Tolerância zero: entenda por que o cerol é fino no UFC

Lucas Carrano | 02/04/2014 às 16:37
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Brandão e Chope chegaram até a se encarar

22 de abril de 2014.

Na capital potiguar Natal para o UFC Fight Night 38, Will Chope recebe a notícia de que não só não iria lutar no dia seguinte contra Diego Brandão como não fazia mais parte do quadro de atletas do UFC.

O motivo: o passado de Chope e as razões que o fizeram ser dispensado do exército cinco anos atrás vieram a tona.

Segundo as informações divulgadas, ele já havia agredido a esposa em diversas oportunidades.

O RH do Ultimate não costuma ser condescendente com aqueles que infringem o manual de conduta da organização, principalmente os lutadores menos expressivos.

Mas o que justifica uma postura tão rígida da organização para com seus atletas, principalmente nos últimos anos?

A resposta é simples: a veia lobista do UFC.

Em um país onde o lobby é institucionalizado, as organizações sabem o efeito de sua imagem projetada junto à opinião pública.

Só para se ter uma ideia, segundo o site opensecrets.org, em 2012 o UFC gastou US$ 620 mil em lobby político.

Isso é mais do que a MLB (baseball), a NBA (basquete) e a NASCAR (Stock Car)… Juntas!

O montante investido pelo Ultimate destina-se basicamente a duas causas: a elaboração de leis antipirataria e defesa da propriedade intelectual no país (leia-se: combate às transmissões ilegais de seus PPVs); e fazer com que Nova York, principal centro financeiro e polo cultural dos Estados Unidos, deixe de ser o único estado a manter o veto ao MMA no país.

Vamos voltar no tempo.

A proibição do MMA em Nova York e boa parte da resistência da opinião pública ao esporte, especialmente nos EUA, data dos tempos de Art Davie, Bob Meyrowitz, Rorion Gracie e a SEG à frente do UFC.

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“O mais sanguinolento e bárbaro show da história”

Aquele lance de “alguém pode morrer”, “dois homens entram e apenas um sai” ou “não há regras” realmente criou um fato novo e chamou a atenção para o evento, mas a mesma controvérsia que alavancou a popularidade do evento cobrou seu preço mais tarde.

A confusão tem início no UFC 12, em 1997. Pouco antes da realização do evento em Niagara Falls, estado de Nova York, o senador republicano Roy Goodman anunciou que a competição deveria conter um novo pacote de regras, que incluía desde a obrigatoriedade do uso de capacetes e caneleiras à proibição da luta de solo.

A decisão forçou o evento a, literalmente, se mudar em cima da hora para Dothan no Alabama, a 1800 km de distância.

Além disso, o ato foi o pontapé inicial para a sanção ao MMA que dura até os dias atuais.

E, acredite, se a história já não está complexa o suficiente, ainda há outro ingrediente importantíssimo: a Culinary Union 226, ou o sindicato dos trabalhadores nos setores de alimentação, jogos e hotelaria em Nevada.

Por conta de desacordos com o grupo Station Casinos, de propriedade de Frank III e Lorenzo Fertitta (sócios majoritários da Zuffa e proprietários do UFC), o grupo tem atacado vorazmente os negócios da família – e isso inclui, necessariamente, sua bilionária organização de MMA.

A iniciativa da Culinary 226 rendeu até um site para reunir os deslizes de comportamento de pessoas ligadas ao UFC e cobrar o afastamento dos principais patrocinadores e incentivadores da organização.

Existe também uma resposta ao “Unfit For Children” (UFC, sacou?), bancada pelo próprio Ultimate. Trata-se do www.thetruthaboutculinary226.com (ou “A verdade sobre a Culinary 226”).

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Membros da “Culinary Union” marchando

Lá eles justificam a postura dos opositores, aproveitam para ataca-los e tentam mostrar um lado diferente de sua atuação, com programas sociais e coisas do tipo.

Visando minimizar os malefícios de ter sua imagem associada a qualquer tipo de infração legal ou comportamento moralmente duvidoso, além, é claro, das espinafradas dos rivais sindicalizados, o UFC intensificou e muito sua rigidez com o regimento de conduta.

Principalmente porque são esses episódios que podem interferir diretamente no sucesso ou fracasso das empreitadas institucionais do evento no congresso, cujo maior destaque atualmente é a tentativa de inserção no mercado nova-iorquino.

