O (quase) inevitável choque entre Rousey e Cyborg

Lucas Carrano | 25/02/2014 às 23:32
ROUDA

Sara McMann: última vítima de Ronda

Em sua autobiografia, o mito Andre Agassi comenta um fenômeno que se passava sempre que se aproximava da vitória.

Segundo o ex-número um do tênis mundial, na hora do triunfo, sentia como se ele o atraísse – algo como se no atletismo a fita de chegada exercesse atração para com o corredor (pensando agora, faz muito sentido no caso de Usain Bolt).

Noto que tal magnetismo começa a se fazer presente quando o assunto é uma possível luta entre a campeã da categoria peso galo feminina do UFCRonda Rousey, e a brasileira, e detentora do cinturão dos penas do Invicta FC, Cris Cyborg.

Uma série de fatores externos têm se combinado e criado um ambiente extremamente propício para que as duas maiores referências do MMA feminino se encontrem, finalmente, no maior palco do esporte.

Como já foi dito aqui mesmo no Sexto Round, neste texto do Renato Rebelo, 2014 promete ser um ano austero para o Ultimate – e ainda temos atualmente mais um ingrediente nesta receita: a sucessão de lutas decididas pelos juízes.

Sem as principais estrelas, fora por lesão ou afastamento por tempo indeterminado, a responsabilidade de ser o grande nome do Ultimate recaiu sobre as costas de Ronda Rousey.

Neste condição, a musa encabeçou o card do UFC 170, segundo evento da organização em pay-per-view no ano.

O fardo, no entanto, parece estar sendo pesado para a campeã, que deu algumas declarações se mostrando preocupada com as vendas de PPV do evento (que perdeu o notório Rashad Evans em cima da hora) – e qual seria sua responsabilidade em um eventual sucesso ou fracasso na comercialização dos pacotes.

Eu tenho as minhas preocupações sobre o PPV. É um retorno muito rápido, o que significa que eu realmente não dei às pessoas a chance de sentirem minha falta. Está se encerrando um ciclo de dois PPVs enormes, o card do Super Bowl e o card de Ano Novo. E quando eu sou a atração principal, toda a pressão realmente recai sobre mim para entregar resultados – disse a loira na coletiva pré-UFC 170.

CYBA

Marloes Coenen: última vítima de Cyborg

Neste caso, uma ótima pedida, tanto para Ronda quanto para o UFC, seria justamente a luta contra Cyborg.

Isso porque, atualmente na organização, poucos combates soam tão atrativos, esportiva e comercialmente, quanto o duelo entre a brasileira e a norte-americana.

Um sucesso de vendas garantido e mídia espontânea assegurada entre os principais veículos de imprensa não-especializada do planeta.

Já que citei o aspecto esportivo, uma luta entre Rowdy e Cyba certamente seria batalha a ser observada com atenção. Um desafio muito maior do que a campeã tem enfrentado em suas lutas, muito por causa de sua qualidade, é bom que se diga.

Se Ronda mostrou contra Sara McMann sua tão comentada evolução na trocação, que apesar das garantias do técnico Edmond Tarverdyan ainda não tinha dado as caras, em Cyborg a campeã teria uma adversária de muito mais gabarito e potência no jogo em pé.

Não custa lembrar que, além de todo seu histórico, hoje Cyba detém, simultaneamente ao título de MMA do Invicta, o cinturão de campeã do evento de muay thai Lion Fight.

Com uma base olímpica de judô e suas “armbars” que já, literalmente, viraram marca registrada (presente inclusive nas camisas de sua equipe no TUF 18), Rousey se veria frente a frente com uma campeã mundial de jiu-jitsu (na faixa-roxa), medalhista de bronze no ADCC e atual faixa-marrom de André Galvão.

Some o equilíbrio supracitado ao fato de que hoje restam apenas duas adversárias de envergadura para Ronda limpar sua recém-inaugurada categoria: Cat Zingano e Alexis Davis.

cybogjiu

Cris rolando com Galvão

Para completar, a primeira vive um momento no âmbito pessoal e familiar, já que lidou recentemente com o suicídio do marido (o brasileiro Maurício Zingano) enquanto se recuperava de uma cirurgia no joelho.

Outros nomes que poderiam se apresentar para um title shot estão indisponíveis no momento, como Sarah Kaufman, que vem de uma derrota revertida em no contest, e Julianna Peña, que pouco pode fazer após o título do TUF já que rompeu três ligamentos do joelho durante uma sessão de treinos.

Mas se Agassi mencionou a atração exercida pela vitória, ela nem sempre se concretizava – principalmente quando um tal Pete Sampras, ou simplesmente Pete (como ele se referia), estava do outro lado da rede.

No caso de Cristiane Justino e Rowdy, alguns fatores podem ser os responsáveis por melar o confronto.

Primeiramente, há a questão do peso.

Cyborg atua como pena, com limite de peso até 66 kg, e teria que baixar para 61,2 kg se quisesse a luta.

Há pouco mais de um ano, seu ex-empresário Tito Ortiz afirmou que havia risco da brasileira morrer caso baixasse demais seu peso.

Dana White não se mostrou alheio à declaração de Ortiz e afirmou que quer ver a brasileira atuando como peso galo primeiramente antes de sequer pensar em contratá-la:

Cyborg tem que bater o peso e fazer algumas lutas em algum outro lugar e, se ela estiver saudável, nós podemos chegar a um acordo. Teremos que ver essa coisa de contrato e etc, porque o que ela disse sobre “morrer” se descesse de peso está registrado, mas eu estou aberto.

TITO

Coletiva mais constrangedora da história

Outro empecilho para o acerto, este já superado, era a presença de Tito Ortiz como empresário de Cris.

