Análise técnica: Napão x Miocic dos pés à cabeça

Fernando Cappelli | 23/01/2014 às 22:07

O circo dos irmãos Fertitta desembarca no sábado em Chicago, Illinois, para o UFC on Fox 10.

Na luta principal, que será transmitida ao vivo por uma das maiores emissoras do planeta, Ben Henderson, ex-campeão dos leves, busca redenção contra o veteraníssimo Josh Thompson.

Nesta sexta, traremos nossa tradicional rodada de palpites para o “main event”.

Hoje, no entanto, dissecaremos a co-luta principal.

Como se encaixam, setor a setor, os pesos-pesados Gabriel Gonzaga, o Napão, e Stipe Miocic?

Vamos lá:

Trocação (por @fercappelli):

Gabriel Napão

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Golpe que derrubou o porradeiro Shawn Jordan

Gonzaga pode não ser propriamente um striker de alta estirpe ou dos mais clássicos, mas sempre será lembrado pelo chutaço que nocauteou a lenda Mirko Crocop, no UFC 90.

Oriundo do grappling, o brasileiro acrescenta estilo pesado em pé às habilidades de solo, e assim mostra um padrão híbrido capaz de confundir até os mais experientes adversários.

É a velha história do ‘se você pensa que vou agarrar, eu golpeio’. E vice-versa.

No quesito particularidades, Napão conta com os famosos – e cada vez mais usados no MMA – overhands, além de diretaços-jamanta de direita e também alguns bons lampejos na sempre complexa arte de ‘contragolpear recuando’.

Stipe Miocic

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Nelsão sendo joelhado

Miocic é um pesado ‘seco’ e bastante dinâmico.

Ele vem de vitória acachapante sobre Roy Nelson, em junho do ano passado, onde puxou insistentemente o combate da média para a curta distância, exibiu receita bem tramada de socos e joelhadas para acumular danos gradativos no gordinho, famoso pela capacidade de absorver castigos.

O que chama atenção no croata justamente é esta capacidade explosiva de encadear ataques – que funciona quase sempre como diferencial na categoria em que a maioria dos atletas é mais propensa a cadenciar ações e reações.

Muitas vezes, Miocic simplesmente se lança aos ataques em linha reta, sem se importar com passadas ou a manutenção de uma base de luta mais firme e equilibrada.

Com isso cria um fator-surpresa que pode ter dois gumes (dependendo do grau de perspicácia do adversário em saber tirar proveito disso).

Veredicto

De forma geral, a dinâmica em pé da dupla conta com muitas diferenças.

Miocic pode confiar em receita sólida de jabs e movimentação lateral para fazer valer uma estratégia mais longa e tentar a melhor na decisão (lembrando que ele já foi campeão do “Golden Gloves” – famoso campeonato de boxe amador americano).

Mas Gonzaga é mais potente e tem grau elevado de transições. Ele provavelmente deve usar o striking para abrir brechas, encadear o grappling e arriscar uma de suas perigosas finalizações.

Grappling (por @renatosrebelo):

Gabriel Napão

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“Big Ben” passando um aperto

Campeão mundial faixa-preta (peso pesadíssimo) em 2006, representando a Macaco Gold Team, Napão ingressou no MMA como fenomenozinho do jiu-jítsu – porém, pra lá de cru nos outros setores.

Hoje, com 23 lutas nas costas e socos e chutes bem lapidados na Team Link, o carioca de Niterói abandonou o estilo “boi bravo” e só recorre ao feijão com arroz em momentos mais oportunos – ou quando o adversário não oferece tanta resistência.

No UFC on FX 7, por exemplo, Ben Rothwell escorregou e, ao levantar, deixou o pescoção à mostra para ser guilhotinado.

No chão, estamos falando do melhor passador de guardas até 120kg do Ultimate.

Seu jiu-jítsu é agressivo desde os primórdios e katagatames e kimuras são a especialidade da casa.

Stipe Miocic

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Noite longa pra Shane Del Rosário

O descendente de croatas sempre foi um superatleta.

Além de ter faturado o GG, como supracitou meu camarada, nos tempos de colegial, Miocic foi destaque de seu time de baseball e chegou, inclusive, a receber sondagens da Major League americana.

Quando se aventurou no wrestling, também tirou onda: alcançou a prestigiosa primeira divisão da NCAA.

Em outras palavras, além de possuir técnica para controlar o meio-campo, o bicho é, fisicamente, um espécimen.

Trocar força no clinch ou tentar a queda a qualquer custo pode acabar levando seu tanque de combustível à reserva – enquanto o dele se mantém intacto.

Apesar de preferir trocar na média-longa distância, vira e mexe, o representante da Strong Style Fight Team mescla seus socos e joelhadas com entradas de quedas.

Uma vez no chão, o jiu-jítsu é pouco utilizado.

Ao invés de trabalhar para avançar posições, ele prefere descer a marreta de onde estiver – seja da guarda fechada ou da meia.

Ah, e nunca o vimos trabalhando de costas pro chão em 11 lutas de MMA (Stefan Struve, seu único carrasco, o nocauteou em pé).

Veredicto

Sinceramente, não vejo o Napão, que já teve problemas com gás no passado e anda confiando cada vez mais na trocação, engajando no agarra-agarra franco com Stipe.

Longas trocas de força poderiam acabar custando caro ao brasileiro – uma vez que o rival é melhor condicionado para “maratonas” dentro da jaula.

Também não vejo o croata mesclando trocação com seus habituais “double legs” (por medo de ser finalizado).

Só creio em três tapinhas aqui se, antes, Napa houver aplicado um knockdown.

Concordam com nossos pontos de vista, amigos?

Abraços.

  • Marcus Silveira

    Ótima matéria!

  • Luiz Guilherme Bastos

    Gostei da análise mas na minha opiniao Miocic vai controlar bem a distância e a velocidade, acho que o napão nao vai conseguir acompanhar o ritmo de trocaçaod do miocic e ao mesmo tempo nao vai conseguir colocar pra baixo, se miocic acertar alguma boa sequencia como fez com roy nelson pode sair um TKO no 1° ou 2° Round.

    Minha opiniao do favoritismo em porcentagem: Miocic 60% x 40% Napão.

  • Renan Trindade

    Belo texto! Já que o Struve nocauteou o Miocic, não me espantaria se o Napão fizesse o msm e entrasse no top 10

  • Tiago Nicolau de Melo

    A única chance do Napa, creio, é finalizando.

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