Morte ao vivo no MMA: é questão de tempo?

Felipe Paranhos | 15/04/2014 às 00:31

Um mote consistentemente repetido por fãs e lutadores de MMA é aquele que diz que boxe e kickboxing são muito mais danosos ao cérebro do que as artes marciais mistas.

Nunca gostei dessa afirmação.

Primeiro porque ser menos perigoso do que outro esporte não o faz inofensivo.

Segundo porque comparar o MMA com lutas muito mais antigas e cujas pesquisas foram muito mais profundas é obviamente temerário.

Mas, parece que, enquanto o argumento ganhar discussões ante os que consideram o esporte selvageria, ele continuará sendo evocado nas mesas de bar e comentários na internet.

Só que uma hora, senhores, esse papinho não vai servir mais.

Embora o MMA seja muito mais profissional do que em outros tempos, ele é muito mais visto e analisado agora.

E as fragilidades das organizações e o desleixo no cuidado com a saúde do atleta são mais evidentes para o grande público hoje do que no passado.

Gallemore x Brown, no Bellator 113

Gallemore x Brown, no Bellator 113

No fim de março, uma pesquisa do American Journal of Sports Medicine mostrou resultados assustadores sobre o esporte de que tratamos aqui no Sexto Round.

Segundo o estudo, 31,9% das lutas do UFC entre os eventos de números 66 e 146 terminaram com pelo menos um dos lutadores sofrendo uma lesão traumática cerebral (TBI, na sigla em inglês).

Este índice é duas vezes maior do que o do futebol americano — cujos danos vêm sendo muito mais discutidos do que no MMA —, três vezes maior do que no boxe e oito vezes maior do que no kickboxing e no hockey sobre o gelo.

E tem mais: nas 142 lutas que terminaram por KO ou TKO, os lutadores receberam uma média de 2,6 golpes adicionais após estarem nocauteados. Isso porque a média do tempo entre o nocaute e a interrupção do árbitro foi de 3,5 segundos.

(Um breve parêntese: se você é daqueles que adora dizer que o árbitro interrompeu “cedo demais” e que “dava para esperar mais um pouco”, como costuma falar sempre um comentarista da TV, você também é responsável pelas consequências disso na saúde dos atletas.)

O estudo é conclusivo?

Não, porque ele foi feito baseando-se em vídeos das lutas e tem algumas brechas para questionamentos.

Ele merece ser ignorado por isso? De jeito nenhum.

Alguém vai precisar morrer para as coisas mudarem. Mas, nesse ponto, já estará tarde demais. Já está tarde demais para muitos lutadores, na verdade. Eles receberam golpes e danos que não deveriam ter recebido se as pessoas olhassem para eles. Os fãs assumem que, se um atleta sair da luta vivo, ele está ok – disse o ex-UFC Nate Quarry ao Bloodyelbow.

As atrocidades cometidas por eventos, comissões e até médicos estão aí, pra todo mundo ver.

E não é difícil ver que muitas vezes aqueles que conduzem o esporte jogam com a sorte.

Quase sempre dá certo —pelo menos a curto prazo, já que o MMA é relativamente um esporte novo e ainda não conhecemos os danos futuros.

Mas essa roleta-russa vai acabar vitimando alguém.

E, quando isso acontecer, o que se vai alegar?

No sábado, mais uma vez, teve gente jogando os dados em relação à saúde de um atleta.

Matt_Manzanares_vs._Junior_Maranhao_medium_medium

Maranhão caindo…

No RFA 14, evento do empresário brasileiro Ed Soares, o mosca Júnior Maranhão foi vítima de negligência por parte da Comissão de Wyoming.

Depois de sobreviver a um triângulo de Matt Manzanares no fim do quarto round, o atleta da Bronx’s Fight Team foi pro seu canto, sentou e… caiu apagado.

Após alguns segundos, foi levantado por seus córneres, que o colocaram de volta no banco (!!!).

Quando chegou um médico da comissão, esperava-se algum bom senso.

Nada.

O doutor perguntou aos companheiros do brasileiro se ele estava bem e simplesmente autorizou o reinício da luta.

Nenhuma pergunta ao atleta. Nenhum exame. Nada.

Maranhão chegou ao fim do quinto round.

Não desmaiou outra vez no cage.

