É hora de ‘Andersonsilvizar’ José Aldo?

Lucas Carrano | 28/05/2014 às 17:17

Apesar de parecer, o tema desta coluna não foi motivado pelo UFC 173.

Bom, pelo menos em partes.

Admito que a zebraça do último sábado (24) em Las Vegas foi responsável pelo recorte exclusivo volta ao campeão dos penas (agora, o único brasileiro com cinturão no UFC), embora o assunto em questão já fosse alvo de reflexões há algum tempo.

Caso não tenha ficado 100% óbvio, o neologismo proposto (Andersonsilvizar) consiste em passar pelo processo semelhante ao vivido pelo ex-detentor do cinturão dos médios – que se tornou a maior estrela já produzida pelo MMA brasileiro em todos os tempos.

Vou além.

A.S. fazendo carreira no cinema nacional

A.S. fazendo carreira no cinema nacional

Anderson Silva é o único esportista ligado às artes marciais mistas com tamanho poder de penetração social e livre trânsito em outras áreas da cultura brasileira, que não àquelas ligadas diretamente ao MMA ou mesmo aos esportes.

Resumindo: o Spider é o maior fenômeno pop do MMA brasileiro.

Outros lutadores transcendem a barreira da modalidade? Sim.

Algum deles nos níveis de Silva, reconhecido e aclamado com facilidade pelo público massivo e pauta certa até mesmo na mídia não especializada? Não.

Neste momento de ausência de Anderson, que coincide com o fim de sua hegemonia no octógono, o espaço supracitado, outrora ocupado pelo próprio Aranha, está vago.

Fico com a impressão de que o projeto era ter Junior Cigano neste local de destaque.

De fato, o catarinense é bem articulado, tem carisma, possui um jogo de alto nível e reúne condições para a função.

Mas, aparentemente, os estragos das duas derrotas para Cain Velásquez se arrastaram para além dos oito lados do cage.

É inegável que a condição alcançada pelo MMA, mais especificamente pelo UFC (que por uma dessas coincidências da vida também é um acrônimo de três letras e faz com que muita gente confunda as duas coisas), cobra seu preço – como o exemplo citado no parêntese acima.

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O midiático Dos Santos

Apesar disso, me recuso a acreditar que exista um número relevante de pessoas que defendam que “era melhor antigamente” – e aqui faço questão de frisar que me refiro exclusivamente ao quesito popularidade.

Da “Confraria do MMA” até hoje, ganharam os profissionais – que receberam mais espaço para atuar (seja no cage ou na cobertura dos eventos) e viram o número de anunciantes e rendimentos relacionados ao esporte crescer.

Mas os benefícios também foram enormes sob o ponto de vista dos fãs – que dispõem de mais informação, conteúdo opinativo, acesso aos cards in loco e pela mídia, além de conteúdo jornalístico especial e oportunidades possíveis somente em um mercado aquecido e visto como estratégico pelas principais organizações.

E assim chego ao ponto-chave deste texto, que é justamente levantar a bola para que a comunidade do MMA opine: chegou a hora do Brasil ter um novo ídolo que supere os limites do esporte?

Em caso de resposta afirmativa, credenciado por seus resultados dentro do octógono, é José Aldo o nome a ocupar tal espaço?

Lembremo-nos que Aldo tem um perfil bem mais introspectivo e não possui um estilo de luta tão voltado para o espetáculo.

Tais traços podem ser avaliados como naturais e perfeitamente ajustáveis sob o ponto de vista do gerenciamento de imagem, principalmente com a contribuição de um grande triunfo (contra Anthony Pettis, quem sabe – lembrando que Anderson explodiu mesmo depois de nocautear Vitor Belfort), ou também sugerirem que possa haver outros nomes – como Belfort, Lyoto Machida ou Fabrício Werdum – mais preparados para a função.

É com vocês.

