Flashback: a pioneira Miesha
Tate se despede em boa hora

Fernando Henriques | 17/11/2016 às 22:17

No último sábado, perante uma das maiores plateias da história Madison Square Garden, a ex-campeã do Strikeforce e do UFC Mieshe Tate anuciou sua aposentadoria após 10 anos de MMA.

Último ato de Miesha: felicitar a pupila

Último ato de Miesha: felicitar a pupila

Com apenas trinta anos, Miesha é uma das pioneiras do esporte nos EUA e aproveitou o histórico UFC 205 para sair de cena. É claro que a sufocante derrota para uma antiga pupila de TUF (Raquel Pennington) pesou para decisão, conforme revelou a lutadora a Joe Rogan ainda no octógono.

Não foi um anúncio planejado, porém, se confirmado, o stop vem em boa hora.

Do ponto de vista do fã, talvez não seja. É certo que Miesha tem condições de fazer luta dura com mais a metade da categoria e vencer, se bem treinada e motivada.

Porém, o problema vem exatamente na motivação. Como o próprio anúncio e a luta em si demonstraram, ela não parece nutrir o mesmo “tesão” de outrora. E como estamos falando de um esporte tão complexo, que tanto exige, é preciso “querer muito” para que a mágica aconteça.

Não quero lutar mais Bryan, não me importo o suficiente”, disse Miesha ao namorado Bryan Caraway ainda dentro do octógono.

Lutar profissionalmente é uma coisa. Estar no topo de sua categoria no maior evento do mundo é algo totalmente diferente. E se você é um lutador que se cobra e exige bastante, como parece ser o caso da esforçada Miesha, que já alcançou o posto mais alto em seu peso, não basta apenas participar.

Ciente de que uma nova escalada ao topo ficou muito distante com essa derrota para uma lutadora que acabou de abandonar o status de “iniciante”, nossa querida Cupcake preferiu se retirar e descansar, ao virar escada…

Há 10 anos...

Há 10 anos…

Trinta anos é, para muitos, a idade do auge. Mas se você é alguém que luta em eventos relevantes há praticamente 10 anos, a lógica é outra.

Conor McGregor, por exemplo, tem três anos de UFC e, antes, lutava nos confins da Inglaterra para meia dúzia de gatos pingados.

Já Dona Cupcake, há três anos, estreava no UFC com o peso de ser ex-campeã do Strikeforce, número do 2 do peso galo feminino.

A mecânica para ela será outra (José Aldo também faz isto há muito tempo e não à toa já ouvimos dele um anúncio de aposentadoria).

Tendo estreado profissionalmente em 2007 (em 2006 fez duas lutas amadoras), no famigerado Bodog Fight (evento pioneiro na comercialização do MMA online, onde também estreou Roger Gracie), ainda por cima num torneio com duas lutas na mesma noite, Miesha, mesmo nova, é uma das pioneiras e co-responsável, ao lado de outras tantas guerreiras, pela popularização do MMA feminino.

Aliás, quantas meninas que lutam hoje no UFC podem dizer que lutaram duas vezes na mesma noite?

A namorada de Brian Caraway desde o começo marcou suas lutas com muita raça e força de vontade, além de um wrestling apurado. Quase um Frankie Edgar de saia.

Iniciante, Miesha, que perdeu na final do torneio do Bodog que marcou sua estreia, percorreu o parco circuito feminino americano em meados da década passada até chegar ao Strikeforce, evento de maior porte.

No topo do Strikeforce

No topo do Strikeforce

Na verdade, sua terceira luta já foi no Strikeforce que confrontou pela primeira vez Josh Thomson e Gilbert Melendez, em luta épica.

Acontece que o evento, em 2008, ainda não havia firmado sua categoria peso galo. Miesha só voltou para lá dois anos e cinco lutas vencidas depois. Mais experiente, enfrentou outra pioneira – Sarah Kaufman – numa luta dura, em que perdeu por decisão.

Miesha não deixou-se abalar e encaixou uma sequência de três vitórias no evento que possibilitou a disputa de cinturão contra a duríssima campeão holandesa Marloes Coenen, que luta no peso de cima também e já deu trabalho, pasmem, até para Cris Cyborg.

