Análise técnica: entenda a chocante fratura de Silva

Fernando Cappelli | 29/12/2013 às 21:13
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Montagem: Lucas Lutkus

Perna quebrada, cena bizarra. Quilos e quilos de esculhambações e canonizações.

A noite mais trágica de Anderson Silva dentro do octógono já toma de assalto redes sociais e a língua sempre cruel dos fãs.

Intenso, como tudo na carreira do cara.

Muito comum em modalidades como o kickboxing, muay thai e estilos de caratê de contato, a técnica dos chutes baixos é das mais eficientes – se realizadas com propriedade.

Mas a contrapartida – bloqueios feitos ao se levantar o joelho, ou mesmo a canela – também é extremamente perigosa.

Os chutes dentro da perna são armas versáteis para os mais experientes.

Eles, geralmente, chegam com grande potência e são usados taticamente para prejudicar a movimentação dos oponentes

A grosso modo, também funcionam como ‘jabs’, ou seja, dolorosos ‘medidores’ de distâncias.

Por ser um esporte intermodalidades, não existe muito isso de ’certo ou errado’ no MMA.

Cada atleta agrega habilidades de diversas áreas e poucos conseguem domínio mais apurado em tudo.

Anderson, faixa-preta de taekwondo e grau preto de muay thai, tem uma tonelada de experiência em qualquer aspecto da arte do combate me pé.

Mas não é possível avaliar o Spider de maneira usual e como um striker comum, sob a ótica dos fundamentos de forma certinha e tal.

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Seu estilo expansivo, solto e confiante não é lá muito preso a convenções, o que lhe proporciona uma grande virtude (imprevisibilidade) – mas também grande ruína.

Desta vez, na mistura entre acidente de percurso e falha técnica, o segundo quesito predominou.

De qualquer forma, já faz algum tempo que percebo alguns erros crassos em muitos lutadores de MMA na execução dos chutes baixos do tipo.

1 – A falha mais básica é tentar aplicar este chute como se fosse um low kick usual (circular, na parte de fora da coxa).O ângulo correto é sempre buscar um ângulo para golpear a parte interna da coxa com uma patada debaixo para cima, como se chutasse uma bola.

2 – No momento do impacto, a perna e o pé têm de estar bastante esticado para que o impacto no osso esteja mais protegido pela panturrilha e a força aplicada seja canalizada o mais rápido possível até o alvo (como uma chicotada).

3 – A área de impacto tem de ser mais o peito do pé e menos o osso da tíbia, justamente para evitar o que aconteceu com o Spider. Este é um ponto bastante complexo em virtude da mudança constante das distâncias durante um combate.

4 – Anderson não preparou o chute com alguma finta ou ameaça (com as mãos, por exemplo). Isso facilitou a visualização do golpe por Weidman, que levantou a perna para absorver o golpe. Como o Spider chutou angulando mais de forma circular (e não debaixo para cima), a canela atingiu o joelho do adversário e o impacto fez uma alavanca para partir o osso em dois.

Anderson cometeu, sim, um pequeno erro técnico, que deu margem ao acidente.

Nada demais se levarmos em conta o calor e a importância da luta.

Mas que acabou imprescindível para decretar seu destino no combate… e provavelmente na organização.

  • @RodriVaz

    Muito interessante a análise técnica do que ocorreu, gostei! Renato, será que rola uma análise por alguns médicos falando sobre lesão (quanto tempo leva para se recuperar, se um dia poderá voltar a lutar, …)?

    • Renato Rebelo

      Rodrigão, o médico que operou o Anderson, em previsão beeeem otimista, disse que em seis meses ele pode voltar a treinar. Claro, estamos falando de um atleta de alto nível que terá o melhor tratamento que o dinheiro pode pagar e tem toda uma estrutura física que facilita a readaptação. Além desses seis meses (repito, estimativa beeem otimista), o cara precisará retomar a forma física (diminuir percentual de gordura, aumentar massa muscular, etc) e, mais importante, recuperar a confiança pra chutar e lutar novamente. Em suma, ficaria chocado se ele subisse no octógono em 2014.

  • Leo Ferreira

    A qualidade técnica de Weidman apurada por seus treinadores deve ser exaltada, pois o que vi foi um lutador extremamente técnico e muito bem treinado. Weidman tem um psicológico extremamente forte, é frio e sabe atacar da maneira correta não expondo brechas no seu jogo. Se não fosse pela fatalidade, Anderson poderia até ter ganho a luta, mas a probabilidade de ter sido nocauteado novamente era muito grande. Não provou que é melhor porque não deu tempo, mas se vencer Belfort, Jacaré e Machida (que devem ser seus próximos adversários e quiçá nessa sequência) vai virar mito.

  • gero

    Infelizmente o Anderson encontrou um cara melhor do que ele. Anderson vs Weidman 3, acho muito difícil acontecer novamente, só se o Dana White quiser. O fato é que o Anderson perdeu, claramente, as duas lutas contra o Weidman. Se ele voltar, depois da recuperação, vai ter que entrar na fila, aí ele vai te que passar por Machida, jacaré e outros. Será que o Anderson vai querer lutar contra esses caras? Além disso, essa lesão do Anderson foi muito séria, tem o fator psicológico. Acho que o Weidman aposentou o Anderson. Só resta agora torcer para aparecer algum brasileiro que meta muita porrada no Weidman e tire o cinturão que está com ele.

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