Considerações Finais: a leitura do UFC FN 47

Lucas Rezende | 17/08/2014 às 11:27

Pelas horas iniciais, pareceu que o UFC demoraria a voltar ao Maine após alguns combates vagarosos, mas não necessariamente ruins.

Apenas técnicos o bastante para que o público presente não pulasse das cadeiras em êxtase.

Por sorte, a cidade em questão se tratava da residência do renomado escritor Stephen King – garantia de que algo excitante e sangrento estaria por vir.

Aí veio o card principal, garantindo que, sim, pulos para fora de assentos ocorressem e – no fim da noite – os habitantes do 32º estado americano a sediar o maior evento de MMA do planeta deixaram o Cross Insurance Center com um gosto bom no paladar.

Mas antes, é preciso destacar o último vencedor das preliminares em Bangor

Jussiê Formiga como queríamos ver

Pegando as costas

Pegando as costas do “Fun Size”

Depois de uma trajetória inicial complicada no UFC – nocauteado por Joseph Benavidez e John Dodson – e apenas batendo Chris Cariaso – que apesar de ser o atual desafiante ao cinturão, nunca representou real perigo na categoria – Jussiê Formiga estava com as costas contra a parede.

A pressão de representar suas reais habilidades crescia a cada oportunidade perdida, assim como a noção de que em breve poderia estar desempregado caso não se reencontrasse.

A finalização contra Scott Jorgensen serviu para afrouxar a corda em seu pescoço, mas não para convencer os céticos, já que um choque de cabeças foi a causa principal para o triunfo do potiguar.

Diante do ex-campeão peso-galo do Bellator e peso-mosca do RFA, dono de um par de resultados positivos no UFC – Zach Makovsky – o brasileiro azarão demonstrou não só que sua faixa-preta de jiu-jitsu é legítima, como a autoconfiança que parecia lhe impedir de dar aquele passo para frente decisivo na sua carreira.

Bem-sucedido no confronto clássico entre a arte suave e o wrestling – além de segurar as pontas em pé – Jussiê finalmente pôde provar com propriedade que está preparado para a nata da divisão.

Não arriscaria dizer que para o título, pois vejo outros postulantes à sua frente, principalmente se Ian McCall e John Lineker forem emparelhados, mas certamente que é capaz de realizar aquilo que esperávamos ainda quando chegou ao UFC há quase dois anos.

Bem vindo aos penas, Thiago Tavares

Peralta indefeso

Peralta indefeso

O que esperar quando um peso-leve massivo decide fazer a transição para os penas? Duas coisas.

Ou o corte de peso drenará sua alma na hora do combate, ou algum pobre diabo terá muitos problemas para contornar a gigantesca figura que lhe opõe.

Pelo menos em sua estreia, Thiago Tavares, faixa-preta de grosso calibre, desfrutou do segundo cenário, onde Robbie Peralta atuou no papel do pobre diabo.

Somente dois meses após uma sigilosa cirurgia no joelho, e sem lutar por 9 meses devido a lesões que o obrigaram a abandonar dois confrontos em 2014, Tavares regressou como se nada o tivesse acontecido, impondo uma versão melhorada de seu desempenho contra Justin Salas em Peralta.

Agora que a ferrugem, a pressão da estreia em território desconhecido e as lesões se passaram, Thiago – que apesar dos 7 anos só de UFC ainda nem chegou aos 30 – pode usufruir não só da bagagem extensiva como da séria vantagem em tamanho para conquistar seu espaço num dos nichos mais acirrados da organização.

Desde que se mantenha livre de escândalos como o resultado de seu exame após o embate contra Khabib Nurmagomedov, é claro.

Um bárbaro nunca se rende

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Redenção em casa

Pela primeira vez representando seu estado-natal, Tim Boetsch por pouco não passou por um vexame diante de seus familiares e amigos.

Sofrendo com o clinch de Brad Tavares por todo round inicial, a face lacerada do Bárbaro conta uma história diferente do confronto para quem o encontrar nas ruas sem saber o que se assucedeu.

Quase como um replay do fatídico UFC 144 – no Japão – Boetsch foi castigado por todo o tempo que pôde, até vencer.

Justamente como fez com Yushin Okami, com exceção dos assaltos diferentes, Tim necessitou apenas de uma abertura para despachar o havaiano, consolidando instantaneamente seu status no top 15 dos médios.

Além de afortunado em decisões contestáveis contra C.B. Dollaway e Hector Lombard, o judoca só permanece empregado pelas empolgantes reviravoltas dignas dos romances de seu conterrâneo ilustre, King.

Mas os sonoros revezes para Luke Rockhold, Mark Munoz e Costa Phillippou estão aí para que nem nós e nem ele esqueçamos de onde ele pertence.

A não ser que esse raios insistam a cair no mesmo lugar, e com cada vez mais frequência.

Preserve-se, Gray Maynard

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Pobre queixinho

Nada mais exclama o quanto Gray Maynard não pode continuar a lutar profissionalmente como a fresca e brutal derrota para Ross Pearson.

