Por que 2014 vem sendo o ano das decisões no UFC?

Lucas Carrano | 19/02/2014 às 05:11
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UFC 169: 10 decisões em 12 lutas

Após mais um evento com dez decisões e apenas dois combates encerrados antes do tempo máximo regulamentar, uma pergunta voltou à cabeça dos fãs de MMA: seria 2014 o ano das decisões no UFC?

Como não gosto de suspense, já começo este texto com a resposta: sim, seria.

Imbuído pelo espírito questionador tão típico dos jornalistas, me dispus a passar boa parte do domingo levantando os dados dos eventos realizados pelo Ultimate ano a ano.

O critério é simples: até o momento, tivemos cinco eventos em 2014.

Por isso, foram contabilizados as cinco primeiras noites de luta de cada ano a partir de 2001, com o UFC 30 – que marcou o início da “era Zuffa” na organização.

Antes disso, pelas mudanças de formato e escassez de torneios realizados, ficaria difícil contabilizar e, sinceramente, não acrescentaria tanto à estatística.

Em tais termos, nos últimos doze anos, 2014 foi o ano com o maior percentual de lutas terminadas em decisão, com 67%.

No extremo oposto está 2005, quando apenas dez das 44 lutas realizadas nos cinco primeiros eventos foram para a decisão dos juízes, o equivalente a 22,7%.

Mas é justamente nessa disparidade que reside a primeira possível explicação para o fenômeno.

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UFC mais longo da história: 2h53m

Em 2014, o quinto evento promovido pelo Ultimate aconteceu no dia 15 de fevereiro e ainda não chegamos sequer a 11% do número total planejado pela organização para o ano, estimado em 46.

Já em 2005, a quinta noite de lutas aconteceu no dia 6 de agosto, em um ano em que foram realizados apenas 10 eventos.

Em outras oportunidades, como 2004, cinco foi o total de eventos promovidos em todo o ano.

Com menos lutas, o nível dos atletas tende a ser maior, principalmente porque os principais nomes da época se repetiam em quase todas as edições.

Além disso, com menos oportunidades de trabalho, os atletas têm que mostrar melhor desempenho para garantirem seus empregos – e nada melhor que um grande nocaute ou finalização para impressionar o patrão.

Outra justificativa bastante plausível é o notório aumento no nível técnico do esporte, como um todo.

Ao longo dos últimos anos vimos o surgimento de atletas muito mais completos que seus antecessores, que muitas das vezes eram especialistas em um estilo e se viravam nas demais modalidades.

O que já se começa a ver hoje em dia é o aparecimento de uma leva de lutadores legítimos de MMA, atletas que já cresceram misturando as artes marciais.

Isso, é claro, culmina em um equilíbrio maior (praticamente, não há ninguém totalmente leigo num setor específico) e, consequentemente, na maior cautela dos adversários (às vezes, o medo de perder tira a vontade de ganhar).

Essa cautela excessiva também pode ser gerada pelo fato do UFC ser mais líder de mercado do que nunca.

Já que a grama do vizinho não é mais verde, lutadores acabam se expondo menos – com receito do facão de Joe Silva.

Mas, como prefiro suscitar questionamentos a apresentar respostas definitivas, deixo aos amigos do Sexto Round o resultado deste trabalho de pesquisa.

Gostaria de saber a opinião da grande comunidade do MMA, agora devidamente munida de tais dados, a respeito do aumento do número de decisões e quais leituras, as vezes até mesmo diferentes das já apresentadas, vocês fazem dos gráficos abaixo.

2011

2012

20132014

  • Ayrllys Allan

    Muito legal o levantamento Lucas, realmente todos os pontos abordados convergem para uma realidade que vemos hoje nos eventos, lutadores “preocupados” em não perder, antes mesmo de ganhar. mas como o draw no mma é quase nulo, alguém vai perder nessa conta. e acho que quem perde mais é a audiência, com cada vez eventos mais sonolentos, e de nível técnico baixíssimo. Eu já estou começando a me convencer que não vale a pena dedicar ali umas duas/três horas acompanhando card preliminar, uma pena.

