Pettis, Gastelum, Cowboy
e o diabólico corte de peso

Lucas Rezende | 12/12/2016 às 19:30

Com candidatos a nocaute e luta do ano, o UFC 206 supriu todas as expectativas, mesmo após os incidentes de trajeto envolvendo Daniel Cormier e Rashad Evans.

Cadavérico, Pettis não bateu o peso

Cadavérico, Pettis não bateu o peso

Graças a Lando Vannata, Cub Swanson, Doo Ho Choi e outros ilustres da fatídica noite de Toronto. Mas se estamos conversando sobre incidentes de trajeto, não há como não tocar no maior deles: Anthony Pettis.

Em sua segunda empreitada na categoria dos penas, o ex-campeão dos leves já sentiu a diferença dos quatro quilos a mais que precisou perder para se tornar elegível à disputa do cinturão interino contra Max Holloway.

Missão que acabou por fracassar, mas que no fim nem faria diferença, já que o havaiano o nocauteou no terceiro round. O primeiro a alcançar o feito, aliás.

Com o rabo entre as pernas e cônscio de algo que alguns já imaginavam, Pettis anunciou, ainda dentro do octógono, que não tinha outra escolha a não ser regressar aos 70kg perante o sacrifício do corte de peso que muitos atravessam.

Pettis é velho e grande demais para fazer esse corte”, resumiu Dana White.

Saudável, Kelvin deu cabo de Kennedy

Saudável, Kelvin deu cabo de Kennedy

O mais curioso é que, na mesma noite, tivemos dois combatentes traçando o caminho inverso e sendo bem-sucedidos. Kelvin Gastelum, mais uma vez forçado a lutar pelos médios após mais uma pesagem frustrada, aguentou o primeiro assalto forte de Tim Kennedy para reverter com propriedade e nocauteá-lo na terceira etapa.

Saudável, o campeão improvável do TUF 17 acaba de se tornar um top 10 nos 84kg, sem necessidade para desidratação, jejum ou aquela ida ao banheiro de última hora.

Aliás, sua outra aparição pelos médios, contra Nate Marquardt, também se mostrou uma surra memorável, que obrigou a equipe de Marquardt a interromper o duelo no intervalo do segundo assalto.

Não há motivos para crer que o garoto não possa perseguir o sonho de se tornar campeão nesta divisão, esquecendo os meio-médios para sempre.

Falando em meio-médios, o que dizer de Donald Cerrone? O Cowboy deu as caras quatro vezes neste ano de 2016, até agora, pois se tratando dele, nunca se sabe. E juntou mais quatro triunfos, todos por interrupção.

Cerrone x Brown com 77kg: diferença de tamanho irrisória

Cerrone x Brown com 77kg: diferença de tamanho irrisória

Todos os resultados positivos foram conquistados, é claro, desde que Rafael Dos Anjos o chutou para longe dos leves, o hoje em dia podemos interpretar como uma bênção disfarçada, já que Cerrone amassou desde o ex-desafiante de Anderson Silva, Patrick Cote, passando pelo cascudo Rick Story, até o Imortal Matt Brown, a quem deitou eternamente em berço esplêndido no último sábado com mais uma de suas já assinaladas bicas na tampa do coco.

Testemunha desses três fenômenos, este humilde jornalista não pode deixar de pensar quantos mais combatentes de ponta não estão tendo seus talentos drenados pelo processo diabólico do corte de peso e não alcançando o máximo do seu potencial em decorrência de tudo que envolve a prática.

É sempre válido lembrar que Frankie Edgar, ainda que muitos acreditem ser uma exceção, foi campeão dos leves sem precisar cortar um grama.

Gastelum fora o último a ser escolhido em sua temporada no TUF, onde lutou como médio, e surpreendeu vez após vez até sagrar-se campeão.

Talvez não se trate, então, de exceções ou talentos natos, mas de algo que se tornou habitual ser visto como o padrão, sem darmos chance à outras alternativas.

  • Bolsomito2019

    #obrigadoRafa, por chutar o Cerrone pros meio-médios
    belo texto sr. Rezende

    edit: véi, se o Cerrone não concorrer a lutador do ano… vai te lascar, UFC

  • Lucas Toledo

    Os lutadores cortam muito pra, na hora da luta, estarem maiores e mais pesados, conseguindo uma vantagem. Só que pra alguns o corte é tão severo, que, apesar de recuperar o peso, não se recuperam fisicamente pro combate e entram anolecidos pelo desgaste. A vantagem procurada tmvira desvantagem

  • Eric Correia Lima

    Penso que até existem casos em que rende fazer um sacrifício pra conseguir lutar em uma categoria mais leve, por conseguir outras vantagens. Mas nestes casos do post, onde existem lutadores que se sacrificam demais e lutam desgastados por isso (ou sequer conseguem bater o peso), realmente não faz sentido passar por esse processo.

