolhas… Ame o MMA ou deixe-o!

  • Eduardo Sanguinetti

    O prejuízo a longo prazo é uma consequencia óbvia. Pode-se não saber se é mais ou menos que no Boxe, K1, ou alguma outra modalidade, mas com certeza as pancadas sofridas ao longo da carreira vão trazendo consequencias posteriores.
    Se formos olhar para os casos de Maynard, Minotauro, Shogun, e muitos outros, já podemos ver claramente que a resistencia a golpes deles não é mais a mesma. Não acredito que as questões sejam idade e nem falta de treinamento. Pois são lutadores relativamente novos e com muita disciplina de treino. Com certeza o fato de não estarem no auge da idade contribua, mas eu credito grande parte “maior sensibilidade” às consequencias dos golpes sofridos ao longo da carreira.

    • Por exemplo, o tempo vai nos dizer se um knockdown seguido de ground and pound e fim de luta é mais ou menos maléfico do que knockdown seguido de contagem protetora e prosseguimento de luta pra mais subconcussões ou até mesmo um nocautão, provocando a síndrome do segundo impacto.

      É um assunto cabuloso pros especialistas, imagine pra nós, leigos.

  • crystian

    hj em dia esta mais seguro eles fazem exames nos lutadores apos as lutas essa é a geraçao passada se tiver dando problema eles falam pros lutadores a hora de parar

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