Chael Sonnen e Wand Silva: quando se perde as rédeas

Lucas Carrano | 11/02/2014 às 22:21
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Round 1 (clique na foto)

Sempre tive uma postura diferente do padrão, principalmente dos colegas de imprensa, quando o assunto é violência e esporte.

Muito provavelmente por ter passado meus dois últimos anos de faculdade debruçando-me sobre o tema.

Para produzir a monografia “Este jogo não é 1×1: a cultura e o futebol brasileiro por meio das capas de Placar”, meu amigo Renato (não o Rebelo, me refiro ao conterrâneo mineiro de sobrenome Mesquita) e eu nos aprofundamos na origem do conceito esporte.

Foi possível observar como a esportivização foi uma tentativa de civilização das práticas populares por parte da burguesia ascendente na Inglaterra Vitoriana.

Esse “meio-termo” veio por meio da tensão entre a reprovação das práticas pagãs – com base em um novo modelo que primava pela estética-, o bom gosto e o enorme vazio no lazer popular que esse novo panorama cultural gerou.

Ok. Mas esse bla-bla-bla teórico-acadêmico todo por quê?

Pra dizer que todo esporte tem a violência em seu cerne.

Em alguns casos, como o MMA, esta relação é mais direta e objetiva – em outros, é velada, mas jamais deixa de exisitir.

Mais do que isso: a violência está presente em toda e qualquer representação social.

Isso porque, como já dizia uma querida professora de filosofia, “não há outro ser na natureza, senão o homem, capaz de produzir violência; nada é mais humano que a violência”.

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Round 2 (clique na foto)

Antes que comecem as acusações de apologia, adianto que esta não é, nem de longe, minha intenção.

Assim como observo a relação intrínseca entre esporte e violência, reconheço os prejuízos relacionados aos comportamentos violentos.

E é justamente aí que reside o ponto chave da questão.

Certa vez produzi um bem humorado texto afirmando que a violência só seria banida dos estádios de futebol do Brasil quando todas as pessoas, inclusive os 22 jogadores e o trio de arbitragem, fossem proibidos de pisar ali dentro.

Tal figura de linguagem foi aplicada justamente por acreditar que nosso problema é controlar as situações e os prejuízos causados por ações violentas.

Basta observar o “sucesso” do atual modelo aplicado, que alia incompetência no controle de multidões, amadorismo na identificação dos envolvidos em atos criminosos e uma permissividade espantosa quando alguma prisão é efetuada.

A diferença com a Inglaterra pós-dossiê Thatcher, por exemplo, é gritante.

Os anglo-saxões seguem com alguns episódios tão lamentáveis quanto os ocorridos aqui abaixo do Equador, mas minimizaram os danos do hooliganismo e hoje têm as rédeas da situação.

Falando em deter ou perder rédeas, é este o tema do post desta semana.

O que aconteceu entre Chael Sonnen e Wanderlei Silva nas gravações do TUF Brasil 3 ilustra bem o que é uma situação sair fora do controle.

Mesmo antes da exibição do reality na TV aberta já se sabe que os dois chegaram às vias de fato no programa.

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Recado que já foi, oficialmente, por água abaixo (clique na foto)

Segundo Dana White, durante uma acalorada discussão, Wanderlei acertou Sonnen, que levou o rival ao chão e foi prontamente golpeado por um membro da equipe do brasileiro.

As cenas, segundo Dana sem precedentes no reality, representam uma marca indesejável para os treinadores.

Isso porque o TUF BR já respira com a ajuda de aparelhos, após uma segunda temporada que não empolgou e acabou empurrada para depois de Revenge, e um quebra-pau na TV aberta pode ser alvo fácil da patrulha do politicamente correto que domina o país – logo em temporada que tem potencial e apelo para ser um sucesso.

Você pode pensar: “Tudo bem, é só eles não passarem isso no programa editado” (como na altercação entre Renato Babalu e Daniel Sarafian, na primeira temporada, que só pôde ser vista na grande rede).

Ainda assim, a notícia corre e o exemplo fica.

Esta é a segunda grande questão a cerca do ocorrido: Wanderlei e Sonnen são exemplos ali dentro da casa.

São lutadores profissionais e consagrados, que se portam como mentores para atletas que buscam seu espaço na maior organização de MMA do planeta (e para uma penca de jovens que sonham em trilhar o mesmo caminho).

