Análise técnica: Silva x Weidman dos pés à cabeça

Fernando Cappelli | 27/12/2013 às 18:03

Neste sábado, Anderson Silva e Chris Weidman sairão no braço novamente pelo cinturão dos pesos médios.

O local escolhido para a revanche mais aguardada da história do UFC foi o cassino MGM Grand Arena, em Las Vegas.

Conseguirá o condecorado brasileiro prevalecer ou o americano tem bala na agulha pra chocar o mundo outra vez?

Setor a setor, vamos tentar entender como eles se encaixam:

Trocação (por @fercappelli):

Anderson Silva

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Weidman passando no vazio no UFC 162

Anderson Silva sempre é capaz de colocar todo o radicalismo técnico tão almejado – e exigido – no MMA em nível mais descontraído e bastante peculiar.

Mesmo que isso também possa ser a própria ruína (se usado de forma extravagante demais), o que chama atenção no padrão do ex-campeão dos pesos médios é a capacidade de atrair oponentes ao erro e capitalizar ataques fulminantes a partir disso.

Contragolpeador nato, é um boxeador dinâmico e domina as minúcias dos ângulos diversos.

Ele raramente tenta alguma ação sem antes executar algum jab, finta, deslocamento ou assustar o adversário para evitar ser contra-atacado.

A grande habilidade nas esquivas é outra marca, e funciona como extensão da movimentação solta e propositadamente desleixada.

Outra coisa que transforma Anderson em um grande striker é a plena capacidade de posicionar os pés e o corpo de forma adequada ao se lançar aos ataques.

Uma das grandes virtudes em qualquer modalidade em pé se desenvolve no quanto o atleta é capaz de golpear enquanto se movimenta corretamente para não ser pego fora do equilíbrio, tanto ofensiva quanto defensivamente.

Anderson muda de base com frequência e joga tanto de destro como canhoto.

Não é propriamente um lutador de carga bruta, mas a eficiência e precisão em cada golpe é o diferencial que o classifica como grande nocauteador – além de fortificar a média tentativa/acerto como uma das melhores da modalidade.

Mesmo com base declarada no muay thai, os movimentos mais curtos e ‘puxadas’ dos chutes de Anderson se assemelham muitas vezes aos do taekwondo, modalidade na qual é faixa-preta desde moleque.

Neste setor, também incluem os famigerados pisões no joelho, que bloqueiam investidas e garantem distâncias seguras. A técnica dos clinches/joelhadas típicos do boxe tailandês também é marca registrada.

Mesmo deixada de lado nos últimos tempos, sempre configura grande pesadelo para muitos lutadores.

Chris Weidman

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Cotovelada entrando em Muñoz

Mesmo entrado para a história ao nocautear Anderson Silva no UFC 162, o norte-americano de forte base no wrestling não é propriamente um striker dos mais refinados.

Ele preza por um estilo simples, eficiente e que agrega boas habilidades ao seu padrão de grappling da mais alta estirpe.

Como faz parte da escola mais moderna do MMA, Weidman desenvolveu o estilo de golpear tendo em vista reflexos, cacoetes e fintas sempre com base nas adaptações e transições exigidas no esporte das intermodalidades.

Assim, muitas vezes gosta de jogar na média para a longa distância.

Quando acuado, esboça um pouco de guarda ‘peek-a-boo’ (com os dois punhos altos praticamente o tempo todo na frente do rosto) e lança constantemente os diretos de direita de forma bastante alongada, para já ajustar e preparar o bote para tentar pegar pernas ou se atracar ao oponente, onde se sente mais confortável.

Veredicto 

Apesar dos pesares, obviamente a vantagem está ao lado do “Spider”, que tem chances de sobra de tirar algo da manga para descolar o nocaute e retomar o cinturão.

Mesmo com a vitória pela via rápida no primeiro encontro da dupla, Weidman deve saber que, se quiser bater de frente nas trocas mais francas contra um ‘focado’ Anderson, pode se dar mal.

Grappling (por @renatosrebelo):

Anderson Silva

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Travis Lutter e o golpe favorito do “Spider”

Apesar de seis rounds de Chael Sonnen, um de Dan Henderson e outro de Chris Weidman tentarem provar o contrário, Anderson Silva é, sim, dificílimo de ser posto pra baixo.

Nas 17 lutas que fez no octógono dos Fertitta, o sujeito rechaçou 80% das quedas propostas por gente sagaz no setor e totalmente desinteressada em engolir suas tijoladas.

Base sólida (com pernas sempre bem afastadas), pujança, agilidade e braços longilíneos – geralmente abaixados- explicam a façanha.

Que o chão é seu calcanhar de Aquiles, também é debatível.

Entre trocar e rolar com o curitibano, obviamente fico com a segundo opção – mesmo sabendo que ele não é finalizado desde o milagre de Ryo Chonan no longínquo ano de 2004.

Daí ser mamão com açúcar finalizá-lo são outros 500…

Por baixo, Anderson se sente confortável na guarda cheia – aberta ou fechada.

Quando a tem passada, ou cai na meia, opta instantaneamente pela reposição.

Lá, mata pulsos alheios com maestria – evitando golpes mais pesados, preparando pedaladas e botes no triângulo.

Ele também não costuma levantar atabalhoadamente expondo o pescoção, nem vira de quatro quando o adversário dá giro.

Sob a tutela de Ramon Lemos, o mesmo que criou os cabulosos irmãos Mendes, Anderson passou a dar menos sopa pro azar ainda.

Em outras palavras, o bichão se defende bem e só ataca “na boa”.

Chris Weidman

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Jesse Bongfeldt perdendo o pescoço

Se deixarmos Yoel Romero de lado, Chris Weidman é, disparado, o melhor wrestler até 84kg do Ultimate.

E, ao contrário do medalhista olímpico, o aluno dos irmãos Matt e Nick Serra possui jiu-jítsu de nível mundial.

Vale lembrar que, com apenas um ano de arte suave na bagagem, o prodígio chegou às quartas de final do ADCC 2009 e só foi parado por André Galvão nos pontos.

Na luta olímpica colegial, recebeu duas vezes a honraria de “All-American” e bateu atletas renomados do calibre de Phil Davis e Jake Rosholt.

No chão, estamos falando de um passador nato – que aposta em giro e pressão para amassar guardas como se fossem bolinhas de papel.

Ataques ao pescoço (guilhotinas e triângulos de mão) são as especialidades da casa.

Ou seja, esqueça a posição de quatro apoios (é melhor aceitar a passagem) e não abaixe a cachola no clinch.

“Double legs” também são deveras proibitivos…

A potência nos punhos ainda lhe permite explorar a fundo outro recurso pós-queda: o ground and pound.

Chris costuma usá-lo com o intuito de abrir brechas para finalizações e/ou avançar posições – mas também tem pegada pra encerrar a fatura.

Veredicto

Se o agarra-agarra dominar as ações no sábado, são grandes as chances do americano derrubar e castigar bastante por cima – vencendo por TKO ou decisão.

De qualquer forma, não acredito em finalização – a não ser que um dos dois esteja completamente extenuado fisicamente, à la Maurício Shogun contra Forrest Griffin, ou tenha levado um knockdown.

Concordam com nossos pontos de vista, amigos?

Abraços.

  • João

    Analise muito boa,parabéns!!

  • Jonathas Silveira

    Anderson vai vencer sim se Deus quiser, Anderson tem tudo pra vencer.

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