Aniversariante da semana: o homem que mudou o jogo

Lucas Carrano | 31/07/2014 às 16:05
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Da série “seu passado te condena”

O título deste texto faz uma óbvia alusão ao filme “Moneyball” (de 2011, traduzido por aqui pelo nome acima e baseado em livro homônimo), cuja audiência recomendo pessoalmente aos leitores, mesmo que não sejam muito chegados a baseball.

Talvez a menção pare mesmo na transformação, já que diferentemente de Billy Beane e Peter Brand (interpretados respectivamente por Brad Pitt e Jonah Hill no longa), nosso personagem aqui não inovou com a utilização de métodos científicos para analisar seus possíveis contratados e montar uma equipe.

Mas o aniversariamente da semana, o presidente do UFC, Dana White (que completou 45 anos), certamente está no rol dos nomes que mudaram de maneira significante os esportes de combate.

É claro que Dana não esteve sozinho nessa e não é algum tipo de figura mítica, mas é ele o rosto estampado no crescimento exponencial do MMA e sua indissociável relação com outras três letras: U, F e C.

A título de amostragem: em uma rápida pesquisa no histórico do Super Lutas, não foi difícil identificar que o nome mais citado nas quase 25 mil notícias publicadas em sete anos de existência é o de Dana White.

Nascido em Central Manchester (Connecticut) e membro da comunidade irlandesa-americana, Dana Frederick White Jr passou sua juventude entre Boston, Maine e Las Vegas, onde conheceu Lorenzo Fertitta – até então “apenas”, com todas as aspas possíveis, herdeiro de uma família ligada ao negócio de cassinos fora da Strip.

Já adulto, Dana retornou a Vegas e dividiu seu tempo entre aulas de boxe para executivos que queriam se manter em forma e o agenciamento de atletas.

Jens Pulver e os novos patrões

Jens Pulver e os novos patrões

Anos após a amizade no colégio, ele reencontrou Lorenzo Fertitta em uma festa de casamento e o convidou para seus treinos.

A parceria entre Dana e Lorenzo se estabeleceu e os dois descobriram o MMA juntos, por meio do ex-lutador do UFC John Lewis.

Foi também nas aulas com Lewis que White conheceu Tito Ortiz e Chuck Lidell, que viriam a se tornar seus primeiros lutadores agenciados na modalidade.

Ao saber que a SEG, empresa que administrava o Ultimate, estava à beira da falência e pretendia vender a organização, White contatou Lorenzo Fertitta e propôs a ele e ao irmão Frank a aquisição do evento.

Compramos três letras e um octógono desmontado. Não tínhamos mais nada”, costuma dizer o dirigente, com aquele tom típico de quem narra um mito fundador, desde os tempos em que ainda tinha cabelos e a voz fina.

Participando de sketch humorístico

Participando de sketch humorístico

Logo após a compra do Ultimate pela Zuffa, empresa que fundou juntamente com os Fertitta e da qual é proprietário de 9%, White assumiu a presidência e, desde então, tem estado à frente da organização.

Em pouco mais de 13 anos comandando, Dana viu o valor da marca subir de 2 milhões de dólares, valor pago pela Zuffa à SEG em 2001, para incríveis 3,5 bilhões dólares em 2014.

Além disso, o dirigente firmou acordos que possibilitaram ampliar o alcance do esporte nas TVs a cabo, inclusive com a fundamental produção do The Ultimate Fighter original, e firmou um inédito contrato com a rede FOX, que garantiu, após anos de negociações, um espaço ao esporte que já foi banido até em pay-per-view na TV aberta nos Estados Unidos.

Mas nem tudo são flores em sua trajetória.

Provando a culinária local (na Austrália)

Provando a culinária local (na Austrália)

Conhecido por seu gênio forte, resposta diretas e estilo polêmico, o careca coleciona desafetos, entre eles alguns de seus principais aliados no passado, como os lutadores Quinton “Rampage” Jackson, Randy Couture e o próprio Tito – os dois últimos membros do Hall da Fama do UFC.

Um dos episódios mais controversos no qual se envolveu foi o da resposta à denúncia de que o UFC estaria diminuindo o número de credenciais para seus lutadores endossada por fontes anônimas e publicada pela jornalista Loretta Hunt, do site Sherdog.

Dana produziu um vídeo em que chamava Loretta de “cadela” e suas fontes de “bichas” (fucking faggots, para ser mais preciso).

Por razões óbvias, mesmo que as imagens tenham sido deletadas rapidamente, o chilique de White teve péssima repercussão pública e é até hoje citado como seu único arrependimento desde que assumiu o UFC.

A única coisa da qual me arrependo é de ter feito aquele videoblog quando usei a palavra com ‘F’. Essa é a única coisa ao longo de todos esses anos administrando o UFC. A forma como saí daquela história… As pessoas ainda pensando que sou algum tipo de homofóbico. E eu ao sou. Isso ainda me incomoda”, disse Dana a Ariel Helwani.

Sendo zuado por Mike Tyson

Sendo zuado por Mike Tyson

Apesar das polêmicas, é justamente o fato de não ter papas na língua que atrai tanto a atenção do público e da imprensa para White, seja nas entrevistas coletivas ou em seus concorridos bate-papos com os jornalistas.

Não é raro, por exemplo, que o dirigente revele planos considerados secretos de eventos ou casamentos de lutas ou mesmo opine sobre assuntos controversos, criticando publicamente sua própria organização, seus lutadores ou mesmo os juízes e órgãos reguladores.

A singularidade é uma das marcas registradas de Dana White, mas este estilo característico é bem demarcado por padrões que se repetem – ou vai me dizer que nunca reparou que ele, literalmente, pontua todas as suas frases com “literalmente”.

