Preconceito no MMA: o caminho pra fora do armário

Lucas Carrano | 20/05/2014 às 23:17
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Fãs gays de Liz se auto-intitulam “Lizbos” (trocadilho com lesbos – lésbicas)

Os temas homossexualidade e esporte não costumam dialogar tanto assim.

O que percebo é uma relação um pouco formal do segundo para com o primeiro, como quem pensa: “Posso soltar palavras amenas por aqui, já que jamais vamos ter que nos relacionar mesmo”.

Mas isso está mudando.

Nas últimas décadas, a discriminação sexual tem sido pauta constante nos debates sociais, devido tanto às conquistas obtidas nas causas destes grupos quanto aos avanços nas liberdades individuais.

Neste contexto, o esporte já não pode mais permanecer alheio. E não está.

Mesmo que de maneira incipiente, começam a surgir manifestações e ações contrárias à discriminação sexual ligadas aos principais esportes profissionais, responsáveis pela maior disseminação do discurso para o público.

O futebol viu recentemente o caso de Robbie Rogers, do Los Angeles Galaxy.

O atleta se declarou homossexual e anunciou sua aposentadoria, mas voltou atrás na decisão e assinou contrato com o time de LA, se tornando o primeiro jogador assumidamente homossexual a atuar na MLS.

Eu me senti como um covarde. Há jovens que lutam pelos seus direitos e estão mudando o mundo. Eu tenho 25 anos, uma plataforma para expor minhas ideias e a voz para ser um exemplo – disse Rogers à época.

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Hitzlsperger jogando pela Alemanha

O draft (seletiva) 2014 da NFL também foi histórico neste sentido.

Na escolha dos atletas universitários para o futebol americano, Michael Sam foi selecionado pelo St. Louis Rams e se tornou o primeiro jogador assumidamente homossexual na liga esportiva mais valiosa do planeta, com direito a cobertura televisiva do momento em que foi anunciada sua escolha pelos Rams e um beijo apaixonado de seu companheiro transmitido para todo o país.

Os mais atentos devem ter reparado a insistência no termo “assumidamente”, e relacionados, até aqui.

Isso porque é preciso uma inocência inconcebível para acreditar que não houve incontáveis esportistas homossexuais que jamais revelaram sua preferência sexual, por opção ou receio.

Na categoria supracitada está o ex-meiocampista de Stuttgart, Lazio, Everton e da seleção alemã Thomas Hitzlsperger, que somente depois de sua aposentadoria precoce resolveu tornar pública sua homossexualidade – entre outros motivos pelo comportamento de alguns de seus companheiros durante seus tempos como profissional, segundo o próprio.

Pois bem.

Considerado um esporte de vanguarda em diversos aspectos, como tem se posicionado o meio do MMA diante desta questão?

O tema aparenta ser mais polêmico nas categorias masculinas, já que as divisões femininas das principais organizações contam com atletas homossexuais – como a brasileira Jéssica Bate-EstacaLiz Carmouche, presente na primeira luta feminina da história do UFC e muito elogiada por Dana White por sua postura.

Alguns dos principais nomes do Ultimate comentaram o tema e não se omitiram em suas respostas, exceto pelo campeão Jon Jones – que afirmou “não ter pensado tanto no assunto” apesar de considerar um tópico bastante sensível.

O ex-desafiante ao cinturão dos moscas Joseph Benavidez viu com bons olhos a chegada de um atleta homossexual.

Por que não? Seria legal ver um cara gay detonando alguém. Eu acho que seria ainda mais legal. Acabando com um estereótipo”, disse Joe-Jitsu ao FOX Sports 1.

O meio-pesado Phil Davis também tratou o tema com naturalidade e adotou um discurso mais voltado para a sobreposição do comportamento profissional em detrimento às preferências pessoais, bastante semelhante ao do membro do Hall da Fama Chuck Lidell.

Se ele é um atleta duro, quem se importa? Se ele é um lutador, é um lutador… Enquanto ele vencer suas lutas, isso não importa – disparou  o Iceman.

