Cards esvaziados: até quando durará nossa paciência?

Felipe Paranhos | 26/06/2014 às 15:57
UFC_Fight_Night_43_Te_Huna_vs._Marquardt_Poster

Sábado de manhã…

Neste fim de semana, o UFC novamente terá dois eventos num só dia – a despeito das últimas experiências do tipo terem sido pequenos fracassos de público e audiência.

Mas Dana White e os Fertitta não parecem muito preocupados com isso, afinal, os assinantes do Combate, aqui no Brasil, e do Fight Pass, ao redor do mundo, serão presenteados com dois cards horrorosos.

Pra explicar como veremos produtos fracos, basta dizer que, quando computamos os três últimos combates de cada um dos lutadores do card principal do Fight Night 43, chegamos a um cartel de 12-12.

Ou seja, se fundíssemos todos os oito atletas num só, provavelmente ele estaria ali de porteiro de sua categoria.

No preliminar, as coisas são ainda piores: ex-TUFs que nitidamente não terão futuro sequer entre os 25 melhores de suas divisões, estreantes e só.

Nada, portanto, que faça um torcedor comum ligar a TV – sobretudo em fim de semana de Copa do Mundo.

Mesmo a luta principal do FN 43 é formada por caras que vêm de duas derrotas cada no UFC.

Nate Marquardt, inclusive, não vence uma luta há dois anos.

No Fight Night 44, encabeçado por Cub Swanson e Jeremy Stephens, a coisa é um pouco melhor, a começar pelo combate principal, entre dois contenders dos penas.

Mas, fora ver lutarem Ricardo Lamas, mais recente desafiante ao cinturão de José Aldo e, talvez, Kelvin Gastelum e o campeão mundial de jiu-jítsu Antônio Braga Neto, tudo o que o evento de San Antonio me gera é uma pergunta:

UFC_Fight_Night_Swanson_vs._Stephens

Sábado à noite…

O que (insira nome de lutador aqui) pode fazer no UFC?

Vale pra Oleksiy Oliynyk, vale pra Marcelo Magrão, vale pra Colton Smith, pra Joe Ellenberger, pra Andy Enz, Anthony Hamilton e pra Shane Howell.

Serve pra vermos caras promissores sobre os quais ainda não temos muito parâmetro.

Mas quem se interessa por isso, pelamordedeus? Fãs mais hardcore.

Ok, ninguém disse que esses cards não são pra fãs hardcore.

Não à toa, o 43 será transmitido para os EUA via streaming, e só assiste um evento esportivo via streaming quem REALMENTE quer vê-lo.

Mas e para convencer os espectadores de esporte norte-americanos a sintonizarem na Fox Sports 1 para assistir a Cezar Mutante e Andrew Craig?

Claro que eu não tenho acesso às contas do UFC e nem sei se de fato a pouca audiência e a baixa repercussão desses eventos do Fight Pass e da Fox Sports têm se refletido em prejuízo ou pouco lucro.

Mas me parece que, tanto esportivamente quanto em relação ao entretenimento, o Ultimate deu um passo maior do que a perna na tentativa de expandir seus tentáculos.

O raciocínio que origina tantos eventos tecnicamente fracos é simples e faz sentido: existe um enorme público consumidor em potencial que teve pouco ou nenhum contato com o mercado do MMA até então.

Esse público precisa ser atingido, mesmo que o produto não seja lá essas coisas.

É assim que o Ultimate aborda países como Brasil, China e Austrália e pretende fazê-lo com MéxicoRússia e Índia.

Para entregar alguma coisa ao espectador desses lugares, é preciso baixar o nível técnico dos contratados, porque existe um espaço a ser preenchido nos cards.

E isso resulta nestes troços que a gente assiste hoje em dia.

A longo prazo, há grandes chances de isso funcionar, porque grande parte dos fãs atuais não vai esquecer o MMA simplesmente porque os principais eventos da marca, aqueles em pay-per-view, não são mais tão bons quanto antes.