Quando se provocam e afirmam que vão canalizar toda a animosidade entre si para protagonizar um combate espetacular, Wand e Chael promovem seu combate no UFC 173 e garantem que ele seja mais lucrativo para todos – o UFC, eles próprios e os fãs, que se envolverão ainda mais com o espetáculo.

Quando saem no braço, agregam valores negativos (não ao camarote) à sua imagem, do evento e do esporte.

Lembrando que outros arquirrivais conseguiram manter o autocontrole em situações extremas durante o programa (Rampage e Rashad, Tito e Ken, Bisping e Mayhem, por exemplo).

Agora, lidar com esses prejuízos e minimizar a ocorrência de tais situações são trabalhos para Dana White e sua trupe, que não podem se omitir neste momento.

Não fiquei chocado. Aquilo tem sido uma bomba-relógio desde que eles chegaram lá. Sem dúvida foi a pior coisa que já aconteceu no TUF em mais de 20 temporadas. Nunca tinha chegado a esse ponto. Mas eu falei para eles: “Vocês, idiotas, querem lutar de graça? Ok, eu vou adorar não pagar vocês – explanou Dana em entrevista coletiva.

Um adendo: há ainda outro risco em toda a celeuma para Wanderlei Silva.

Chael Sonnen é um homem polido quando necessário e um comunicador fora de série.

Já o emotivo Wanderlei, a seu favor, no caso, tem apenas o ufanismo que pode inflamar o público contra o estrangeiro.

Não se deve duvidar que o norte-americano seja capaz de trabalhar sua imagem e, quem sabe, até se aproximar do público brasileiro, capitalizando sobre o episódio com Wand e fazendo bom uso do espaço que terá no programa.

Pode ser um prejuízo e tanto para o curitibano, que, pelo planejamento original, enfrentaria o “inimigo número um do Brasil”.

Por fim, sobre a longa e complexa discussão sobre violência e esporte, aos que ainda não leram, recomendo o ótimo texto publicado pelo Renato (desta vez sim o Rebelo) aqui mesmo no Sexto Round.

Uma análise precisa e resposta contundente ao texto de Zuenir Ventura na coluna do Noblat, no site do jornal “O Globo”.

  • Renan Trindade

    Confesso que a notícia dessa briga me animou bastante pra luta, mas tb sei que sou um fã hardcore que sabe discernir as coisa. Há de ter um cuidado com o que é exposto pras massas até pq o MMA, apesar do boom nos últimos anos, ainda está em estágio probatório no Brasil. Obs: parabéns pelo texto Lucas. Mt bom.

  • zagolee

    Eu tenho certeza que uma reflexão em cima da violência no esporte (e porque não na vida?) tem suas origens na incompreensão das desigualdades, nas incompatibilidades dos egos, no desequilíbrio das emoções ou simplesmente no velho e cego egoísmo… A verdade é que o tema pode ter infinitas interpretações sociais, assim como outro tema polêmico… a corrupção! Construir a lógica do entendimento da agressividade que gera a violência não é algo fácil de se fazer, talvez seja preciso desconstruir o que entendemos sobre “ser humano perfeito”, será? A fatídica e gritante evidência da violência exprime uma resposta que teve seus motivos ou bola de neve de motivos?

    Hoje, eu posso compreender um pouco sobre mim graças as artes marciais. Nela aprendi o respeito aos meus amigos de treino (e a todas as pessoas), aprendi a reconhecer meus defeitos e principalmente minhas qualidades (que nunca soube ser capaz até então), aprendi com as poucas vitórias e muito mais com as trocentas derrotas, aprendi a estender a mão para ajudar (quando muitas vezes na vida me negaram esta ajuda).

    A popularização do esporte MMA e sua possível violência serão constantemente alvo de críticas, o fato é que cada um enxerga o que quer ver…

    Ótima abordagem Sr. Lucas, inclusive pode aprofundar o tema em outras oportunidades!

    • Lucas Pereira Carrano

      Cara, li uma autoentrevista sua há umas semanas e só tenho um comentário a fazer: YaoMing.jpg!

      hahahahaha

      Passei mal de rir.

      • zagolee

        Mestre Lucas “Iscaiualquer”, quando as pessoas descobrirem que rir ainda é o melhor remédio o mundo será sempre um lugar divertido para viver… kkk!