  • Caio Abreu

    Eu sempre me pego pensando nesse corte de peso que os lutadores fazem e principalmente nessa suposta vantagem, que eles teriam após esse estressante e desgastante processo. Quando você imagina o AJ lutando de 77kg é surreal,, se é que ele conseguiu bater o peso, há alguns caras que precisam de peso pra poder performar, há casos em que se entra com uma suposta desvantagem pela envergadura mas se compensa com resistencia e força. Os tops do peso pesado e meio-pesado Cain e Cormier são caras baixos pras respectivas categorias mas que são animais atuando nesses pesos. Obs : o James Vick de peso leve é assustador como aquele cara é magro.

  • Paulo Souza

    esta questão do corte de peso é antiga. No boxe a pesagem ja foi feita no dia da luta, mas devido a varios problemas como desidratação e a morte de um boxeador, a pesagem foi colocada um dia antes da luta para o atleta se recuperar da desidratação e do desgaste.
    Já ocorreram a morte de dois atletas de mma em corte de peso: um foi o brasileiro feijão de 26 anos que lutava na shooto em 2013 que morreu após um corte de peso…o outro foi um chines que atuava no one fc de 21 anos no ano de 2015
    o ufc lançou uma politica pedindo que os lutadores da organização nao corte mais de 8 por cento do peso limite da categoria na semana da luta, mas isso é apenas uma cartilha, isso só funcionaria se houvesse uma fiscalização rigorosa do peso do atleta, acredito que é a unica maneira de acabar com esses corte de pesos brutais

  • Idonaldo Gomes Assis Filho

    Fico curioso se o corte de peso não existisse e cada lutador lutasse com seu peso natural haha, aliás bom texto, Cerrone lucrou muito e parece estar bem feliz na categoria nova, Kelvin parece que não assimilou isso, e até o Cordeiro antes tinha dito que o Kelvin deveria voltar, agora com essa performance não sei se ele tem o mesmo pensamento, por mim ficaria aí mesmo e outro que deveria pensar do mesmo jeito é o senhor Johny Hendricks, isso se ele pagar mico novamente na luta contra o Magny. No próprio peso mosca tem muito peso galo se arriscando lá, de longe é a divisão em que os lutadores mais precisam da toalhinha pra se pesar, essa cultura de “vou ficar maior e tirar proveito” que eu acho errônea, provavelmente ainda vai persistir, mas espero que casos como o do Gastelum façam com que lutadores pensem em subir em vez de descer mesmo.

    • Weslei Alvarenga

      A intrevista do backstage do Cowboy foi SENSACIONAL, ele falando sobre o alivio ( via mtos palavrões ) de nunca mais usar a sauna novamente, podet beber cerva pra krl, ficar relax na fight week e fazer as coisas lokas dele….. A vibe dele elevou pra um novo patamar.

      • Idonaldo Gomes Assis Filho

        hahaha, deve ser ótima a sensação de ao mesmo tempo não precisar de cortar tanto peso e de poder se reinserir numa disputa de cinturão, além disso ele saiu no timing perfeito para não pegar o trio McGregor/Ferguson/Khabib que ainda vai dar o que falar kk

      • Lero

        Essa diferencia de 7 kilos é muito grande. Para um cara como Cerrone faz toda a diferencia do mundo. E para um cara que nem o McGregor também, vendo que ele fica pesado demais e cansa muito nos meio-medio.

        • Weslei Alvarenga

          Ss, são 10% da massa corporal nessa “brincadeira” aí. E cada um com os seus efeitos colaterais.

  • Marcos Salgueiro

    É fato que o corte de peso normalmente favorece o lutador que tem uma facilidade para perder (e repor) o peso, mas isso não deveria ser entendido como verdade absoluta, haja vista um dos melhores soldados do exército do Tannuri, AJ. Gostaria de ver o resultado de Gatelum, trabalhando forte o condicionamento e mais forte ainda o trabalho de força podendo ganhar mais massa magra p/ lutar em 84. Acredito que o rendimento, além da moral, seriam bem maiores do que o que já vimos nos 77.

