A lisura do Pride sob suspeita (outra vez)

Lucas Carrano | 22/07/2014 às 16:03

BOBNão chegou a ser necessariamente uma denúncia surpreendente, ou que chocou o mundo do MMA.

Quando Enson Inoue veio a público expor parte de seu contrato com o Pride para mostrar como a organização era negligente em sua política antidoping, o que ele fez foi apenas trazer à luz do debate público uma questão que circula de maneira velada há muito tempo.

O nipo-americano usou seu não tão prestigiado perfil no Facebook, com pouco mais de 8 mil seguidores, para denunciar que esteróides anabolizantes não faziam parte do conjunto de substancias contempladas no escopo dos testes aplicados na época.

Uso ilegal de narcóticos: O lutador concorda em ser testado, imediatamente após as lutas de cada evento, para confirmar estar livre do uso de maconha, cocaína, heroína e barbitúricos. Caso o teste dê positivo, então, o lutador deverá abrir mão de todo o pagamento estipulado por este contrato. Estimulantes que melhorem a performance física com base em esteróides anabolizantes estão especificamente excluídos do escopo do teste”, diz o trecho reproduzido por Inoue.

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Enoue entregando a Couture a primeira derrota da carreira

Abro aqui um parêntese para registrar uma lembrança pertinente do meu camarada Bruno Ferreira, amigo e companheiro de redação no Super Lutas: assuntos indigestos na condição de denunciante não chegam a ser novidade para Enson Inoue.

Foi o havaiano, que já enfrentou de Rei Zulu a Randy Couture em sua carreira, um dos primeiros atletas, senão o primeiro, a falar abertamente sobre a relação do Pride com a Yakuza, máfia japonesa, tão comentada à boca miúda ou nos tablóides nipônicos.

Ou seja, temas considerados inconvenientes e que são evitados por boa parte dos lutadores, por questões contratuais ou até mesmo políticas, encontram em Inoue um porta-voz sempre disposto a mexer no vespeiro.

A essa altura do campeonato, a denúncia divulgada se encaixa como uma peça importante no quebra-cabeça “por que as estrelas da era de ouro japonesa não tiveram sucesso quando vieram para os Estados Unidos?”.

Além das sempre mencionadas mudanças de regras, adaptação aos cages após anos lutando em ringues e a própria forma física e técnica dos lutadores, já que muitos chegaram longe do seu auge aos EUA, há outra causa bastante lembrada, mas nem sempre mencionada: as famigeradas PEDs.

PED é o acrônimo de Performance-Enhancing Drugs (drogas para aumento de desempenho, em tradução livre).

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Parte do contrato de Enoue

Para muitos, que agora têm a seu favor um documento que abaliza a percepção, são essas três letras que explicam a notória queda de rendimento dos atletas que passagem pelo Pride.

Essa noção é respaldada por exemplos mais gritantes, como Mark Coleman e Mark Kerr (contra quem, aliás, Inoue lutou justamente em 2000 – ano do contrato divulgado) ou mesmo a enxurrada de casos de doping daquele Pride 32, realizado nos Estados Unidos (e regulado pela famosa Comissão Atlética de Nevada já no estertor do evento japonês.

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Kid, Gomi e Cro Cop: reis no Japão, medianos na América

É claro que o cenário apresentado deve ser contextualizado.

Há de se levar em conta, por exemplo, que a regulamentação nos eventos do Japão era muito mais relapsa dos que nos Estados Unidos e havia pouco ou nenhum controle sobre a preparação dos lutadores, que chegavam fazer até duas ou três lutas na mesma noite.

Porém, isso não pode servir de salvo-conduto para um comportamento permissivo e conivente com práticas ilegais e que ferem diretamente o princípio da disputa esportiva.

O teor de tal denúncia demanda uma investigação e satisfação pública dos responsáveis pela extinta organização, sejam os atuais donos da marca, a Zuffa de Dana White e dos irmãos Fertitta, ou os antigos comandantes, da japonesa DSE.

Seria importante também que Enson Inoue disponibilizasse na íntegra os documentos os quais divulgou apenas trechos selecionados, e quem sabe até mesmo que outros atletas também expusessem seus acordos.

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Enson Inoue

Isso porque, por cautela jornalística, não posso deixar de observar que cabe ali uma ressalva, já que não há referência se o tópico divulgado diz respeito à totalidade dos exames realizados – principalmente pelo uso no título do termo “entorpecentes”, mais relacionado a drogas recreativas, como as citadas posteriormente.

Além disso, me causa certo espanto imaginar que a própria organização criaria provas documentais contra si e sua credibilidade diante da opinião pública apenas para dar garantia e respaldo às fraudes cometidas pelos atletas.

Neste caso, como na grande maioria das atividades ilegais ou criminosas, seria mais comum que tal entendimento fosse feito no campo da informalidade – em uma reunião particular ou contato telefônico, por exemplo.

Mas o primordial é que, mesmo tanto tempo depois, esta pauta saia das sombras da marginalidade e ganhe corpo no debate esportivo.

No momento atual, em que a temática é destaque também nos holofotes do UFC, o timing não poderia ser mais preciso.


  • Mikeias Filipe

    É realmente estranho que o Pride tenha produzido provas tão contundentes a respeito de doping em seu roster. Agora, é evidente que a maioria dos lutadores da organização se dopavam, até porque se hoje em dia no UFC, com todas as circunstancias que envolvem as comissões atléticas, o doping rola solto, imagine no Pride naquela época?

  • Lucio

    Kid Yamamoto nunca lutou no Pride.

    • Renato Rebelo

      Verdade, Lucio. Eu escrevi Pride, quando era pra ter escrito Japão. Vou trocar. Valeu pelo toque.

  • Paulo Josué Lemos Alves

    Também podemos observar o fato de que na época do PRIDE, parecia não haver tantas e tão seguidas contusões de atletas, assim como diversos lutadores tinham gás infinito e estavam no auge de sua força física e capacidade atlética, vide Wand, Coleman, MIrko e etc.
    É sabido que PEDs interferem de forma decisiva nesses aspectos. Na prática da coisa, a impressão que se tem, é que antes todo mundo usava, hoje quase todos usam e alguns menos cuidadosos são pegos. Esporte de alto rendimento livre de doping é utopia. Hipócrita é quem fica batendo nessa tecla, fazendo parte do sistema.

    • Bambam

      Todo mundo é muita gente colega!

  • Lucas Wilniski

    Rapaz, depois daquela história do Cro Cop com o Wnd na primeira luta, não duvido de mais nada do Pride.Mesmo tendo todos esses casos, meu amor pelo evento continua, mas a maneira como eu alho os antigos lutadores e as lutas, mudou.Como bem o autor do texto disse, vamos esperar para ver se o contrato completo é mostrado e se mais lutadores postam alguma coisa.

  • SabeNadaInocente

    Me lembro claramente o Wand com 110 kilos pra uma luta com o preparador físico dele na época!

    Também acho que Lesnar nunca tenha se dopado durante suas lutas no UFC…

  • Malk Suruhito

    Historicamente, os Yakusa em sua maioria sempre foram veementemente contra o tráfico de drogas, ao contrário das máfias chinesas (Tríades) e demais asiáticas e europeias. O fato de ter apenas restrições aos narcóticos para os lutadores, para mim, só confirma que realmente eram os Yakusas que controlavam todo o PRIDE.

    É triste, ver toda a idolatria que criei em vários lutadores desta época indo para o ralo.
    literalmente “Meus Heróis, morreram de (não de) Overdose”

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