Não apagou depois novamente — ao menos não que a gente saiba, já que a Comissão de Wyoming jura que ele foi examinado depois do combate e que nenhum dano neurológico foi descoberto.

Não sei o que achar. Como um promotor, tenho que deixar as coisas na mão da comissão para ter certeza que as coisas são feitas da forma correta. É responsabilidade deles cuidar dos lutadores e parar as lutas. Não posso fazer isso. Talvez, o juiz não o viu caindo, não sei dizer. Mas alguém, tipo o médico, deveria ter checado ele. E eu não o vi sendo examinado – mandou o próprio Ed Soares.

No automobilismo, uma revolução na segurança aconteceu depois que Ayrton Senna, o maior ídolo do esporte àquele momento, morreu na pista.

No futebol, clubes e federações passaram a cobrar uma gama muito maior de exames depois que Marc-Vivien Foé morreu em campo, num jogo de Copa das Confederações.

Digo, pois, sem medo de errar: as coisas no MMA só vão mudar, de fato, quando algum lutador de elite morrer em frente às câmeras.

E isso é triste.

  • Rafael Cunha Caroline Reis

    excelente leitura Felipe! acredito que é apenas questão de tempo pra acontecer o pior, espero que esteja errado.

    • Felipe Paranhos

      Verdade. O objetivo não é “agourar”, mas trata-se de um esporte arriscado. E pessoas morrem às vezes em esportes arriscados. Acaba acontecendo vez por outra, e as coisas podem melhorar por isso. Mas espero que eu esteja errado e que a preocupação com a segurança cresça sem que ocorra o pior. Abraço!

  • Renan Trindade

    Ótima reflexão Felipe! Pipocam cada vez mais eventos por aí e, pelo nível técnico estar cada vez maior, os treinos ficam mais intensos e as manobras extremas (como corte de peso). Sem as toneladas de exames e cuidados profissionais que só o UFC deve ter, fica muito arriscado msm. Mas como fazer sem tornar economicamente inviável (caro) para os pequenos? É um tema complicado.

    • Felipe Paranhos

      Concordo que é muito mais complexo do que parece. Mas é isso: esse assunto precisa estar na ordem do dia, precisa ser alvo de reflexão por parte de todos os agentes ligados ao MMA. Obrigado pelo elogio ao texto. Valeu!

  • Alexandre Matos

    Mais um ótimo texto do Felipe, brindando-nos com ótimas reflexões. Só faço um parêntese: ainda que o fato de ser menos perigoso esteja longe de significar ser inofensivo, existem pontos que devem ser analisados nesta diferença entre o potencial maligno do boxe e do MMA (esportes que amo igualmente):

    – Boxe é um esporte disputado apenas com golpes traumáticos, a grande maioria deles direcionado à cabeça. O número recorde de socos numa luta de MMA é facilmente encontrado na média das lutas de boxe. Com o tamanho da luva de MMA, nem seria possível esperar uma luta com mais de 800 golpes lançados, já que virtualmente o lutador quebraria a mão antes de alcançar metade deste número.

    – No boxe, o clinch é proibido e a luta de solo, inexistente. No MMA, ambos são recursos válidos e provocam momentos sem a execução de golpes traumáticos contra a cabeça de um atleta.

    – Uma luta de boxe dura mais que uma de MMA (30 minutos contra 15 em lutas sem cinturão, 36 contra 25 em combates por cinturão). Ou seja, um boxeador fica mais tempo submetido a golpes contra a cabeça do que um lutador de MMA.

    – É comum encontrar lutadores de boxe com mais de 40 lutas profissionais e mais de 100 amadoras (é muito soco acumulado). Este cenário não existe no MMA.

    – Enquanto um lutador de MMA recebe uma média de 2 socos adicionais após estar nocauteado, a contagem protetora de uma luta de boxe tem muito pouco de protetora. Neste ponto acho que ambos os esportes deveriam rever algumas condições.

    Todas estas observações que eu fiz acima não tiram o fato de nego estar abusando da sorte no MMA, assim como no boxe.

    • Felipe Paranhos

      Perfeitas observações, Alexandre. Como disse, li o estudo inteiro e vi várias brechas pra questionamentos. Esta, que você saberia fazer muito melhor que eu, é uma delas.