Pode até acompanhar menos, mas não vai passar a rejeitar o UFC.

E lá do outro lado da gama de consumidores do Ultimate, existe um grupo enorme conhecendo o esporte com um nível de exigência bem mais baixo.

Mas enquanto isso, o torcedor real, o que sintoniza a TV e é exposto às marcas que patrocinam o Ultimate, recebe um produto cada vez menos atraente.

Eu devo assistir aos dois cards do fim de semana, por menos interessantes que eles sejam. Imagino que muitos de vocês também.

Mas até a paciência do fã de esporte tem limite.


  • hehe.. a coisa tá feia…
    Quer incentivo para assistir o Masquardt? Tem um vídeo no site do UFC perguntando se alguém já o confundiu com Matt Damon..rs

    Vamos torcer para o Palelei salvar a noite, que sinceramente, será a luta que fará dormir antes de ver o Te Huna vs Masquardt.

    Bom, vamo lá!

  • Renan

    O evento Marquardt vs Te Huna tá fraco mesmo,mas eu já vi alguns assim esse ano,não é novidade,mas o Swanson vs Stephens é um bom card,e não entendi qual o problema do Mutante no card principal, do tuff brasil,por enquanto é o que mais tem cara de que vai vingar e ficar entre os top 15 da categoria,tem talento,hacran dias é um baita lutador da Nova União e vai enfrentar um cara que eu gosto de ver lutar tbm Ricardo Lamas,eu entendo a reclamação com o evento Marquardt vs te huna,mas pra fãs de mma o outro evento está excelente,e temos também um que pra mim ainda vai vingar mais ainda nos meio médios Kelvin Gastelum,que fez uma luta muito boa contra o Story…continuo com todo respeito não entendo a reclamação deste card,mas concordo com você na do outro,quanto a ter dois eventos no mesmo dia,também acho desnecessário,mas o UFC com certeza não deve estar perdendo dinheiro com isso,se não vocês acham mesmo que fariam isso? provavelmente vem retorno financeiro sim. Eu tenho uma teoria de que o UFC tem planos em tornar seu nome maior que dos lutadores, o cara compra o evento pelo nome e não por quem está lutando em si,apesar de ser necessário uma lenda,me causa impressão de que querem cada mais que você compre os cards pelo nome ufc e não pelo nome dos lutadores.

    • Felipe Paranhos

      Acho que você tem razão na maioria dos seus argumentos. Eu me refiro, na verdade, à capacidade de fazer com que o grosso dos consumidores mantenha o interesse em lutas de porte médio ou pequeno com tanta frequência. Eu assisto praticamente qualquer luta de MMA. A maioria de vocês também. Mas a gente não representa a maioria dos clientes do UFC. Não no meu ponto de vista. Ah, concordo contigo sobre o Lamas, o Gastelum e o Hacran. Sobre o Mutante, não. Acho a piada do século ele dizer que venceria 11 em 10 lutas contra o Dollaway. Um cara que comete três anos depois o mesmo erro que rendeu sua primeira derrota por nocaute (trocação tresloucada e aberta nos primeiros segundos de luta) mostra que evoluiu menos do que parecia. Ele vem em franco desenvolvimento, sim, mas pra top-15 ainda falta bastante.

  • Eduardo Pedrosa

    Não vejo nada de errado em uma empresa diversificar. A FCA, ao mesmo tempo que produz o Fiat Palio, também produz a Ferrari F12 Berlinetta. E não tem nada de errado nisso.
    O UFC tem produtos classe A (cards numerados), onde os cards costumam ser melhores (é verdade que as lesões e outros fatores acabam estragando alguns cards). Possui produtos classe B (cards “on FOX”), como também tem produtos classe C e D (Fight Nights da vida).
    Eu não vejo o UFC omitindo as suas estrelas. Eles tentam colocar os campeões para lutarem o tão cedo quanto possível.

    Não há mal nenhum em desenvolver outros atletas na “série B” do UFC (vide TJ Dillashaw).
    Cabe a cada um selecionar o que assistir.

