Wand-Sonnen-Belfort: a trifeta que não aconteceu

Lucas Carrano | 11/06/2014 às 00:37
Mandalay Bay: o palco

Mandalay Bay: o palco

Parado em seu córner octógono, ele ouve Sandstorm, do DJ finlandês Darude. Já a ouvira diversas vezes, mas jamais em tal circunstância.

Vislumbrara diversas vezes como seria este momento, mas agora que ele é real, as coisas são um pouco diferentes.

A tensão se dissipou. Em seu âmago, existe uma calmaria tão surpreendente quanto intensa.

“Menos mal. Pelo menos não precisarei interpretar aqui dentro, com as grades fechadas”.

Repetia isso quase como um mantra, em meio às memórias dos últimos meses, em que se mostrou tão humano e ao mesmo tempo teve que vestir a fantasia de gângster tantas vezes.

“Concentração, seus córners estão falando alguma coisa e você tem que ouví-los. Além do mais, ele já deve estar quase passando pela porta do cage”.

Enquanto saía do transe, percebeu que Bruce Buffer já anunciava seu nome. Havia se distraído por tempo demais.

Fitou o oponente do lado oposto do octógono.

“Como esse cara já está aí e eu sequer percebi? Esqueça, não é hora de atuar, é hora de ser um bad guy”.

wanderlei-e-chal-sonnenApós ouvir seu nome bradado a plenos pulmões, caminha um passo a frente e saúda o público presente.

“Eu achava que você não apareceria”, pensou enquanto voltava para sua posição inicial.

“Eu usava isso para provocar, mas eu realme…”. Soa o gongo!

Após, obviamente, não se cumprimentarem, os instantes iniciais do confronto são de estudo.

“Interessante. Ele não veio pra cima com tudo. O que você está pensando? O que você está pensando? Vamos, vamos… Dê-me uma pista”.

“Esse olhar! Eu o conheço. Você me olhou assim no dia em que… Não acredito! Eu simplesmente não acredito que você vai avançar e tentar me acertar um cruzado como fez naquela gravação”.

Consciente do que lhe espera, as coisas parecem se mover em câmera lenta.

Enquanto aquele braço vem rasgando o ar, já começa a se abaixar e agarra o adversário.

Já fizera isso uma vez. Mas sem a calça jeans e os chinelos Havaianas tudo parece mais fácil.

Com três minutos restantes no relógio, ele trava as tentativas de escape do rival, bate um pouco e trabalha a posição.

“Meses depois, cá estamos nós. Da mesma forma. Dessa vez é oficial e não haverá interferência”.

Uma mão toca suas costas. “Mas que diabos!?”. O juiz interrompe e volta a luta em pé.

“Há quanto tempo eu estou aqui?”. Olha o relógio.

Restam 35 segundos para o fim da primeira parcial. “Não é possível”.

Alguns golpes na guarda e já não há mais tempo pra nada. Fim de round.

wand-sonnenO intervalo voa. Quando cai em si já é a terceira vez que recebe aquela sequência que se encerra com um cruzado de direita.

“Agora ele está batendo e saindo. Gire pra esquerda mais uma vez e eu te pego, maldito!”.

Ele girou. O avanço foi instintivo. Ele negou a queda.

“Como isso é possível? Será que aquele encontro com o Cael Sanderson foi além da pose para a foto? Não, não, não… Nada de divagações, essa é a sua praia”.

Na segunda investida, sucesso!

O adversário é conduzido à grade. Algumas joelhadas no clinch. Ele devolve. “É melhor levar pro chão”.

Por cima, a confiança transborda. “Calma, você já manteve Anderson Silva neste posição. Trabalhe com inteligência”.

Mais uma vez, o tempo urge. Novamente o juiz chega. Mais um assalto encerrado.

wanderlei-silva-provoca-chael-sonnen-durante-a-gravacao-do-tuf-brasil-3-1396011225509_956x500“Droga! De novo? O primeiro round foi meu, com certeza. Mas e esse? Se pelo menos eu soubesse quanto tempo se passou antes que eu finalmente conseguisse levar pro chão…”

Caminhando para seu córner, ele ouve ao fundo: “Acabou a brincadeira! Entendeu? Agora é porrada! É PORRADA!”. Continua seu caminho.

“Acho que já ouvi essas palavras, faço uma vaga ideia do que significam”.

O gelo sai da nuca, os pés tocam o solo novamente. Alguém retira o banco no qual está sentado. É hora da parcial decisiva.

Agora sim o adversário vem com tudo. Uma mão aqui, outra ali.

“O cara está me tocando, preciso revidar”.

Ele acerta um chute baixo, mas o troco vem implacável.

“Ok, não entre no jogo dele. É você quem traz os outros para os seus termos, não seja tão estúpido e trate de não cair nessa armadilha”.

O oponente exita, ele se aproveita e a dupla está na grade novamente.

Chael Sonnen and Wanderlei Silva“Espero que seja a última vez. Controle até o fim e a luta é sua”.

O adversário tenta esgrimar inutilmente. Acaba no chão e castigado no ground and pound.

Tudo vai bem. O tempo é seu maior aliado. Até que…

“Como é possível. Ele está se levantando? Não o deixe usar a grade, impeça-o. Faça alguma coisa!”. Em vão. Ali está novamente frente a frente com seu nêmesis, em pé.

O rival avança bufando, a girar os braços desordenadamente.

Ele acerta um golpe de encontro. O adversário sente, chega a dobrar um pouco os joelhos, mas não para. Segue avançando. Está em frenesi.

Enquanto contempla aquele rosto ensaguentado se aproximando, fecha a guarda.