  • Diego Parente

    De cara, achei o título absurdo.
    Por sorte, continuei lendo e, dada a excelente explanação, acabei por concordar 100% com o autor.

    Parabéns pelo texto.

    • Renato Rebelo

      Crédito pelo título absurdo: a anta que vos fala. Mas confesso que quebrei a cabeça e não achei algo menos “dark” = (

      • Felipe Paranhos

        Também tenho responsabilidade: não tive ideia melhor do que a do Renato. Mas, do jeito atual, acho que ficou ótimo.

        • Diego Parente

          Que nada, tá ótimo.

          É porque assim que vi (antes de ler todo o conteúdo), causou logo um impacto e aparenta ser algo exagerado e/ou de “hater”. Mas pra quem ler tudo, passa a fazer total sentido.

          O problema é causar ojeriza ao usuário e ele nem chegar a ler. De resto, tá excelente.

  • Luciano Andrade

    Caro, Felipe, cada um com o seu ponto de vista…

    Como acredito q parte do texto acima foi dirigido a mim, gostaria de responder (copio abaixo o q escrevi no Facebook):

    “MMA é um esporte duro. Se vc acha q sempre deveriam parar a luta por “qualquer coisa”, qualquer sequência mais dura num atleta caído, então creio q deveria escolher outra coisa pra ver, algo q fugisse um pouco da “realidade”, q, a meu ver, é o componente de maior apelo do MMA*. A demora exagerada na interrupção é equivocada pq coloca – demais – os atletas em risco, porém a “exacerbação na proteção da integridade física dos atletas” tira boa parte da graça, da emoção e do atrativo do esporte. Como em quase tudo na vida, a meu ver tb, a lição de Aristóteles continua sábia…”

    * tecnicamente falando, prefiro ver uma boa luta de boxe ou de jiu-jítsu, porém ambas as modalidades estão bem mais distantes de uma luta de verdade do q o MMA. É essa “realidade” q me atrai e, creio eu, atrai a maioria.

    Enfim, com base no teu texto, imagino q vc tenha um parâmetro para as interrupções, e se é o q penso q seja, sinceramente não tenho como concordar, haja vista q o MMA perderia boa parte da graça para mim.
    Aliás, levando-se em conta o q vc escreveu (“você também é responsável pelas consequências disso na saúde dos atletas”), se quisermos “realmente” proteger os lutadores (ou melhor, os “seres humanos” q lutam MMA), creio, então, q o ideal seria banir o esporte… ora, o MMA é um esporte agressivo, de risco, e tal elemento sempre existirá, em boa dose, no mesmo, então, se é para se preocupar “pra valer” com a saúde das pessoas, dos seres humanos, melhor bani-lo de vez.
    Em outras palavras, se vc é a favor do MMA “você também é responsável pelas consequências disso na saúde dos atletas.”
    Com relação às lesões, em q pese as pesquisas supracitadas, pratiquei boxe durante algum tempo (um ano e pouco) e fui sparring de “vale-tudo” nos primórdios da equipe Nova União. E, com base no q “senti” nas dezenas, centenas de treinos q fiz, as minhas impressões foram a de q o boxe é muito mais lesivo ao cérebro. No MMA, nunca me senti mal ou “estranho” (grogue, zonzo etc) depois dos treinos. Todavia, por várias vezes, após as aulas de boxe, nas quais existiam treinos “à vera”, eu me senti zonzo, tonto, com dores de cabeça. E isso, em muitas ocasiões, muitas horas após o fim das aulas.
    De resto, concordo q foi absurdo o q aconteceu no RFA 14 e concordo tb, integralmente, com o q o Alexandre Matos falou.

    Att,

    Luciano Andrade

  • Luciano Andrade

    Caro, Felipe, cada um com o seu ponto de vista…

    Como acredito q parte do texto acima foi dirigida a mim, gostaria de responder (copio abaixo o q escrevi no Facebook):

    “MMA é um esporte duro. Se vc acha q sempre deveriam parar a luta por “qualquer coisa”, qualquer sequência mais dura num atleta caído, então creio q deveria escolher outra coisa pra ver, algo q fugisse um pouco da “realidade”, q, a meu ver, é o componente de maior apelo do MMA*. A demora exagerada na interrupção é equivocada pq coloca – demais – os atletas em risco, porém a “exacerbação na proteção da integridade física dos atletas” tira boa parte da graça, da emoção e do atrativo do esporte. Como em quase tudo na vida, a meu ver tb, a lição de Aristóteles continua sábia…”

    * tecnicamente falando, prefiro ver uma boa luta de boxe ou de jiu-jítsu, porém ambas as modalidades estão bem mais distantes de uma luta de verdade do q o MMA. É essa “realidade” q me atrai e, creio eu, atrai a maioria.