Esse cenário confuso, repleto de agentes e com constantes choques de interesses é basicamente o que motivou a sumária demissão de Will Chope pelo Ultimate.

O lutador inclusive conta com o apoio da própria ex-mulher, vítima no passado, mas que agora solidariza com o atleta em sua tentativa de que a demissão seja reconsiderada pela organização.

O manifesto de Chope e da ex-cônjuge foi divulgado por meio de um vídeo publicado no YouTube.

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Ex-esposa de Chope o defendendo em vídeo

Episódios polêmicos envolvendo atletas não são incomuns nas ligas norte-americanas – nem mesmo no UFC, que já em 2014 teve a demissão do brasileiro Thiago Silva após sua prisão na Flórida.

Rapidamente, é possível lembrar de três episódios famosos só na NFL (liga de futebol americano): Michael Vick, quarterback que ficou suspenso por anos após se envolver em rinhas de cachorros; Plaxico Burress, wide receiver que ficou preso por mais de um ano após um estranho incidente no qual atirou no próprio pé com uma arma “fria”; e Aaron Hernandez, tight end do New England Patriots que segue desligado após ser acusado de ter envolvimento em um duplo homicídio.

Em todos casos, exceto o de Hernandez que ainda segue sob investigação, os atletas foram reintegrados à liga após o cumprimento de suas penas e eventuais suspensões.

No momento em que as bombas estouraram, entretanto, o comportamento foi o padrão, vindo diretamente dos manuais de gerenciamento de crise: apagando qualquer vestígio de relação entre os clubes ou a liga e os atletas (os Patriots chegaram a trocar as camisas #81 de Hernandez dos torcedores, inclusive as antigas da Reebok, pelas novas da Nike – o que custou cerca de US$ 250 mil aos cofres do clube).

É posteriormente que há, por parte da NFL, um pouco mais de jogo de cintura nas negociações.

Diante do exposto, as grandes questões em pauta são:

1. Tomaria o UFC a mesma postura enérgica caso o fato envolvesse uma de suas grandes estrelas?
2. A política de “tolerância zero” da organização é a mais correta a ser adotada ou existe um meio termo que cairia melhor nessas situações?

Para essas respostas, acredito não haver ninguém mais indicado que vocês, fãs de MMA que acompanham o Sexto Round.

  • Renan Trindade

    Quero parabenizar o Lucas por esse texto sensacional. Me considero fã “hardcore” e tem muita coisa aí que não sabia! Execelente!

    • Lucas Pereira Carrano

      Renan,

      Muito obrigado pelas palavras. Continue participando nos comentários, muitas das coisas que publico retiro do conhecimento dos “fãs hardcore”, entre os quais se incluiu. hahahhaha

      Abração!

  • David Carvalho Crosariol

    Realmente texto muito bom, Lucas. Parabéns.
    Sobre a “tolerância zero” acho que o Tiago Silva já pode servir como artifício – dentre tantas que a organização tem – para também deixar as grandes estrelas “avisadas”. Já que o Brasileiro era um top10.
    Sobre o meio termo que cairia melhor, não sei. A organização deve ser provida de diversos tipos de consultoria, não deve ser algo resolvido entre uma cerveja e outra.

    • Lucas Pereira Carrano

      Você acha, David?

      O Thiago realmente era um cara com bagagem de lutas importantes (já esteve em Title Eliminator) e teria condições de lutar para se aproximar novamente do cinturão – já que vinha de duas vitórias e estava escalado para enfrentar outro bom valor.

      Mas fico com a pulga atrás da orelha por conta da questão da imagem. Não sei se neste aspecto ele seria um ativo tão importante na organização. Acho que seriam caras como Anderson, Jones, Velasquez, Aldo e até mesmo apostas como um McGregor ou Nurmagomedov da vida.

      E sobre a questão da consultoria, deixa eu ver se entendi bem, sua ideia seria tipo um conselho destacado com essa função na organização (ou externo)
      para avaliar cada caso individualmente? É isso mesmo?

      Abraço!

