Pensando alto: a análise informal do UFC 168

Renato Rebelo | 29/12/2013 às 07:36

Quando “Ain’t no Sunshine” atingiu os auto falantes, cheguei a pesquisar na internet o telefone do Samu temendo um piripaque do Chaves.

Reação exagerada? Talvez.

Mas a real é que nem em Fedor Emelianenko x Mirko Cro Cop, Rodrigo Minotauro x Randy Couture e Maurício Shogun x Chuck Liddell penei tanto emocionalmente.

Pra sacanear de vez meu sistema cardiovascular, o chocante desfecho de Anderson Silva x Chris Weidman II teve a proeza de deixar mais queixos na sarjeta do que no primeiro encontro.

Bom, vamos logo à minha sempre confusa leitura do card principal:

WEIDMANChris Weidman x Anderson Silva

Começo exaltando Weidman por dois motivos. Um: seu primeiro round foi irretocável. Derrubou Silva com um botadão na têmpora e, por detalhes, não o desligou definitivamente – fazendo uso de ground and pound rude. Vi gente marcando 10 a 8 – e, sinceramente, não faço objeção. Dois: checar chutes de forma apropriada – oferecendo o joelho à canela agressora- é sim um recurso técnico. O fato de apenas uma perna em um milhão se partir com essa defesa (em 20 anos de Ultimate, apenas Corey Hill, em 2008, sofreu lesão semelhante) não a deslegitima. Agora, não dá pra negar que o desfecho é brochante no último. Primeiro por que a fatalidade não põe uma pá de cal sobre a rivalidade entre os médios no subconsciente dos fãs. Segundo que uma lesão dessa gravidade deve encerrar, de forma deveras melancólica, a mais brilhante carreira da história do MMA. Não faz muito sentido o realizado multicampeão, que já se dirigia à porta de saída, encarar um ano de reabilitação para retomar a carreira aos 40. Infelizmente, o planejador central lá de cima quis assim…

É um jeito de merda de ver o melhor de todos os tempos saindo. Mas é parte do jogo. Ele é um ser humano incrível que fez coisas maravilhosas no UFC. Agora, não quero contar com ele, nem descartá-lo. O importante é ele fazer logo a cirurgia e se recuperar – disse Dana White na coletiva de imprensa.

RONDARonda Rousey x Miesha Tate

Por mais que “Cupcake” tenha sido a primeira a arrastar a campeã para águas profundas (leia-se terceiro round), o cinturão nunca esteve realmente em jogo. No peso galo feminino, onde golpes traumáticos são ligeiramente menos decisivos, a diferença da ex-atleta olímpica para a tigrada berra alto. Força, base, pegada, resistência… Tudo! Miesha ainda (sabe-se lá por que) apostou em entradas de quedas – ridiculamente refutadas pelo quadril de concreto da judoca. Luta da noite, “display” valentia da desafiante, mas outro bracinho suculento pra coleção da irmã Diaz. Ah, no final, Ronda jogou no lixo a chance de esmagar a rivalidade de meses de TUF recusando um cordial aperto de mão. Direito dela, mas… Feião!

Ela desrespeitou minha família e minha família vem antes da aceitação da torcida ou qualquer outra coisa. Eles vêm primeiro. O dia que ela pedir desculpas formalmente aos meus treinadores, eu apertarei sua mão – declarou a brabíssima rainha.

BROWNETravis Browne x Josh Barnett

Dois metros de envergadura combinados com o kickboxing ensinado pelo ex-campeão mundial Mike Winkeljohn no Novo México transformaram o desengonçado ex-jogador de basquete numa máquina de porrar. O “Mestre da Guerra”, incomodado com a nada sedosa mão de Browne, não titubeou: baixou de nível e apostou no “double leg”. Bobinho… Não lembra da lição ensinada a Gabriel Napão no TUF 17 Finale? Com cotoveladas laterais aprovadas por Mike Tyson (decepadoras de orelhas), o havaiano, ainda seco, desligou o loirão. Espero que Fabrício Werdum, seu próximo compromisso, tenha captado a mensagem.

Existe uma nova raça de lutadores e faço parte dela. Parece que eu e Werdum temos uma data. Estou chegando pra você. Orelha, orelha, orelha, orelha, o dia inteiro. Estarei pronto quando você estiver, amado – provocou Hapa.

MILLERJim Miller x Fabrício Camões

Absolutamente nada pode frustrar mais um faixa-preta da Gracie Humaitá – com Royler Gracie no corner- do que ser finalizado no braço logo no primeiro round. Praguejado por lesões, Morango retornou após quase um ano e meio de reabilitação e não foi páreo para a guarda borracha de Jim Miller – que fintou lindamente com um omoplata e atacou na chave de braço. Aos 35 anos e com duas derrotas consecutivas, o futuro do carioca no Ultimate é incerto. Já o nova-iorquino mantém a décima posição no ranking dos leves.

Sabia que tinha controle, mas não queria usar muita energia. Esperei ele reajustar, ou tentar tirar o braço. Quando ele puxou o cotovelo, pude botar mais pressão e consegui a finalização – festejou Miller.