    Enfim, com base no teu texto, imagino q vc tenha um parâmetro para as interrupções, e se é o q penso q seja, sinceramente não tenho como concordar, haja vista q o MMA perderia boa parte da graça para mim.
    Aliás, levando-se em conta o q vc escreveu (“você também é responsável pelas consequências disso na saúde dos atletas”), se quisermos “realmente” proteger os lutadores (ou melhor, os “seres humanos” q lutam MMA), creio, então, q o ideal seria banir o esporte… ora, o MMA é um esporte agressivo, de risco, e tal elemento sempre existirá, em boa dose, no mesmo, então, se é para se preocupar “pra valer” com a saúde das pessoas, dos seres humanos, melhor bani-lo de vez.
    Em outras palavras, se vc é a favor do MMA “você também é responsável pelas consequências disso na saúde dos atletas.”
    Com relação às lesões, em q pese as pesquisas supracitadas, pratiquei boxe durante algum tempo (um ano e pouco) e fui sparring de “vale-tudo” nos primórdios da equipe Nova União. E, com base no q “senti” nas dezenas, centenas de treinos q fiz, as minhas impressões foram a de q o boxe é muito mais lesivo ao cérebro. No MMA, nunca me senti mal ou “estranho” (grogue, zonzo etc) depois dos treinos. Todavia, por várias vezes, após as aulas de boxe, nas quais existiam treinos “à vera”, eu me senti zonzo, tonto, com dores de cabeça. E isso, em muitas ocasiões, muitas horas após o fim das aulas.
    De resto, concordo q foi absurdo o q aconteceu no RFA 14 e concordo tb, integralmente, com o q o Alexandre Matos falou.

    Att,

    Luciano Andrade

    • William Amaral

      Também discordo completamente que o fã também é responsável pelas consequencias na saúde dos atletas. Um só golpe pode gerar um trauma grande, mesmo que o golpeador não vá “conferir” depois, dando mais alguns socos. Ou seja, o fã pode concordar que as interrupções dos árbitros acontecem de forma tardia e querer uma mudança nesse sentido, porém muitas vezes o trauma acontece porque o esporte é assim: um soco ou um chute podem “apagar” um atleta, sem que o árbitro possa fazer nada para evitar os danos.

      • Felipe Paranhos

        Concordo com você em quase todo o comentário, mas, se o fã não vê nada de errado nos golpes extras e desnecessários, ele também tem responsabilidade. A violência do esporte faz parte do esporte. Nenhuma luta existiria se houvesse proteção 100% à saúde do atleta. Mas, na minha opinião, cabe a nós rejeitar o que é excessivo.

    • Felipe Paranhos

      De fato, discordamos. Acho que “graça” é uma questão cultural e, por isso, mutável. Quantos até hoje não alegam que, sem os pisões e tiros de meta, o esporte perdeu a graça? No entanto, a história e o sucesso do esporte depois da instituição de regras mais severas mostra que este olhar é anacrônico. Na minha opinião, a mesma situação se aplica à graça a que você se refere. Aqueles dois ou três socos desnecessários são pequenos diante da infinidade de emoções do MMA. O esporte continuaria incrível e atrativo mesmo sem a icônica imagem do Dan Henderson voando na cara de um Michael Bisping nocauteado e desacordado. E, sim, acho que quem tem lugar de fala e acha esse tipo de coisa normal tem responsabilidade sobre a saúde dos atletas. Mas, como você disse, são pontos de vista diferentes.

      • zagolee

        Dan Henderson foi extremamente maldoso com aquele golpe no Bisping!

        Henderson criou um logo com a imagem daquele golpe e gosta do que fez… Foi maldoso sim!

        Não devemos permitir isso no esporte.