Por outro lado, como foi muito bem pontuado pelo Supremo Senhor Kaiô sextoroundiano, Renato Rebelo, “de repente estamos sendo pessimistas demais”.

Meio cheio ou meio vazio, certamente seguiremos atentos a este copo.

  • FABIO NEVES

    Ser esportista é ter uma profissão muito ingrata.
    Vive-se da glória e da vitória!
    No meu trabalho eu erro, pois tenho o direito de errar! E quando isso acontece, sigo em frente sem maiores problemas.
    No MMA, errou, está fadado a morrer sob críticas e achincalhamentos. Tenho pena da galera que doa o sangue, as articulações e as cartilagens no tatame…
    Que saibam aproveitar o momento do ápice para depois, quando caírem no esquecimento, não precisarem passar por problemas financeiros e psicológicos.

    • FrankCastiglione

      Isso!

  • Renan Trigueiro

    Fracamente, acho q o Aldo tá longe de ser o “campeão do povo”. Ele não vende mais de 200 mil PPVs lá fora e aqui tem dificuldade até de encher arena (A HSBC não estava totalmente cheia nem contra o Chad MEndes, nem contra o Zumbi Coreano). O pq eu não sei até pq sucesso com o público tá longe de ser receita de bolo. Mas apostaria mt mais no Lyoto, Belfa ou Werdum para ocupar esse posto de ídolo nacional.

    • alvaro

      concordo com tudo menos belford ele é fraco sem TRT nao vai longe

  • Pedro Duarte

    Não acredito que o Aldo possa vir a ter o sucesso do Anderson. Uma luta com o Pettis com certeza o mudaria de patamar, mas sua figura não me parece tão vendável. O Belfort sim é o atleta mais popular depois do Anderson e a conquista de um título seguida de algumas defesas bem sucedidas o tornariam um astro. Porém, o esteriótipo evangélico e os discursos malas acabam emperrando seu crescimento. O Cigano também tinha tudo pra ser a nossa grande estrela, mas de fato a surra tomada pelo Velasquez esfriou os ânimos.
    Por ser um atleta de características únicas, será difícil surgir um novo Anderson para o MMA mundial. Nem lá fora, com Jones, Pettis ou Velasquez imagino um atleta que desperte o interesse que o Spider despertava entre os amantes e iniciantes do esporte.

  • Leo Ferreira

    Belfort sempre foi estrela, é tão mais midiático que eu não sei se Anderson teria tanta fama sem essa luta, tanto que dias depois já estava no programa da Ana Maria Braga, Faustão e por ai foi. O que pega pro Belfa são as pregações dele, quando resolve pastorizar chega a dar aquela pontada no saco.

  • Tiago Nicolau de Melo

    Cigano era o cara pra essa função… a chance mais próxima de voltar a ser é o Vai Cavalo vencer o Chicano, pq mais uma luta entre o JDS e o Cain não rola.

  • zagolee

    Todas as quartas espero ansiosamente o texto do meu grande amigo Lucas… kkk!

    Acho que por muito tempo e antes do Anderson, o Belfort tem a mídia voltada pra si… Belfort sempre teve facilidade em falar com o público e é definitivamente um embaixador do MMA no Brasil e no Mundo!

    Só vai conseguir “Belfortizar” o Aldo se ele for capaz disso! (Não sabemos ao certo, mas lutar sim!)

    Belfort se reinventou na luta e acho que Lyoto e Werdum conseguem também…

    Genial o copo meio cheio ou meio vazio, lembrei-me do imortal Bruce Lee sobre a importância do aprendizado ao “esvaziar o copo”… kkk!

    Fantástico!

  • William Amaral

    Lembro também que em breve será lançado um filme sobre o Aldo, com globais no elenco.

  • Netto Santos

    Acho que o cara pra essa função era o Barão, atleta carismático e que sempre da show, mas dps da luta de sábado não sei mais.

