Fim da linha: as lacunas deixadas por Sonnen

Lucas Carrano | 17/06/2014 às 02:17
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Melhores momentos: luta com Jon Jones

Alguém por aí?

Apesar de projeções nada animadoras, a Copa do Mundo pegou mesmo no breu e os demais esportes andam meio desprestigiados, não é mesmo?

Mas é isso mesmo.

Sendo um evento de tal magnitude, o futebol estando tão atrelado à identidade cultural brasileira e nosso país recebendo a competição, nada mais natural.

Mas nós, fãs de MMA, também temos nossas demandas e estamos aqui por elas.

Mesmo em meio ao turbilhão mundialista (como dizem nossos hermanos), houve espaço para que as artes marciais mistas fossem palco para uma grande notícia, que ganhou relevância até mesmo na mídia esportiva não-especializada: o fim da carreira de Chael Sonnen.

Embora seja justificável diante da série de eventos desencadeados pelo anúncio de que o norte-americano havia sido flagrado em um exame antidoping surpresa, a aposentadoria de Sonnen é uma nota surpreendente se olharmos o cenário que antecedeu sua publicação.

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MMs: lutas com Anderson Silva

Há não mais do que uma ou duas semanas, só se falava da intensa rivalidade de Sonnen e Wanderlei Silva, da mudança de adversário com a chegada de Vitor Belfort ao UFC 175 e do trabalho do norte-americano no TUF Brasil 3, ou ainda da forma como ele reverteu sua imagem pública com os brasileiros.

Mas a forma abrupta como chegou ao fim da trajetória de Sonnen no MMA e algumas características bem peculiares do “Gângster de West Linn” fizeram com que fossem deixadas, abruptamente, algumas lacunas importantes no UFC.

Por isso, escolhi três aspectos para analisar o hiato de Chael Sonnen na principal organização de MMA do planeta. Vamos a eles:

Dentro do Cage

Talvez essa seja a tarefa mais fácil.

Dentro do octógono, Chael Sonnen era um lutador de bom nível, mas nada muito além disso – principalmente em seus últimos dias de atividade.

A categoria de pesos médios praticamente virou de cabeça pra baixo do deserto que aparentava ser nos tempos da rivalidade do norte-americano com Anderson Silva.

Hoje há, além do campeão, atletas tanto para fazerem lutas interessantes entre tops quanto uma longa lista de espera pelo posto de desafiante número um.

A única grande carência que o Gângster pode deixar é a da condição de “pau pra toda obra”, aquele cara que aceita toda e qualquer luta ofertada – mesmo que ela seja nos pesos moscas e com dois dias de antecedência.

Ah, ele também nos priva do desfecho para grandes rivalidades:

Para minha carreira ser completa, eu preciso lutar com o Wanderlei e com o Vitor. Eu já lutei com o Wanderlei, infelizmente, não foi no ringue. Agora, pegarei o Vitor – disse o americano antes de saber que havia caído no exame antidoping.

Mas isso não chega a ser um grande problema.

Nos microfones

Passando para a relação entre Sonnen e os microfones, chegamos a uma área em que a falta do norte-americano será sentida, e muito.

Quero sempre lutas fáceis. Anderson Silva, Wanderlei Silva. Qualquer Silva. Antônio Pezão Silva. Eles são todos uma porcaria”

Chael é dono de um senso de humor ímpar e autor de frases memoráveis.

Faço Anderson ficar de costas no chão mais rápido do que uma atriz pornô com problemas financeiros”

Não podemos também ignorar a inteligência do falastrão, um homem que já chegou a provocar seus rivais produzindo haikais – tradicional poema japonês de três linhas, contendo sete ideogramas na primeira e na última linhas e sete a segunda.

Em que universo paralelo você bate num homem mais de 300 vezes, ele enrosca as pernas em volta do meu pescoço por alguns segundos e ele é declarado o vencedor? Achei que se você batesse, você perdia o round e não a luta como um todo. Interpretei a regra de forma errada e isso me custou o cinturão –  comentou, de forma jocosa e sem muita isenção, sobre a derrota para o Spider no UFC 117.

Nos últimos meses, o alvo preferencial de Sonnen foi Wanderlei Silva – e isso só aumentou a frustração geral pela não realização do combate entre os rivais.

Após vir à casa do adversário, gravar o TUF e brigar nas gravações, Chael teve sua forra em Las Vegas.

Encarnado o personagem que todos conhecem, o norte-americano simplesmente tomou conta da coletiva de imprensa do UFC 175, deixando áfonos Ronda Rousey e Chris Weidman, a quem agradeceu pelo “bis” concedido ao seu main event.

Mas suas maiores pérolas foram mesmo direcionadas a Wand.

Wanderlei Silva jamais seria campeão se eu tivesse lutado no Pride. Não tive oportunidade. Dizem que você deve sempre estudar seu oponente, saber o que ele está pensando. Eu sei exatamente o que ele está pensando. Ele está sentando e se perguntando: ‘Ah, existe algum número maior do que onze?’”.