  • David Carvalho Crosariol

    Realmente a quantidade de lutadores faz com que o preço de uma derrota se torne maior.
    Claro que com o aumento da qualidade técnica tornam as coisas mais equilibradas, logo, menos lutadores arriscando, sendo assim mais lutas terminadas em decisão.
    O UFC deve estar tentando melhorar isso, não no “Vallid mode” (onde é declarado que quem fica no evento são os lutadores que “vão para o arrebento”), mas vemos essa nova premiação e algumas declarações veladas do Dana. (Overen, Aldo e Lyoto)

  • Alexandre Matos

    Cabe reforçar que a grande maioria das melhores lutas da história do MMA acabaram decididas pelos juízes laterais. Eu particularmente prefiro muito mais assistir a um Lyoto Machida vs Gegard Mousasi, luta técnica até o talo, do que o nocaute rápido do Erick Silva no Takenori Sato ou uma luta unilateral entre Charles do Bronx e Andy Ogle. Eu teria ficado muito mais satisfeito se o evento em Jaraguá tivesse 12 Machida-Mousasi do que 6 Silva-Sato e mais 6 Do Bronx-Ogle.

    • Lucas Pereira Carrano

      Grande Alexandre,

      Se não tiver ficado claro no texto, que foi realmente mais curto porque já tinha gasto um tempo danado na pesquisa (rsrs), a gente reforça aqui. O objetivo não, nem de longe, tratar as decisões como algo ruim ou um problema que deve ser combatido. Mas simplesmente analisar e tentar entender por que cargas d’água há essa primazia pelas lutas terminadas em decisão, em detrimento aos nocautes e às finalizações.

      Agora, passando para o campo da opinião pessoal, confesso que prefiro um cenário onde há mais equilíbrio entre as possibilidades. Reconheço que, assim como disse, as minhas lutas favoritas quase sempre acabaram em uma decisão (se considerarmos só em 2013, tivemos: GSP vs Hendricks, Chandler vs Alvarez II, Jones vs Gustafsson, Pezão vs Hunt ou Melendez vs Sanchez, p. ex). Ainda assim, é bom também ver um nocautaço ou uma finalização precisa. Mas isso, repito, é gosto meu.

      Também preferi Mousasi vs Machida a Erick Silva vs Takenori Sato, mas acho que aí é mais uma questão de nível técnico. O japonês não justificou sua presença no octógono e se ele tivesse ficado 15 minutos ali contra o Erick não teria melhorado a luta, só a tornado ainda mais constrangedora.

      Abração, e sempre bom ter seus comentários por aqui!

  • FrankCastle

    Boa discussão galera!
    Estava vendo uma entrevista que o Demian Maia deu para o Terra e, nela, ele faz uma comparação com o futebol que, neste caso, achei interessante: Quando você pega dois times grandes, é difícil sair uma goleada. Da mesma forma, quando os lutadores são muito bons, a luta fica mais equilibrada. O que, não quer dizer que a luta será necessariamente ruim ou chata, muito pelo contrário. Podemos ter show de técnica e/ou coração em casos como GSP x Hendricks, Shogun x Hendo, Jones x Gustafsson, entre outros. E, acho que o aumento da estatística, também se deve um pouco por causa das lutas de 5 rounds sem valer cinturão. Pois, nestes casos, os lutadores tem que aguentar lutar todos os rounds, independente do resultado.

  • Mark Sgarbi

    Acredito que o resultado da luta está na escolha dos lutadores, quando se casa lutas com lutadores bons e estilos parecidos a luta acaba ficando mais técnica, e dessa forma indo para decisão, porém as vezes acontece o inesperado, por exemplo a luta do Viscardi, era uma luta que tinha tudo para acabar no 1 round, foi bem casada, porém a falta de gás e a cabeça dura do Musuke cooperaram para uma decisão.
    Além de tudo já escrito ali em cima, e por sinal muito bem escrito, talvez uma parcela de culpa está com o Joe Silva.

  • zagolee

    Mestre Lucas gênio, perfeitas observações!

    Lembram-se da história do MMA estar nivelado por baixo dito por um grande mestre e outro que disse que o jiu-jitsu estava mais vivo que nunca? Esta história sempre vai dar pano pra manga… kkk!

    Pois bem, na minha humilde opinião o MMA está nivelado por cima e bem acima… O equilíbrio residente é fruto da própria evolução do esporte! A quem diga que as regras não ajudam, oras, se adapte a regra parceiro…

    • zagolee

      Diga-se “Há quem diga…”

  • Jonatas Maciel da Silva

    mas e o podcast da semana vai rolar antes do evento da ronda?

    • Renato Rebelo

      Vai rolar depois do evento, feroz. Gravamos todos os domingos – com exceção daqueles em que eu estiver num evento do UFC (que foi o caso da última semana, no Fight Night 36 em Jaraguá do Sul).

      • Jonatas Maciel da Silva

        Entendi, bom trabalho para vc’s e parabéns pelo trabalho

        • Renato Rebelo

          Obrigado, meu camarada!

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