  • Fernando Chaves

    Realmente, boas considerações…. O Excesso é prejudicial, em qualquer quesito. Portanto, ao invés da intolerância, um pouco mais de jogo de cintura cairia melhor. Acho que se acontecesse algo com uma grande estrela, exemplo JON JONES, eles iriam ser mais maleáveis, como no episódio em que le bateu o carro bebado.

    • Renato Rebelo

      Temos também a nossa ring girl Arianny Celeste que foi presa por dar um chute na cara do namorado em público… Essas questões finais levantadas pelo Lucas são ótimas – assim como o texto, que tá sensacional!

  • Gustavo Trigueiro

    Penso q a prudência e o equilíbrio são os melhores meios pra se resolverem os problemas. A intolerância se torna perigosa, principalmente nos casos das estrelas q serão tratadas de forma mais benéfica. Isso acaba gerando o famoso “dois pesos e duas medidas”, prejudicando a credibilidade da empresa.

  • Gustavo Trigueiro

    Só um adendo que, na minha opinião, merece ser dito é que nesse evento o qual Lucas se refere (UFC 12), surgia o Fenômeno Vítor Belfort, q venceu os seus dois oponentes, sagrando-se o campeão do evento com apenas 19 anos de idade.

    • Lucas Pereira Carrano

      Boa lembrança, Gustavo.

      O Belfa foi um dos atletas que pegaram um voo quase no fechamento do aeroporto em Buffalo rumo ao Alabama.

      Além disso, sabia que este também foi o primeiro evento em que o Joe Rogan trabalhou com o UFC?

      Naquele documentário “Fighting for a Generation: 20 years of the UFC” ele conta que, com a mudança repentina, ele recebeu uma ligação do seu agente de última hora dizendo: “Tenho uma coisa pra você, mas acho que você não vai querer…”

      O resto, como dizem, é história…

      Abraço!

      • Gustavo Trigueiro

        Pôxa, que legal, não sabia desse detalhe. Obg pela explicação.
        Abs.

  • Rodrigo Baroš

    Excelente matéria, Renato! Houve também o desligamento da Chandella Powell, uma das ring girls, depois que descobriram que ela havia participado de um vídeo erótico no passado. Tolerância zero por parte do UFC em alguns episódios.

    • Lucas Pereira Carrano

      Esse caso até havia passado batido, confesso que lembro de ouvir os comentários em 2012, mas não repercutiu tanto. E é um daqueles de intransigência absurda, não é mesmo?

  • Iago Silva

    Lucas, começo parabenizando-o pelo grande texto. Acompanho seu trabalho e acho muito bacana essa iniciativa de cobrir o MMA fora das grades. Agora, acerca do tema, relembro o caso em que o Jon Jones foi preso por dirigir embriagado e depois condenado a perder a carteira de habilitação e passar por um curso de reciclagem. Sem dúvidas foi um episodio que merecia repudia por parte da organização, na época ele estava com 24 anos, já era campeão e um dos maiores expoentes do Ultimate. Mas o Dana nas suas entrevistas adotou um tom sereno e compreensivo com o jovem, defendendo que “todos erram alguma vez na vida” e que “não posso obrigar os lutadores a serem pessoas perfeitas”. Entendo que talvez o caso do Jones não tenha sido tão grave como do Thiago Silva e do Chope, mas acho que agiram de uma forma contraditória sendo excessivamente branda com uma atitude tão condenável como a que o Jones teve, já que, além de ser um atleta de grande expressão, já era campeão e influenciava muitos jovens, sendo uma das grandes “marcas” do UFC.

    • Lucas Pereira Carrano

      Iago,

      Pô, cara, valeu mesmo! Não posso deixar de registrar o quão curioso é ler que acompanha “meu trabalho”. Mas isso me deixa feliz na mesma intensidade. Obrigado mesmo, de coração.

      E sem dúvidas o interesse não só permeia como transforma essa relação. O nível de esforço da organização para lidar com situações envolvendo suas estrelas, das quais ela precisa, difere dos atletas de menor expressão, que precisam da organização.

      Falando em tom compreensivo, o Dana usou ele até pra falar do Justin Bieber, lembra? hahaha

      Abraço!

  • Flávia Lira

    Falou tudo!

  • Francis Couto Falbo

    E tbm tem o caso do brasileiro Toquinho né , q foi cortado por conduta antidesportiva!

  • C

    Excelente texto, parabéns.

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