Via de regra no UFC: quem não chora não mama

Felipe Paranhos | 13/05/2014 às 23:35
Chael Sonnen vs Shogun Rua

Sonnen faturando

Vez por outra, falamos aqui no Sexto Round de aspectos que vão além do esporte em si.

É que esse esporte não se trata só de quem dá o golpe mais preciso, quem toma a decisão mais rápida, quem encaixa melhor a finalização.

Às vezes, quem se dá melhor é quem fala a palavra certa, bate no peito e se posiciona mesmo quando perde.

Muitos se esquecem que MMA também é entretenimento e, vez ou outra, a boca pode ser tão importante quanto mãos, pés, cotovelos e joelhos.

Chael Sonnen que o diga. Mas Sonnen não é o assunto do texto.

Sua experiência serve, porém, para colocar na mesa a importância de saber chamar pra si algumas responsabilidades que são menos esportivas e mais midiáticas – sobretudo quando não se é o campeão.

Foi o que Johnny Eduardo fez no último sábado, depois de nocautear Eddie Wineland no UFC Fight Night 40.

Eu só tenho a agradecer ao UFC por essa oportunidade. Estou muito melhor, muito mais consciente e mais concentrado. Isso é um trabalho meu e de toda a minha equipe. Eu só tenho que agradecer ao Wineland, que é o quarto do ranking. Já que venci ele, devo ser o quarto. Agradeço ao Dana White por me dar oportunidade de estar no UFC. Eu amo o UFC, não quero sair nunca daqui

Sabemos que as coisas não funcionam assim e que, depois de ficar dois anos parado, Eduardo não passaria automaticamente a quarto do ranking.

Não à toa, o professor de muay thai da Nova União é agora “apenas” o 12º na lista dos 15 melhores galos da organização.

Mas eu duvido que o Ultimate vá casar sua próxima luta com um lutador abaixo do top-10, como talvez acontecesse se ele não se colocasse lá em cima.

Olha quem já está fazendo "main event"

Olha quem já está fazendo “main event”

Não curte o estilão WWE do Sonnen? Não precisa sacanear o colega.

Mas a lição que o americano deixa aos lutadores de sua geração é a de que dizer “eu luto com quem o UFC quiser” é a pior das respostas possíveis.

É claro que você vai lutar com quem o Ultimate quiser.

São eles que decidem.

Mas aquela é a chance de criar uma história, por menor que seja, sobre uma luta.

E o que vende luta é história. É assim que os combates são promovidos.

Se quando te perguntarem contra quem você quer lutar um nome não sair da sua boca, você terá perdido uma oportunidade – Sonnen, Chael.

Então, se você se chama Daron Cruickshank, vinha alternando derrotas e vitórias e acaba de nocautear um cara que subiu de peso como um grande nome para os leves, você PRECISA dizer algo quando é perguntado sobre quem deseja enfrentar.

Ao se agarrar no clichê, você acaba de jogar no lixo a chance de desafiar um Edson Barboza, um Gray Maynard ou até um Nate Diaz, por exemplo, e garantir um lugar num card principal futuro.

A janela de oportunidade para lutadores profissionais é pequena demais para se negligenciar o aspecto promocional do jogo.

Vejam o caso de Phil Davis.

Dana White admite, sem muita cerimônia, que a postura indiferente do wrestler acerca do próprio futuro foi a grande responsável pelo “bypass” que ele vinha sofrendo na categoria.

Depois do chacoalhão, Mr. Wonderful passou a ser mais vocal sobre suas intenções. Tarde demais – graças a Anthony Johnson

Falando em “Rumble”, na presença do campeão da categoria, o bicho preferiu adotar um tom ameno na coletiva de imprensa pós-UFC 172:

Estou muito longe (do título). Acabei de voltar e vocês já estão me perguntando sobre o Jon Jones. Tenho muito respeito por ele e sei que tenho que trabalhar muito ainda para chegar ao seu nível.

Bones, ao invés de agradecer as palavras, mandou na lata:

Cara, você está soando igualzinho ao Phil Davis.

Em todo o mundo, o esporte não é mais só esporte, mas uma mina de muito dinheiro.

E, ao invés de ver o bonde do marketing passar, o lutador pode se aprimorar na capacidade de expressão (ou, em alguns casos, contratar um assessor de comunicação) e tentar entender como funcionam os aspectos mercadológicos da engrenagem que ele ajuda a girar.

Assim, todo mundo ganha: o Ultimate, que vende melhor sua luta; o atleta, que se valoriza dentro da organização; e o público, que ganha o que discutir nas mesas de bar reais e virtuais.

E aí, Cincinnati, Ohio, quem vocês querem ver lutando pelo cinturão? Ali está o homem (apontando para Dana), peçam para ele – mandou Matt Brown, se aproveitando da torcida ainda em êxtase com sua performance no UFC FN 40.

  • Alexandre Matos

    Por aí mesmo. Bom demais o texto, como de costume do amigo Paranhos, detetive do programa Tá no Ar.

