UFC 168: e se Anderson Silva resolver lutar sério?

Renato Rebelo | 26/12/2013 às 18:05
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Griffin se abrindo feito uma flor…

De julho pra cá, nenhuma pergunta foi direcionada à minha pessoa mais do que “você acha que o Anderson Silva vence a revanche se lutar sério?”.

Nem “quando você vai raspar esse bigode escroto?” chegou perto.

A resposta deste jornaleiro é, geralmente, mais longa do que o “sim” ou “não” esperado pelo curioso.

Afinal, Anderson é, foi e sempre será um contragolpeador.

Da série “quando um não quer, dois não brigam”, contragolpeadores preferem entrar em ação quando atacados.

A lógica é simples: inimigos estarão mais expostos soltando jabs, diretos e cruzados do que de guarda alta.

Requisitos básicos para bons contragolpeadores são: agilidade, frieza e resistência a golpes (se não sangrar com facilidade, melhor ainda).

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Okami pronto pro abate

A grande diferença de Anderson Silva para contragolpeadores mais ortodoxos, como Rashad Evans e BJ Penn, por exemplo, reside no estilo provocativo, que induz, a todo custo, o oponente ao erro (a tentar acertá-lo).

No Ultimate, que me lembre, só quatro malacos não morderam a isca contra o “Spider”: Travis Lutter, Thales Leites, Demian Maia e Patrick Cote.

Ou seja, três grapplers, acuados na trocação, e outro contragolpeador.

Coincidência essas terem sido três das lutas mais monótonas da carreira de Anderson?

Forrest Griffin, James Irvin, Stephan Bonnar, Chael Sonnen, Rich Franklin (duas vezes), Dan Henderson, Yushin Okami

Todos partiram pra cima e terminaram sedados na teia da aranha.

No UFC 162, apesar do resultado, vale lembrar que Chris Weidman abandonou seu feijão com arroz (wrestling / grappling) para caça-lo em pé.

Concordo que Anderson exagerou, subestimou, foi displicente, etc, etc.

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Cadê o passinho atrás, craque?

Tecnicamente, ainda houve o vacilo de confiar toda esquiva no movimento do tronco (falha já admitida milhares de vezes pelo próprio).

Apesar de mimicar Roy Jones Jr. e Muhammed Ali, quando o assunto é nobre arte, Anderson está muito longe de um e mais ainda do outro.

Claro que o “All-American” também não é Sonny Liston, Joe Frazier ou Bernard Hopkins, mas o bicho tem precisão e joga bem o peso do próprio corpo nos golpes.

É tudo uma questão de acertar na dose da catimba e se manter focado diante da ameaça real – e não de reinventar a roda ou “lutar sério”.

Manter as mãos mais baixas, por exemplo, faz parte do estilo do cara.

Assim, ele força o ataque alheio para, na sequência, capitalizar – e, de quebra, já tem os membros posicionados para defender incursões do wrestler.

Nossa estratégia na primeira luta não era sair derrubando o Anderson Silva nos primeiros rounds. Era entrar em clinch para cansar os braços dele. Ele é bem difícil de ser derrubado por que joga com os braços baixos – revelou John Danaher, professor de jiu-jítsu do atual campeão dos médios.

Se Anderson Silva entrar de guarda alta e avançar no americano, teremos dois no sábado:

1- Ele não estará sendo ele mesmo (o maior campeão da história do Ultimate)
2- Ele será quedado com facilidade incrível

Por isso, amigos, não se espantem se testemunharmos mais do mesmo no UFC 168.

A linha que separa genialidade do fracasso, neste caso, é mais tênue do que se imagina.

Encerro meu textículo com uma breve fábula do escritor grego Esopo:

O escorpião convence a rã a atravessá-lo nas costas pelo rio – explicando que seria suicida picá-la no trajeto, pois ambos morreriam.

Obviamente, o escorpião não foi capaz de se conter e, enquanto ambos afundavam, disse para o pobre anfíbio: “É de minha natureza agir assim”.

Abraços.

  • Tássio

    O Anderson não pode mudar seu estilo de luta, ele tem que saber a hora de parar de “brincar” e resolver a parada, revi a luta do ufc 162 ontem e era claro o nervosismo do Weidman antes de nocautear o Anderson, tanto que ele dá um soco com a mão direita fazendo o movimento de dentro para fora, uma coisa totalmente amadora. Espero que seja uma atuação espetacular do Spider, assim como ele fez com o Griffin, recupere a cinta com um show e deixe as Pierrezetes loucas…Go Spider!!

    • Vinícius

      Esse soco com a direita de dentro pra fora foi citado como um caminho pra bater o Anderson no “killing the king” (se me lembro bem o autor disse que seria para conseguir quebrar a esquiva dele e conseguir uma queda, mas enfim…), e abriu caminho pro Weidman acertar aquela esquerda que nocauteou… Não foi amadorismo.

  • Bruno Lucas

    Muito bom, que vença o melhor

  • Renato Silva

    Meu caro Xará, em todas as lutas que você citou, o Spider fez exatamente o que fez com o Weidman, com uma única diferença, ele conta-tacou nos momentos certos e não ficou só no jogo de esquivas, pois uma hora a mão ia acabar entrando… acho que contra o Bonnar ele fez muito pior, ficou na grade de propósito dando literalmente a cara pra tomar socos…só que ele também atacou, e acabou com aquela joelhada linda.
    A primeira luta só mostrou quão superior o Anderson é diante do Americano, no 2º round ele ja tinha destruído o adversário sem golpeá-lo. Abraço forte.

  • Daniel

    concordo em muito com o texto. Mas a minha humilde opinião.. ouve uma pequena diferença entre as lutas em que Anderson obteve sucesso, e a luta contra Weidman. Na luta contra Weidman Anderson não bateu (não socou), diferentemente das outras lutas em que seus oponentes caíram na sua teia, e Anderson sempre estava desferindo golpes. Ainda nao sei oq Anderson Silva estava esperando.. pra começar a bater em Chris Weidman. Compare com as lutas anteriores, que da pra ver nitidamente, que Anderson simplesmente não batia.

  • Rafael Moreira

    parabéns Renato, ótimo texto!

  • Pablo

    Gostei do texto mas em termos arrojo técnico Spider não perde em nada para Ali ou Roy Jones
    Jr.

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