Sobre doping no MMA e a aposentadoria de Sonnen

Renato Rebelo | 14/06/2014 às 13:28

Certa vez, um velho lobo do vale-tudo – que serviu de mentor para muita gente que ainda brilha por aí- me disse a seguinte frase:

Se você conhece algum lutador de elite que jamais, em toda sua vida, fez uso de pelo menos uma substância considerada proibida para a prática esportiva, por favor, me apresente, pois eu não o conheço.

Essa mesma pessoa me explicou, usando o simples conceito e oferta e demanda, como o doping está a anos luz à frente do antidoping.

Entendamos o seguinte: passar em exames propostos por comissões atlética e órgãos similares não quer dizer – nem de longe- que fulano está limpo.

Na real, o teste de urina aplicado no MMA é conhecido nos bastidores como “pega trouxa” – uma vez que ele não explana uma bela gama de substâncias (como o propagadíssimo hormônio do crescimento – GH-, por exemplo) facilmente identificadas em exames sanguíneos mais complexos.

FACE 05.53.25

Wand-Sonnen-Belfort: a trifeta que nunca acontecerá

Mas, Renato, por que, então, não aplica-se testes fuderosos em todo mundo, sempre?

Porque, caros amigos, como dizia Milton Friedman, prêmio Nobel de economia, “não existe almoço grátis”.

As Comissões Atléticas nos Estados Unidos são bancadas pelo dinheiro do contribuinte e lá gastos públicos são levados a sério.

Ninguém em sã consciência pagaria mais impostos ou remanejaria grana da saúde, por exemplo, para dignificar o MMA.

Para o UFC a prática também é economicamente inviável.

Peguemos o caso de Jon Jones x Glover Teixeira.

A pedido do campeão dos meio-pesados, foram realizados (em ambos) testes de sangue e urina pagos pelo Ultimate durante toda a preparação para o UFC 172.

E a conta enviada pelo laboratório particular machucou: 44 mil dólares!

Não precisa ser nenhum gênio financeiro para entender que, a esse preço, a empresa iria à falência testando seus 500 funcionários de duas a três vezes por ano.

Portanto, para diminuir um pouco o oba-oba, as comissões passaram a apostar cada vez mais em testes surpresas – que continuam sendo burláveis, porém, evitam a famosa prática do “ciclo” de algumas substâncias mais comuns.

Antes de prosseguirmos, quero deixar algo claro: longe de mim afirmar que grande parcela dos astros do esporte se dopam – até por que não tenho provas para tal.

Mas também sei que a situação está longe de ser esse mundo cor de rosa pintado oficialmente por oficiais, donos de eventos, atletas e preparadores físicos.

O TRT de Belfort rendeu ou não boas manchetes?

O TRT de Belfort rendeu ou não boas manchetes?

E sabem quem são os grandes culpados por todo esse abuso?

Isso mesmo: nós, fãs!

Aclamamos por performance (velocidade, força, nocautes e finalizações), fazemos a caveira daqueles que morrem no gás – ou nos entregam lutas entediantes…

Zuar o calvário dos que foram pegos no flagra também pode ser até bem divertido, não?

O caso do TRT, no meio de toda essa lama, é ainda mais espinhoso.

Por mais desigual e controversa que fosse, a prática era legal há poucos meses.

Papo reto: proibi-la da noite pro dia para, na sequência, testar de forma surpresa o punhado de caras que faziam uso é uma caça às bruxas das mais cruéis.

Afinal, sistema endocrinológico não é ioiô e, obviamente, os indivíduos que se beneficiaram da brecha criada pelo próprio sistema acabariam engolidos por ele (o Leviatã, de Thomas Hobbes).

Não dá pra simplesmente sair do TRT e estar pronto para competir. Não é um processo tão simples quanto as pessoas acham. Medicamente, é uma expectativa ambiciosa demais – disse Kenny Florian.

Vitor Belfort, Chael Sonnen, Frank Mir, Quinton Jackson, Antônio Pezão entre outros, precisavam da manobra exatamente por terem produção natural de testosterona insatisfatória – ou até nula, em alguns casos.

Sem um período de adaptação à nova realidade (incluindo o uso de substância proibidas para atletas profissionais – não ilegais para civis) esses senhores não só estariam inaptos a competir no octógono como, inclusive, teriam sérios problemas eréteis.