Na contramão dos supracitados, Rodrigo Minotauro já afirmou em entrevista concedida à revista Trip às vésperas do UFC Rio em 2011 que teria certas restrições com relação a um companheiro de treinos homossexual:

Não tenho preconceito. Mas eu não treinaria com gay. Eu não tenho maldade, não acho aquele contato físico sexual. Mas vai que ele tem essa maldade de ter um contato físico comigo, de ficar ali agarrado… Eu não teria problema nenhum de ter um aluno gay na minha academia, mas preferiria não treinar com ele – mandou Big Nog.

Sem juízo de valor, as palavras de Minota podem ser compreendidas como uma manifestação legítima sobre um comportamento particular (e, é claro, dotadas de extrema sinceridade), mas certamente na esfera pública, principalmente devido ao impacto da imagem do lendário peso pesado, a declaração assume um certo caráter universal e se posiciona na balança do lado oposto às de seus colegas de organização.

São alguns traços culturais de nossa sociedade e do próprio esporte, e manifestações mais extremas (como as irreproduzíveis ofensas de Matt Mitrione à atleta transexual Fallon Fox), que fazem com que ainda paire a dúvida sobre a questão da diversidade sexual entre os atletas profissionais.

É por isso que deixo aqui a pergunta: o MMA está próximo de sair do armário ou esta porta ainda está longe de ser aberta?

Só não vale forçar a barra (ou a saída), como no caso abaixo…

  • Renato Rebelo

    “Eu não sou não!” hahahaha esse vídeo é o mais constrangedor do mundo! Obs: textaço, Lucão!

    • Negreiros

      Essa foi de lascar…nunca na vida vi um NÃO virar uma afirmação tão forte.

  • Rafael Cunha Caroline Reis

    Acho que esse comentário do Big nog em 2011 meio forçado pra matéria, é um assunto que vem crescendo bastante nos últimos anos e diminuindo drasticamente o preconceito, talvez hoje ele tenha uma opinião diferente. Mas enfim, não vem ao caso.

    Na real, acredito que a chave é o respeito, enquanto houver respeito não haverá problemas.

    Porque, quem não respeita, perde os dentes. Silva, Wanderlei

    • Lucas Pereira Carrano

      Rafael,

      Não considero o trecho reproduzido do Minota descontextualizado. Não é como se ele tivesse dito há 15 anos. Apesar disso, concordo que um dia que fosse já seria tempo mais que suficiente para que houvesse uma mudança de opinião – mas isso não foi algo que tenha sido tornado público.

      No caso, a declaração ganha relevância porque é um contraponto mais moderado, diferentemente de algumas ofensas desrespeitosas e repletas de intolerância – como a mencionada de Matt Mitrione.

      Um abraço.

      • carlos andré

        Quando o cara começa sua fala com “Eu não sou preconceituoso…”, é certo que vai destilar preconceito nas orações seguintes e Minotauro cumpriu a regra com louvor destilando baboseiras preconceituosas/estúpidas. Suas declarações são bem recentes e enquanto ele não for capaz de reparar-se, terei certeza sobre o que vai em sua mente preconceituosa. Certamente o mundo seria ligeiramente melhor sem suas falas.

  • Renan Trigueiro

    O próprio Dana White já teve problemas com a comunidade GLS americana por ter chamado a repórter Loretta Hunt (ou algum personagem de uma matéria dela, não lembro) de “faggot”. Acho que a própria empresa não permitiria atitudes preconceituosas. Mas tb entendo quem prefere ficar “na sua” que nem o Minota. Belissima matéria e boa discussão Lucas

    • Lucas Pereira Carrano

      Renan,

      O Dana foi realmente um que aparentemente mudou sua postura drasticamente nos últimos anos. Acredita que foi uma mudança de opinião ou uma avaliação estratégica de um cara que vê negócios em qualquer situação?

      Grande abraço!

  • Malk Suruhito

    Pois é. Respeito o Minotauro, mas entendo que ele carrega o preconceito de décadas, de criação e “tradição” familiar, por ter origem familia “cabra macho” nordestina. Talvez hoje ele tenha a mente mais aberta e esteja mais a par do assunto. Faltou quem indagou ele a réplica “Então pelo seu comentário, um homem não deveria treinar com uma mulher, certo?”

