Análise técnica: Aldo x Lamas dos pés à cabeça

Fernando Cappelli | 30/01/2014 às 22:39

Neste sábado, na co-luta principal do UFC 169, José Aldo colocará em jogo não só o cinturão do peso pena, mas também quase nove anos de invencibilidade.

Quem tentará a sorte é o duríssimo Ricardo Lamas, que vem de quatro vitórias consecutivas.

Teria o americano bala na agulha para chocar o mundo ou ele será mais um a virar estatística nas mãos do “Scarface”?

Setor a setor, vamos tentar entender como esses dois cascas-grossas se encaixam:

Trocação (por @fercappelli):

Ricardo Lamas

UFC on FX: Hioki v Lamas

Lamas indo do corpo à cabeça de Hioki

Aldo terá pela frente no UFC 169 um lutador solto e do tipo que se inflama com trocas de golpes mais francas.

Lamas pode não ser lá um dos caras mais técnicos da categoria, mas tem grande poder de ataques, com jabs funcionais e bom trabalho com chutes da perna da frente (da posição de luta).

Mesmo apresentando algumas brechas na aplicação de golpes mais pesados – abre demais a guarda ao disparar cruzados, por exemplo -, tem coragem para aceitar trocas mais avassaladoras de golpes contra um dos melhores strikers do esporte.

O grande diferencial para o norte-americano reside no fato de que também pode atuar de forma mais segura, usando os recursos em pé para engatilhar alguma queda de seu arsenal e trabalhar o ground and pound.

José Aldo

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Chinela cantando em Faber

Júnior é um dos melhores strikers do MMA na atualidade.

A capacidade de improvisar e a habilidade de mesclar combinações eficazes de socos com chutes ou joelhadas do campeão dos penas do UFC impressionam pelo grau de eficiência e precisão.

Os low kicks configuram uma das principais bases ofensivas, com aquele timing ‘Ernesto Hoostiano’ de aproveitar um ‘trilésimo’ de segundo para atingir e desequilibrar oponentes.

O grande lance dos chutadores mais sólidos obviamente reside nos fundamentos da distância.

Ou você se mantém longe o bastante para não ser pego com alguma patada, ou perto o bastante para limitar o uso das pernas por parte do adversário.

O MMA é passível o tempo todo de ir para o grappling.

Portanto, exige grande perícia nas entradas de média distância, geralmente a mais letal para se aplicar chutes.

O campeão tem usado as seguintes variações com mais frequência:

1 – Após fintar direto de direita, entra com um hook (gancho) – ou outro soco – de esquerda e executa o chute com a direita, que atinge o adversário na coxa durante a movimentação (recuo ou lateral) e o desequilibra.
2- Fechar a distância com duas ameaças de chute, para assustar o oponente, ‘driblar’ o bloqueio e golpear no timing correto.
3 – Antecipar a ação do adversário para mandar o chute isolado e ‘brecar’ a intenção de ataque.
4 – Usar os chutes isolados como início de ataques, condicionando o adversário a se preocupar e, com isso, abrir a porta a outros golpes médios ou altos.

Oriundo do jiu-jitsu, Aldo começou na arte do striking de forma adaptada ao MMA.

A melhor saída para tentar vencer o padrão em pé do brasileiro é tentar cravá-lo com as costas no chão.

Mas abalar seu centro de gravidade tem sido o grande problema.

Com boa movimentação evasiva, Aldo bloqueia movimentos de queda e desloca o quadril com eficiência para se livrar de enrascadas.

Além disso, pode tirar proveito de investidas contrárias com rápidas joelhadas.

De tempos em tempos, bons lutadores nos dão lições práticas de como é importante usar o recurso ofensivo mais básico do boxe: o jab.

Na superluta contra Frank Edgar, Aldo pontuou e castigou o adversário com golpes de esquerda bem angulados, ora isolados, ora seguidos de cruzados ou diretos de direita em plena movimentação lateral ou recuos.

Veredicto

Em termos gerais, o padrão de luta em pé de Aldo, sedimentado por atuações bombásticas neste quesito, é o grande desafio a ser vencido por qualquer adversário.

Ele sempre estará em total vantagem neste aspecto. Até que alguém prove o contrário.

Grappling (por @renatosrebelo):

Ricardo Lamas

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Erik Koch passando um perrengue

O filho de cubano com mexicana é mais um daqueles wrestlers colegiais talentosos que se apaixonou pelo jiu-jítsu brasileiro.

Hoje, Lamas é faixa-preta de Daniel Valverde, baiano campeão mundial no-gi (sem quimono) em 2007 e um dos treinadores da equipe de Rodrigo Minotauro no TUF 8.

A exemplo de nove entre nove atletas oriundos da luta olímpica, o representante da MMA Masters curte jogar por cima, passando.

