Pensando alto: a análise informal do UFC FN 34

Renato Rebelo | 04/01/2014 às 20:25

Se você negligenciou o sagrado chope de sexta à noite para estar lúcido às 9h30 de sábado e acompanhar um card direto de Singapura com 15 estreantes, meus parabéns, és tão doente quanto eu.

Não nego, porém, que meu martírio foi parcial – uma vez que dei algumas cochiladas durante o UFC Fight Night 34.

A atenção só foi totalmente recobrada lá pro meio-dia, quando as lutas principais começaram.

Portanto, vamos à minha sempre confusa leitura dessas:

TARECTarec Saffiedine x Hyun Gyu Lim

Poucas vezes vi alguém comandar com as ações em pé com tanta perspicácia e quase se dar mal por isso. Explico. No primeiro round, a “Esponja” não entrou na onda do garotão coreano, que foi à caça do queixo inimigo no melhor estilo boi bandido. Saffiedine tratou evitar o “infight” fechando a guarda e se evadindo pelos flancos. Mas houve um porém. Mesmo estranhamente acuado, o favorito aterrissou três ou quatro tacadas de baseball na coxa esquerda de Lim – que, na ânsia por conectar mãos, esqueceu de checar os chutes baixos. No segundo round, com o asiático ligeiramente menos impetuoso, o belga avançou, apostando em cruzados contundentes e mais uma penca de ‘low kicks” – que, novamente, entraram limpos. Ficou na cara, então, que a perna de Lim, já confundida com um tender da Sadia por espectadores menos atentos, não suportaria o peso de seu corpo por cinco rounds. Dito e feito. No R3, o pobre já mancava à la saci-pererê e se jogava no chão mais que o Denilson na Copa de 2002. Acontece que Saffiedine, striker por excelência, aceitava a luta agarrada ao invés de mandá-lo levantar. Em outras palavras, adotou o “lay and pray” quando poderia dar o gás para liquidar a fatura. No último round, sem nada a perder, o cambaleante “Jon Jones Coreano” trocou de base (escondendo a caneta canhota) e foi pro tudo ou nada – lembrando muito Diego Sanchez contra Gilbert Melendez no UFC 166. Faltando 20 segundos pro fim, Lim acertou um direto que quase mandou quatro rounds de controle da Esponja pra cucuia. De arrepiar!

Ele é muito duro, se preparou direitinho pra mim. É um grande lutador. Agora quero lutar com um top 10 do UFC, estou pronto para enfrentar esses caras – disse o vencedor.

KAWAJIRITatsuya Kawajiri x Sean Soriano

Que o “Crusher” é um grapplerzão da pesada, sempre soube – agora, que ele telegrafa quedas com duas semanas de antecedência é novidade. Apesar desse detalhe técnico, no maior choque de gerações dos últimos tempos, o novato Blackzilian foi presa fácil para o japonês – que precisou de apenas cinco minutos e cinquenta segundos para encaixar o mata-leão de misericórdia. Trigésima terceira vitória de Kawajiri que, embasbacantemente, pediu um “title shot” ao entrevistador (Brian Stann). Mas, já?

Só vim para o UFC porque quero ser campeão. É simples – explicou o veterano.

1Kiichi Kunimoto x Luiz Dutra Jr.

Voluntarioso, o japa tomou iniciativa do combate e foi logo prensando o representante da luta livre contra a grade. Ao mudar de nível para envolver as pernas de Besouro, Kunimoto levou cinco cotoveladas duras (e claras) na nuca – e caiu tremendo. E aí, seu juiz, o ato ilegal foi consciente (desclassificação) ou não (“no contest”)? Sinceramente, não creio que o brasileiro tenha tido a intenção de atacar deliberadamente região tão sensível do corpo humano, mas, de qualquer forma, não dá pra brigar com a imagem ao lado. Querendo ou não, a arma foi sim disparada. Frustrado por cair dessa forma após anos de espera pela oportunidade de ouro, o ex-TUF não se conteve e deixou o octógono aos prantos. Uma pena.