  • Igor Vovchanchyn

    Por que os promotores insistem na pesagem 24 horas antes da luta? Simples, porque a pesagem em si é um evento que atrai bastante atenção, esse é único e real motivo!
    É muito simples a resolução do corte de peso, pesar os lutadores na entrada do cage. Deveria ter uma balança eletrônica na porta do cage, assim o lutador teria que subir nela antes de entrar no cage, se o lutador estivesse acima do peso, ele é perde 50 % de sua bolsa que seria revertida para o adversário, é claro se o mesmo também batesse o peso, do contrário, no caso de ambos não baterem o peso, os dois perdem 50 % de sua bolsa que fica com o promotor do evento.
    Antes que digam que é muito perigoso, eu te pergunto – Por que os lutadores cortam peso? A resposta é senso comum de que é para conseguir uma vantagem física sobre o adversário. Então, pesando o lutador na entrada do cage, não haverá nenhum tempo para ele se reidratar, ou seja, sob o novo sistema se ele cortar peso ele é quem estará em desvantagem, não haverá motivos para ele tentar cortar peso.
    É claro que se isso fosse feito, teria que criar mais categorias de peso, principalmente entres as categorias mais pesadas, o peso-mosca com limite de 56,7 kg (125 lbs) deixaria de existir e o peso-galo até 61,2 kg (135 lbs) seria a categoria mais leve entre os homens. Poderia ficar assim as novas categorias de peso:

    Peso Galo: até 61,2 kg (135 lbs)
    Peso Pena: até 65,7 kg (145 lbs)
    Peso Leve: até 70,3 kg (155 lbs)
    Peso Meio Médio: até 74,8 kg (165 lbs)
    Peso Médio: até 79,3 kg (175 lbs)
    Peso Super Médio: até 83,9 kg (185 lbs)
    Peso Meio Pesado: até 90,7 kg (200 lbs)
    Peso Cruzador: até 99,8 kg (220 lbs)
    Peso Pesado: até 108,8 kg (240 lbs)
    Peso Super Pesado: acima de 108,8 kg

    • Hyuriel Constantino

      Pois é. Eu mesmo sou a favor de mudarem as regras da pesagem e os limites de peso. Inclusive, referente ao último, com a criação de novas categorias, haveria uma melhor redistribuição dos atletas, abriria mais espaço para novas contratações e as chances de cards numerados serem desfalcados seria extremamente reduzidas. Com mais campeões na organização, mesmo que uma disputa de cinta caísse, poderia já de antemão ter outra como Co-Main Event.

      • Igor Vovchanchyn

        Então, na verdade como fã do esporte eu não gosto muito da proliferação de categorias de peso, mas fiz a proposta pensando no lado dos lutadores. O MMA envolve grappling, por causa disso, o peso acaba sendo um fator ainda mais determinante do que numa luta em envolve apenas striking.
        O lado positivo disso é que o UFC não precisaria criar mais esses cinturões interinos ridículos para vender um card, já que eles teriam vários campeões lineares para preencher esses cards.
        Eles poderiam aproveitar para diminuir o número de lutadores no elenco, acho que algo entre 20 ou 30 lutadores por categoria de peso está ótimo. Tem muito lutador ruim no UFC! Ali deveria ser a elite! Eles podem ressuscitar o Pride e usá-lo como uma segunda divisão, os lutadores que fossem campeões no Pride subiriam para o UFC.

    • Silas K

      Se sua idéia, que por sinal é muito boa, fosse implantada, teríamos Lineker no meio médio, Aldo no médio e Hendricks no cruzador!

      • Igor Vovchanchyn

        Se não me engano, o Lineker era peso-pena quando lutava no Brasil, mas ele mede míseros 1.60 m, seria perfeitamente possível para ele bater 61,2 kg mesmo com a pesagem na entrada do cage.
        O Aldo pesa 75 kg, informação dada por ele numa entrevista. Ele é um cara baixo, mede 1.70, ao contrário de outros lutadores ele é disciplinado e não costuma engordar entre uma luta e outra, ele poderia bater 74,8 kg.
        O Hendricks é o mesmo caso do Lineker, falta disciplina. Busque por fotos dele em off, o bicho fica “obeso”, se ele levar a carreira mais a sério ele poderia perfeitamente bater 83,9 kg.

