Robert Drysdale: A promessa manchada

Lucas Rezende | 02/08/2014 às 17:43
Golpeando Berish na estreia

Golpeando Berish na estreia

Quando fiquei sabendo que o renomado faixa-preta de jiu-jitsu recém aventurado, porém invicto no MMA, Robert Drysdale, havia sido contratado pelo UFC, muito me empolguei pelo que estava por vir.

E como qualquer um não se exaltaria?

Instrutor de diversos nomes famosos do meio dos esportes de combate e medalhista de ouro tanto no ADCC quanto no Mundial de jiu-jitsu, seus feitos já o vendiam mais do qualquer propaganda.

Então começou a tormenta.

Existe alguém com um início de carreira no UFC mais conturbado que o de Drysdale?

Por favor, se existir, gostaria que me indicassem, pois não possuo lembranças de um sujeito envolvido em tantos problemas com somente uma luta dentro octógono, quanto o norte-americano radicado no Brasil.

Vamos acompanhar este curto e alvoroçado histórico.

3 de agosto de 2013.

Esta era a data em que Drysdale pisaria na arena do UFC pela primeira vez, até que uma infecção obrigou o badalado faixa-preta a se afastar das academias por três meses.

Sem problema.

Campeão absoluto do ADCC sobre Marcelo Garcia

Campeão absoluto do ADCC sobre Marcelo Garcia

Curado, ele regressaria no dia 16 de novembro, apenas para ver essa oportunidade se esvair semanas antes da luta devido a um exame que revelou gritantes 19,4:1 em sua taxa de testosterona-epitestosterona no sangue.

Mais de três vezes além dos 6:1 tolerados pela Comissão Atlética de Nevada.

Ultrapassando os 14:1 de Alistair Overeem e os 16,9:1 de Chael Sonnen.

O que nos leva de volta para sua contratação, onde o meio-pesado deu entrada a um pedido de permissão para realizar a famigerada terapia de reposição de testosterona (TRT), pois já apresentava quadros de hipogonadismo secundário, ou seja, seu corpo já não produzia testosterona o bastante por si próprio.

Robert teve sua solicitação negada por Keith Kizer e companhia (diretores da NSAC).

Mas, um erro burocrático, de acordo com o lutador, o que o isentou de sofrer suspensões ou perder o emprego.

Ileso de quaisquer represálias tanto da comissão quanto do próprio UFC, Robert levou mais seis meses para finalmente debutar no evento, pois se recuperava de outra lesão por todo o primeiro semestre deste ano.

Drysdale demorou tanto para retornar que TRT já tinha se tornado ilegal durante o hiato.

Mas no dia 6 de julho, ele fez o que todos esperavam em dois minutos, finalizou Keith Berish e pôde mostrar que a perigosa ameaça que representava para a categoria deveria ser levada a sério.

Até os resultados dos exames pós-luta serem publicados, pelo menos.

Traído pelo próprio sangue pela segunda vez, Drysdale exibiu um teor de 12:1 no sangue.

Só o dobro acima do valor regulamentado, dessa vez.

O que, pelo padrão apresentado, nós faz esperar que na terceira, ele chegue ao número correto.

Nem é preciso dizer que sua vitória instantaneamente se tornou um “No Contest”, o que tecnicamente significa que ele nunca lutou pelo UFC.

Griffin é um de seus alunos mais famosos

Griffin é um de seus alunos mais famosos

Interrogado sobre o que tinha a dizer em sua defesa, o lutador se resumiu em afirmar que “a comissão estava maluca”.

Então como prosseguir com um caso como o de Robert Drysdale?

Até o momento o UFC se pronunciou em um comunicado sucinto, afirmando que ele será penalizado e suspenso.

Nada mais e nada menos.

Em tempos de gente perdendo o emprego a torto a direito por razões mais pífias do que essa, me surpreenderia se Dana White o poupasse.

Mas o caso de Drysdale ainda levanta outra questão importante.

Até que ponto sua carreira nos circuitos de submission e jiu-jitsu, onde testes como esses não são exigidos por organizadores, influenciaram nas frequentes gafes que testemunhamos hoje em sua transição para o MMA?

Não seria a primeira vez que cenas como essa colocariam os campeonatos de grappling em evidência pela regulamentação carente e certamente não será a última enquanto a caça às bruxas contra o doping no MMA se intensifica mais rápido que uma injeção.

De qualquer forma, é lamentável observar o quanto uma carreira condecorada pode ser completamente posta em cheque por causa de um problema que se recusa a ir embora.

Talvez Drysdale ainda consiga se redimir devido às suas conquistas e o interesse que o UFC possa ter em mantê-lo por motivos financeiros e pala categoria até 93kg não ser das mais povoadas.

E aí Robert acabaria como o personagem principal do conto “O Menino que Gritava ‘Lobo”.

Mesmo que limpo, quem ainda acreditaria na sua legitimidade?


  • Nathan Oliveira

    Não conheço vc aqui, mas parabens pelo texto!

  • mazzaropi

    Pow… Eu estava esperando muito uma luta dele com o Minotauro! Que pena!

    • Renato Rebelo

      O Drysdale é meio-pesado, Mazza!

      • mazzaropi

        Jurava que era dos pesados… Valeu mestre Rebelo!

  • Iuri Mathias

    Texto com “selo Sexto Round de qualidade”. Parabéns!

    • Lucas Rezende

      Muito obrigado, cara!

  • Fabricio Alves

    NSAC ta ceifando legal.

  • Matheus Araujo

    excelente texto, mas nao acho que o UFC vai demiti-lo, se fosse fazer isso já teria feito o comunicado ao invés da suspensao,

  • mazzaropi

    Nós já sabemos que não existe controle antidopagem no cenário brasileiro na área de lutas, mas agora ver que possivelmente não exista na nos EUA é realmente o ó do borogodó… kkk!

  • Cicero

    Bom texto!

  • Luiz Guilherme

    ficou feio pra ele mesmo!!agora com esses exames mais recorrentes e mais abrangentes (sangue) veremos mtos casos

  • Rubens Barros

    Excelente texto!!
    É uma pena, um importante nome do Jiu-Jitsu mundial envolvido nesse tipo de situação. Seria, sem dpuvida, uma grande atração no UFC e nessa categoria dos meio-pesados, mas infelizmente foi pego mais uma vez. veremos o que o futuro reservará.

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