        Vocês vão me banir aqui também? (risos)

        • Lucas Pereira Carrano

          Se amanhã eu descobrir que você adulterou o calendário e hoje foi primeiro de abril, porque a verdade é que não vai ter nada de Chael Sonnen e Wanderlei no Brasil, vou pensar a respeito….

          Peraí, não, vou rir demais. Até a barriga doer! hahahahaha

          Abraço.

          • zagolee

            Mestre Lucas, vamos rir juntos da vida… kkk!

        • zagolee

          KEEP TROLLING, JOHNNY TROLLER.

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  • Vitor Torre De Avila

    Ea Lucas, se tiver um link do seu trabalho seria legal que você postasse…sempre tem uns malucos(tipo eu) que se interessam por isso…

    Pra somar, tem um texto do Prof. Henrique Carneiro que trata da violencia e sua incorrencia nos duelos migrando para os esportes, se quiser dar uma olhada é bem bacana

    http://blogconvergencia.org/blogconvergencia/?p=1245

    Quanto a briga, acredito que, se devidamente editada, tem potencial de atrair interesse para a luta, embora agregando uma imagem negativa… o Dana sempre destaca como algo POSITIVO para as lutas quando os atletas “REALMENTE NÃO GOSTAM UNS DOS OUTROS”, para usar as palavras dele….por outro lado, não sabemos o que aconteceu DEPOIS da briga…..vamos ter que esperar pra ver

    • Lucas Pereira Carrano

      Vitor, não tenho o trabalho publicado em nenhuma plataforma online. Mas se quiser uma cópia, basta me chamar no Twitter (o link fica ali na assinatura da matéria).

      Abraços!

  • Bruno Tanuri

    Pode ser uma visão deturpada minha, mas acho que no fundo o Dana torce para que isso ocorra. Esse tipo de violência é basicamente o que move um reality show que prefere mostrar o que tem de pior no TUF. Se pegarmos as outras edições veremos que eles dão quase nenhum espaço para mostrar o treinamento, preparação, perda de peso, etc… em contra partida mostram em demasia as brigas, intrigas, brincadeiras e etc..
    Se pegarmos o reality que o proprio wand fez ( não recordo o nome agora ) era muito mais legal, pois mostrava basicamente a vida do lutador que está buscando o seu espaço ao sol… com um foco muito maior no treinamento do que nas picuinhas.
    Conclusão é… o DW e os Fertitas devem estar dando graças a deus que os dois sairam na tapa durante a gravação, e vai se confirmar se colocaram no ar. Abraços!

    • zagolee

      Também acho… Ótima observação!

  • David Carvalho Crosariol

    Ótimo texto.

    Nós que acompanhamos MMA temos uma visão, porém estamos em uma fase onde essa “construção” da imagem é feita para a “mass media”.
    Temos que jogar essa batata nas mãos do Dana, pois ele sabia (ou achava) muito bem o que estava fazendo ao colocar um Tecnico Stand up comedy e profissional em construção de imagem Sonnem com o Cachorro louco Wand.

  • Eduardo Diogo

    Concordo com o texto, porém,
    duvido que seja realmente a visão do Dana ou dos organizadores do Tuf Brasil,
    em edições anteriores, quem se lembra de ter visto técnicas de treinamento,
    palavras incentivadoras dos treinadores, trabalho de corner que visava mostrar
    para o atleta os seus erros e o caminho para a vitória. A intenção de uma
    organização que junta um bando de lutadores, rivais e na expectativa da
    conquista de um mesmo objetivo é o caus e como o texto mesmo diz “não há
    nada mais humano que a violência” em um reality como é o TUF não tem como
    buscarmos grandes exemplos de esportistas.

  • raimundo

    axo q seria melhor c abolicem o mma ou daqui uns dias a unika coisa q sera permitido vai ser um beijo e um abraço. os karas treinam duro o ano ineteiro, treinan p karamb,os fãs pagam karo p ver o evento ai xegam la e o arbrito acaba a luta por um soko ou dois palhçada os karas fazem aulas d lutas mais nao pode maxucar kkkkk e brinkadeira ate o futbol tm mais lezoes q o mma c alguem poder m esplikar qual é a logika eu agraceço, os karas vao p bater uns nos outros e ai nao pode ter nenhum ferimento seria komo falar p um atacante faz o gol mais nao xuta a bola!!!!

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