KANGKyung Ho Kang x Shunichi Shimizu

Com 12 vitórias e sete derrotas na carreira, Ho Kang, que sabe-se lá por que foi apelidado de “Mr Perfeito” (parecido com Ernesto Hoost, definitivamente, ele não é) recebeu o estreante Shimizu, o “Rolling Stone” (???), com a corda no pescoço. Afinal, se não fosse o cigarrinho verde fumado por Alex Caceres pré-UFC on Fuel 8, o coreano teria o cartel 100% imperfeito no maior evento do mundo. Felizmente para Kang, a grama não é mais verde no circuito asiático e o rival japonês, mesmo invicto desde janeiro de 2012, não lhe ofereceu absolutamente nada. Dois rounds de domínio pleno no chão + katagatame justo no terceiro e fatura liquidada.

Observações sobre o restante do evento, amigos?

Abraços.

  • Carlos André

    Renato, corrija lá o terceiro parágrafo… “principais”. Parabéns pelo bom trabalho.

    • Renato Rebelo

      Opa, muito obrigado pela correção e pelo elogio, meu amigo. Grande abraço.

  • Bruno

    Renato, tenho uma sugestão.
    Acompanho o blog a um bom tempo, porém não sou tão inteirado nos lutadores fora do top 10, especialmente estes novos como o Saffiedine, portanto, tenho algumas dificuldades ao ler algumas análises em que o nome do lutador é trocado pelo seu apelido sem ser citado previamente.
    De qualquer forma, excelentes análises, como sempre. Parabéns pelo trabalho!
    Abraços.

    • Renato Rebelo

      Anotado, Bruno. Vou tentar seu mais didático daqui pra frente. Obrigado pelo comentário e pelos elogios, amigo. Abração.

  • Rodrigo OLiveira

    Pior edição do ufc que já vi em muito tempo, salvo a luta principal. Total desperdício de tempo e sono. Esses japas, coreanos e similares de olhos puxados, com raras exceções, não empolgam. São bem comunzinhos, mostram alguma garra, como o Lim e só, nada demais. Mas, como faz parte do plano da Zuffa de dominação do mundo, somos “obrigados” a aturar. Mas que essas edições Ásia são osso duro de doer, isso são.

  • Lucas Pereira Carrano

    Como de costume, muito boa a análise. Os textos estão ficando incrivelmente mais engraçados a cada evento, o que só aumenta o constrangimento familiar para com algumas risadas que disparo.

    Dito isso, só gostaria de reforçar a TIRIÇA do Shunichi Shimizu, que protagonizou, de longe, uma das piores atuações de um ser humano no octógono mais famoso deste planeta. O japa foi tão mal, mas tão mal, que claramente perderia na decisão uma luta em que seu adversário foi punido com a perda de dois pontos logo no primeiro assalto. Como se isso não bastasse, sua inépcia fez o “Sr. (Im)Perfeito” parecer um lutador muito melhor do que realmente é, dada a diferença absurda de nível apresentada por ambos. Por fim, o ponto alto: Shimizu nos presenteou com aqueles socos (?!?!?!) aplicados quando estava por baixo do adversário, cena a qual parecia que o japonês estava passando Cenoura e Bronze © no rosto do sul-coreano. Um afago lamentável.

    PS: O, quase, incompreensível inglês do Kawajiri me fez lembrar as entrevistas de alguns ex-campeões brasileiros. 😀

    • Renato Rebelo

      Hahaha totalmente de acordo, caro amigo. O Shimizu, por muito pouco, não conseguiu a proeza de empatar round em que o adversário teve dois pontos tirados por punição. Agora, acha que essa atuação supera a de Rolles Gracie no UFC 109?

      • Lucas Pereira Carrano

        Fico feliz de ter usado “uma das piores atuações” e não “a pior atuação”, porque realmente não estava me lembrando do vexame do Rolles contra o Beltran. Acho que não dá pra ficar pior do que aquilo mesmo. Agora, na opinião do Dana White, certamente outro Gracie, o Roger, se enquadra nos líderes da desagradável categoria. Nos últimos anos, nunca vi o careca tão puto da vida com a apresentação de um lutador.

  • Guest

    E o Besouro?? Não vi a luta, ele foi desclassificado por golpes ilegais, fico pensando se isso prejudicaria um pouco ele, porque parece que a coisa foi feia.

    • Renato Rebelo

      No texto, botei um gif animado do momento em que ele aplica o golpe ilegal. Dá uma olhadinha!!

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