À época, 2011, a ex-wrestler unidimensional já havia incorporado o jiu-jitsu ao seu jogo e foi por meio dele, com um katagatame, que conquistou o cinturão do Strikeforce.

Seu grappling, porém, não foi páreo para a novata que lhe desafiaria na sequência. Nova no MMA, porém experiente no judô, a ex-gordinha Ronda Rousey desceu do peso pena para o peso galo e fez um escarcéu.

A derrota para a rival Ronda

A derrota para a rival Ronda

O cinturão, assim, trocou de mãos de forma trágica, pois a guerreira Miesha precisou ter seu braço deslocado para ser retirada de combate. Foi histórico, um dos momentos mais marcantes da história do MMA feminino, que marcou o início do reinado arrasador de Ronda Rousey.

Foi, também, o start na rivalidade entre Ronda e Miesha, tão bem capitalizada pelo UFC.

Miesha recuperou-se contra Julie Kedzie, ainda no Strikeforce, e depois da compra do mesmo pelo UFC viveu novo momento dramático, quando foi nocauteada por uma joelhada certeira de Cat Zingano no terceiro round, depois de vencer os dois primeiros.

Parecia um atraso e tanto em sua carreira, projetando a revanche com Ronda para mais longe. Porém, uma lesão de sua algoz Zingano a colocou de volta ao jogo, nas cabeças.

A luta com Zingano valia vaga de treinadora no TUF 18, contra a campeã Ronda Rousey (migrou do Strikeforce para o UFC com o título), e posteriormente uma disputa de cinturão. Era sabido desde o começo que a moça apelidada de Cupcake, já com boa popularidade, era a favorita da Zuffa para a vaga.

TKO de Zingano

TKO de Zingano

Porém, precisava merecê-la dentro do octógono.

A vitória de Zingano foi inesperada, mas sua lesão, grave, também. O curso da história de uma das mais pesadas rivalidade do MMA estava corrigido.

O TUF 18 ficou marcado pelas duras provocações de ambas as moças, com destaque negativo para Ronda, que exagerou e fez com que todo mundo torcesse, em vão, por Miesha na revanche.

Lembro-me até agora do som da torcida quando Tate ia para cima e conseguia alguma vantagem, no co-main event do UFC 168. Ela mostrou muita força de vontade naquela noite e foi, novamente, uma guerreira.

Mas Ronda mostrou que, no grappling, ainda era superior e manteve seu cinturão.

Com 0-2 no UFC, Miesha precisou voltar ao final da fila, apesar do nome que tinha, e enfrentou de Rin Nakai a Jessica Eye para merecer novamente uma disputa de título, graças ao destronamento de Ronda.

Holm: o ponto alto de Miesha

Holm: o ponto alto de Miesha

Entre a primeira disputa e a nova, que se daria contra a striker ex-campeã mundial de boxe Holly Holm, quase três anos, permeados por quatro vitórias por decisão que marcaram a evolução de Miesha no boxe e na parte estratégica.

Contra Holm, que havia quase matado sua rival Ronda Rousey no octógono, Tate era zebra. Ciente disso, lutou com inteligência e cozinhou bastante a luta em busca de oportunidades para encurtar, derrubar Holm e fazer seu jogo.

No segundo round, ela conseguiu e quase encerrou a luta ali. No quinto, em sua última chance de vencer, após perder três round, ela conseguiu novamente e não desperdiçou a chance.

Com um mata-leão histórico, Miesha conquistou também o cinturão do UFC. Entrou para história, ainda que tenha perdido logo na primeira defesa (para Amanda Nunes), como no Strikeforce.

E tudo isso – Holm, Amanda e aposentadoria – em 2016. Baita ano agitado. Parece loucura pensar que Miesha sai de cena poucos meses após ter alcançado o lugar mais alto da categoria, o auge, após vencer a algoz de Ronda Rousey em uma luta épica.

Mas este é o MMA, esporte aonde os estilos ainda fazem as lutas.

E se você duvida da decisão da ex-campeã, deixo aqui a frase dita por ela a Dana White, quando este pediu para que fosse para o hospital após a luta com Raquel Pennington:

Vai se foder, não trabalho mais pra você”.

