Carta aberta a Anderson “The Spider” Silva

Lucas Carrano | 18/03/2014 às 23:28
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De volta ao jiu-jítsu com Zé Mario Sperry

Caro Anderson Silva,

Você obviamente não sabe quem eu sou.

“Conversamos” apenas uma vez, foram duas perguntas minhas e uma resposta surpreendentemente longa de sua parte, durante uma entrevista coletiva para promover o UFC 168 no ano passado.

Ah, sim. Quando fui assistir à final do Brasil Open 2013, entre Rafael Nadal e David Nalbandian, você passou algumas fileiras abaixo, devidamente escoltado por Ronaldo Fenômeno.

Sorriu e acenou para um grupo de fãs próximo a mim que o havia reconhecido.

De minha parte, houve um pouco mais de afinco em nossa, digamos, relação.

Li sua biografia, analisei seu cartel centenas de vezes, passei horas no YouTube, assisti aos eventos em que você atuou, as infindáveis reprises e, é claro, escrevi muitas matérias sobre sua trajetória no esporte, das glórias aos momentos mais difíceis.

Na última semana, fiquei surpreso ao saber que, mesmo diante de uma fratura visualmente tão impactante, você já teria recebido algumas ofertas de possíveis adversários e já programava um hipotético retorno ao octógono para exatamente 364 dias depois da revanche contra Chris Weidman – no ainda não confirmado UFC 181, evento que deve encerrar o calendário de 2014 para o Ultimate.

Já existem opções, e realmente vai depender apenas da recuperação dele, que está em ritmo acelerado. Tudo é possível. Existem opções de oponentes inclusive, mas a data não foi estipulada ainda – disse seu empresário, Jorge Guimarães, o “Joinha”, ao Super Lutas.

Por isso, Anderson, me sinto quase que na obrigação te contar o cenário com o qual você vai se deparar no retorno ao octógono.

É verdade, muita coisa mudou em tão pouco tempo.

A primeira coisa é a respeito do destaque, da posição de ídolo.

Sem você e sem GSP, que já havia dado seu “até breve” com cara de “adeus” pouco antes da sua lesão, o UFC anda carente de ídolos que transcendam a barreira do esporte.

Estes atletas que estão presentes em listas dos maiores esportistas de todos os tempos ou mesmo da atualidade, independente da modalidade, sabe como é?

Ao que tudo indica, mesmo que seja quem mais ameace sua hegemonia histórica no octógono, Jon Jones não tem tal característica.

Saiba, de antemão, que sua volta vai implicar neste fardo.

Caso esteja tudo bem com essa responsabilidade, vamos partir para outra.

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Amizade com Lyoto e Jacaré: fator impeditivo para Anderson?

Não sei o quanto você anda acompanhando o esporte neste período sabático forçado, mas sabia que 2014 se tornou recordista no quesito lutas que foram para decisão dos juízes?

Pois é, se você acompanhasse o Sexto Round e a mim tanto quanto nós o acompanhamos, certamente já teria esta informação.

Mas, enfim, nós dois sabemos que seu estilo é bastante agressivo e deixar as lutas nas mãos dos juízes não é lá muito do seu feitio – já que mais de 80 % de suas 33 vitórias e cinco de suas seis derrotas foram antes do fim do tempo regulamentar.

Já entendeu o quero chegar, não é mesmo?

Mesmo que esta abordagem mais espetacularizada do combate tenha lhe rendido duras críticas na derrota, o peso de um ano repleto de decisões dos jurados pode acabar recaindo sobre suas costas.

E a divisão dos médios?

Antes do episódio Chris Weidman (assunto o qual, se assim preferir, a gente nem entre em detalhes), era um deserto de possibilidades e já não se via mais adversários para o campeão, no caso você.

Pois agora o lugar está como um ninho de cobras.

E, para piorar, algumas destas cobras têm uma relação bem próxima com outro bicho peçonhento: a aranha.

É isso mesmo. Nesta confusão do reino animal, falo do Jacaré e do Dragão (não o de Komodo, o “baiano do Pará” mesmo).

Acompanhe atentamente o duelo entre Lyoto e Weidman em maio, porque, em caso de vitória do brasileiro, aquela sua restrição a enfrentar o amigo pode ser posta à prova no futuro, ou o caminho pode ser mesmo a divisão de cima.

E olha que se não der para o Machida, Ronaldo Jacaré está batendo na porta do cinturão e a história pode ser repetir.

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Middleweight e heavyweight

No que diz respeito ao processo de recuperação da contusão, você tem um grande companheiro para conversar sobre superação e volta por cima, principalmente após uma lesão no esporte, que é o já citado Ronaldo Fenômeno.

No fim das contas, por tudo que aconteceu, vai ser um caso de definir bem as expectativas para seu retorno.

Peguemos o exemplo do próprio Ronaldo.

