Sobre arbitragens polêmicas e a subjetividade do MMA

Lucas Carrano | 29/01/2014 às 23:41
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“Nunca deixe nas mãos dos jurados” estampado na casa do TUF

Um amigo gosta de dizer que, enquanto existir futebol, vamos continuar convivendo com o frango do goleiro, o gol incrivelmente perdido pelo centroavante e o roubo do juiz.

Este último item, talvez seja ainda mais recorrente, pelo menos nas discussões e polêmicas em torno do esporte mais popular na terra “brasilis”.

A principal explicação pra isso vem justamente da essência do jogo e do seu conjunto de regras – onde especificamente se inicia o paralelo entre o pé-na-bola e as artes marciais mistas.

Tanto o futebol quanto o MMA são esportes extremamente dinâmicos e que possuem em comum um aspecto em parte de suas regras: a subjetividade.

É a diferença, no caso do esporte bretão, do impedimento e da falta.

É possível aferir se o jogador está à frente do último marcador no momento do lançamento, mas jamais avaliar objetivamente se o zagueiro teve a intenção de colocar a mão na bola ou atingir o veloz atacante naquele carrinho.

Não existe câmera, tira-teima ou recurso tecnológico que compense isso.

É por isso que existe a figura arbitrária (que não por acaso se chama árbitro) que delibera sobre os lances da partida.

Outros esportes, como o tênis, não vivem esse dilema.

No jogo da bolinha amarela, ou a bola pinga dentro ou pinga fora.

Não existe “foot fault” (falta por pisar na linha durante o saque) perdoado por não ser intencional ou jurados que emitem sua opinião sobre uma bola que deu dois piques na quadra do adversário.

É claro que os erros existem e alguns lances geram dúvidas.

Mas, quando há recursos disponíveis, basta rever a jogada e cravar se houve erro ou não, sem caber discussão.

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Bendo x Thomson: última luta da discórdia

O MMA flerta com a objetividade entre os gongos (embora caiba o julgamento do árbitro central parar uma luta e preservar a integridade física do lutador, por exemplo), mas, se não houver um desfecho antes do prazo programado, caberá à subjetividade conferir um resultado para o combate.

A sentença é a média de três opiniões, três visões diferentes sobre o mesmo fenômeno, apesar de haver parâmetros e critérios que norteiam a observação.

Não fosse assim, bastaria que um software que, interligado ao Fightmetric, traduzisse os “scouts” da luta em um resultado.

Já que foram citados os critérios, eles também não são universais ou, muito menos, específicos.

Apesar da problematização proposta, não se trata aqui de pregar a soberania de um modelo sobre o outro.

O esforço é justamente entender o quão complexa é a questão e, principalmente, compreender que muitos desses fatores são responsáveis por diversas das particularidades que tornam o esporte tão fascinante.

No último sábado (25), em Chicago, mais um capítulo da história das polêmicas envolvendo a arbitragem no MMA foi escrito – e acredito que a tendência é que isso ocorra cada vez mais, se observado o aumento no volume de eventos e da notoriedade adquirida pelo esporte nos últimos anos.

Ben Henderson venceu Josh Thomson por decisão dividida e conquistou nada menos do que seu quarto triunfo em uma decisão questionada no UFC – os outros três foram contra Frankie Edgar (duas vezes) e Gilbert Melendez.

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Um feito e tanto, já que o número representa 50% de suas vitórias na organização.

Neste caso, é fácil perceber que os problemas surgiram da falta de unificação dos critérios.

Isso porque é inconcebível que Sal D’Amato tenha os mesmos parâmetros de seus companheiros, que viram uma luta parelha e optaram por vencedores diferentes – ao contrário de Sal, que avaliou a atuação de Henderson como dominante e lhe viu como vencedor em quatro dos cinco assaltos.

Mesmo com os inconvenientes, a regulamentação por parte das Comissões Atléticas (órgãos governamentais) ainda exime o UFC de culpa nos episódios mais polêmicos – e, mais do que isso, aproxima a organização dos fãs já que quase sempre o presidente Dana White se posiciona a favor das principais contestações do público.

Por outro lado, a autorregulamentação completa (ela só acontece fora dos EUA e todos critérios antidoping e de julgamentos de lutas são os mesmos das comissões) poderia representar uma dor de cabeça extra, já que a credibilidade diante de um possível choque de interesses estaria em xeque.

O que resta, então?