  • Anderson Tomaz

    Não tenho nada contra a Miesha, não me levem a mal, mas que ela andou cagando pela boca, ah isso andou…
    Antes mesmo da luta com a Amanda, logo depois de ganhar o cinturão no ultimo round, ela já vinha fazendo pouco das adversárias… Até tirar a Leoa pra nada tirou ”pré casando” lutas inviáveis com Cyborg, Ronda em ”NY”…

    Nada contra a aposentadoria dela, de forma alguma… Ela (e quem acompanha o trabalho dela) é quem deve saber o momento de parar ou não. Só não consigo respeitá-la como lutadora quando há 6 meses atrás (quando estava por cima da carne seca) destilou provocações infames contra a Ronda no maior estilo ”ela deveria se aposentar… ela não tem mais gana… deveria casar-se e ter os filhos de Travis”, e 6 meses depois… guess what? Ronda se prepara pra disputar o cinturão da categoria enquanto Miesha se aposenta depois de uma atuação vergonhosa contra um cordeiro sacrificial que a organização deu apenas pra ”levantar sua bola”

    Tirando a beleza e o carisma, numa categoria com Holm, Schevchenko e Rousey, Miesha não vai fazer falta alguma… E me perdoem a ousadia, mas se não fosse a sorte em março talvez já tivesse se aposentado no 194 mesmo

    • As falas provocativas dela quando campeã talvez fossem mais vender, na tentativa de se encaixar no perfil dos grandes vendedores da organização. Leve essa hipótese em consideração também.

      • Anderson Tomaz

        Faz sentido… =/

    • Lyn

      Não da nem para comparar a ronda com a tate. Olha quantas vezes a miesha perdeu e deu a volta por cima, agora olha a ronda que perdeu uma vez só e fez esse drama todo pra voltar.

      Sobre os lutadores do UFC falando bosta e desrespeitando adversarios faço minhas as palavras do mousasi:

      “Sendo um cara calado e mostrando respeito ao adversário, ninguém liga a mínima. Descobri que não importa se sou educado ou não, humilde e respeitoso ou não.”
      “Hoje em dia, os bonzinhos sempre ficam para trás. São os idiotas. Isso é entretenimento.”

  • Tiago Nicolau de Melo

    Espero, pro bem do Caraway, que ela tenha perdido o tesão apenas de lutar.

  • Mauricio

    Miesha foi uma lutadora muito esforçada e guerreira por isso conquistou dois titulos do calibre de Strikeforce e UFC, mas a algum tempo ela não andava tão animada dava pra ver isso, 10 e já chegou ao UFC com popularidade e no topo da divisão, podemos dizer que com ela Aldo, Cruz e DC fizeram isso. Então quando você se dá conta que não está mais competindo de igual para igual chega a hora de parar… nem todo mundo pensa como Belfort

  • Idonaldo Gomes Assis Filho

    Eu acho que ela pode ter pensado nisso já no camp, não me pareceu bem treinada, e lutou muito abaixo do que pode, acho que ela aproveitou o evento para se aposentar, claro que ainda mata no peito umas Bethe ou Eye da vida, mas se não deseja mais lutar que se aposente mesmo, melhor do que ver derrotas apáticas de uma mulher que foi uma das mais importantes pro crescimento do MMA Feminino, texto muito bem feito.

  • Thiago Gon

    Com a luta certa acho que volta.

    • Renato Rebelo

      Fiquei com essa impressão tb. Parecia mais frustração por ter sido dominada e tal. Nada impede um retorno em um aninho…

  • Fabricio Alves

    I don’t give a fukk

  • Francisco Júnior

    Comentário maldoso: quem perde pra Raquel Pennington tem que se aposentar mesmo.

    Comentário bondoso: acho que ela ainda pode fazer boas lutas e quem sabe até disputar o cinturão novamente (o “garoto” Faber mostrou isso várias vezes). Como a categoria virou uma dança das cadeiras, acho que duas boas vitórias a colocariam para disputar o cinturão contra Amanda, Ronda, Holm ou seja lá quem for a campeã.