Não me refiro aos súbitos nocautes sofridos pelas mãos de Nate Diaz ou T.J. Grant, exatamente pela natureza repentina em que ocorreram.

Contra o britânico, a história foi ligeiramente diferente.

Quando vimos Gray facilmente atingido e dominado no primeiro round, pouco pudemos concluir a não ser pelo óbvio: sua velocidade e queixo já não são mais os mesmos.

Seu ponto mais forte, no entanto, o wrestling, não teve chance de brilhar em nenhuma dessas ocasiões.

A não ser contra Ross Pearson.

Por toda a duração do confronto, Maynard exibiu lampejos do poderoso grappler que já foi, mas não por tempo o bastante para manter o inglês no solo.

E o americano – que enfrentaria o jiujiteiro Fabrício Morango – pela terceira vez seguida não foi capaz de aguentar o acúmulo de golpes.

Manter a guarda abaixada também não ajudou.

Portanto, agora me sinto seguro em afirmar que Gray não pode mais continuar a ganhar (perder) a vida dessa maneira.

Finalmente vimos seu talento mais significativo posto em prática, mas a conclusão do confronto permaneceu a mesma.

Todo o sacrifício que seu corpo se submeteu ao longo dos anos chegou para cobrar seu preço e tudo que podemos fazer é torcer para que Maynard tome a decisão mais sábia.

E logo.

Ryan Bader abate mais um como quem não quer nada

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De canhota!

Era uma bela trajetória, a de Ovince St. Preux no UFC.

Desde que migrou do Strikeforce, o ianque de origens haitianas angariou quatro vitórias, com duas finalizações e um nocaute.

E enquanto eu sentia certa carência técnica de sua parte, acreditava que seu potencial se desenvolveria a tempo de passar pelo seu teste mais difícil até então: Ryan Bader.

Entretanto, salvo por alguns golpes que atingiram o alvo, OSP deixou a desejar.

O fato de estar à frente de um oponente tão superior tecnicamente só agravou ainda mais a situação.

Incapaz de desfrutar da envergadura generosa, OSP resumiu-se em overhands pífios e defesa de queda lamentável, facilitando bastante a vida do wrestler condecorado.

Espero que a volta para o fim da fila sirva para OSP e seus treinadores perceberem que ainda há tempo para trazer à tona tudo que Ovince pode vir a ser.

Mas não há tempo a perder.

Enquanto isso, risquem mais uma a favor da modalidade favorita dos americanos.

Um bocado semelhante à suas performances contra Rafael Feijão e Anthony Perosh – embora não tão efetiva no ground and pound quanto quando derrotou o australiano – Bader discretamente juntou um trio de triunfos, um feito só ocorrido logo após sagrar-se campeão da oitava edição do TUF.

Ótimo jeito de se esgueirar de volta ao topo enquanto os nocautes não vêm, eu diria.

Especialmente quando a já escassa divisão dos meio-pesados segue travada até janeiro de 2015.

Caso Bader consiga subjugar um combatente de peso neste intervalo – antes do gongo final, de preferência – o próximo ano lhe pode ser mais frutífero do que se imagina.

  • Ric_NU

    Formigão tirou onda, calou a boca de mt gente

    • Renato Rebelo

      A minha, por exemplo.

  • Marcelo P.

    Já deu pro Maynard, sério. Vai acabar abobado se continuar sendo nocauteado assim

  • Luiz Guilherme

    – na luta principal deu a lógica. bader é um lutador duro
    – no co main event para mim deu o que achava mesmo, TKO do inglês. se não tivesse garfado nas lutas contra barbosa no ufc rio e principalmente contra o diego sanchez na última luta tava melhor na categoria. bom lutador, que sempre luta para frente. Sobre o maynard, acho que chegou a hora de se aposentar.
    – alan jouban me surpreendeu. não esperava sua vitória, mto menos por tko no primeiro round ainda. vou ficar de olho nele
    – shawn jordan apostava que venceria mesmo, pq tava com a corda no pescoço. foi um boa luta essa
    – tavares me surpreendeu, ficou mto bem no peso e passou o carro no peralta. que mostrou ser branca de chão. só tem que parar de pedir o nazareno no UFC em toda vitória dele
    – formiga me surpreendeu.melhor apresentação dele no UFC, e calou minha boca. apostava no zach, que é um cara duro.boa vitória do brasileiro.
    – Sara McMann x Lauren Murphy deu a lógica.mas a lauren lutou bem e sai forte da luta
    -que queixo duro do watson eim! ótima luta! apesar da derrota Sam Alvey pode se criar no UFC sim
    – Frankie Saenz x Nolan Ticman foi uma surpresa. excelente luta

  • Renan Trigueiro

    Excelente análise Lucas. Parabéns. Fiquei bem decepcionado com o OSP. O Bader expos muito ele nessa luta

    • Lucas Rezende

      Muito obrigado pelo apoio, Renan. A disparidade entre o OSP e o Bader realmente prejudicou a imagem que nós tínhamos dele. Vamos ver se o cara corre atrás pra nos fazer mudar de ideia mais uma vez.

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