    • Renato Rebelo

      Concordo com vc, Eduardão! Mas muitos cards tb obrigam o UFC a distribuir seus ovos classe A (ainda mais nessa entressafra) em cada vez mais cestas. Isso significa que os PPVs estão cada vez menos “suculentos”, com apenas uma ou duas lutas com muito apelo. Sabendo que o PPV é o maior “income” da empresa, essa prática passa a ser controversa. Tanto o UFC 173 quanto o 174 venderam pouquíssimo. Se neles tivessem Bendo x Khabilov, Swanson x Stephens, Cerrone x Miller, McGregor x Brandão, Matt Brown x Erick Silva ou outras lutas que estrelaram cards menos expressivos, teriam vendido mais? Acho que essa é a questão que o Felipe levanta no texto. Tb não tenho opinião formada, pra ser sincero, estou apenas fazendo um contraponto. Será que o UFC tá forçando a barra com tantos cards?

      • Eu acho que não. Acho que o UFC chegou à conclusão que o planeta tem 6 bilhões de habitantes e que pensar que todos assistirão a todas as lutas é perda de tempo. Eles estão se espalhando e alcançando cada vez mais gente (veja quantas sedes inéditas tivemos e teremos em 2014).

        Pra gente é cansativo dois eventos num dia, ainda mais pra quem trabalha com isso. Mas o UFC não tá pensando no cara que vai passar 23 horas ligado, mas sim no montante da Ásia e Oceania pro primeiro e do hemisfério ocidental no segundo que podem ser atraídos.

        Enfim, é uma questão complexa, mas prefiro acreditar que profissionais que fizeram a empresa virar o monstro que virou devem saber o que estão fazendo com vários eventos assim. Sei que estão fechando parcerias com redes de TV fortes em todo o mundo, atraindo patrocinadores desanexados ao MMA, etc.

    • Mazzaropi

      Bingo!

  • Leo Ferreira

    Certa vez, conversando com um amigo, anos atras, comentei com ele: “Cara, Copa do Mundo é muito foda, podia ter todo ano” e ele me respondeu: “Se tivesse todo ano, ia ser uma merda, ia ficar corriqueiro, não seria mais especial como é de 4 em 4 anos”. Eu sempre gostei de assistir a todos os eventos e principalmente a todas as lutas, desde a primeira, mas com essa enxurrada, ta difícil de acompanhar, tanto pelo tempo quanto pelo atrativo que está muuuito baixo.

    • Felipe Paranhos

      Sim! E tem outra: se o timing dos eventos fosse melhor, imagino que a paciência seria melhor. Ficar esperando meia hora entre Marcelo Magrão x Andy Enz e Ray Borg x Shane Howell é foda.

      • Aí sim. A longa espera entre as lutas realmente é um pé no saco.

  • Kaue Macedo

    Felipe, sabe qual foi o motivo de sábado passado não ter tido nenhum evento do UFC e no próximo sábado ter 2 ? Não dava pra fazer um em cada semana ao invés de dois em um dia ?

    • Mazzaropi

      Neste sábado que não teve UFC você pode ir passear tranquilamente para que no próximo você se interne com pipoca e suco de uva na frente da tv… kkk!

  • É raríssmo eu discordar dos amigos Felipe e Renato, mas acho que este é um destes momentos raros. Se levarmos em conta apenas os cards principais de sábado, nenhum dos dois é ruim. Pelo contrário, aliás. Vejamos:

    – Hioki-Do Bronx é uma luta bem interessante entre dois grapplers dinâmicos que podem travar uma batalha irada no chão (Charles ainda garante bons momentos em pé também).

    – Whittaker-Rhodes só será ruim se acontecer um acidente cósmico. São dois caras altamente empolgantes lutando, imagine um contra o outro.