Em 2009, quando voltou para o Corinthians, o Fenômeno (se quiser que evite este apelido, para não remeter a nenhum desafeto, tudo bem) já não era considerado o melhor do planeta e, com expectativas bem inferiores, acabou tendo uma ótima passagem pelo clube.

Se levarmos em conta as condições, foi brilhante o que ele fez, mas em aspectos absolutos não foram seus maiores feitos.

Em outra grande lesão, no início da última década, Ronaldo deu a volta por cima, sagrou-se campeão mundial, foi artilheiro da Copa de 2002 e foi o melhor jogador do planeta naquele ano.

Este foi o auge de sua carreira, justo em um episódio de superação.

Compreende a diferença entre as duas situações?

Analise sua condição com cautela e realismo, defina objetivos e contextualize a todos.

O desgaste de expectativas demasiado elevadas pode ser muito duro.

Não que eu esteja sugerindo que você transpareça um pessimismo descabido só para criar um cenário favorável posteriormente. Longe de mim. Mas é mesmo colocar as coisas em seu devido lugar.

Sabe como é…

No mais, desejo-lhe uma plena recuperação e sucesso, seja dentro ou fora do octógono.

Só não se esqueça de me chamar para uma exclusiva quando resolver tomar alguma grande decisão sobre seu futuro. Trato feito?

Atenciosamente.

Lucas.

  • C

    Só pra não deixar batido, o Ronaldo jogou bem por 6 meses no Corinthians, fazendo o papel de cereja do bolo (com seu altíssimo refinamento técnico) num time que vinha em ótima fase.
    Quando o time desandou, após esse primeiro semestre de 2009, o gorducho não jogou mais absolutamente nada.

    • Renato Rebelo

      “O gorducho não jogou nada” é excelente! Hahahahaha

    • Lucas Pereira Carrano

      C (?),

      O fim da passagem do Ronaldo pelo Corinthians, o fatídico episódio do Tolima, resume bem o quão melancólico foi esse período final. Mas, em todo caso, levando-se em conta as circunstâncias, o saldo foi positivo.

      Enquanto ainda teve condição física, e um time minimamente organizado ao seu lado, Ronaldo fez grandes jogos – como aquela final do Paulistão contra o Santos + o golaço antológico. No contexto, como dito, ainda considero um sucesso – com percalços e um encerramento não digno.

      Abraço

  • Gleydson

    Muito bom..!

  • Luccius Anttero

    Lucas, perfeito texto!
    Se eu sou o Anderson, eu já estaria com o olho cheio de lagrimas!!
    Parabéns irmão, ótimo texto!!

  • Val Carnaval

    To aqui aplaudindo Lucas em pé? hahahaha
    Demais!!!!! mandou MUITO bem!

  • Alexandre Coelho

    Estou achando o Lucas por mais entendido que seja no assunto um pouco se sentindo o dono da verdade,na minha concepção cada pessoa uma história,não tem nada que fazer comparações com outros atletas,quem faz o futuro é a própria pessoa e só quem sabe dele é Deus.Tudo indica não é a maneira que se deve relacionar ao futuro de alguém,Deus diversas vezes escolheu as coisas loucas para confundir as sábias.

    • Lucas Pereira Carrano

      Alexandre,

      Tudo bem?

      Cara, nem de longe minha intenção foi essa. Me retrato se foi a impressão passada. No fim das contas, descontadas as firulas estéticas e humor de gosto questionável, este texto é a opinião de uma figura – no caso, eu. De um jeito um pouco fora do usual, apresentei alguns argumentos, opinei sobre alguns assuntos e, por que não, informei um pouco também.

      Sobre a questão das diferenças, concordo que elas existam e que criem situações únicas, com suas particularidades. Mas não acho que esse seja o resumo da ópera. Existem semelhanças também. Falamos de dois atletas de alta performance, expoentes em seus esportes e com imagens que transcendem a barreira da modalidade (Ronaldo chegou a ter o rosto tão famoso quanto o do Papa João Paulo II nos anos 90 e Anderson Silva integrou uma seleta lista da Sporst Illustrated para definir o maior esportista de todos os tempos). No prisma abordado, o das expectativas do público com relação a seus ídolos, acho que as histórias de ambos dialoguem sim. Mas, como disse, essa é a forma como vejo a situação.

      Obrigado pelo comentário!

      Abraço.

  • Diego Jaqueira

    Grande texto bichão, parabéns!

  • Felipe Queiroz

    Foi muito bem escrito, porém, meloso demais.

  • Malk Suruhito

    “…o Fenômeno (se quiser que evite este apelido, para não remeter a nenhum desafeto, tudo bem) ”

    GENIAL!

  • Flavinha

    Parabéns Realmente Tocante.
    Adorei …

  • Ana Cecília Moura

    Top o texto Lucas. Parabéns!

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