O que o UFC pode aprender com a Copa do Mundo?

Lucas Carrano | 16/07/2014 às 21:19
FIFA World Cup final - "Germany v Argentina"

Celebração germânica!

Chegou ao fim a Copa do Mundo e a sensação não deixa de ser de alívio para o MMA.

Nas últimas semanas, por razões bastante óbvias a meu ver, o esporte que cresceu exponencialmente nos últimos anos perdeu grande parte do espaço conquistado nas discussões, na imprensa e no próprio imaginário do brasileiro.

A retomada é gradativa, e passa pela realização de grandes eventos – principalmente as reedições de Barão x Dillashaw e Jones x Gustafsson.

Além disso, a quantidade e qualidade de fatos relacionados ao mundo do MMA também vai influir diretamente neste processo.

Mas não foi só por aqui, país-sede da competição, que a atenção se voltou massivamente para a Copa.

Mesmo nos Estados Unidos, principal mercado das artes marciais mistas na atualidade e sede dos principais eventos internacionais, a audiência e impacto cultural do soccer foram enormes.

U.S. Soccer World Cup Viewing Party

Parque em Chicago durante os jogos dos EUA na Copa

Principal organização do planeta, o UFC sabe bem disso e pode tentar analisar os 31 dias entre 12 de junho e 13 de julho sob outro prisma.

Afinal de contas, mais útil do que lamentar seria observar o que há pra se aprender com o maior evento esportivo do planeta.

Primeiramente é preciso destacar que existem diferenças substanciais entre a promoção dos dois eventos, que vão desde a modalidade, abrangência geográfica e espaço de tempo até a matriz cultural, já que o futebol tem origem européia e é administrado por uma federação situada no Velho Continente.

Mesmo assim, inicialmente, salta aos olhos a questão da pontualidade.

É claro que os principais acordos de uma Copa são feitos com TVs abertas e o tempo de uma partida, principalmente quando ainda não há chance de prorrogação, é mais preciso, mas é gritante a disparidade neste critério.

Constantemente, o Ultimate nos “brinda” com atrasos em suas atividades programadas e até mesmo nas atrações principais, como pesagens e até eventos.

Por outro lado, o chamado “Kickoff time” dos jogos de uma Copa (ou até mesmo da Euro, que é organizada pela UEFA) são seguidos à risca – inclusive com uma pequena margem na programação caso surja algum imprevisto ou uma torcida cante o hino a capela, por exemplo.

Outro ponto que pode ser observado é a distinção entre seus próprios patrocínios, os das demais entidades participantes e aqueles que dizem respeito aos próprios atletas.

É concedida exclusividade aos apoiadores do evento, mas não há impedimento que as federações nacionais e os jogadores mantenham seus acordos particulares.

Por outro lado, o Ultimate vive em pé de guerra com alguns anunciantes – o caso mais recente é o da Nike.

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Nada de Nike para Jones no octógono

Isso acaba afetando diretamente os lutadores, quem também têm abocanhada uma fatia de seus contratos de patrocínio antes de pisarem no octógono.

Outro tema de destaque, e que já foi até pauta recente aqui no Sexto Round, é o intervalo de tempo entre um evento e outro, é óbvio, guardadas as devidas proporções – afinal de contas, já pensaram ficar quatro anos sem um card?

Mas é justamente isso, no caso da Copa, que faz com que pessoas programem suas férias, reservem seu dinheiro e, outras mesmo que de suas próprias casas, vivam intensamente cada dia de competição.

Com eventos cada vez mais à miúda, o UFC tem criado um vazio de interesse e a comoção, mesmo pelos principais eventos, diminuiu bastante – já que mal dá tempo de passar a régua em uma coletiva de imprensa pós-evento que já chega o treino aberto de outro.

Conforme dito, não dá pra fazer uma maratona de eventos durante um mês a cada quatro anos, mas, principalmente, diante das particularidades dos esportes de combate, fazer o fã sentir aquela pontada de saudade pode render mais dividendos do que inflar o calendário, e muitas vezes não conseguir manter o padrão de qualidade.

Por fim, para expor um contraponto, existe um aspecto no qual é o futebol, e não só a Copa do Mundo, quem deve repensar sua condição, enquanto observa o UFC: esse caráter informal, por assim dizer, na relação com a organização e seus atletas.

Ao longo dos anos, no futebol, foi se desenvolvendo o formalismo como um escudo pra evitar polêmicas e filtrar pautas que não sejam de interesse institucional ou pessoal.

O ônus dessa transformação é enorme e desemboca em conteúdos cada vez mais pasteurizados.

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Tente ficar 30 minutos conversando com alguém do calibre de Chael Sonnen no futebol…

Digo isso por vivência.

Trabalhei por quase cinco anos cobrindo futebol e encontrávamos dificuldades de acesso e indisposição a lidar com o público até mesmo, pasmem, no Módulo 2 do Campeonato Mineiro.

Isso sem falar nas respostas-padrão.

Já no UFC, mesmo se tratando de uma organização global, chega até a surpreender a facilidade de contato e a forma como as principais figuras não se abdicam de comentar e até mesmo polemizar sobre grande parte dos assuntos.

Deixo então aos amigos uma questão: existem outros pontos em que o UFC pode aprender ou ensinar ao futebol/Copa do Mundo?

  • Andre Nishimura

    isso sem contar a torcida, a do MMA da aula para os torcedores do futebol !!!

  • Leo Ferreira

    Olha Lucas, como vc mesmo deixou no ar no final do seu texto, o futebol é organizado assim de dar gosto de ver só na copa do mundo, reclamação de calendário apertado excesso de jogos tmb irritam e até os jogadores já começaram a se organizar em sindicato pra rever isso.
    Eu só acho que o UFC está querendo abraçar o mundo muito rápido, a lista de contratados está cada vez mais inchada e isso obriga a termos cada vez mais e mais eventos.
    Eu até entendo essa gana do UFC em fazer cada vez mais e mais eventos, pensando na massificação do esporte para que ele se torne algo comum, tanto quanto basquete, futebol, etc, ou seja, do mesmo modo que vc pode assistir a dois, tres ou até quatro peladas na tv, vc tmb teria esse mesmo acesso ao MMA. Mas ai é que mora o perigo, o UFC tentando ser cada vez mais um monopólio, englobando eventos e secando-os contratando os seus melhores lutadores, pode acabar emperrando a máquina e talvez ela não suporte carregar tanto peso assim.

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