No UFC, a incompetência dos jurados virou atração

Felipe Paranhos | 10/06/2014 às 00:20
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Opiniões dos principais jornalistas americanos

Há esportes em que a incompetência é atração.

O futebol é um deles, com suas longas discussões e aquela gritaria sobre aquele impedimento de 2 cm que nenhum olho humano seria capaz de notar, mas que o replay esclarece e envaidece o comentarista dentro do ar condicionado.

O MMA não tem bola rolando, não tem 90 minutos de ação intensa, mas parece estar cada vez mais próximo do que há de pior no futebol.

Que o diga Diego Sanchez, que deveria ter vergonha de ter sido declarado vencedor da luta contra Ross Pearson no UFC Fight Night 42, no sábado passado.

Somos condescendentes com juízes e árbitros centrais de MMA.

Ora, você pode me dizer que o futebol é tão legal EXATAMENTE por conta desses erros, mas eu me recuso a acreditar que um torneio tão espetacular como a Copa do Mundo deixaria de ser incrível se o juiz pudesse identificar quando a bola entrou, se os árbitros pudessem evitar que seus olhos prejudicassem um grande time.

E o mesmo vale para o MMA: esse esporte é tão imprevisível e sensacional, com reviravoltas rápidas e lutadores com uma infinidade de recursos, que chega a ser ridículo que consideremos a incompetência dos juízes algo inerente ao esporte.

Graves erros de juízes são tão comuns no MMA que uma velha máxima deixou de ser divertida.

“Não deixe a luta nas mãos dos juízes” não é mais um incentivo para que atletas busquem nocautes ou finalizações, é um grito desesperado pra que os lutadores não deixem que a cartelinha de pontuação arruine completamente sua carreira.

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Pré-knockdown

Imaginemos o tamanho da decepção de Pearson.

Ser melhor em cada um dos rounds, acertar mais golpes, atingir mais a cabeça do adversário, bater mais no corpo, conseguir a única queda da luta, o único knockdown, controlar mais o octógono e, ainda assim, perder.

Vai ver pular feito um idiota, chamar o adversário toda vez que apanha e ligar o ventilador sempre que faltarem 10 segundos pro fim da luta são os novos critérios de avaliação do esporte.

Sério, foi um crime o que fizeram em Albuquerque.

E Sanchez sabia que poderia ser beneficiado deste crime.

Seu jeito elétrico tinha, naquela noite, o incentivo de 120 convidados dele e de mais milhares de conterrâneos — uma vez que Diego é nascido na terra da Jackson’s MMA.

A cada presepada, a torcida vibrava e, por incrível que pareça, influenciava os juízes laterais.

Um deles, o glorioso Jeff Collins, conseguiu dar o segundo round a Sanchez, mesmo depois de o descendente de mexicanos ter sofrido um knockdown.

E aí vale uma lamentável explicação: este foi o round em que Diego tentou mais golpes (51), embora tenha acertado menos em números absolutos (13 a 17) e proporcionais (25% a 41%).

Portanto, fica a lição: ser “ativo”, mesmo que suas ações sejam sem efetividade alguma, muitas vezes vale a pena.

Diego tem 2-3 nas últimas cinco lutas, mas deveria ter 0-5.

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Inacreditável…

Já Pearson, que, ao longo de sua passagem do UFC, tem perdido para adversários de maior nível, deveria estar hoje comemorando sua primeira sequência de quatro combates sem derrota no Ultimate.

Mas não: decadente e folclórico, Sanchez vai ser mais uma vez alçado a uma luta em que será aniquilado — como aconteceu diante de
Gilbert Melendez —, enquanto Ross, com o boxe cada vez mais preciso, vai ser relegado ao card preliminar contra um adversário da rabeira dos leves.

Não custa lembrar que o assalto ao inglês aconteceu no mesmo evento em que Brian Caraway fez um fish-hooking em Erik Perez antes de encaixar uma finalização.

O namorado de Miesha Tate ganhou a luta usando de um expediente evitado até nos primórdios do UFC e não ouviu sequer uma advertência.

Se for pra achar esses erros “parte do esporte”, é melhor ver futebol.

  • Mark Sgarbi

    Muito bom o texto, bem explicado e concordo. Hoje assistindo o programa semanal do Ariel ele acabou explicando uns motivos para o ocorrido, a comissão atlética do Novo México é uma comissão pequena, com pouca experiencia, que se deixou levar pelo calor da galera, também vale citar o caso do Moraga que foi tirado da luta quando tinha condições de lutar e ele estava lutando contra outro atleta local.
    O UFC como a nata do esporte não deveria deixar essas coisas acontecerem, deveria fiscalizar a comissão e impor que bom juízes fossem escalados, o Juiz mais experiente foi o único que marcou a luta corretamente.

    • Leonardo Simões

      Não acreditei quando vi que um jurado deu 30-27 pro SANCHEZ!