  • André Guilherme Oliveira

    Interessante o texto, mas quando você fala do Matt Mitrione ali, a questão dele é um pouco mais profunda. Ele foi um total estupido ao dar aquela declaração, mas eu acredito que é algo a se pensar. Aonde se encaixa no esporte um atleta transexual ? falo em questões de força física mesmo, até que ponto seria justo que um homem que se transforma em mulher aos 30 anos possa competir contra mulheres ? Não tenho opinião formada sobre isso, até porque sei la o que acontece com o corpo da pessoa depois da transformação sexual, mas me parece que ela vai entrar sempre em vantagem pras lutas.

    Se a pessoa é homossexual ou não, isso não importa, agora a questão da transexualidade eu acho que é um mergulho em águas mais profundas.

    Abraço.

    • Lucas Pereira Carrano

      André,

      Concordo com essa problematização e também não reúno condições de avaliar a situação tecnicamente, acho que demanda um profundo estudo fisiológico e ver como, ou até quando, vai ser possível conciliar esse aspecto com a questão social.

      Mas minha referência ao Mitrione não remete ao questionamento pertinente. Pois, mesmo que isso tenha sido um resultado de sua declaração, ele o fez de maneira extremamente infeliz e, pra dizer o mínimo, rude.

      Abraço.

  • Rubens Rodrigues

    Grande Lucas! Já faz um tempinho que você postou um texto sobre o novo jogo do UFC. Você viu o vídeo que lançaram, a poucos dias, com um pouquinho da gameplay? Se não viu, da uma olhadinha! https://www.youtube.com/watch?v=d2xLW0NZCLw
    E você poderia falar se o seu conceito sobre o jogo mudou? O que achou do jogo? Gostou?
    Eu adquiri meu playstation 4 semana passada, estou louco para ter esse jogo em mãos!
    Grande abraço! Parabéns pelo grande texto e pelo excelente trabalho de vocês! Sou fã de vocês!

    • Lucas Pereira Carrano

      Rubão (pagô pra vê tcharroladrão),

      Vi esse trailer sim. Cara, fiquei bem mais animado do que antes, porque minhas expectativas eram baseadas nos trabalhos anteriores (ou seja, não tinha nada pra se animar muito).

      Pelo que deu pra sacar, a EA deu uma afinada na ação, os combates ficaram mais fluidos. Ainda quero esperar pra ver o jogo em mãos pra entender a jogabilidade. Se fizeram mudanças drásticas, se os comandos são intuitivos ou mesmo contemplam a dinâmica do esporte. Outro ponto importante é o jogo de chão, que foi pouco mostrado, a mecânica in-game e a jogabilidade de solo me deixam curioso também.

      Mas se pudesse responder sua pergunta diretamente, eu diria que sim. Mudou um pouco, mas ainda quero ter em mãos para cravar alguma coisa.

      Abração!

  • Anderson Do Carmo

    Sinceramente, colocar isso como uma questão polêmica chega a ser ridículo. Não consigo entender o porquê dos gays explicitarem na mídia sua homossexualidade, eu me pergunto para que?, com que propósito? E daí, se a pessoa é gay ou não?…quem gera a polêmica é o próprio homossexual, ninguém vê um heterossexual procurar a mídia pra esclarecer que é realmente heterossexual, só aparece homossexual tentando provar que é capaz de fazer as mesmas coisas que um hétero. Mas ninguém disse que não são!….A questão é, para que eu preciso saber a opção sexual da pessoa? Que utilidade isso teria para mim?….O preconceito tem que ser tratado como crime e, da mesma forma que o racismo, a melhor maneira de lutar contra isso é não dando polêmica para o preconceituoso.
    Em relação a atitude do “minota”, acho que ele foi um pouco infeliz em seu comentário, se ele acha que não treinaria com um gay, poque poderia ter “maldade” por parte da pessoa, então as mulheres nunca treinariam com um homem.

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