Embora negue com veemência sempre que perguntado, Dana White não consegue esconder que a presença de Tito o incomoda – e muito.

Não é segredo que a relação dos dois azedou ainda mais nos últimos anos, principalmente depois que o “Huntington Beach Bad Boy” deixou de ser uma grande fonte de renda para o Ultimate, e, ciente disso, o próprio Ortiz deixou o agenciamento da carreira de Cyborg.

Por fim, mais do que uma situação ou conjectura, a carapuça de Pete Sampras neste caso veste bem em uma figura humana: Dana White.

Por razões que vão de desacordos financeiros a problemas pessoas, o dirigente já não fechou lutas que “se atraíam” tanto quanto Ronda vs Cyborg – como, por exemplo, Fedor Emelianenko vs Brock Lesnar.

Vejamos como o careca se comporta nos próximos meses, principalmente sob a pressão do cenário que vem se desenhando para este ano na organização.

Assim, não estamos muito longe de descobrir se a força de atração exercida pela fita de chegada é forte demais para qualquer movimento contrário ou se o sonho de um combate entre Ronda Rousey e Cris Cyborg vai morrer na rede, como um voleio fácil na cruzada.

  • Tiago Paiva

    Ótimo texto, Lucas.

    Embora o Dana aparentemente não goste da Cyborg, ele ama presidentes mortos esverdeados em sua conta bancária, e é certo que essa peleja venderia mais que água.

    O problema maior seria, em minha opinião, o brusco corte de peso. Já foi divulgado em vários meios jornalísticos que a Cris não consegue bater o peso sem comprometer a sua saúde, o que me leva a crer em duas possibilidades:

    1) Fator Mike Dolce

    O cara simplesmente faz milagres. Não duvido nada ele conseguir fazer a Cristiane bater os 61 quilos cravados, já que no caso seria uma disputa de cinturão. Vindo do Dolce, não duvido de nada, ainda mais se ele tiver uma equipe médica especializada trabalhando em conjunto.

    2) Luta casada caso a Ronda abata todas da categoria (alá Aldo)

    Vejo a Ronda com alguns desafios a serem batidos nesta categoria, como a Alexis Davis, Amanda Leoa e Julianna Peña, porém quem sabe caso ela limpe sua divisão, podemos facilmente ver um combate casado entre ambas num peso de 63 ou 64 quilos. Quiçá poderá ser até um duelo inaugural para a criação de uma categoria nova, a dos penas.

    Abraços.

    • Leo Ferreira

      Dolce é responsável pelo corte de peso da Ronda, e eu acho meio difícil ele trabalhar para os dois lados por uma simples questão de interesse mesmo.

    • Malk Suruhito

      Cormier quase morreu cortando peso anteriormente, e desta vez conseguiu fazer o mesmo sem nenhum problema aparente. Acredito que a Crys consiga também (com ou sem Dolce – sem trocadilhos)

    • zagolee

      Dolce engorda… kkk!

  • Renan Trindade

    Algo me diz que o protecionismo do Dana vai evitar essa luta. De repente, a longo prazo é até mais rentável para eles ter uma Ronda monopolística do que faturar com a superluta e dps, de repente, a Cris campeã atrair menos atenção. Sei lá, só passou esse cenário na minha cabeça.

  • Caio Abreu

    eu acho realmente que vai ser uma grande pressão pra Ronda em relação ao ppv, pois com esse começo de ano promissor em relação a decisão dos juízes e a substituição do nocaute e finalização pelo desempenho dos atletas, deve diminuir um pouco a audiência dos cards.Em relação a Cris o curriculum dela dispensa comentários em relação se ela merece ou não essa luta.

  • Leo Ferreira

    Não é interessante pro Grana White ver o rostinho que ele escolheu ser representante do MMA feminino no UFC ser destroçado no cage pela assombrosa Cris Cyborg. Dana sabe que Rowdy não vai lutar por tanto tempo, pois ela mesmo já disse q vai se aposentar ao completar 4 anos de carreira, e até por conta disso pretende fazer com que ela lute 3 vezes em 2014. Ele sabe que a chance da loira inflamada acabar com a lataria toda amassada como aconteceu com Gina é grande, apesar da chance dessa luta terminar em mais uma finalização para americana. Ronda é fundamental para os planos de expansão do UFC, sua participação em filmes é valiosíssima para a organização pois expõe ainda mais a marca “de graça”. Se Rowdy não for mais campeã, isso tudo vai por água a baixo, pelo menos é a impressão que passa pela inconsistência no careca em fundamentar o veto à Cris.

  • Rubens Rodrigues

    Pelo menos na beleza a Ronda já tem um ponto a mais! HAHAHA
    Parabéns pelo belo texto.
    Grande Abraço!

  • Lucas Peixoto

    Boa xara. Sintetizando a la Rebelo….

  • zagolee

    Que texto massa do mestre Lucas fazendo alusão ao Tênis!

    1. O dualismo distinto e pragmático das partes confunde até os maiores fãs do MMA. Oras, Ronda diz querer esta luta com Chis e poderia fazê-la em uma luta casada na categoria de acima (ou combinada), mas não abre mão da atual categoria para realizar esta luta histórica. Do outro lado temos Chis Cyborg que quer muito esta luta, mas já disse que não é capaz de bater o peso da categoria por motivos de saúde…

    2. Na escola de Marketing aprendemos que tudo é marketing (feat Lex Luthor)… kkk! Imaginamos dois caminhos mesmo, tudo pode ser uma grande estratégia de supervalorização de ambas lutadores para um evento histórico ou apenas a supervalorização da campeã olímpica e a discreta discrepante fuga pela esquerda para não enfrentar Chis Cyborg… (O erro do voleio fácil na cruzada… kkk!)

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