      • Luciano Andrade

        Vamos seguir discordando, Felipe…

        Com relação ao Dan Henderson, é óbvio q o q ele fez foi errado, e deveria ter sido, no mínimo, advertido pela ato “maldoso”. Porém, não cabe discuti-lo aqui, haja vista q não se insere no debate, q diz respeito ao tema “em quais momentos os árbitros deveriam interromper as lutas”. No caso do Hendo, poderíamos ter a regra mais rigorosa do mundo q não mudaria nada. Tratou-se de questão relativa à reação do árbitro. Ali, naquele momento, não era possível, ou não foi possível, interromper a luta antes do golpe de misericórdia. Foi errado, todo mundo sabe disso, mas simplesmente o árbitro não conseguiu evitar.
        E sigo batendo na tecla da “justa medida”. Sou contra demoras exageradas na interrupção dos combates, mas tb sou contra interrupções precipitadas q, a meu ver, tirariam, sim, boa parte da “graça” do MMA. Da graça, da emoção, da essência etc. Vc não disse expressamente qual deveria ser, para vc, o parâmetro para as interrupções, mas dá para imaginar – deduzir talvez -, e, com certeza, não concordo com o mesmo. Aliás, é óbvio, considero bem razoável o parâmetro q considero razoável, qual seja, o parâmetro médio das lutas q vemos, por exemplo, no UFC. Não achei razoáveis as interrupções q aconteceram na segunda luta entre Renan Barão e Urijah Faber, na luta entre Rony Jason e Steven Siler (horrenda!) e tb algumas q ocorreram, ou melhor, têm ocorrido no JF. Por exemplo? A interrupção na luta entre Junior Abedi e Rayner Silva, na qual aquele, numa luta por cinturão, ainda em pé, faltando sete segundos para acabar o round, viu tirado, injustamente, o seu “direito” de lutar pelo cinturão.
        Tenho convicção, como amante do “vale-tudo” há quase 30 anos, q o esporte perderia boa parte do apelo se passassem a adotar um padrão como imagino q seja o q vc considera ideal. E creio q muitos perderiam interesse também. Por tudo o q vi, por tudo o q debati, por tudo o q vivi (dentro da academia), o padrão atual das Comissões Atléticas Norte-Americanos está bem razoável e ponderado.
        Curiosamente, o MMA é hoje bem parecido com o q eu já imaginava há mais de 20 anos. Nunca aprovei cabeçadas no vale-tudo, nunca aprovei os pisões e tiros de meta do Pride, e também não aprovo as cotoveladas, no chão, no UFC. E não só para “preservar a integridade física” dos atletas, mas também porque sempre considerei estes golpes movimentos desprovidos de técnica e q poderiam “entregar” vitórias a lutadores menos talentosos, “grosseirões”. Enfim, considero estes golpes tremendas grosserias.
        Ressalto tb q se tivessem adotado um padrão mais rigoroso do q o atual, já há algum tempo, certamente teríamos sido privados de algumas das melhores e mais emocionantes lutas da história. Provavelmente, teríamos sido privados da luta q mais me emocionou e mexeu comigo até hoje: Minotauro x Bob Sapp.
        Voltando à “justa medida”, como o próprio nome fala, não se trata apenas de deixar/tornar o MMA mais “emocionante”, mas sim de dar azo para q o “justo” prevaleça. É o q eu penso e tenho certeza de q é basicamente o mesmo q todo mundo q dá o sangue dia a dia nos treinos pensa (a esmagadora maioria).
        Como não vou convencer vc e vice-versa, vou ficando por aqui. Todavia, espero, sinceramente, q o “padrão das interrupções” continue basicamente este q vemos nos eventos internacionais hodiernamente. Caso contrário, perderei, e muitos perderão, boa parte do interesse q tenho/têm pelo esporte q julgo o mais interessante e emocionante de todos.
        Termino copiando a opinião de um conhecido, campeão de kickboxing e lutador de MMA: “MMA e um esporte duro, como voce disse Luciano Andrade. Digo como lutador: o excesso de protecao e zelo nas interrupcoes retiram dos atletas a oportunidade de se superarem e de modificarem a historia do combate. Bom senso e fundamental, assim como a dose correta de rusticidade que se espera deste esporte tao aguerrido.”

        Att.

        Ps.: o “anacrônico” também é questão de opinião. Aliás, bem razoável no caso em tela, vide q estamos num mundo de disparates, onde tem gente q considera ditaduras como a venezuelana “democracias”.