    • Felipe Paranhos

      Antes do programa, nunca tinha notado como Paranhos é OBVIAMENTE nome de policial, assim como sempre disse que Almeida é nome de “cara de firma”. Só não sou corrupto! hahahaha

  • Renan Trigueiro

    Ótimo texto Felipe! Enquanto a maioria dos lutadores carregarem debaixo do braço a cartilha do politicamente correto, sempre haverá chiadeira sobre grana. Quem não vende ingresso, não fatura. É simpless

  • zagolee

    Excelente texto!

    Wand acho que é o melhor nas promoções com aqueles videos motivacionais massa!

  • Murilo

    Po irado o texto. Parabens

  • Gustavo Trigueiro

    Eu acho q promover a luta legitimamente, inclusive desafiando um próximo oponente, é bastante válido. Só não concordo qdo parte pra ofensas e desrespeitando a família do adversário. Aí não acho legal.

    Por exemplo, achei bacana as provocações de Cigano x Cain III. Um falou q o outro batia feito criança. Cain rebateu, dizendo q Cigano iria apanhar feito criança.

    Portanto, não houve desrespeito nem críticas à família

    • André Guilherme Oliveira

      Isso depende cara, é igual aquelas brigas de escola que cê chama a mãe do cara de gorda, ele chama tua irmã de gostosa e de repente ta todo mundo gritando PORRADA, PORRADA!

      Nem sempre o que se diz é o que se quer dizer, mas se chamou a atenção, então o objetivo foi cumprido.

      • Gustavo Trigueiro

        André, vc falou bem briga de escola. Na escola, são crianças e adolescentes. Em um ringue ou cage, são adultos, pais de família e artistas marciais q são parâmetro pra milhares de pessoas. Td bem q o mma é tb entretenimento, mas não nos esqueçamos q é um esporte e cheio de preconceitos, por sinal.

        Brincadeiras e entretenimento são válidos, mas não acho bacana desrespeito, xingar a família ou cuspir e estirar o dedo dentro do octógono como alguns fazem.
        Isso não contribui em nada pra o esporte.

        • André Guilherme Oliveira

          Poxa cara, o que eu quis dizer é que nem sempre aquilo ali é real, muitas vezes é só um teatrinho barato. Poucas rivalidades continuam fora do octógono e do show da promoção do evento.

          Foi chato o Sonnen ter falado um tanto do Brasil? Foi, mas em qual pais você acha que ele tem maior promoção. Qualquer luta com ele aqui encheria estádios. Agora, você acha mesmo que aquela é a real opinião do cara sobre o nosso pais? Duvido muito. É só uma postura de showman que se exige neste esporte.

          O que não contribui pro esporte não é o trash talking e as provocações antes das lutas, o que traz publicidade ruim são posturas de lutadores como o Maiquel Falcão, extremamente desrespeitoso com os seus oponentes, e ainda mau caráter fora do cage. Thiago Silva e sua crise temperamental, Anderson Silva e o Pelé Landi quase brigando na rua.

          Isso sim pode, e deve ficar de fora do esporte. As provocações fazem parte e só chamam a atenção pra luta.

          • Gustavo Trigueiro

            Pois é. Estamos concordando q provocação é diferente de desrespeito.

            Esse debate só enriquece ainda mais nossas opiniões e o mma.
            Abs

  • André Guilherme Oliveira

    Boa Felipe, mais uma boa discussão que vocês trazem aqui pro sexto round.
    É inegável que em um evento do tamanho do UFC, a habilidade de comunicação é algo que sempre traz mais visibilidade, chama o publico, tanto aquele que vê as provocações como positivas, quanto os que as entendem como um insulto.

    Eu sempre gostei dos caras que se soltam nas palavras e chamam a responsabilidade, e o publico, pra si. Lembra ali do Massaranduba no TUF BR 1 dizendo ” Eu nasci pra bater em outro cara” ? Ele ganhou minha torcida nessa frase. Mas não funcionou pro Alexandre Sangue que disse algo do tipo, “Quando eu tou ali é pra deixar o cara estirado no chão”. Tem um limite bem tênue entre o que é interessante ou não dizer.

    Esse ano tivemos alguns casos bem interessantes. O Tim Kennedy, que já tinha feito bonito no final do ano passado quando quase teve sua luta desmarcada e chamou a divisão inteira pro fight, fez ainda mais bonito batendo a lenda do Trash Talking, Michael Bisping, sendo apenas engraçado. Aquele vídeo dele levando porrada do sparring usando travesseiros na mão foi hilario.

    O Nurmagomedov (nem olhei no Sherdog, hehe) e a caixinha do Rafaello também foi demais. A um ano atrás ele era ninguém, mesmo sendo 18-0 (3-0 no UFC), dai veio com aquela blusa do Sambo x JJ contra o Tavares, porra, todo mundo achou desrespeito e o caralho a quatro, mas nessa ele conseguiu finalmente atenção, dai na luta seguinte o cara da mais de vinte derrubadas no camarada só pra fazer campanha para manterem o wrestling nas Olimpíadas. Ta ai um cara que soube fazer seu nome.

    Acho que me alonguei demais, mas o ponto é, existem varias formas de se chamar a atenção nesse negocio, e nenhuma delas é ficar quieto esperando vir uma luta boa de presente no seu colo, porque isso é raridade.

    • Renato Rebelo

      Excelentes os seus pontos levantados, André. Concordo 100% com você!

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