    – O retrospecto recente de Marquardt e Te Huna é ruim? Claro. Isso significa que farão uma luta ruim? De maneira alguma. Obviamente o corte de peso foi cruel com o Marquardt e provavelmente ele atuará melhor de volta aos médios. Ainda que não seja mais do nível de quando enfrentou o Anderson, é um lutador completo e talentoso. E o Te Huna, sem enfrentar nego gigante, talvez consiga recuperar seu instinto. Acho que essa luta tem potencial de quebra-pau.

    – Palelei-Rosholt realmente é de doer, mas aí é problema de quem gosta de pesos pesados.

    Sobre o card de San Antonio:

    – A luta principal deve definir o próximo desafiante dos penas e envolve dois matadores da categoria.

    – Kelvin Gastelum não é a sétima maravilha do mundo, mas é um lutador muito legal de ser visto pela idade e pela entrega e coragem nas lutas, com bom potencial de crescimento.

    – Andy Craig nunca vai chegar a lugar algum na vida, mas não faz uma única luta sequer chata.

    – Lamas-Dias é um confronto curioso que deve definir o que esperar do Hacran.

    – Braga Neto vai pegar um trocador dinâmico, um ótimo teste pra um cara que não tem nada o que provar no chão, mas muito a se testar em pé antes de pensar na elite. E só tem 25 anos, ou seja, tem estrada pra percorrer.

    – Joe Ellenberger tem uma história de vida tão legal que já justifica eu querer vê-lo no UFC. Pra piorar, ele não tem nada de ruim, lembra bastante o irmão, que é top 10 da segunda divisão mais forte há muito tempo.

    – Moontasri, pra quem gosta de trocação, é um prato cheio, taekwondista vice-campeão pan-americano (perdeu a final pra um campeão olímpico) que trouxe seus chutes pro MMA e que tá evoluindo numa boa equipe. Pena que lutou há 20 dias e aceitou o convite em cima da hora.

    Enfim, eu tô amarradão nos dois eventos e agradecendo que não terá conflito de horários com os jogos da Copa. Não sei como vou fazer pra dormir (talvez só pegue o card principal de Auckand e tire um cochilo entre os jogos da Copa), mas ainda não estou preocupado com isso.

    • Felipe Paranhos

      Eu concordo plenamente com toda a argumentação do Alexandre. Eu tô ansioso pra ver pelo menos 75% das lutas dos cards. Mas eu acho que eu, o Alexandre e muitos de nós que comentamos aqui não somos parâmetro. Acho que a gente é minoria. 🙂

      • Perfeitamente, somos minoria. Mas acho que o UFC tá tentando aproximar o produto dele pro maior número possível de pessoas dentre os 6 bilhões de habitantes da Terra. Reparou em quantas sedes inéditas já tivemos e ainda teremos em 2014? Só no sábado serão duas 🙂

    • Vitor Camilo

      Tenho a mesma opinião do Alexandre, gostei dos cards, principalmente do de San Antonio. Geralmente eu reclamava por pagar caro e ter poucos eventos.

  • vicente fernandes

    Cara esse card da nova zelandia e o pior que ja vi,e o card de san antonio so tem msm aquilo q vc disse,eu devo ver os 2 card na esperança das aparências enganarem e termos boas lutas.

  • Mark Sgarbi

    Me lembro do evento de Singapura no começo do ano em que tinha um WSOF também no mesmo dia, previamente aos eventos pensei que o WSOF iria ser muito melhor, porém as lutas do UFC foram muito mais empolgantes.
    Acho difícil julgar um card antes dele acontecer, os consagrados UFC Pay-per-view que são para serem os melhores as vezes decepcionam também.

    • Mazzaropi

      A diferença é gritante! Um tem o poder da mídia inteiro em seus eventos e o outro não… Isso faz muita diferença como produto final!

  • Mazzaropi

    Popularização do esporte com dois cards no dia e o Felipe Paranhos reclamando? Louco.
    Se coloca na posição dos atletas e pergunta pra eles se estão felizes com a oportunidade… Todos sem exceção vão dizer que sim! Cards em plena Copa do Mundo com certeza nunca disputariam audiência, mas eu amo MMA e vou assistir os dois eventos… Nem estou preocupado com o card.

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