  • Malk Suruhito

    O texto é bom, mas seria bom frisar que o erro não são dos juizes do UFC e sim das comissões atléticas e que os mesmos se repetem nos outros eventos de MMA, só que estes, sem holofotes, não saltam aos olhos como no UFC.

    • Fernando Chaves

      Pertinente.

    • Felipe Paranhos

      Ué, mas eu falei que isso acontece no MMA, não só no UFC. Mas tem um negócio aí: isso de “ah, são as Comissões Atléticas” é muito confortável pra uma organização do tamanho do Ultimate, que conseguiria facilmente pressionar algumas Comissões a melhorar seus treinamentos se efetivamente desejasse fazer isso.

      • Malk Suruhito

        E quando foi que o Dana White deixou de pressionar a Comissão? Não só esculhamba as comissões como já pagou prêmio integral a vários atletas que ele achou que o ter sido injustiçado. A única que eu recordo de ter revisto um resultado, se não me engano num UFC Austrália.
        Quem não recorda de tudo que ele falou aos quatro cantos na última vitória do GSP (que nem de perto foi o que aconteceu com o Pearson)?
        E sim, você falou que “acontece no MMA”, mas o título é “No UFC…”, o que dá margem para cada vez que ocorre uma cagada como ocorreu com o Pearson e também com o Rony Jason, surja um monte de incautos dizendo que “os juízes do UFC são todos ladrões, comprados, etc”.
        Faça o cruzamento do histórico das cagadas dos árbritos X Reação posterior do UFC X Ações tomadas pelas Comissões Atléticas.

        • Felipe Paranhos

          Cara, o que o Dana fala não se escreve. Pra mim, pressionar não é dizer meia dúzia de palavras na mídia xingando a comissão. É sentar e discutir o que deve ser feito, propor ajudar, sugerir mudanças e diminuir as diferenças. E no título diz “No UFC” porque lá a incompetência virou atração, ué. Mas o resto do texto fala de despreparo dos juízes de MMA, usando como exemplo a luta do Sanchez. Não vejo mal-entendido no texto. E pô, cara, se a pessoa lê meu texto e depreende que os juízes do UFC são ladrões e comprados, não vai ser um texto meu que vai tirar o sujeito da ignorância, né? É caso perdido.

  • Thais

    No futebol juízes são afastados e/ou punidos por incompetência e erros grotescos. Fica a minha dúvida: acontece isso no MMA? Nunca ouvi falar, mas seria uma boa para coibir tantos erros toscos.

    • Felipe Paranhos

      Não me lembro de isso ter acontecido, Thais — ao menos não recentemente. Se alguém lembrar de um caso desses, é só falar aqui. Abraço!

      • Vitor Torre De Avila

        Consigo lembrar apenas o caso da bandeirinha de SC que foi afastada para reciclagem, mas, pra mim, isso mostra apenas machismo,pq já vi marmanjos fazendo coisa muito pior e ficando por isso mesmo

        • Bane MMA

          vitor, voce consegue lembrar apenas desse caso, mas basta dar uma procurada aí rapidinho pela internet e você verá a quantidade de homens que já foram punidos. A bandeirinha de SC foi um caso de muita repercussao pelo fato de que ela ficou muito exposta na mídia por conta de sua beleza, como aconteceu com a ex bandeirinha Ana Paula. Esse papo de preconceito não cola. Ela errou e mereceu a punição mesmo.

        • Malk Suruhito

          Apenas Machismo? Acredito que não conheceu Jorge José Emiliano dos Santos, vulgo “Margarida”, que foi um arbitro famoso no futebol profissional carioca nos anos 90, apitando inclusive vários clássicos. Nem preciso dizer qual a origem do apelido, certo?

          • Felipe Paranhos

            Concordo que a repercussão foi exagerada e se apoiou no pensamento machista das pessoas. Não à toa, um dirigente do Cruzeiro falou, na ocasião, que ela deveria posar na Playboy, não bandeirar. Homens destroem jogos todos os dias e não ouvem esse tipo de declaração escrota. Ela merecia ter sido punida, sobretudo por ser reincidente (havia cometido um erro bizarro na semana anterior), mas o detalhe é que são muito poucos os homens árbitros e bandeirinhas que são punidos como ela foi. Ela mereceu, mas muitos caras também merecem e não sofrem qualquer sanção. E isso se explica, sim, pelo machismo. Abraço, pessoal!

  • Pedro Duarte

    Se fosse no Brasil…

    • Felipe Paranhos

      Seria até menos falado. Até porque, no Brasil, os lutadores brasileiros muitas vezes são beneficiados (Jason-Peralta é exceção). No UFC 153, um juiz deu 30-27 pro Cristiano Marcello numa luta em que ele perdeu claramente dois rounds pro Reza Madadi. O brasileiro, inclusive, ganhou aquela luta.

  • Renan Trigueiro

    Concordo com tudo que foi dito pelo Felipe. Ótimo texto

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