Toquinho x Fitch: a 1ª grande rivalidade do WSOF?

Lucas Carrano | 25/06/2014 às 19:19
Tito e Chuck resolvendo as diferenças

Tito e Chuck resolvendo as diferenças

Um dos principais elementos para o sucesso de uma organização de MMA junto ao público é a presença de grandes rivalidades.

Foi assim com o UFC.

O presidente Dana White não se cansa de lembrar como Tito Ortiz x Ken Shamrock, Chuck Lidell x Tito Ortiz ou Chuck Lidell x Randy Couture foram importantes para o início da era Zuffa.

Isso sem falar na explosiva contenda entre Frank Mir e Brock Lesnar, que encabeçou o UFC 100, até hoje um marco na história do Ultimate, ou o duelo entre BJ Penn e Georges St. Pierre, cuja revanche marcou a última vez em que dois campeões dividiram o octógono.

Mais recentemente, Anderson Silva x Chael Sonnen, GSP x Nick Diaz, Ronda Rousey x Miesha Tate e a corrente concorrência entre Jon Jones e Alexander Gustafsson foram responsáveis por movimentar a maior organização do planeta.

BROCK

Brock e Mir se estranhando

A receita não é nova.

As madrugadas do Pride eram ainda mais quentes devido aos atritos entre Wanderlei Silva e Quinton Rampage, Fedor Emelianenko e Rodrigo Minotauro, Kazushi Sakuraba e a família Gracie e, é claro, o clássico “BTT x Chute Boxe”, para citar só alguns exemplos.

E qual a razão disso?

A mim parece claro que a principal motivação para o surgimento e renovação de tantas rivalidades é a necessidade da construção de uma narrativa por parte do esporte enquanto representação social.

Tal demanda é menos urgente no futebol, por exemplo, já que ele está tão arraigado em nossa cultura e é formado por instituições, que, embora se moldem em torno de pessoas e por meio de suas interações, acaba por transcender os indivíduos.

No MMA a história é diferente.

São apenas duas pessoas ali, e por mais que ela representem seus familiares, academias e em última instância seus países, são dois caras se digladiando quando soa o gongo.

Miesha Tate and Ronda Rousey

Tate x Rousey

Por isso, recorremos à narrativa construída sobre um antagonismo entre seus personagens, com pequenas tramas paralelas e cujo desenrolar desperta paixões e produz sentido não só aos envolvidos, mas especialmente ao público que acompanha.

Com o terreno devidamente assentado, chegamos ao nosso tema central.

O World Series of Fighting, evento que já desponta como terceira organização no cenário dos EUA, parece estar preparando aquela que pode vir a ser sua primeira grande rivalidade: Rousimar Toquinho x Jon Fitch.

Curiosamente, o conflito se iniciou ainda quando um de seus protagonistas sequer estava na organização presidida por Ray Sefo.

Tudo começou logo após Toquinho ser demitido do UFC por reincidir em segurar demais uma finalização, no caso sobre Mike Pierce em Barueri.

O fato não passou despercebido a Fitch – que, na época, havia deixado o Ultimate há pouco tempo e assinado como um dos principais nomes do WSOF:

Eu acho que o UFC agiu corretamente ao dispensá-lo e, pessoalmente, não aceitaria uma luta contra ele por causa dessas coisas. Se fosse a primeira vez, tudo bem, mas foi a segunda. Sinceramente, jamais aceitaria competir com ele – disparou o ex-desafiante do UFC, logo após a demissão de Toco.

Este é basicamente o capítulo um da história de boa parte das rivalidades: a negativa.

Toquinho prestes a finalizar Steve Carl

Toquinho tomando o cinturão de Steve Carl

No primeiro momento, um dos lutadores, geralmente está em melhor condição profissional que o rival, rejeita publicamente um hipotético duelo.

Se o combate seguir fazendo sentido e o interesse do público aumentar, fiquem tranquilos, ele vai se realizar – a menos que outros fatores impeçam.

E foi exatamente o que aconteceu entre Fitch e Toquinho, agora estrelas da constelação ainda diminuta da divisão de meio-médios do WSOF.