É claro que existem diferenças entre os casos de Wanderlei Silva, Sonnen e Belfort.

Wand (por não conseguir ler em inglês ou por pura precaução) negou-se a fazer exame antidoping surpresa pouco antes do UFC 175.

Já o Fenômeno, quando a prática da TRT ainda era legal, foi flagrado com taxas hormonais acima do permitido.

Obs: a terapia foi banida e sua luta com Chris Weidman em maio caiu, portanto, esse resultado não veio à público até o próprio divulgá-lo na internet – pressionado por declarações do comentarista Joe Rogan, diga-se de passagem.

maxresdefaultSonnen, por sua vez, foi pego no que chamamos de “terapia pós-ciclo”.

Foram encontradas em seu sistema substâncias para induzir o corpo a produzir testosterona.

São elas: clomifeno e anastrozol – antiestrogênicos banidos pela WADA (Agência Mundial Antidoping), tanto em períodos de competição quanto “off season”.

Os componentes químicos, também presentes na lista negra da USADA (quinta página, pra ser mais preciso), podem não ser “melhoradores de performance” em si, mas têm o poder de mascarar e até maximizar (o efeito de) outros anabolizantes.

Ou seja, é difícil acreditar que um macaco velho de 37 anos, com dezenas de guerras no currículo e passado maculado por problemas com doping, foi ingênuo a ponto de sair aplicando (ou ingerindo) qualquer coisa sem comunicar a NSAC.

Eles mudaram as regras em Nevada. Baniram o TRT e eu fazia uso disso. Então, quando eles mudaram a regra, todos tínhamos que passar por uma fase de transição. Pra minha transição, tive que tomar algumas coisas: uma se chama clomifeno a outra se chama HCG. Foi o que eu tomei. Fiquei fora nesse meio tempo, não lutei, não pedi uma licença. Você tem que cruzar a ponte e, nesse meio tempo, me testaram. Não foi uma surpresa, essas substâncias estavam no meu sistema porque as botei lá. Eu estava fora de competição, não apareci assim no dia do jogo. Eu estava com problemas de fertilidade e precisava tomar essas substâncias. Se tiver que escolher entre a minha saúde e o esporte, vou escolher sempre a minha saúde. Escolho ser pai – inclusive, minha esposa está grávida- toda vez.

De qualquer forma, pra quem acompanhou de perto, a pataquada de Sonnen – cujo carisma amolece os menos turrões- parece ter sido a mais suave do trio.

Vejo dois fatores influenciando diretamente essa conclusão:

1- Horas depois da bomba estourar, Sonnen já havia dado seu testemunho a Ariel Helwani (MMA Fighting), Kevin Iole (Yahoo) e botado a cara do programa “America’s Pregame” da Fox Sports americana, enquanto Belfa e Wand fecharam-se numa concha e demoraram dias para dar suas versões

2- A forma como o patrão, Dana White, carregou a situação. Com Wand ele lavou as mãos e botou a tudo na conta da NSAC, no caso de Belfort, calou-se e com Sonnen, no mesmo dia, houve uma defesa parcial:

O TRT era legal, mas a Comissão Atlética de Nevada proibiu. Ninguém está em TRT. Foi legal, agora é proibido. Dois dos nossos grandes astros ainda estão lidando com os efeitos da ausência da terapia: Sonnen e Belfort. O TRT tem sido ruim desde o primeiro dia. Queria que a comissão jamais tivesse deixado ninguém usar. Ambas as partes estão erradas. A comissão poderia ter se colocado melhor, e Chael deveria ter chamado a comissão para esclarecer suas necessidades.

En passant: e a culpa do próprio UFC, que trouxe Belfort e Sonnen de volta ao circuito poucos meses depois da proibição?

Ninguém pensou nisso. Não tínhamos um plano para os caras que estavam saindo do TRT – disse o careca a Kevin Iole.

Enfim, ao contrário da maioria que acredita num plano orquestrado para favorecer atletas americanos, vejo essa distinção se resumindo a uma única palavra: empatia.

Sempre bato aqui na tecla de que o ser humano não é parcial.

Enquanto Dana não curte o jeitão de Belfort (ele não é o único), Sonnen é seu garoto – cogitado até para substituí-lo na presidência da empresa.