Mesmo diante de tais peculiaridades, não deixa de chamar a atenção um cara que tem um mega-acordo com a Newscorp (FOX/FOXSports) e oficializa a volta de Anderson Silva contra Nick Diaz no dia 31 de janeiro em primeira mão para… o SportsCenter da ESPN (ABC/Disney) – em busca de domínio territorial?

Pois é.

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Celebrando a falência dos rivais

Outro “fail” épico produzido pelo dirigente (“quem fala demais dá bom dia a cavalo”, alô?) foi a previsão feita em 2011 de que as mulheres jamais pisariam no octógono do UFC, seguida de uma risada irônica e sequente saída à francesa.

Isso tudo para hoje, aposto, não passar um dia sequer sem pensar em Ronda Rousey.

Por essas e mais outras, mesmo que ainda jovem e aparentemente com uma longa trajetória pela frente, a grande dúvida deixada pelo aniversariante Dana White no ar é: o quão grande será o choque por sua saída e quem poderá substituí-lo no comando do UFC no futuro?

Para encerrar deixo os amigos com um vídeo (lamentavelmente sem legendas) bem marcante do primeiro TUF, no qual, impulsivamente, Dana improvisa um discurso que transformou a história daquela edição.


  • Ayrllys Allan

    Excelente texto.

    Grandes marcas precisam de grandes nomes, sempre foi assim, e o Dana White como presidente colaborou muito para o sucesso da marca UFC, não quero nem entrar no mérito do MMA em questão, já que uma coisa liga a outra.

    só pra dar uma colaborada aqui fiz uma traduçãozinha “mais ou menos…” desse discurso, que realmente foi emblemático. uma pena ser editado, deve ter rolado muita coisa boa que saiu no corte.

    Dana White:

    “Você que ser um lutador? Essa é a questão…
    Não se trata de perder peso, não se trata de viver na porra de uma casa.
    isso é sobre: você quer ser um lutador?

    Isso não é sobre dar autógrafos, putarias ou coisas fora
    daqui, Não é.
    Essa porra não é engraçada cara, isso é um trabalho, como
    qualquer outro.

    Então a pergunta é essa …

    Não se você pensa que vai bater o peso, sobre fazer isso ou aquilo.
    Você que ser a porra de um lutador? Essa é a minha pergunta.
    E apenas você que sabe.

    Se algum de vocês dizer não, eu não sei que porra estão
    fazendo aqui.
    você pode sair dessa merda de academia, e rápido se quiser.
    A opção é de vocês, eu não me importo. Certo?

    Eu amo tudo que tem aqui, tenha uma boa noite senhores.”

    • Renato Rebelo

      Muito obrigado pela tradução, irmão!

    • Lucas Pereira Carrano

      Ayrllys, valeu pelas palavras e pela tradução. Após tantos parágrafos, já não caberia mais uma transcrição e sua contribuição certamente é de grande valia.

      Grande abraço.

  • Luiz Guilherme

    excelente texto!

  • Leo Ferreira

    Eu creio que ele mudou o jogo ao não deixar a organização ter um enorme buraco que os separa dos fãs. Dana tem um estilo jovial e se adaptou rápido as redes sociais e sua característica mais marcante é ser impulsivo e não esconder nenhuma emoção ao falar do negócio que ajuda a tocar. Eu acho que seu segredo é não ficar o dia inteiro trancado num escritório tratando tudo com impessoalidade.

    • Lucas Pereira Carrano

      Leo,

      Esse estilo é tanto a válvula propulsora quanto o calcanhar de aquiles. Recentemente, o que temos visto é um Dana mais maduro, e portanto mais ciente de seu lugar e das consequências e implicações de seus atos. O que não quer dizer que ele não dê suas cabeçadas volta e meia…hahahaha

      Ainda assim, conforme até já disse em outros textos aqui mesmo no Sexto Round, prefiro mil vezes o careca e sua espontaneidade, mesmo que as vezes o negócio pegue fogo, do que o mar de respostas prontas do futebol – por exemplo.

      Um scrum de vinte minutos com o cara em SP rendeu umas 15 ou 20 pautas, e sem um pingo de exagero se espremesse ainda saía mais. Isso é absurdo! hahaha

      Abração!

      • Leo Ferreira

        Pois então, ele não tem aquele jeito duro, frio e distante de conduzir o negocio… Até o Trump já caiu na porrada (ficticia) noWWE!! Os caras estão acompanhando o tempo, pq ele sabe q ao se abrir um pouco mais da mídia, na verdade ele está fazendo um marketing tão absurdo, que é como vc disse, rende 15, 20 pautas! Ou seja? Só vai se falar do UFC em sites especializados, mais mídia, mais grana.

  • Renan Trigueiro

    Qual outro CEO de empresa se expõe (bota a cara) e é tão ativo publicamente pelo bem do negócio quanto ele? O cara faz corpo a corpo com fãs diariamente. Sou fã dele.

    • Lucas Pereira Carrano

      E certamente não é o único, Renan. Tenho amigos que são muito mais fãs do Dana do que dos próprios lutadores…

  • Crownck Vanko

    Olá Amigos!!! Eu queria fazer uma pergunta e espero que vcs me ajudem. Eu criei uma acc no PVT e não sei onde faço um comentário, me expliquem ? osssss

  • Flávio

    Excelente texto!

  • Diego Seixas

    Assim como o Dana e o UFC, o Sextoround segue na liderança no que diz respeito aos sites sobre mma. Adoro ler as matérias daqui. Parabéns!

    • Renato Rebelo

      Poxa, que honra, Diego!

  • mazzaropi

    Lucas Carrano mestre!

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