Um soco passa. Dois. No terceiro, ele acusa o golpe. “Apenas resista, apenas resista…”. As ideias já começam a confundir.

“Quanto tempo até o final? Essa vitória é minha, só não posso ceder agora!”.

Uma sirene toca ao fundo. Tudo está escuro.

“Eu perdi?”. Nada acontece. “Eu consegui? Suportei e ganhei?”. O suor escorre pela testa.

“Onde estou?”. Ele olha ao redor.

“Aqui não é o Brasil”. Estivera no país por um bom tempo.

O barulho fica mais intenso. A mente se organiza. “Claro! Portland… E meu celular está tocando”.

Do outro lado da linha, alguém do UFC avisa.

Wanderlei Silva fugiu de um exame antidoping e está fora da luta em julho, você agora vai enfrentar Vitor Belfort”.

Montagem: Combate.com

Montagem: Combate.com

A pessoa segue falando, mas sua mente voa.

“O Wanderlei realmente não vai fazer essa luta! Eu não acredito. As coisas acabaram saindo muito melhores do que a encomenda”.

Enquanto continua na linha sem dar a devida atenção, segue seu caminho para a academia.

Está atrasado. “Você é um homem de sorte, seu pequeno bastardo”.

A ligação termina. “Devia ter ouvido melhor o que me falaram. Ah, dane-se, depois converso isso direto com o Dana”.

Passa uma mensagem de texto para a mãe contando as novidades.

Ela responde: “Para quem devo torcer?”. Ele ri.

Enfrentar justamente um dos maiores ídolos de sua genitora é uma daquelas grandes coincidências da vida.

Ele entra na academia.

A cabeça já está totalmente voltada para Vitor Belfort. Suas falas para o UFC Tonight já estão mentalmente decoradas.

“Nem nos meus melhores sonhos as coisas terminariam assim. Eu sou o grande vencedor desta história”.

“Não duvido que essa luta contra o Belfort possa me render um novo title shot. Por essa nem eu esperava. Pela quarta vez…”.

Deixa a mochila no armário. Começa a trocar de roupa.

“5 de julho. Você segue como main event. As disputas de cinturão não passam de um bis”.

A campainha toca. Ele atende a porta.

“Senhor Chael P. Sonnen? Somos da Comissão Atlética do Estado de Nevada e viemos realizar um teste antidoping, como parte do programa de exames-surpresa.”.

Tudo congela. “O quê?! Não é possível”.

Já ciente do que o espera, ele acompanha os homens até o interior das instalações da academia.

No rosto, um sorriso amarelo que só o nervosismo é capaz de estampar em um homem.

“Você esteve tão perto… Tão perto…”.

  • João Motta

    PUTA QUE PARIUUUUUUUUUUU.

    O blog só tem texto bom… Mas dessa vez o Lucas passou a linha do excelente.
    Deu pra sentir o que o Sonnen passou.
    Carrano, parabens!!!

  • Leo Ferreira

    Acho que Chael deve anunciar uma aposentadoria em breve, ele sabe que depois dessa, ele não tem praticamente chance nenhuma de chegar a um title shot e a falta do TRT vai ser cruel demais pra ele. Achei uma merda por causa do Belfa, seria uma luta boa pra ele, e agora o que resta? Jacaré? Ou podia puxar o Tim Kennedy né, Belfort precisa lutar nesse evento pra não ficar distante da cinta…

    • Yuri

      Existe uma grande chance do Belfort ser punido também, e inclusive é o que eu acho que vai acontecer.

      • Leo Ferreira

        Ele já teria sido punido se fosse o caso.

        • Yuri

          O pedido de licença dele será julgado dia 17 desse mês. Pelo que entendi o que não vai sair é a licença para o Sonnen lutar, uma eventual punição será decidida apenas após o julgamento. Mesmo caso do Vitor.

  • Marcelo Siedler

    O uso de TRT pelotas atletas era um auxilio fundamental e era para “nivelar”os níveis de testosterona dos atletas. Me surpreende MUITO dois ex-usuários recentes de TRT estarem com luta marcada. Esse processo deve ser bem DIFÍCIL, senão o TRT não teria a relevância que tem para os atletas. O que não entendo é como eles já se prontificaram tão rápido a lutar, tanto o Sonnen quanto o Vitor

  • Sensacional, Lucas.
    Como ilustrador, minhas mãos tremem para tentar me convencer a ilustrar tudo isso.

  • Danyel P Lorenzo

    E como em um passe de mágicas todo mundo virou fisiologista, renomados médicos que entendem tudo de hormônios, TRT e outras drogas. Quem pratica qualquer esporte de competição entende a linha muito, mas muito tênue entre “doping” e a trapaça. Como disse o Marcelo Alonso: O corpo dos atletas não é uma máquina onde vc muda as regras de mês em mês como se apertasse um botão. Toda essa confusão é culpa da NSAC.

    Mas…sobre o texto, muito bom mesmo. Daria uma boa ilustração, tem gente se candidatando p tal nos comentários.
    Abs

  • FELIPE RAFAEL MATTIOLI

    KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK MUITO BOM!!!!!

  • Kaue Macedo

    Ótimo texto.

  • Fabricio Alves

    Damn it

  • Gabriel Guimarães Calefi

    Sensacional seu texto!!! demais!! demais!! Me prendeu do início ao fim…. agora a pergunta é: “E o Belfort?”

  • Eduardo Diogo

    Simplesmente não gostei desse texto.

    • Marcus Vinícius

      Também odiei! Dei nota 9. 😀

  • Caio Abreu

    texto show de bola parabéns pra galera do blog.

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