Pezão e um caso de doping duplamente incomum

Renato Rebelo | 19/12/2013 às 22:49
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Pezão x Hunt na Austrália

Na última terça-feira, uma “cortadora de margaridas” despencou subitamente em nossas cabeças.

O coautor da obra de arte que maravilhou o mundo no UFC Fight Night 33, Antônio Pezão, foi flagrado no exame antidoping com níveis cavalares de testosterona.

Pencas de fãs mundo afora e Mark Hunt, a outra metade da laranja, brocharam instantaneamente.

Afinal, o ato ilícito acaba manchando a melhor luta do ano entre pesos-pesados.

Rápido no gatilho, Silva botou a cara no Facebook para se justificar:

Meses antes da minha luta, procurei o médico do UFC no Brasil, Dr. Márcio Tannure, para que pudesse dar início à reposição hormonal (TRT) devidamente autorizada. Dei início ao tratamento e, duas semanas antes da luta, fiz todos os exames exigidos pelo UFC e, mesmo assim, meu nível de testosterona continuava baixo. Então, fui recomendado pelo médico a aumentar a dosagem de aplicação e assim fiz. Infelizmente, meu nível de testosterona subiu muito e fui suspenso. Apenas fiz o que foi recomendado, o erro não foi meu, pois tudo foi passado por uma pessoa formada, que entende do assunto.

Neste cenário, temos um evento duplamente extraordinário.

pezaoPrimeiro por que “Bigfoot” não é um paciente comum.

Aos 26 anos, o cara detectou um tumor na cabeça que lhe causava acromegalia (gigantismo).

A doença, responsável pela produção do hormônio do crescimento (GH) de forma descontrolada, pode até levar o caboclo a óbito em circunstâncias extremas.

Pezão recorreu à faca (cirurgia) para manter seus níveis sob controle – mas não escapou de outra mazela: o hipogonadismo (queda na produção de testosterona) – diretamente relacionado ao acúmulo de GH no organismo.

Ou seja, neste caso, a terapia de reposição de testosterona (TRT) se faz necessária não pelo mau funcionamento do sistema endócrino, bichado por anos de uso de esteroides anabolizantes e sim por uma anomalia genética.

O segundo pepino se dá pelo fato do profissional envolvido na história acumular cargos: diretor da Comissão Atlética Brasileira de MMA, médico do UFC, consultor de atletas…

A rigor, não deveria haver simbiose entre representantes de órgãos reguladores e empresas reguladas, certo?

Seria como Keith Kizer, famoso executivo da Comissão Atlética de Nevada, trabalhar para Dana White nas horas vagas e ainda atender um ou outro lutador em seu escritório.

Há um velho ditado que diz que o cão jamais morde a mão que o alimenta…

De qualquer forma, Pezão promete levar essa história até as últimas consequências:

Infelizmente vou ter que fazer isso (processar Tannure). Estou sendo prejudicado por um erro que não foi meu. Prejudicado financeiramente e moralmente, e não tive o contato dele depois disso. Não posso fazer de conta que não aconteceu nada. Não tive culpa e não posso ficar com esse prejuízo – declarou o lutador à reportagem do site R7.

Aí, largo aquelas perguntinhas de um milhão de dólares:

Caso o paraibano prove que seguiu as ordens do oficial e não exagerou na dose deliberadamente, o Ultimate, que se autorregula na Austrália, assumiria a culpa pelo erro de um dos seus ou varreria a sujeira pra debaixo do tapete?

Poderia a punição já anunciada (nove meses de suspensão + multa + o confisco de 50 mil dólares pela luta da noite) ser repensada?

A briga promete ser boa, uma vez que Tannure, em e-mail enviado ao site MMA Junkie, garante não ser responsável pela lambança:

Pra deixar claro, não sou nem nunca fui o médico do Antônio Pezão… O Antônio Pezão deu declarações inexatas na mídia recentemente sobre as circunstâncias de seu teste positivo para nível elevado de testosterona…

Das duas uma. Ou Pezão viajou e está em busca de um bode expiatório ou foi realmente mal aconselhado.

No aguardo por cenas do próximo capítulo.

Abraços.

  • Danyel P Lorenzo

    Obviamente que o assunto já virou a luva da vez sendo que um monte de “especialistas” já deram o seu veredito. Obviamente houve erro em alguns dos lados, mas prefiro aguardar, pois está tudo muito estranho nessa história, principalmente o tal e-mail enviado ao Pezão, sendo que o Marcio(Tanure) receita p ele tomar um ampola. Quem já foi há qualquer consulta médica sabe que o normal seria o médico usar o termo miligrama, ainda mais o Tanure com toda sua experiência no assunto, receitando uma ampola, como se fosse um dorflex, sei lá, eu achei estranho, mas…

    • Malk Suruhito

      Danyel, o Tannure admitiu que o email é dele. O que ele alega é que ele “só deu o recado” em nome do médico oficial (que ele não revelou o nome) e que foi o único papel dele nisso tudo, pois não é o médico nem acompanha o tratamento dele (Pezão).

  • Felipe Caruso

    Excelente texto!
    Essa parte da acumulação de cargos do Tannure é um absurdo e pouca gente fala sobre.
    OBS: Renato, não sei se é só comigo que acontece, mas em alguns textos do site, quando eu abro no chrome, param de responder. Só pra dar uma observada, porque pode ter gente que não consegue abrir os posts.
    Abraço!

    • Renato Rebelo

      Obrigado pelas palavras e pelo feedback, Felipe. Eu uso o Chrome tanto no Windows quanto no Mac e nunca tive esse problema. Poderia detalhar melhor o problema? Abração.

  • Rafael Cunha Caroline Reis

    É lamentável toda essa situação, não sei quem ta falando a verdade nessa confusão toda. Mas apostaria 2 jujuba no Pezão, é muito mais fácil pro Tannure tirar o corpo fora.

  • Renato Silva

    Fico aqui pensando com meus botões…se nós que não somos atleta, somos pessoas comuns, até pra tomarmos um simples antibiótico, precisamos da receita médica por escrito carimbada e assinada… como pode um atleta de nível mundial fazer uso de uma medicação tão importante, sem que o médico tenha lhe receitado por escrito… por que se o Pezão tiver a receita em mãos, o médico pode começar a preencher o cheque, mas, caso contrário Pezão pode esquece, pois ele nunca vai admitir o erro e vai ficar tudo na mesma.Abraço forte a todos.

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