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Cachorrão: jurado em Nova Jersey

O MMA já está consolidado o suficiente para possui uma contagem própria, que esteja mais afinada com todas as singularidades deste esporte.

Isso seria uma mudança drástica, que exigiria um esforço conjunto dos principais eventos e um clamor popular forte – além de alguns milhões de dólares em lobby.

A ideia vai se tornando mais impraticável ao se observar o teor da relação do UFC com seu principal concorrente nos Estados Unidos, o Bellator.

Mesmo com interesses em comum, é difícil pensar em Dana White e Bjorn Rebney dividindo uma causa, naquele clima de BFFs.

Além disso, os órgãos governamentais de regulamentação são extremamente burocráticos / conservadores e pouco suscetíveis à transformação de suas diretrizes – embora em uma esfera distinta, basta observar o quão arrastada é a cruzada pró-MMA em Nova York.

Uma alternativa menos radical, e mais provável, é a revisão dos quadros técnicos das comissões e o investimento em capacitação dos juízes.

Determinações mais precisas sobre os critérios de avaliação também diminuiria a discrepância nos resultados apresentados.

Como se trata de uma pauta relevante para ambas as partes, as Comissões Atléticas e as organizações poderiam atuar juntas e potencializar seus esforços.

A presença de ex-lutadores no time de jurados também tem sido vista com bons olhos por parte dos fãs e, principalmente, a imprensa especializada.

No UFC 169, o brasileiro Ricardo “Cachorrão” Almeida será um dos três juízes laterais nas disputas de cinturão de José Aldo contra Ricardo Lamas e Renan Barão contra Urijah Faber.

A empolgação tem sido tamanha que, aparentemente, subiu à cabeça de Roy Nelson.

Recentemente, o “gordinho” pleiteou a vaga de Keith Kiser, à frente da Comissão Atlética do Estado de Nevada.

Bom pro esporte? Nesse caso específico, Dana White – que nunca teve relações amistosa com Nelson-, discorda:

Que idiota! Deixe eu te dizer, se ele concorrer a uma vaga na Kinkos (papelaria), ele não consegue o emprego. Imagina na Comissão Atlética de Nevada… Ele quer aparecer.

Seja para chamar a atenção ou não, os anos vão dizer as transformações que o envolvimento de atletas e ex-atletas no esporte vai promover.

  • Renan Trindade

    Acho q o + urgente é renovar o quadro dos jurados. Depois, com mais tempo partir pra um sistema próprio. No mais, concordo com a síntese do Lucas.

  • Danyel P Lorenzo

    O esporte ainda está em desenvolvimento, como acontece no Boxe, as comissões mais atrapalham do que ajudam, devido a sua burocracia e a forma de pensar ultrapassada de seus idealizadores. Os atletas tomando partido disso é uma evolução e tanto, alguém que já esteve lá dentro será muito mais criterioso do que os juízes até então. Obviamente é tudo uma questão de ponto de vista, assistir ao evento pela TV com “trocentas” câmeras e replays em slow torna os espectadores muito mais críticos do que o juízes que tem apenas dois olhos e um lance. Mas independente dos juízes , as polêmicas vão continuar.

  • Leo Ferreira

    Eu acho que o lutador realmente nao pode deixar a luta nas maos dos juizes e pq? Pq eles são seres humanos meu filho, pelo que eu sei, cada um fica num canto do cage e nao parece que eles tem acesso à replay, mas não é dificil de se imaginar que nem sempre o angulo de visão de um ou de outro nao seja favoravel durante todo combate, e numa luta parelha, cada um pode ver uma coisa mesmo… Acontece, sao seres humanos que nao tem condições de guardar na memoria todo tipo de golpe aplicado na luta pra gabarita o fightmetrics.com. Agora, dando um alt-tab no assunto, suspeito que a Zuffa encontrou a formula do sucesso com o TUF Nations, pq os caras estão levando o patriotismo a serio demais e as duas primeiras lutas foram fooooodas, a segunda foi uma guerra daquelas.

  • dalton

    isso acontece por interesses fora octógono, cuja intenção e casar lutas, ou simplismente uma segunda luta, vender, ganhar dinheiro, não precisa de ser nenhum especialista pra definir oque acontece em algumas lutas, como: GSP E JHONY HENDRIX, ou BEN HENDERSON E THOMSON, desmerecer todo esforço que o atleta impôs em treinamento por interesses de terceiros, ou quartos sei la.

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