    Comentário crítico: tomar uma decisão dessa dentro do octógono mostra um misto de despreparo emocional e até arrogância, já que pelo visto ela tinha certeza que venceria. Há um vídeo que mostra ela falando para o namorado que não dá mais. Pareceu bem infantil. Mas se estava pensando nisso fortemente antes dessa luta, faz sentido parar, já que teria que começar mais uma dura caminhada até o cinturão. A questão principal é o que o texto descreve muito bem: manter a motivação.

    • KRS Porlaneff

      Peraí, Chiquinho: “quem perde pra Raquel Pennington tem que se aposentar mesmo.”?

      Quatro palavrinhas pra você, meu chapa: 1) Jéssica2) Bate3) Estaca4) Andrade.

      • Se a Pennington já tinha muita vantagem física em cima da Miesha, contra a Bate-Estaca então, era covardia. E só venceu porque a brasileira vacilou no final (sendo que era revanche, na primeira a Jessica venceu).

  • Lele Me

    Graças a Deus nao a chamaram de lenda.

    O povo precisam parar de banalizar esse termo.

    • Não costumo banalizar termo algum. Tenho demasiado apreço por nossa língua.

  • Renan Oliveira

    Miesha tá bem lindinha nessa foto de capa hein, hahaha

  • Gustavo Lima

    Fica aqui o meu “muitíssimo obrigado”. Já cimentou seu nome na história do MMA e sem sombra de dúvidas, será lembrada no futuro. Eu esperava essa derrota mas fiquei muito surpreso com o anúncio. Até acho que é um pouco cedo pra tomar essa decisão, mas se é a vontade dela, que assim seja…

    Foda-se McGregor e Diaz, pra mim foi ela que tornou aquela noite de 5 de Março tão especial pro MMA. A vitória de alguém que muito fez e continuou trabalhando com toda a sua força e dedicação mesmo após revezes duros em cenários de adversidade. De “sombra da Ronda” (ainda no auge dos fãs temporários da escrotona) para alguém que pendura as luvas com honra e uma história vitoriosa deixada pra trás, foi uma trajetória maneiríssima. Uma pioneira que viveu 10 anos de trocar porrada e nunca baixou a cabeça merece muito respeito.

    Não dá pra ignorar e separar a Miesha, quando feita uma análise de “legado”, da referência do WMMA que é a Rousey; E sinceramente, por todo o conjunto da obra, temos aqui alguém cuja imagem e postura endossam muito mais os modelos de artista marcial, atleta, trabalhadora e pessoa que a dita “GOAT” feminina. Ao menos aos meus olhos.

    Sentirei saudades. E meu maior medo é que as Mieshas do MMA morram pouco a pouco. Segue a foto do dia em que ela ajudou a garotinha que caiu e quebrou o braço durante numa trilha pelas montanhas em Nevada, pura fofura.

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  • Felipe Oliveira²

    Por mais que eu goste da Tate, principalmente por causa do TUF e do coração gigante que demonstra nas lutas, ela sempre foi bem limitada tecnicamente. Era apenas uma questão de tempo, para que as mulheres desenvolvensem um pouco mais o esporte, para que ela ficasse pra traz em relação ao topo da categoria (o que já aconteceu, na minha opinião). Por isso, vejo com bons olhos sua aposentadoria.

    • Ela tem muita qualidade na luta agarrada, ainda superior a da maioria, e em pé, se vira bem ao ponto de poder se segurar até obter a queda.

      Eu acho ela tecnicamente top 5, ainda. O ponto que ela ficou para trás, e isso pôde ser visto nessa luta em específico, é a preparação física.

      Pode ter a ver com a falta de motivação que citei no texto, e também o fato dela ser pequena para o patamar atual da categoria. Amanda, Holm e Pennington por exemplo são maiores do que ela.

  • Heitor Pants

    deixa ela se aposentar, fazer uns filmes, umas fotos, uns porn… ops (carinha aquela) kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk vlw Tate, grande lutadora o/

    • O MMA perde uma bela bunda, é isso?

      • Heitor Pants

        não, perde uma lutadora top , vida que segue 🙂

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