    • Vinicius Maia

      Rapaz pesar no dia da luta seria terrivelmente perigoso pros atletas. Por que ae eles lutariam realmente desidratados para ter vantagem física sobre os oponentes.
      Este artigo da venum explana muito bem o assunto e até cita oque acabei de falar sobre os lutadores tentarem lutar desidratados para ter vantagem. Uma ideia que estavam tentando implementar no wrestling era fazer um teste pra determinar a gordura do atleta e verificar qual seria a categoria de peso ideal pra ele e ele só poderia lutar nesta categoria durante um ano depois do exame feito.
      https://venum.com.br/blog/perda-de-peso/

      • Igor Vovchanchyn

        No boxe, antigamente eles pesavam os lutadores no dia da luta, para ser mais preciso, no período da manhã, ou seja, os lutadores tinham umas 8 ou 10 horas para repor o peso. Minha proposta não é pesar no dia da luta, mas sim na entrada do cage. Ele sobe na balança eletrônica que ficaria ao lado da escada que dá acesso ao cage, se pesa e depois sobe no cage para lutar. Ele não teria sequer 1 minuto para tentar se reidratar! Se ele fosse estúpido o bastante para fazer isso, ele é quem ficaria em desvantagem! Então porque eu tentaria fazer algo que estaria me colocando em desvantagem?
        Não podemos criar regras pensando em ajudar o infrator, mas sim para que o sistema não seja burlado como acontece hoje.

  • Hyuriel Constantino

    “este humilde jornalista não pode deixar de pensar quantos mais combatentes de ponta não estão tendo seus talentos drenados pelo processo diabólico do corte de peso”

    Isso resume todo o absurdo que é o corte de peso nos dias atuais (sem soro e métodos de dopagem dos dias de outrora).
    Eu mesmo não me vejo tendo rendimento físico 100% no que quer que seja em jejum ou desidratado. Não que tb eu apoie um cara como Hendricks comendo até estufar e compita como um meio-pesado, mas fazer dieta disciplinando sua nutrição é completamente diferente de passar um período pré-luta desidratando o corpo.
    Portanto, creio que se, ao invés de pensarem no tamanho dos oponentes, pensassem em competir saudavelmente, com certeza seria uma forma mais viável de se tornarem bem-sucedidos.

  • bedotRJ

    O lance do Gastelum é que ele claramente não segue a alimentação ideal para seu porte físico. O cara é parrudo demais, pesado demais e tem bastante sobra. Isso explica a dificuldade com o corte de peso. Mas o ‘frame’ dele é mesmo de 77kg. O fato de ter vencido bem o já decadente Marquardt e o Kennedy com 37 anos, sendo 2 de ‘ring rust’, não quer dizer que ele deva ficar nessa categoria. A luta com o Magny foi uma amostra da dificuldade que ele terá caso tenha que enfrentar gigantes de 1,90m como o Weidman e o Rockhold. E contra um Romero ou um Jacaré vai faltar pujança (basta ver o 1º round da luta com o Kennedy prá isso ficar claro). “Ah, mas e o Robert Whittaker?” Apesar de pequeno para os médios atuais, ele deve ser uns 7cm mais alto e com considerável envergadura a mais do que o Gastelum. O ‘gap’ dele para os grandões não é tão elevado (e eu ainda acho que ele será meio-médio novamente no futuro). Em suma: o Gastelum precisa é tomar vergonha na cara, fazer reeducação alimentar, perder peso em off e tentar voltar à categoria que lhe é mais adequada. Mas, claro, como terá que fazer ao menos mais uma luta om 84kg, não custa nada ver até onde dá.

  • Silas K

    Charlinho é outro q deveria subir, acredito que ganharia muito em rendimento.

    • Carlos Portela

      Ele já lutou nos leves, perdeu para o Cerrone e Jim Miller.

      • Silas K

        Me lembro bem, mas era muito inexperiente na época e Cerrone é um meio médio comprovado, tanto é que está muito melhor nessa categoria de peso, não foi pros jurados nenhuma vez ainda desde que subiu. Nos leves Charlinho renderia mais ao meu ver, se mata muito pra bater o peso pena.

  • Silas K

    Fiquei impressionado com o tamanho do Shane Burgos, adversário do Tiago Trator no fds, o cara tem 1,80 e aparentava ser mais forte fisicamente que o Trator que tem 1,75m, certamente cortou pelo menos uns 15kgs pra lutar nos penas!

  • O lance é como já disseram nos outros comentários, a pesagem em si é um evento, e sendo um evento, deve ter lá seu retorno monetário.

    Pesagem no momento da luta também não acho que seria interessante, pois pode gerar alguns problemas momentos antes de começar a luta. IMO, acho que um evento de pesagem ora imprensa 6h antes da luta, ou um preshow 2h antes do evento, sei lá. Não acho que os lutadores passariam a lutar muitas categorias acima, pelo contrário, acho que eles iriam é sempre manter um peso bacana, uma boa forma, até fora de luta.

  • Claudio Gomez

    Que belo texto. Parabéns, cara.

  • magnuseverest

    Johny Hendricks é outro que precisa mudar de categoria.
    De resto prefiro que esse pessoal evite esse corte de peso,até por que fica complicado defender a cinta depois.

  • Judas Bode de Ravena

    teste……..

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