        Ps. 2: é, sim, necessário q cada vez mais sejam tomadas medidas para “preservar a integridade física” dos lutadores, porém, existem “n” maneiras de fazê-lo e q não passam pela questão das interrupções, q, a meu ver, repito, estão imbuídas de razoabilidade. Enfim, inserem-se na tal da “justa medida”.

        Ps. 3: valendo-me, mais uma vez, do teu próprio raciocínio, repito: o MMA é e sempre será um esporte de risco. Sendo assim, todos aqueles q o apoiam têm, sim, “responsabilidade sobre a saúde dos atletas”. Todos… é uma mera questão de gradação.

        Ps. 4: algum dia vai morrer gente num evento famoso. Vai haver comoção, pessoas “arrasando” o esporte, mas tudo vai passar e o mesmo não vai andar para trás por causa disso, mesmo q nada façam em relação às interrupções. Enquanto isso, outros seguirão morrendo em esportes mais populares, conhecidos e poderosos.

        FUI!

  • Mark Sgarbi

    MMA é um esporte de contato e como qualquer outro existe lesões as quais os atletas estão dispostos a sofrerem para continuar no esporte. Eu li esse estudo supracitado e não concordei em vários aspectos apresentados, como a quantidade de lesões por tempo, um atleta de futebol americano joga várias vezes por ano, enquanto um lutador de MMA apenas 2 a 3 vezes ao ano.
    Comparando com a F1 antes do Senna morrer muitos antes dele morreram nas pistas, coisa que em 20 anos de MMA pouco se escutou (lembro-me de apenas 1 atleta que acabou tendo que ir ao hospital e morreu em seguida devido a um KO).
    Se tem que mudar algumas regras para que fique mais seguro para o atleta, é provável que sim, mas o que realmente necessita são estudos mais apurados, com avaliação médica antes e depois da luta.

    • Felipe Paranhos

      Como eu disse no texto, Mark, o estudo não é conclusivo e deixa brechas para questionamentos, mas é importante. A comparação com a F1 não é gratuita: sei que muita gente morreu antes do Senna — trabalhei com automobilismo durante algum tempo —, mas trata-se de um esporte proporcionalmente muito mais perigoso para a morte imediata. No caso do Ayrton, a morte vira um ponto crucial na questão da segurança porque a morte de um ídolo mundial era inédita — o último piloto espetacular a morrer na pista havia sido Gilles Villeneuve, em 1982, mas a F1 ainda não tinha o caráter worldwide show de 12 anos depois. No caso do MMA, na minha opinião, qualquer morte em/após evento grande teria tanta repercussão, uma vez que o esporte já conquistou este status. E isso vai acontecer por um único motivo: quando ocorrer, isso vai mexer no bolso das organizações, porque audiência cai e rejeição cresce. Só aí vão se mexer, tomar na marra a responsabilidade que hoje é das comissões e sair da zona de conforto. Só muda assim, infelizmente.

      • zagolee

        Amigo Felipe, as mudanças protetoras e cautelares não acontecerão rapidamente! O fato é que acontecer uma morte ao vivo, sim, o evento e o esporte MMA perde, assim como o automobilismo perdeu quando nosso grande ídolo Airton Senna nos deixou…

        É realmente crítico o que vou dizer, mas o real motivo da audiência do esporte é justamente a imprevisibilidade! As pessoas brincam de Nostradamus e tentam descobrir os possíveis vencedores ou perdedores das lutas (risos). Mas sob outra ótica (talvez a psicológica) me instiga conhecer o cerne do ser humano se ele vai torcer para a vitória do guerreiro ou para a vitória do leão…

  • Rodrigo Oliveira

    Excelente texto. Existe uma outra maneira de evitar que cheguemos ao extremo de ver uma morte dentro de um cage, e essa seria punir rigorosamente os responsáveis por negligências grotescas como a cometida na luta do Maranhão no RFA 14. Todos os envolvidos deveriam ser punidos ou suspensos severamente, mas o que se vê é um jogando a culpa para o outro e nada sendo feito de fato.

    • Felipe Paranhos

      E isso esbarra num problema estrutural: se as comissões são soberanas e fazem frequentes cagadas, quem as pune?

      • zagolee

        Deus?