Curiosamente, penduradas as luvas, o ex-desafiante se notabilizou por declarações mais sinceras e, em certo nível, até reveladoras.

Em uma delas, agradeceu a Anderson Silva, seu nêmesis e a quem tanto atacou.

“Quero também agradecer ao oponente mais importante que já tive. Eu não podia ter chegado até aqui sem o meu parceiro de dança, e isso, obviamente, é você, Anderson Silva. Obrigado pela oportunidade. Obrigado pelas memórias, e obrigado pelo convite ao churrasco, mesmo que eu não tenha aceitado”.

Para esta função, o próprio Sonnen já indicou que Ronda Rousey ou Conor McGregor possam ser seus sucessores – embora o irlandês ainda me pareça ainda estar no modo “cão raivoso”, talvez amadureça com o tempo.

Para encerrar este tópico, deixo vocês com a que considero a declaração mais memorável já proferida por Chael P. Sonnen nos microfones do UFC, se contextualizada.

A que me fez, como Dana White, debruçar de rir enquanto assistia à entrevista coletiva.

O que eu sei é que, se Rogério Minotouro ou Vitor Belfort assinam um contrato, vou para a academia treinar, porque sei que uma oportunidade aparecerá”.

Para a promoção do evento

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MMs: vitória sobre Shogun

Mas é preciso reconhecer que Sonnen é mais do que somente um frasista.

É um promotor nato, cria narrativas e, mesmo longe de seus apogeu, era garantia de mídia nos grandes veículos ou de buzz nas mídias alternativas ou redes sociais.

O próprio lutador, em entrevista em São Paulo, admitiu que conseguiu muitas de suas lutas não pelo trash talk, como se falava, mas pela construção de uma narrativa baseada na oposição (o personagem do vilão).

Sonnen manipulou (sem conotação negativa, por favor) a opinião pública brasileira, disparando contra o país e seus ídolos no esporte, para que nosso povo clamasse por aquilo que ele queria: uma luta entre ele Chael Sonnen.

Com suas atitudes, criou um cenário de inevitabilidade para que a luta ocorresse.

Ao invés de posicionar-se como um louco gritando para as nuvens, ele trouxe pessoas para sua história e garantiu o apelo necessário à rixa contra o Spider.

Com uma visão além do alcance, o norte-americano não dava ponto sem nó e entendia, como poucos, a importância das narrativas bem construídas e trabalhadas para que o MMA tivesse impacto cultural e, consequentemente, oferecesse retorno – simbólico, esportivo e, claro, financeiro.

No que diz respeito a esse papel, Sonnen continuará desempenhando-o do lado de fora do octógono.

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MMs: vitória sobre Paulo Filho no WEC

No UFC Tonight, direcionando os fluxos discursivos e até mesmo colocando mais lenha na fogueira, o agora ex-lutador deve oferecer o suporte necessário à comunicação do Ultimate.

Além disso, mesmo com seu futuro garantido na TV, não podemos duvidar que a direção tenha algum cargo em mente para Chael, que já deixou o terreno assentado recentemente ao se declarar um “Soldado de Dana White” – quando questionado sobre suceder o careca no comando do Ultimate.

Bônus

Conforme observado nas participações no TUF 17 e também no TUF Brasil 3, Sonnen também apresenta boas qualidades para funções técnica – algo também muito comentado pelos participantes do reality show, até mesmo do time de Wanderlei Silva.

Caso se mantenha apenas esporadicamente na TV ou não venha a se tornar um engravatado do UFC, não me surpreenderia ver Chael como head coach de um time de atletas.

Poderia pintar aí uma versão wrestler de Duane Bang Ludwig?

  • heitor

    só não lutava nada, no resto mitou!

  • Renan Trigueiro

    Curti a reflexão Lucas. Goste dele ou não, o Sonnen fará muiitaa falta $$$

  • Renato Rebelo

    Bad times don’t last, but BAD GUYS do!

  • Bruno Rangel

    Acho que o Chael daria um puta técnico sim. Só queria ver ele contra o Beberlei antes de se aposentar. Foi um puta balde de agua fria, mas regra é regra

  • Lucas Silva

    Fará muita falta!
    Mas e aquela velha dúvida: será que aposenta de vez mesmo?
    Tantos outros foram e voltaram, por que ele não faria o mesmo?

    • Lucas Pereira Carrano

      Olha xará, a gente pode até ser surpreendido em uma reviravolta completamente absurda nesta história, mas acho improvável (pra não dizer impossível) que o Sonnen volte a lutar MMA profissionalmente. As circunstâncias do gângster são bem diferentes de muitos que voltaram atrás em suas aposentadorias.

      Abraço

  • Tiago Nicolau de Melo

    quem viu ele no TUF contra o Bones já sabia que o Chael é o cara + legal do UFC. Bom-humor, sarcasmo, inteligência… bom lutador? Qtos bons aí nunca vão lutar pela cinta? Ele lutou 3x só no UFC. Vai fazer falta, mesmo com lutas chatinhas de se ver.

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