Vejam outro caso completamente fora de contexto que reforça minha tese:

Se o Tyron Woodley me mandar outra mensagem hoje, será a 15ª do dia. E, pra falar a verdade, eu adoro trabalhar com caras famintos assim, que demonstram o quanto querem.

E:

O Vitor me deixa maluco. Toda hora quer lutar com um adversário diferente e explode meu telefone ao fim de cada evento. O Lorenzo consegue lidar com ele, eu não.

Em suma, o cenário é o mais hostil possível (desesperador, eu diria) para veteranos com problemas hormonais.

A alternativa mais digna – a omitir, criar falsos testemunhos, não assumir responsabilidades individuais, ver a própria performance minguar, etc, etc – me parece ser a apontada por Renato Babalu em entrevista a esse humilde site:

Não tem testosterona? Faz que nem eu: aposenta e viva uma vida de pessoa norma!

E foi exatamente essa a escolha de Chael Sonnen – que, aos 37 anos, não quis mais se esconder atrás de álibis, nem enfrentar outra suspensão.

Esses caras que usaram testosterona e outros esteroides não conseguem competir limpos. Tiro meu chapéu pro Chael Sonnen por se aposentar – analisou Tim Kennedy.

Abraços.

  • Negreiros

    MMA é 1 esporte ou 2 entretenimento? se a resposta foi 1 sou contra, se a resposta for 2 sou a favor da liberação total. Ok tenho uma opinião muito controversa e polêmica, mas vamos tentar entender o que penso:
    De forma natural podemos estar no limite das ações e performances. Alguém aqui sabe de quando é o recorde dos 100m rasos feminino?? tem 26 anos e ainda nao foi quebrado, a justificativa mais comum que especialistas que possivelmente Florence Griffith-Joyner, que tenha usado do expediente do dopping “ao morrer de causas ainda não explicadas aos 38 anos, ela deixou mais dúvidas do que certezas sobre sua misteriosa passagem pelo mundo do esporte. Sobre ela pesam suspeitas fortes de que tenha recorrido ao uso de drogas proibidas para aumentar seu desempenho” e ela abandonou o esporte justamente quando foi instituído os testes surpresas, antes tds sabias as datas.. Mas enfim, vamos a parte boa..
    “Pesquisas conduzidas por Mark Denny, professor da Universidade Stanford, nos Estados Unidos, e publicadas no final de novembro de 2008 no Journal of Experimental Biology analisaram a evolução histórica e os limites para o desempenho atlético humano.
    A partir da análise dos dados obtidos, foi também previsto quando essas marcas humanas seriam alcançadas.
    Segundo essa investigação, os limites humanos não estão distantes. Nos 100 metros rasos, por exemplo, Denny estima que o limite humano máximo esteja próximo de 9s48, 10 centésimos de segundo abaixo dos 9s58 cravados por Bolt em Berlim.
    Entre as mulheres, o recorde atual dos 100 metros rasos (10s49) se mantém há mais de 20 anos e pertence à norte-americana Florence Griffith-Joyner. Denny supõe que o limite máximo para essa prova seja de aproximadamente 10s19.”

    blá blá blá..
    ou seja se queremos coisas novas, performances melhores, novos recursos ( ou até a evolução da espécie) deverão ser usados, e o dopping para mim é um retrato colorido da genialidade humana e isso que nos torna tão especiais, a 500 anos atrás Galileu admirava as estrelas a distancia, hj já enviamos equipamentos para fora do sistema solar…em 50 anos Eua saiu de uma guerra civil para se tornar a maior potência industrial..entre tantos exemplos..E em mais um Golpe de mestre a humanidade descobriu uma fórmula de driblar as suas limitações naturais..não usar, parece um retrocesso, deixando de lado questões morais simplórias, o assunto deve ser melhor discutido…
    Mas claro muito pano para manga dos 2 lados..
    Abraços….

    • Gabriel Castelani

      Qual é o preco disso amigo? Olhe ao seu redor e veja se estamos em evolucao? Eu acho que nao! Como ser fan de um atleta que se dopa? Como admirar uma pessoa que esta se matando por fama e vaidade? É uma vida que esta em jogo! E se consumimos, financiamos tudo isso!