Pra mim, sua maior virtude no chão é usar com eficiência o ground and poud para abrir ferrolhos e, a partir daí, avançar posições e/ou encaixar finalizações.

Contra Cub Swanson, Lamas tomou um atraso em pé no primeiro round, mas teve serenidade para achar o tempo da queda, amassar o bife e arrochar o katagatame.

Não se enganem pelo favoritismo.

Se Lamas plantar as costas de Aldo no chão, será tarefa hercúlea levantar.

É aí que ele brilha.

José Aldo

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Aldo fazendo guarda contra Hominick

O jiu-jítsu do faixa-preta de Dedé Pederneiras, ativo nos circuitos estaduais/nacionais até a faixa-marrom, é um tanto quanto subestimado no MMA pelo simples fato dele não precisar recorrer a ele.

Além da trocação de nível mundial, José Aldo traz consigo uma das maiores taxas de defesa de quedas da história do UFC: assustadores 92%.

Aldo só aposta em “double legs” quando quer cadenciar a luta (como vimos contra Mark Hominick e Kenny Florian) ou tem algum problema físico (pé quebrado contra o Zumbi Coreano).

Se cair por baixo, ele até dá alguns botes de armlock e triângulo, mas acaba logo fugindo o quadril em direção à grade para fazer o “wall walk” e voltar de pé.

A prova de que no MMA seu jiu-jítsu serve mais para defesa/posicionamento/casos de emergência é que, em 24 lutas profissionais, apenas Luiz de Paula, no longínquo Shooto 7 (2005), batucou para o atual campeão dos penas.

Com ele é assim: caiu de costas, levanta. Caiu por cima, desce a marreta.

Veredicto

É bem capaz que sequer vejamos agarra-agarra nessa luta.

A manauara é dono de um mecanismo de defesa de quedas no estado da arte e Lamas terá que sobreviver dois, três, quatro rounds de trocação até que Aldo esteja menos arisco para evitar o solo.

O americano tem gás pra executar esse plano? Tem.

Mas, será que ele estará fisicamente apto após mais de 10 minutos de bordoadas na coxa e combinações de mão do craque do muay thai?

Acho que o duelo será resolvido em pé…

Concordam com nossos pontos de vista, amigos?

Abraços.

  • Vitor Ramos

    É difícil o lutador que como o Hominick consegue derrubar depois de sofrer um atraso estilo José Aldo! Não é fácil aplicar um Double sendo que uma perna sua está completamente roxa!

  • Renan Trindade

    As análises do Sexto Round são de longe as melhores dos sites brasileiros. Parabéns!

    • Renato Rebelo

      Muito obrigado, irmão!

    • zagolee

      Verdade!

  • Mark Sgarbi

    Concordo … principalmente com as análises da luta co-principal.

  • Cristiano

    Não sei não…Aldo chegou sério e continua com a cara fechada. Será que ele teve alguma lesão?

  • Danyel P Lorenzo

    Comentar uma análise dessas é chover no molhado, vcs dão show, arrisco em dizer que SextoRound deveria ir p TV em um futuro bem próximo. Sem puxasaquismos mas o site é inovador com análises bem elaboradas montadas c uma linguagem divertida sem muito bla bla bla. Sobre a luta, eu não acredito que a luta passe do 2rd. Vejo o Lamas dando muita sopa p azar qndo investe na trocação franca, a lucidez e calma do Aldo vai encontrar a brecha p Nocautear. Abração e parabéns pelo trabalho.

    • Renato Rebelo

      Bondade sua, meu camarada. Muito obrigado msm!

  • David Carvalho Crosariol

    Cada dia gosto mais do Sexto.

    “Já estava cansando de ficar acompanhando em portais com comentários do tipo:
    Isso não é esporte, é rinha humana”..

    Parabéns Rapaziada!

    Palpite: Para vencerem o JA só eliminando seu foco mesmo, pois ainda não
    conheço no MMA atleta mais focado do que ele. Quando junta José Aldo e Dedé
    Pederneiras tenho a impressão que ambos são um só no octógono. Depois do Aldo,
    vem o Barão, não é a toa que falo de dois campeões.

  • Leo Ferreira

    Olha, eu acredito que eu tenha visto todas as lutas do Lamas no UFC, não vi quando ele tava no WEC, mas o que dá pra dizer é que no jogo em pé fica muito ruim pra ele. Basta lembrar que além de perigoso ao desferir suas combinações, Aldo tmb tem um jogo de esquiva muito bom e mostrou que mesmo com um pé machucado, se vira bem e sabe se impor no octogono. A chance de Lamas é controlar todos os rounds no ground-and-pound, só um infortuno tira a cinta do manauara!

  • Paulo

    Análise sensacional, voces deveriam ser os juízes laterais do UFC kkkkk show de bola!

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