  • Marcelo

    Vitor Belfort tem mais condições de se tornar a cara do MMA no Brasil do que qualquer outro lutador brasileiro em atividade. O Aldo já é bem reconhecido pelo público brasileiro, mas o Vitor tem mais apelo.
    O que alavancou a reputação do Anderson foi a 2ª luta contra o Chael Sonnen. Eu acho que uma disputa de cinturão entre Weidman e Belfort tem potencial para “marcar” o Vitor com o público brasileiro em geral, isso sem contar que ele vai enfrentar o próprio Sonnen antes (que será uma luta que ele entra favorito, mas é uma luta perigosa assim mesmo).
    E outra, o Anderson não está morto. Vamos ver como ele volta e a história de recuperação dele, se talvez ele recupere o cinturão, que eu não acho que seja totalmente improvável, vai vender muito bem.

  • Yuri

    Acho que o Aldo teria tudo para ser esse cara, menos o mais importante: o perfil de estrela. Nas entrevistas é sempre mais do mesmo (sou um lutador completo, treino de tudo…), e sempre que resolve dar uma opinião mais contundente acaba falando alguma besteira, como naquela entrevista que ele falou que todo mundo se dopava, menos os atletas da Nova União, e na postagem no twitter criticando os comentaristas do combate. Acredito que o brasileiro com esse perfil é o Belfort. Se não fosse tão chato…

  • André Guilherme Oliveira

    Difícil pensar em alguém pra tomar este posto. Assim como a maioria do pessoal que comentou, eu acredito que o lutador brasileiro com maior apelo é o Belfort, mas acredito que a carreira dele já esteja no final, não acredito que ele vá alem de 4 ou 5 lutas, mesmo se conseguir o cinturão.

    Cada qual com sua personalidade, acho que o Renan Barão seria o maior candidato a ídolo do MMA nacional. É carismático, divertido, tem um estilo de lutar bem interessante, agora tem que ver como ele se recupera da derrota de sábado. Com uma luta em agosto/setembro e uma disputa de cinturão bem sucedida até janeiro do ano que vem, poderia ser até o comeback of the year.

  • Ayrllys Allan

    Pro lado midiático acho muito difícil os grandes atletas de MMA despontarem se continuarem com o jogo tão básico de declarações, falta uma “personalidade” midiática, carismas com suas histórias todos podem conseguir, mas acho que o único que ainda sabe falar frente as câmeras é o Fabrício Werdum. Os outros ainda seguem o manual de frases prontas.

    • André Guilherme Oliveira

      É bem aquilo que o Paranhos colocou no texto “Quem não chora não mama”. Se a galera não começar a falar e chamar a atenção pra quem eles são fora do octógono, dai vai ficar difícil virar estrela.

  • FrankCastiglione

    Acho que a pessoa mais completa para ser um verdadeiro embaixador do MMA no Brasil é o Werdum. O cara é boa pinta, bem humorado e bem comunicativo. Até mesmo em outros países latinos, o pessoal se amarra nele (ao ponto de pedir para ele falar em Portunhol na entrevista, para reação WTF de Phil Davis ao seu lado, hahaha).

    O AS tinha características que dificilmente encontraremos num único lutador:
    – Boa pinta
    – Sempre ganhava e sempre de forma incontestável (e dando show)
    – Não tem orelhas de “couve-flor”
    – Apesar de não saber promover lutas muito bem, era ousado em suas falas

    Mas acho que o Fabio Neves falou tudo! Acho que, mais do que um ídolo novo, embaixador, etc. O que o Brasil precisa é evoluir sua cultura como torcedor. Essa postura de “ganhou é rei, perdeu é lixo” é um câncer e uma vergonha.

    PS: Desde que o AS fez aquele papelão em Abu Dhabi contra o Demian, virei hater dele e, inclusive, comecei a torcer para o Sonnen (e virei fã dele). Para mim, o respeito de verdade dentro do octógono, fair play, uma boa apresentação tem muito mais valor do que qualquer cinturão brilhante, é algo que não tem preço.

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