O brasileiro chegou, ganhou o cinturão em pouco mais de um minuto em sua primeira luta e já foi escalado para enfrentar Jon Fitch.

O duelo aconteceria em julho, mas Toquinho abandonou o combate alegando problemas familiares e a luta acabou adiada.

Este é outro ingrediente que, embora seja fortuito, acaba acrescentando e muito à competição, já que dilata a tensão e prorroga o desfecho, o que costuma deixar ainda mais interessados os que acompanham a história.

E eis que Fitch vai logo para o hail mary (“ave maria”, ou passe longo e desesperado no futebol americano – geralmente guardado para os lances finais) ou all in (se você é mais um cara do poker).

Toquinho é um sujeito reconhecidamente simples e humilde, que tem como características marcantes sua afeição aos familiares e gratidão a todos que o ajudaram em sua trajetória.

Questionar a honra do mineiro de Dores do Indaiá e ainda citar o episódio envolvendo sua mãe, como fez o norte-americano, é buscar a desavença.

Quero agradecer o WSOF pela oportunidade de lutar. Queria que fosse pelo cinturão e que o Palhares tivesse sido homem e aparecesse para lutar (…). Todos temos problemas. Meu pai está doente também. Esta é uma grande luta na TV. Ele é o dono do cinturão. Você tem a responsabilidade de defender seu maldito título – mandou Fitch.

Apesar de posteriormente desejar plena recuperação para a mãe do brasileiro, Jon, que agora vai enfrentar o veteraníssimo Dennis Hallman no WSOF 11, ainda acusou o possível oponente de falta de profissionalismo.

Diante das provocações de Fitch, Toquinho rebateu dizendo que “no seu mundo, uma mãe é prioridade” e aproveitou para questionar a escala de valores do norte-americano.

Porém, mesmo em sua defesa, até o próprio brasileiro admitiu que exista um esforço para a promoção de uma nova rivalidade.

Não estou preocupado com o que o Fitch tem a dizer sobre mim. Sou o campeão e então espero que os desafiantes tentem fazer barulho às minhas custas. Fico feliz em enfrentar Jon Fitch ou qualquer um que o WSOF quiser colocar contra mim – garantiu o perito em chaves de calcanhar.

No fim de sua análise, se dizendo aberto a qualquer desafio, Toquinho quase acerta na mosca.

O “qualquer um” citado pelo brasileiro e cujo interesse do WSOF pode colocá-lo frente a frente, tem nome e sobrenome: Jonathan Parker Fitch!

  • Felipe Paranhos

    Eu gosto do WSOF, acho que há ótimos valores lá (a começar pelo Marlon Moraes), mas o evento ainda precisa de tempero. Precisa de alguma coisa que o diferencie. Não sei se uma rivalidade entre dois ex-UFC sem tanto brilho e carisma resolveria isso. Mas também posso estar sendo muito apressado, afinal a organização já tem um tamanho bastante razoável pra quem é tão nova.

    • Lucas Pereira Carrano

      Essa questão estratégica, foi mais ou menos o que o Rebney fez. O Bellator investiu em um modelo diferente do UFC para não ter que concorrer com o gigante nos termos dele. Mas até pela política de boa vizinhança do WSOF, acredito que a turma do Sefo e do Abdelaziz deve seguir com um modelo bem semelhante ao do Ultimate.

  • Renato Rebelo

    Acho que esse rivalidade decolaria mais em caso de revanche. O Fitch, que não tem tanto punch e sobrevive no chão como ng, poderia entregar cinco rounds de pau pereira com o Toquinho. Quanto a necessidade de rivalidades, Lucas matou a pau. Eventos de lutas são 100% movidos por elas e tá na hora do WSOF fabricar uma. Podiam investir num “countdown” da vida, não?

  • Lucas

    – O WSOF vacilou em “devolver” o Anthony Johnson para o UFC, tudo bem que lá é a maior organização de MMA do mundo e tem o lado do lutador escolher o que é melhor pra ele, além do mais, o cash do Ultimate não é tão alto assim, mas lutadores deste nível poderia render uma boa grana para a organização, olhe o que ele fez com o Phill Davis !

  • Cicero Junior

    Ótimo texto. Gostei bastante!

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