        (risos)

  • Francis Couto Falbo

    Concordo q mais cedo ou mais tarde alguem vai morrer numa luta d mma. Só não acredito q isso mudara o cuidado com os atletas. Não vamos esquecer q ja morreu um lutador tentando baixar o peso e nada mudou.

    • Felipe Paranhos

      Por isso fiz aquela comparação com o Senna. A morte de um ídolo ou de um esportista de elite causa impacto financeiro nas organizações, até porque a audiência cai e a rejeição cresce. E as coisas só mudam em organizações esportivas quando rola uma mordida no bolso. Enquanto isso, Feijões (o corte de peso também é algo negligenciado em quase todas as artes marciais) e Guylains morrerão.

  • Quem conhece a pessoa

    O atleta Junior Maranhão está muito bem saúde e fisicamente …

    • Felipe Paranhos

      Ótimo. Ainda bem. O que não ameniza o que aconteceu.

  • Carlos André

    Alto nível aqui , e discussão nada simples. Felipe, Alexandre, Luciano, Renato… Pelo que foi exposto por todos há muito o que fazer e acontecer.

  • andre sousa

    quem ta chuva é pra se molhar

  • andre sousa

    em varios esportes morreram atletas como exemplo no futebol na formula 1 etc…. porque quando morre um atleta de mma as criticas sao tam grande quem ta chuva é pra se molhar

  • Gustavo Trigueiro

    Felipe, parabéns pelo texto e confesso que, até então, não tinha pensado sobre o assunto, e agora vc nos instiga a refletir seriamente sobre algo tão importante. Iniciemos os debates e busquemos alternativas pra amenizar eventuais danos. Penso q deveria haver um trabalho mais sério com os próprios atletas. Talvez um trabalho psicológico, pois mts vezes transforma-se a rivalidade em ódio; o respeito por um colega de trabalho em ter a intenção de machucá-lo, humilhá-lo. É altamente danoso e contraproducente levar a raiva e o ódio pra o octógono, ultrapassando os limites do próprio esporte. Vejam o caso dos “conferes” de Hendo em Bisping e Rampage em Wand. Não quero dizer q eles foram maldosos, mas se tivessem um trabalho psicológico, talvez evitassem esse instito desnecessário.

  • Renato Rebelo

    Esse resposta do comum (de que morre gente em outros esportes e “quem tá na chuva é pra se molhar”) é muito preocupante. A intenção do Felipe foi criar um debate acerca da segurança no nosso esporte. Os exames pedidos são suficientes? Como os eventos menores podem solicitá-los? Há negligencia em certos casos por parte das comissões atléticas? Atletas precisam tomar tantos golpes quanto tomam? Simples assim, gente. Dizer que o cara não gosta de MMA e tá jogando contra por levantar uma bandeira tão importante é atacar o interlocutor sem querer debater o problema (que existe e é sério).

    • zagolee

      Exato mestre Rebelo!

      A perda de peso drástica é tida como algo “normal” neste meio, e pior, dizer que no dia da luta o companheiro estará mais forte que o outro… Nunca!

      Tenho tantas observações sobre esta temática, mas não conseguirei fazer todas as explanações devidamente organizadas… Fica pra uma próxima!

  • nihil

    afinal, quem morreu? texto longo demais

  • zagolee

    Para os fãs dos primórdios eventos ainda chamado de “Vale-Tudo”, onde os lutadores à mãos nús socavam e desferiam chutes “tiro-de-meta”, pisão e bate-estaca, é óbvio que o esporte MMA evolui e muito!

    Este sentimento estranho de um cataclismo presságio se deve ao coeficiente da somática tríade: as lesões iminentes dos atletas em combate, a necessidade de aprimoramento das regras protetoras e cautelares da vida do atleta durante os combates, e claro, o estigma de violência enraizado nas pessoas, e um tanto valorizado miticamente sob à luz de sua própria história.

    Ainda acho que o automobilismo e o futebol são muito mais violentos que o MMA!

  • Renan de luna

    Esta luta que eu gosto por que e violento esta luta vai precisar de mim eu tenho oportunidade para lutar

  • Renan de luna

    Eu vou ser ninja assasino este movimento do corpo e movimento das maos e das pernas que eu preciso a minha vida pra ser lutador como power rangers da força animal eu quero ir na floresta procurar as bolas de cirstais dos animais da noite

  • Armando Neves Dos Inocentes
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