POIRIERDustin Poirier x Diego Brandão

A inédita ausência de tônus muscular reforçou a informação que já havíamos digerido na desastrosa pesagem de sexta-feira: não era pra Diego Brandão ter trabalhado neste sábado. Ceará passou longe de bater 66kg graças a um acidente de carro há duas semanas – que lhe tirou preciosos dias de suor. Pra seu azar, o “Diamante” se mostrou insensível com a situação e foi logo apertando o passo – até pra minar o quanto antes o gás outrora problemático do rival. Acontece que Brandão sequer sobreviveu às primeiras braçadas do produto da American Top Team. Por que não pedir o adiamento da luta, meu Deus!?

Trabalho muito duro para estar em forma e bater o peso. Se ele negligenciou isso, com certeza deve ter negligenciado outras coisas. Por isso já entrei muito confiante na luta. Fiquei chateado com ele na pesagem não tanto pelo peso, mas por que ele disse que iria me esfaquear no pescoço. O cara é louco – mandou o jovem de 24 anos.

Ficaram convencidos com a atuação do “Homem Ambulância”, amigos? Eu não!

Abraços.

  • Rubens Rodrigues

    Perfeita análise, meu caro amigo. Só não podia deixar batido, de falar da “Rowdy”. Perfeita apresentação! Nunca tínhamos ela passar do primeiro round, e faziam-se comentários de que “ela não tem gás” e a pergunta de “como ela vai se comportar?”. Ela tem gás e se comportar de uma maneira brilhante!! Quedas magníficas, se tivesse o prêmio de melhor queda, ela ganharia em todos os eventos que participasse. Será que alguém consegue para-lá!? Ou será que temos que recorrer a Cyborg? Achei uma apresentação mediana de Uriah Hall, ele nocauteou um cara duro, mas que vinha de 3 (três) derrotas consecutivas e com um queixo amolecido com o tempo. Só pra passar, queria mandar um abraço para o blog, vocês são demais!!

    • Leo Ferreira

      Remente, há de se exaltar Rowdy que vem sobrando na categoria. Miesha foi guerreira, soube se defender o quanto pode, mas Ronda mostrou uma tecnica impecavel.

    • Renato Rebelo

      Muitíssimo obrigado pela moral, Rubens! Um outro abraço pra vc.

  • TK

    Cara… “Cotoveladas aprovadas por Mike Tyson” foi uma das melhores passagens de todas! Hahahha parabéns!
    Sempre uma satisfação ver análises claras como essa! Mandou bem!

  • Leo Ferreira

    Quando Ain’t no Sunshine ecoou pela MGM Arena e Anderson foi focado pelas cameras, eu logo percebi que aquela seria sua ultima luta, deu pra sentir na maneira com a qual ele se conduziu ao cage, como se fosse a ultima vez. Foi uma fatalidade, mas há de se ver que Anderson ficou pequeno perto de Weidman, o knokdown foi durissimo, Spider caiu apagado e Crhis por detalhes nao liquida a fatura ali mesmo. Foi triste, mas seu legado é forte, nao acredito que um dia volte, aos 40 anos, com quase 40 lutas nas costas e o gosto amargo na boca por saber que não voltaria pra uma disputa de cinturão, numa categoria com dois amigos como top contenders o vai fazer optar por curtir tudo que conquistou com seu suor em casa com a familia. Talvez, um dia ele faça uma luta de despedida, nao em menos de 2 anos parado. Weidman agora só matou um dos quatro tubarões que o cercam, e a menos que o UFC Jaragua do sul seja ruim pros brasileiros do co-main e mains event, tem uma fila de 3 brasileiros na disputa da cinta. Weidman é duro, tem muita pujança e um jogo muito justo em pé e no chão, mas não creio que sobreviva aos tres.

  • Lucas Pereira Carrano

    Tem apenas um aspecto que tem sido pouco abordado, talvez pelo calor e comoção dos combates entre Anderson e Weidman: que treinador é o sr. Ray Longo! Duas preparações impecáveis para os duelos contra Anderson Silva. Embora a noção comum nos últimos anos tenha sido a de que era preciso um wrestling de primeira e capricho no ground and pound para se ganhar do Spider, muito por causa do quase-sucesso de Sonnen no UFC 117, Longo e Weidman provaram o contrário.

    Nem mesmo grampeadas quase perfeitas do campeão nos primeiros rounds do UFC 162 e 168 foram capazes de segurar o ímpeto do Spider, que partiu pra cima em ambas as oportunidades logo após sair da sua zona de desconforto. Amassar e castigar Anderson Silva por um round, ou quatro, nunca foi garantia de ter a mão levantada ao fim do combate. O brasileiro talvez seja, não tenho esses dados confirmados, o campeão que mais perdeu rounds na história do Ultimate e manteve seu cinturão. Este é o “jeito Anderson Silva” de lutar. Por outro lado, se aproveitando do erro nas esquivas e transformando uma das principais armas do adversário, seus chutes baixos, em perigo para o próprio Anderson, Weidman e, principalmente, Longo mostraram que uma leitura de combate impecável!

    • Renato Rebelo

      Bem lembrando, Lucão. O Longo é, sem dúvida, um dos treinadores mais subestimados do jogo!

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