      • Negreiros

        Lógico que sim, a lei natural das coisas, queria eu ou vc q não a pílula da evolução nos é oferecida todos os dias. O preço é como tudo na vida. como ensina a engenharia dos nossos antepassados, tentativa e erro, melhorias e novas escolhas..Da mesma forma q a 2 mil anos atras consumíamos e financiavamos os gladiadores em roma, fazemos isso hj e sempre vamos querer mais e melhor, portanto lutar contra doping no meu humilde ponto de vista é lutar contra genialidade humana, barra o nosso ideal de “além do impossível”. Mas enfim só o tempo irá dizer…

        • Gabriel Castelani

          Negreiros eu entendi o seu raciocionio, e o respeito! Porém acho que enxergamos a “evolucao” de maneira diferente! Nao esqueca que quando falamos de esporte, associamos a algo saudavel! Obvio que os esporte de alto rendimento, hoje, é o contrario da definicao!E é aí onde encaixa o meu ponto de vista! Evolucao? de que? Ainda mais um esporte idealizado na arte macial, onde o respeito, diciplina, saude fisica/mental sao os pilares fundamentais!

    • Ademir da Costa

      Negreiros começou a fazer uma explanação tão bonita até o momento em que sou atingido por um coice nos bagos à 300 km/hora. “Doping é um retrato colorido da genialidade humana” segundo negreiros, caramba, não divulgaram nem o laudo da autópsia da Florence, porque se fizessem isso ela iria perder a medalha olímpica… Lembra do Ben Johnson, depois que ele perdeu a medalha para Carl Lewis e se afundou na depressão, anos mais tarde Lewis declara que também estava dopado, assim como todos os outros atletas naquele dia…

  • Gabriel Castelani

    Exatamente Renato, temos culpa no cartorio! Se o esporte nao é justo porque passamos horas comentando e admirando falsos campeoes? Muitos dos envolvidos nessa sujeira toda enchiam meu coracao de orgulho, na vitoria ou na derrota! Ah quantos amigos nao apresentei Wanderlei Silva, Belfort? Foi muita engenuidade a minha! Olha, isso é um prato muito dificil de ser digerido, as noticias dessas ultimas semanas sao desmotivante demais para os fans de MMA! Talvez o banimento desses atletas ou um controle efetivo do Doping me faria enxergar o esporte como antes, mais acho praticamente impossivel isso acontecer! A hipocresia de Wand, Belfort, Sonnen e compania, me revira o estomago! Ta complicado demais…o futebol já nao me desperta a mesma motivacao dos meus 14 anos, ainda mais depois desse ultimo campeonato brasileiro e com essa Copa pesonhenta para nosso país! A F1….puffff….jogo de equipe….espionagem, episodio Piquet, pilotos sendo selecionados pelo patrocinios que levam, brasileiros abrindo as pernas!!! O negocio é apagar a TV e fazer amor com a minha mulher, tocar meu violao, dar uma volta no parque com minhas cachorras, uma breja com os amigos! Tudo isso vai vir primeiro desde já!

  • Simei

    Venho acompanhando o Sexto Round há alguns meses apenas como leitor, primeiramente os meus parabéns aos autores pelos textos sempre brilhantes. Quanto ao assunto abordado acima, penso que se o Belfort não seguir o exemplo do Sonnen e se aposentar, seremos brindados com episódios vexatórios em suas lutas futuras. O Rockhold que o diga, está doido para devolver aquele nocaute…

  • lmcosta

    Simplesmente concordo… O Chael foi o mais corajoso de todos eles, mas será que o fato de ja ter uma carreira garantida em outros trabalhos não ajudou nisso ? Enfim… Bom texto.

  • Marcelo Siedler

    Só para variar excelente texto. Era muito rápido para eles estarem voltando a ativa.
    Penso que MMA é esporte E entretenimento e torço para que a corda aperte cada vez mais. Quero assistir lutadores que treinam, evoluem e consigam superar as adversidades. O grande problema do UFC é que os seus grandes astros estão caindo rápido demais. GSP, AS, Vitor BElfort, o Sonnen que vende muito tb e por outro lado a gurizada que está surgindo está tropeçando nos veteranos que ainda estão no circuito. Teremos uma fase de transição por aí que não será das mais animadas

  • Luiz Guilherme

    Perfeito e muito explicativo o texto Renato!!realmente quem fazia TRT vai sofrer pra continuar com a carreira. Só vê como o hendo tava seco (pesou 90kg) nesta uitima luta.

  • Dan Mendes

    Excelente texto, Renatão!

    • Renato Rebelo

      Obrigado, mano velho!

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